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	<title>Minas de História &#187; cultura</title>
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	<description>Minas de História é uma janela para o passado mineiro; é o weblog de Marcos Lobato Martins, professor, doutor em História Econômica pela USP, autor de livros como História e Meio Ambiente (2007) e Breve História de Diamantina (1996). Pretende abrigar leituras de historiografia sobre Minas Gerais e apresentar pequisas sobre a trajetória regional.</description>
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		<title>História de países imaginários</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Mar 2011 15:00:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[história]]></category>
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		<category><![CDATA[Distopias]]></category>
		<category><![CDATA[História Intelectual]]></category>
		<category><![CDATA[Utopias]]></category>

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		<description><![CDATA[Pieter Bruegel: &#34;A Terra de Cocanha&#34; (1567) Utopia: eis uma palavra que nos intriga, ao mesmo tempo em que prende a nossa atenção. Polissêmica, ela desperta reações variadas. Porém, dificilmente há quem fique inerte diante de uma narrativa utópica, seja qual for o seu teor. Uns descartam liminarmente as utopias, pois pensam que são simples [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="img aligncenter size-full wp-image-899" style="width:624px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2011/03/pieter_bruegel_the_elder_023_la_terra_di_Cockaigne_1567.jpg" rel="lightbox[897]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2011/03/pieter_bruegel_the_elder_023_la_terra_di_Cockaigne_1567.jpg" alt="" width="624" height="468" /></a>
	<div>Pieter Bruegel: &quot;A Terra de Cocanha&quot; (1567)</div>
</div>
<p>Utopia: eis uma palavra que nos intriga, ao mesmo tempo em que prende a nossa atenção. Polissêmica, ela desperta reações variadas. Porém, dificilmente há quem fique inerte diante de uma narrativa utópica, seja qual for o seu teor. Uns descartam liminarmente as utopias, pois pensam que são simples sonhos, sem força para mudar a dura realidade social. Outros se agarram a elas, a tal ponto de se sacrificarem por elas ou se deixarem fanatizar. Utopias antigas e utopias modernas, todas integram a bagagem cultural da humanidade, enriquecendo-a. Merecem ser mais bem conhecidas e mais debatidas. Até porque as utopias revelam muito sobre as sociedades e as almas dos seus criadores, lançam luz sobre projetos de futuro que determinados sujeitos acalentaram. Falam do presente e do passado, enquanto projetam futuros.</p>
<p>Por isso, é bom saudar o aparecimento de um livro da Eduel (Editora da Universidade Estadual de Londrina), inteiramente voltado para uma história intelectual das manifestações utópicas desde a Antiguidade até os dias de hoje. É o livro organizado pelos professores Marcos Antônio Lopes e Renato Moscateli, cujo título é um achado: “História de países imaginários: variedades dos lugares utópicos”.</p>
<p>O propósito da publicação é apresentado com clareza na orelha do livro. Aí se pode ler: “Idealizar um mundo melhor não é um exercício apenas de nossa época, perturbada por crises econômicas, epidemias e guerras devastadoras, ao que se somam catástrofes climáticas e desequilíbrios ambientais cada vez mais inquietantes. O desejo por um lugar para se viver em paz e com abundância de recursos é uma expectativa que embala os sonhos da humanidade em todos os tempos. Conhecer os planos idealizados por algumas das mentes mais criativas no quadro geral das ficções filosóficas, contemplar um bom punhado das mais extravagantes propostas de eugenia social e, de quebra, poder avaliar outro tanto das construções mais sombrias e contrastantes a esses projetos regeneradores – as chamadas distopias – eis a essência dessas histórias de países imaginários”.</p>
<p>O livro, no qual tenho contribuição, é composto pelos seguintes pequenos ensaios:<br />
<strong>Para uma geografia do imaginário</strong><br />
Introdução por Marcos Antônio Lopes e Renato Moscateli<br />
<strong>Utopia: uma história sem fim</strong><br />
Estevão de Rezende Martins<br />
<strong>As utopias greco-romanas</strong><br />
Fábio Duarte Joly<br />
<strong>A geografia nas utopias renascentistas</strong><br />
Márcia Siqueira de Carvalho<br />
<strong>Utopias e profecias na Europa Moderna</strong><br />
Célia Maia Borges<br />
<strong>A melhor das utopias</strong><br />
Marcos Antônio Lopes<br />
<strong>Utopias do Iluminismo</strong><br />
Renato Moscateli<br />
<strong>Utopias socialistas</strong><br />
João Antônio de Paula<br />
<strong>A utopia dos prazeres</strong><br />
José D’Assunção Barros<br />
<strong>Utopia e ficção científica</strong><br />
Marcos Lobato Martins<br />
<strong>Utopias na Era de Aquário</strong><br />
Marcos Lobato Martins</p>
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		<title>Retratos do Sul de Minas</title>
		<link>http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/09/retratos-do-sul-de-minas/</link>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2010 00:46:06 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crítica social]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[eventos e seminários]]></category>
		<category><![CDATA[imaginário social]]></category>
		<category><![CDATA[Arte no Sul de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[Imaginário regional]]></category>
		<category><![CDATA[Representações artísticas]]></category>

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		<description><![CDATA[Carro de boi - Óleo sobre tela de Sônia Maria de Souza Pedro (Paraguaçu) Como parte da programação da IV Primavera dos Museus do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), o Museu da Memória e Patrimônio da Universidade Federal de Alfenas, em parceria com curadores de Paraguaçu e com a Casa de Cultura de Machado, realiza [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150013.jpg" rel="lightbox[828]"></a><div class="img size-medium wp-image-829  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150017.jpg" rel="lightbox[828]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150017-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Carro de boi - Óleo sobre tela de Sônia Maria de Souza Pedro (Paraguaçu)</div>
</div>
<p>Como parte da programação da IV Primavera dos Museus do IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), o Museu da Memória e Patrimônio da Universidade Federal de Alfenas, em parceria com curadores de Paraguaçu e com a Casa de Cultura de Machado, realiza a 3a edição da Mostra “Expressão Feminina: Olhares sobre o Sul de Minas”. Desde o dia 21 até o dia 29 de setembro, obras de artistas plásticas de Alfenas, Machado e Paraguaçu estão expostas no antigo prédio da EFOA (Escola de Farmácia e Odontologia de Alfenas), situado na Praça Emílio da Silveira, no centro da cidade.</p>
<p>A iniciativa é oportuna. Em primeiro lugar porque divulga o trabalho de artistas da região e promove o intercâmbio entre eles, ou melhor, elas, contribuindo para a formação de redes culturais que abarquem as cidades sul-mineiras. Em segundo lugar, e falando como quem procura ver as coisas com as lentes da História, a mostra possibilita apreender aspectos relevantes das concepções de arte que predominam na região. Afinal, as artistas presentes na mostra integram, em posição destacada, os círculos artísticos de cada cidade, de modo que definem e refletem as “opções estéticas” cultivadas no Sul de Minas.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-831  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_011500131.jpg" rel="lightbox[828]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_011500131-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Simplicidade - Óleo sobre tela de Ângela Silva Santos (Paraguaçu)</div>
</div>
<p>O que nos falam as telas expostas na Mostra “Expressão Feminina: Olhares sobre o Sul de Minas”? De início, há que se ressaltar a qualidade técnica das obras. Aliás, a técnica é algo muito enfatizado nas escolas de pintura e nas preocupações dos artistas locais. Para além da técnica, que é apenas meio para a construção da obra de arte, o que salta aos olhos do observador são dois elementos: o naturalismo das telas e o viés nostálgico que perpassa as obras.</p>
<p>O naturalismo das artistas da Mostra é traço absolutamente saliente. Elas pintam conforme os cânones duradouros, tão influentes e permanentes, que foram difundidos pela Missão Artística Francesa, na década de 1810-1820, e consagrados pela Escola de Belas Artes e pela pintura histórica e romântica que dominou os tempos do Império. Nas telas da mostra, a ênfase é posta na reprodução de aspectos físicos das paisagens e/ou objetos. Trata-se da força da “mímeses”, da longa vigência da ideia da pintura como “retrato”, isto é, reprodução fidedigna, detalhada e objetiva da realidade. Essa concepção da pintura, que transforma a tela em suporte por excelência do trabalho do artista, predomina no interior de Minas, é verdade. Mas também pode ser encontrada nas capitais culturais do País, cultuada por imensos setores das camadas letradas e mesmo nas academias.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-832  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150012.jpg" rel="lightbox[828]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150012-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Águas de Furnas - Óleo sobre tela de Elisabete Gonzaga Rocha (Paraguaçu)</div>
</div>
<p>A nostalgia de um Sul de Minas arcaico, rústico, agrário é outro traço comum das obras expostas na Mostra. O passado aparece idealizado, simplificado, bucólico, envolvido na faina tradicional da fazenda – carros de boi, casebres camponeses, lida do café –, enquanto alguns símbolos da modernidade – a locomotiva, o lago artificial de Furnas – são adocicados como o café ralo servido nos povoados do Sapucaí, em cozinhas aconchegantes que se abrem para quintais de terra batida. Nesse caso, o artista pretende recusar a mudança? Há nessa atitude um quê de certo romantismo, conservador, mistificador, empenhado na busca de uma autenticidade interiorana improvável, ao mesmo tempo em que sugere haver na contemplação da natureza e do mundo poderes milagrosos. Arte para acalmar, para embevecer – prozac feito de tinta a óleo e olhar ingênuo.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-833  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150015.jpg" rel="lightbox[828]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01150015-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Locomotiva - Óleo sobre tela de Elisabete Gonzaga Rocha (Paraguaçu)</div>
</div>
<p>O problema não é a vigência destes cânones antigos. Isto faz parte do jogo intricado da cultura. Lamentável é o fato de que a curadoria da Mostra deixou de fazer algo básico: fornecer elementos para o público analisar as obras em exposição e situá-las na história da arte brasileira. Esta omissão contribui para (re)consagrar concepções artísticas ultrapassadas com o selo da Universidade, uma vez que o próprio espaço onde ocorre a Mostra é visto por muita gente como o “solo sagrado” da academia.</p>
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		<title>Patrimônio cultural, espaços públicos e pertencimento</title>
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		<pubDate>Wed, 08 Sep 2010 20:04:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Alfenas]]></category>
		<category><![CDATA[Concepções sobre preservação]]></category>
		<category><![CDATA[Espaços públicos]]></category>

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		<description><![CDATA[Feira Livre do domingo, em Alfenas   É comum que muitos conselhos municipais de patrimônio cultural, sinceramente preocupados com a preservação de traços marcantes da memória e da história locais, acabem dominados por visões idealizadas e simplificadoras da cultura e do passado das cidades. Visões que tendem a “congelar” determinados lugares, ao privilegiarem a materialidade [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img size-full wp-image-805  aligncenter" style="width:500px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Feira-Livre-do-domingo-em-Alfenas.jpg" rel="lightbox[804]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Feira-Livre-do-domingo-em-Alfenas.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a>
	<div>Feira Livre do domingo, em Alfenas</div>
</div>
<p> </p>
<p>É comum que muitos conselhos municipais de patrimônio cultural, sinceramente preocupados com a preservação de traços marcantes da memória e da história locais, acabem dominados por visões idealizadas e simplificadoras da cultura e do passado das cidades. Visões que tendem a “congelar” determinados lugares, ao privilegiarem a materialidade que compõe os espaços urbanos, os objetos e prédios, os estilos figurativos e as técnicas construtivas, como que a reconstruir cartões postais antigos, impressos em preto e branco. Fotografias monumentais que focalizam urbes por assim dizer imóveis, despovoadas, costumam calar fundo na sensibilidade dos conselheiros do Patrimônio Cultural. O problema está no fato de que as fotografias monumentais não se preocupavam com a apreensão, sempre difícil, senão impossível, das relações sociais que davam forma e conteúdo aos diversos espaços retratados. Os lugares são dignos de preservação não somente porque possuem figuração imponente, cenografia destacada. O valor dos lugares também decorre, fundamentalmente, das tramas sociais que nele tiveram e/ou têm vez. As formas de sociabilidade que nos espaços se desenvolveram são tão importantes quanto as pedras, o cal e as árvores que integram suas silhuetas. O patrimônio cultural é, antes de tudo, repertório de relações sociais e culturais, emoldurado em paisagens deste ou daquele tipo arquitetônico.</p>
<p>Esta incompreensão, cuja superação talvez não se faça pela difusão do conceito de “patrimônio imaterial”, tem levado conselheiros municipais a projetarem ações bem-intencionadas, mas equivocadas, de proteção de lugares urbanos. Exemplifico: em Alfenas, no primeiro semestre deste ano, pretendeu-se proibir a presença de vendedores ambulantes e de quiosques de comércio na Praça da Matriz, oficialmente denominada Praça Getúlio Vargas. Com isso, seriam retiradas as bancas de revistas, proibidos os carros de venda de churrasquinho, carrocho-quente e churros. Quem sabe até os “hippies” vendedores de pulseiras e os carrinhos de picolé seriam impedidos de ficar na praça. Mas, nesse caso, para que serve a praça? Ora, na ampla maioria das cidades, as praças, em geral, e a praça central, em particular, sempre foram espaços ocupados pelo pequeno comércio. Sem esta atividade, elas não sustentam movimento, não possuem vida, não aglomeram pessoas, não produzem a aproximação pacífica entre “nativos” e “forasteiros”. As bancas de jornais, os carrinhos de picolé, a tenda improvisada do camelô atiçam a convivência, atraem as crianças e os jovens. Moços e moças nas barracas das praças olham e são olhados pelos que freqüentam esses espaços urbanos, aproveitam o sol e a sombra. Em torno destes agentes do pequeno comércio, crianças e adultos conversam, trocam informações e afetos, arriscam expor seus pensamentos, formam grupos e elaboram identidades. A praça – espaço público – nada significa se não for capaz de irmanar na diversidade. Para isto, o pequeno comércio, razoavelmente desembaraçado e valorizado, é elemento necessário. Ainda bem que a proposta de assepsia da Praça Getúlio Vargas (que está muito longe de configurar um “camelódromo”) não prosperou. Teria sido uma pena se vingasse, pois desde a antiguidade tem-se notícia da existência do pequeno comércio no seu interior e nas suas imediações. Em nome de uma memória idealizada, a praça seria esvaziada de traço proeminente de sua historicidade.</p>
<p>Curiosamente, a mesma cidade, em decisão acertada do Prefeito, enviou à Câmara Municipal, na semana passada, projeto de lei que transforma em patrimônio histórico e cultural de Alfenas as feiras livres do domingo – realizada no entorno da Praça Fausto Monteiro – e da quarta – realizada no entorno da Praça Rachid B. Saliba. Conforme a mensagem do Prefeito à Câmara, “as feiras são elementos integrantes dos costumes dos cidadãos alfenenses, pois há décadas se encontram em plena atividade nestes logradouros, o que, por si só, já é causa suficiente para que passem a integrar o patrimônio histórico e cultural desta municipalidade”. Embutida no projeto está a proposta de incentivo fiscal por dez anos, prorrogáveis por igual período, para os feirantes de hotifrutigranjeiros: a isenção de taxas de licença municipal. Além de objetivar o aumento da produção, da diversidade e da qualidade do que os agricultores expõem nas suas barracas, o aludido mecanismo fiscal poderá contribuir para dinamizar e fortalecer a própria “prática cultural” que se deseja preservar. O tombamento das feiras livres de Alfenas representa o reconhecimento de que elas, assim como os parques e as praças, precisam ser freqüentadas para que os moradores das cidades evitem a tribalização excessiva e possam se sentir em casa, no encontro com o diferente em espaços que são “terra de ninguém”, onde todos são donos sem ter que pedir licença para lá estar.</p>
<p>As feiras livres, aparentemente caóticas, sujas, barulhentas, agitadas, são tão importantes na história das cidades mineiras. Por isso, merecem figurar no rol dos “bens tombados” pelas municipalidades, tanto quanto os espaços projetados minuciosamente planejados por artistas e técnicos, sob a égide da ordem, da monumentalidade, da perenidade e da civilização.</p>
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		<title>Os gibis, a cultura e a anti-cultura</title>
		<link>http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/09/os-gibis-a-cultura-e-a-anti-cultura/</link>
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		<pubDate>Sun, 05 Sep 2010 21:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[HQ]]></category>
		<category><![CDATA[Indústria Cultural]]></category>

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		<description><![CDATA[Coleção de gibis: Pato Donald, 60 anos de Brasil Os colegas professores de História talvez não tenham se dado conta de uma efeméride importante: o ano de 2010 marca o cinqüentenário da primeira edição do Pato Donald no Brasil. Este gibi, publicado ininterruptamente desde então, é a mais bem-sucedida HQ da Editora Abril, empresa destacada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img size-full wp-image-798  aligncenter" style="width:287px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Pato-Donald-60-anos.jpg" rel="lightbox[797]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Pato-Donald-60-anos.jpg" alt="" width="287" height="404" /></a>
	<div>Coleção de gibis: Pato Donald, 60  anos de Brasil</div>
</div>
<p>Os colegas professores de História talvez não tenham se dado conta de uma efeméride importante: o ano de 2010 marca o cinqüentenário da primeira edição do Pato Donald no Brasil. Este gibi, publicado ininterruptamente desde então, é a mais bem-sucedida HQ da Editora Abril, empresa destacada na história da imprensa e da indústria cultural brasileira.</p>
<p>A propósito dos personagens de Walt Disney, muito já se escreveu sobre o papel que eles desempenharam na aproximação entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra. Há quem veja a indústria cultural ianque como porta-voz super-eficiente do american way of life, instrumento por excelência do soft power estadunidense na conjuntura da Guerra Fria, entre as décadas de 1950 e 1970. Filmes de Hollywood e gibis da Disney teriam contribuído decisivamente na formação e consolidação da dependência brasileira diante do Tio Sam. Por isso, os gibis do Pato Donald, do Mickey, do Zé Carioca, do Tio Patinhas seriam, intrinsecamente, nefastos para a vida cultural dos brasileiros, ao promover a desvalorização dos elementos “autenticamente” nacionais e fazer avançar a homogeneização das demandas e dos sonhos mundo afora. Nos anos 1960, houve quem defendesse a urgência de enfrentar o Pato Donald e o Mickey com um exército de sacis-pererês, curupiras e iaras, que preenchessem, com fervor nacionalista, as páginas de revistinhas 100% brasileiras, e populares. A turma da Mônica – a menina dentuça que brandia seu coelhinho azul como borduna na cabeça do Cebolinha, do Cascão, da Magali – foi saudada por muitos como a troupe capaz de ocupar esta suposta lacuna.</p>
<p>Nos anos 1970, na senda de Adorno e Horkheimer, virou moda anatematizar a onipresença dos produtos da indústria cultural no seio da sociedade contemporânea, fenômeno que estaria até mesmo deslocando a “alta cultura” de seu assento tradicional na Universidade. Não haveria mais lugar nem preocupação com a boa literatura, a arte refinada e vanguardista, o humanismo. Tudo estaria sendo sufocado e destruído pela atenção excessiva dedicada à técnica eficaz e pela adesão folgazã à torrente de choques imagéticos e visuais gerada pela “sociedade do espetáculo”. A “anti-cultura”, destilada e disseminada pela indústria cultural, tornaria seus “usuários” cada vez mais dependentes, ignorantes e intelectualmente aleijados. Espécie de zumbis culturais, para ficar no registro dos filmes trash dos anos 1980 e 1990. Banalização, esvaziamento de sentidos, simplificação absurda, entretenimento fácil e fugaz: somente isto os produtos da indústria cultural ofereceriam aos incautos consumidores, enquanto enchem as burras das empresas do setor. Também nos anos 1970 e 1980, sob a chancela de conceitos de certo marxismo que flertava com o estruturalismo então em voga, os gibis, em particular, e a indústria cultural, em geral, foram reduzidos a meras engrenagens nos “aparelhos ideológicos de estado” (Althusser). Curiosamente, a mesma acusação foi desferida contra o futebol.</p>
<p>Ironicamente, porém, a garotada e muitos adultos continuaram lendo gibis e jogando futebol. Fizeram isso com prazer e gratuidade, ainda bem. E aprenderam algo sobre a vida e o mundo nas páginas coloridas dos gibis, nas telas de TV, nos campinhos de várzea e nos estádios onde jogavam os times profissionais com torcidas apaixonadas.</p>
<p>Para comemorar o cinqüentenário do Pato Donald no Brasil, a Editora Abril presenteou os aficionados de HQs com uma série especial, chamada de “Clássicos da Literatura Disney”. Coleção de 20 revistinhas que traz os personagens famosos em estórias inspiradas em obras importantes da literatura mundial, com roteiros e desenhos de Osvaldo Pavese, Guido Scala, Carl Barks, dentre outros. As adaptações livres que compõem cada revistinha representam exercícios instigantes, com resultados diversos, de busca de equilíbrio numa linha tênue entre o respeito ao “original” e a transcriação, entre a homenagem e a vulgarização. Algumas adaptações são inéditas no Brasil, outras já tinham sido publicadas aqui anteriormente. Todos os volumes da coleção têm introduções curtas, mas informativas que esclarecem minimamente a época e a autoria das adaptações, bem como o lugar das obras adaptadas na cultura ocidental. Não há dúvida de que a coleção é iniciativa que agrada colecionadores.</p>
<p>Mas eu penso que ela é também bem-vinda por outra razão. Uma vez que não é desprezível o número de crianças e adolescentes que enveredam pela prática da leitura por causa do contato com os gibis, esta coleção comemorativa dos 60 anos de publicação do Pato Donald no Brasil poderá ser a porta de entrada de muita gente no mundo da “alta literatura”. Quantos não serão induzidos, pela leitura das revistinhas da coleção, a buscarem, mais cedo ou mais tarde, as obras originais? Monteiro Lobato não realizou trabalho similar em seus livros infanto-juvenis, hoje enaltecidos pelos “bem-pensantes”? A Ediouro, nos anos 1970, possuiu uma coleção de livros de bolso, vendida em bancas de jornais, que traziam adaptações de grandes obras da literatura, assinadas por consagrados escritores brasileiros. Eu fui um leitor de carteirinha dessa série da Ediouro – até recentemente guardei a brochura de capa branca de Moby Dick, recontada por Carlos Heitor Cony. Como aconteceu comigo, por que duvidar que outros adolescentes jamais lerão os originais?</p>
<p>Por outro lado, a coleção “Clássicos da Literatura Disney” cumpre o papel de oferecer aos leitores uma lista que coloca alguma ordem na insondável (para os iniciantes) galeria da literatura universal, oferecendo-lhes uma maneira de não naufragar no repertório de opções e, num segundo momento, ajudando-lhes a recortar seus interesses e desenvolver uma paixão pessoal pela literatura.</p>
<p>Apenas o preconceito obstinado é capaz de negar qualquer valor a produtos como as revistinhas comemorativas dos 60 anos de publicação do Pato Donald. Convém lembrar que a industrial cultural nunca encontrou diante de si receptores absolutamente passivos, cérebros vazios como papel em branco, nos quais ela deposita os conteúdos que desejar do jeito que lhe aprouver. Também vale ressaltar que, na história da cultura, os conteúdos e as formas têm enorme circularidade, no sentido de que transitam, de alto a baixo, na pirâmide social e no interior das diversas instituições, de maneira complexa e imprevisível. Por isso, deve-se ter cuidado com afirmações que associam, mecanicamente, “indústria cultural” com “vulgarização” ou “banalização”.</p>
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		<title>Por que um arquivo histórico na UNIFAL-MG?</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Feb 2010 17:10:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Papel do historiador]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio cultural]]></category>
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		<category><![CDATA[Patrimônio documental]]></category>
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		<description><![CDATA[Prédio sede da EFOA a partir dos anos 50   É bastante conhecida a máxima de Fustel de Coulanges (1830-1889), historiador francês autor do clássico La Cité Antique: Pas de documents, pas d’Histoire (“não há história-conhecimento sem documentos”). Ela permanece válida nos dias que correm, ainda que o conceito de documento e a prática da [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img aligncenter size-full wp-image-660" style="width:245px;">
	<a rel="attachment wp-att-660" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/por-que-um-arquivo-historico-na-unifal-mg/predio-a-efoa/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/02/Prédio-A-EFOA.jpg" alt="Prédio sede da EFOA a partir dos anos 50" width="245" height="145" /></a>
	<div>Prédio sede da EFOA a partir dos anos 50</div>
</div> </p>
<p>É bastante conhecida a máxima de Fustel de Coulanges (1830-1889), historiador francês autor do clássico La Cité Antique: Pas de documents, pas d’Histoire (“não há história-conhecimento sem documentos”). Ela permanece válida nos dias que correm, ainda que o conceito de documento e a prática da História tenham sofrido transformações enormes no decurso do século XX. A máxima de Coulanges realça a necessidade de estreitar a solidariedade do trabalho documental (em todas as suas instâncias) e da produção do conhecimento histórico. Em termos mais diretos, o ofício do historiador – e, portanto, a história-conhecimento – não pode existir sem que ele encontre, examine e interprete registros dos atores sociais do passado e de suas ações. Esta é a condição de possibilidade da pesquisa histórica.</p>
<p>Isto significa que, do ponto de vista acadêmico, professores e estudantes universitários de História, e não apenas eles, precisam contar com acervos documentais para levar adiante seu ofício, para escrever monografias, dissertações, teses, livros e propor projetos de pesquisa. O avanço do conhecimento histórico e da historiografia, notadamente no que se refere aos recortes local e regional, exigem a existência de bons arquivos. Os cursos de História necessitam desses organismos documentais para enveredarem nos caminhos da pós-graduação (mestrado e doutorado). Por outro lado, a criação do Arquivo é decisiva para a preservação da memória institucional, de forma a evitar que sejam perdidas as informações sobre os procedimentos e decisões do passado da Universidade. Como afirma Heloisa Bellotto, os arquivos universitários: &#8220;Possibilitam eficiência administrativa-acadêmica, informam sobre os procedimentos passados de ensino e de pesquisa; guardam direitos e deveres de professores, alunos e funcionários durante seu tempo de permanência na universidade e mesmo depois dele; finalmente, fornecem dados de toda ordem como ‘grande capital de experiência’ para a continuidade institucional da universidade&#8221; (BELLOTTO, 1989, p.25).</p>
<p>Tudo isto já seria razão suficiente para justificar a criação do Arquivo Histórico da Universidade Federal de Alfenas. Justificativa talvez excessivamente autocentrada, por assim dizer quase “egoísta”, até mesmo “corporativa”. Felizmente, contudo, há outras razões de natureza sócio-cultural que justificam o projeto, basicamente ligadas ao fato de que a preservação de registros do passado também é a condição de possibilidade da memória social e da formação das identidades culturais.</p>
<p>Paradoxalmente, a sociedade capitalista contemporânea está ávida por memória e por identidade, fato que torna a questão do patrimônio documental numa demanda de primeira ordem. Não era assim nas sociedades tradicionais, de ritmos lentos e comunicação direta, face a face, pequena escala e abrangente compartilhamento da experiência dos indivíduos e grupos. Nelas, a história e a identidade eram forjadas e transmitidas basicamente pela narração dos rapsodos, como na Grécia homérica ou nas tribos africanas. Na sociedade capitalista, porém, os eventos históricos ocorrem com tal rapidez e em tal escala de massa que não podem ser assimilados diretamente pela experiência cotidiana. Há, por um lado, a ruptura dos laços orgânicos entre passado e presente. Para o homem moderno, “o passado é um país estrangeiro”, no qual se movem outras sociedades e flui outro tempo. Por outro lado, há a operação de poderoso processo de esquecimento: a geração lucrativa de mercadorias requer a obsolescência programada dos produtos e a ocultação dos mecanismos de produção; o excesso de informações que atingem o indivíduo força-o a esquecer depressa a maior parte delas; a lógica da especulação imobiliária impede o apego aos lugares, alterados radicalmente da noite para o dia; a ideologia do novo privilegia a substituição contínua de coisas, ideias, comportamentos, valores, etc. etc. Traumatizados pelo corte do cordão umbilical que os uniria a um passado sem descontinuidade, os homens das sociedades contemporâneas pugnam pelo direito à história, pelo direito à memória e pelo direito à identidade social, trazendo uma série de reivindicações para a ordem do dia.</p>
<p>Daí porque o Estado, as escolas, as entidades privadas, as empresas, os meios de comunicação de massa, os movimentos e organizações políticos, sindicais e culturais, as minorias, e assim por diante, têm procurado refazer sua autoimagem, reordenando e ressignificando as representações existentes no imaginário das nações, grupos sociais e organizações. Disto decorre também a importância assumida pelos lugares de memória (pontos de condensação tópica da memória, de sentido material, simbólico e funcional) em nossa sociedade, como compensação pela perda da memória (e da história) como experiência coletivamente vivida. Conforme Pierre Nora: &#8220;Os lugares de memória são, antes de mais nada, restos. (&#8230;) É a desritualização de nosso mundo que fez aparecer a noção&#8230; Museus, arquivos, cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, averbações, monumentos, santuários, associações, são os remanescentes testemunhos de uma outra era, ilusões de eternidade. Daí o aspecto nostálgico desses empreendimentos de piedade, patéticos e glaciais. São rituais de uma sociedade sem ritual&#8230; signos de reconhecimento e de pertença de grupo numa sociedade que tende a reconhecer tão-somente indivíduos iguais e idênticos&#8221; (NORA, p. XXIII-XXIV,1984).</p>
<p>Por causa dessa inquietação profunda com a memória e com a identidade, traço da condição do homem moderno que a <em>modernidade líquida</em> (BAUMAN, 2001) acentua, pode-se falar de uma alucinada “pulsão documental” nos tempos atuais. Um dos sintomas desse fenômeno é a demanda de acesso aos museus e arquivos, seja pela implementação de programas escolares de visitação, seja pelo aumento do interesse geral pelos assuntos da história e da cultura, o que leva às portas de entrada dessas instituições gente que nunca havia botado os pés nesses espaços de ares antes (e talvez ainda hoje) sisudos e restritivos.</p>
<p>É claro que estes fenômenos mundiais incidem sobre a realidade regional sul-mineira, ainda que com singularidades e matizes. O comentário essencial a ser feito aqui diz respeito ao fato de que se experimenta, no âmbito regional, uma situação já em vias de superação em outras partes do País: o avanço da demanda por políticas de memória e de identidade ainda não gerou desdobramentos substanciais no plano institucional, sobretudo nos municípios. As palavras-chave “resgate”, “recuperação” e “preservação”, cada vez mais pronunciadas nas cidades da região, ainda são slogans que renderam poucos e precários frutos institucionais: organismos documentais e de proteção ao patrimônio cultural.</p>
<p>Concretamente, Alfenas e as cidades da região do Lago de Furnas possuem ricos e variados acervos documentais, que incluem registros paroquiais (certidões de batismo e casamento, doações, etc.), registros civis (inventários, testamentos, procurações, contratos, etc.), processos criminais, registros oficiais (termos de vereações, leis e decretos municipais, livros de lançamentos de impostos e profissões, alvarás, correspondências, etc.), jornais, fotografias, cartas, pronunciamentos e discursos, plantas e mapas, memórias etc. Estes acervos, que são transformados em fontes pelo olhar do historiador, merecem cuidado especial porque são capazes de expressar a cultura das populações do Sul de Minas. Porém, o que se observa atualmente é desalentador: muitos acervos regionais e locais estão dispersos, esquecidos e ameaçados, situação que deve ser revertida com urgência.</p>
<p>Será preciso desenvolver ações no sentido de preservar, valorizar e divulgar o patrimônio arquivístico das cidades da região, o que não se fará sem o concurso de arquivos modernos e dinâmicos. Arquivos que inventariem, organizem, protejam e disponibilizem para a pesquisa – seja de historiadores e cientistas sociais, seja do cidadão comum que tem curiosidade sobre o passado – os acervos documentais existentes no Sul de Minas. Todavia, as tarefas citadas anteriormente são especializadas, demoradas e mesmo custosas.</p>
<p>Enfim, todas as considerações reunidas acima demonstram a necessidade de criação de um arquivo público vinculado a uma Universidade Federal, que terá facilidades para levantar recursos financeiros, técnicos e materiais e para constituir quadro composto de profissionais qualificados nos campos da Arquivologia, História, Museologia e Patrimônio Cultural.</p>
<p> </p>
<p>Notas:</p>
<p>BAUMAN, Zygmunt. <span style="text-decoration: underline;">Modernidade</span> <span style="text-decoration: underline;">líquida</span>. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.</p>
<p>BELLOTTO, Heloísa Liberali. Universidade e arquivos: perfil, história e convergência. In: <span style="text-decoration: underline;">Transinformação</span>, v. 1, n. 3, set/dez 1989, p. 15-28.</p>
<p>NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire. In: _____. (Dir.) <span style="text-decoration: underline;">Les</span> <span style="text-decoration: underline;">lieux</span> <span style="text-decoration: underline;">de</span> <span style="text-decoration: underline;">mémoire</span> <span style="text-decoration: underline;">I</span>. <span style="text-decoration: underline;">La</span> <span style="text-decoration: underline;">République</span>. Paris: Gallimard, 1984.</p>
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		<title>O Coelhão voltou!</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 12:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[memórias]]></category>
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		<description><![CDATA[Doze mil e quinhentos felizardos, a maioria vestidos nas cores verde e preto, viram o glorioso América Futebol Clube, o América Mineiro, o Coelho mais famoso das Minas Gerais, alcançar mais um título nacional. Dessa vez, fomos campeões da Terceirona, vencendo o ASA de Arapiraca, da nordestina Alagoas. Sábado de sol quente e céu azul, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Doze mil e quinhentos felizardos, a maioria vestidos nas cores verde e preto, viram o glorioso América Futebol Clube, o América Mineiro, o Coelho mais famoso das Minas Gerais, alcançar mais um título nacional. Dessa vez, fomos campeões da Terceirona, vencendo o ASA de Arapiraca, da nordestina Alagoas. Sábado de sol quente e céu azul, sem nuvens, quase sem vento, cenário perfeito para conquista elevada. O calor no antigo estádio do Horto, o aconchegante Independência, a toca do Coelho, tornou a torcida ainda mais animada. Até houve transmissão ao vivo pela TV, coisa que, a bem da verdade, não ocorre rotineiramente em jogos do América. Por algumas horas, o Coelho voltou a ser um dos grandes de Minas. Fazia anos que os americanos não se sentiam tão confiantes, reconciliados com o passado de vitórias do time.</p>
<p>Eu acompanhei o sábado de decisão de longe, a mais de 500 km de Belo Horizonte. De Alfenas, envergando solitária camisa americana, numa terra onde muitíssimos torcem por times paulistas e cariocas. Diante da TV, vi a partida como se fosse um aloprado: roí as unhas, esbravejei com o time, escondi o rosto nos raros ataques perigosos do ASA. Teria sido bem melhor para o coração estar na arquibancada do Independência. De tão longe, torcer pelo Coelho é experimentar uma sensação de exílio, de banimento, de impossibilidade de realização plena da paixão de ser americano. Tive a certeza de que o pior da situação de exílio é não poder compartilhar com os “nacionais” as angústias de viver, de esperar, de desejar e alcançar conquistas coletivas. Os gregos entenderam a psicologia do cidadão ao definirem o ostracismo como pena pesada para aquele que gerou grave ameaça para a “pólis”.</p>
<div class="img alignnone size-full wp-image-569" style="width:436px;">
	<a rel="attachment wp-att-569" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/09/o-coelhao-voltou/america-seriec-gazetapress/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/09/america-seriec-gazetapress.jpg" alt="América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009" width="436" height="298" /></a>
	<div>América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009</div>
</div>
<p><span id="more-568"></span></p>
<p>Eu nada fiz que colocasse em risco a existência do América. Todavia, devo confessar: sem a presença de outras pessoas com camisas do América, a vitória teve brilho um pouco menor. Foi mais triste, talvez excessivamente fria e fugidia. A alegria do título baixou rapidamente, logo que o juiz encerrou a partida – faltaram as bandeiras, a gritaria e o barulho da charanga, a carreata, a festa na praça. Quando o Coelho sagrou-se campeão brasileiro da Série B, no ano de 1997, eu, montado num scooter italiano novinho em folha, integrei uma carreata de americanos pelas ruas de Pedro Leopoldo. Foram apenas oito veículos, mas o júbilo era imenso. Dessa vez, não ouvi sequer um foguete.</p>
<p>Por isso, tendo a ser menos otimista do que os americanos que gritaram na arquibancada do Independência: “O Coelhão voltou! O Coelhão voltou!”. Compreendo o desabafo. O grito também me deixou de alma lavada. Mas é preciso ter a cabeça no lugar, não deixar que o “calo da vitória”, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto, impeça os americanos de enxergar o terreno sobre o qual caminhamos. O futebol de hoje não é habitat amigável para o Coelho de Minas. Ficamos pequenos demais, de forma que teremos que adquirir musculatura para voltar a integrar a elite do futebol brasileiro. Hoje, o América Mineiro é time de Segunda Divisão. E assim continuará por vários anos. Não há demérito nisso, pois penso como os ingleses: a Segunda Divisão também é um luxo. O sucesso prolongado na Segundona é o meio para levar o América de volta para a elite dos times brasileiros, pois será a condição para encorpar a torcida e as receitas do clube, reposicionar a marca. No futebol de hoje, negócio multimilionário, não há espaço na Primeirona para times nanicos, com torcidas reduzidas, simpáticas, mas desacostumadas a freqüentar os estádios, que não envergam, no dia-a-dia, a camiseta do clube, que não sabem cantar o hino do time. Aliás, no caso do América, o hino é de uma infelicidade extrema – parece música composta para sarau da Academia Mineira de Letras.</p>
<p>O Coelhão voltará para a primeira Divisão – e ficará lá – somente quando recuperar a condição de time de massa. Quando abandonar o que me parece ter sido a escolha nefasta de sua história: conformar-se de ser o segundo time no coração de cada mineiro, o time da fina flor da sociedade mineira, engraçadinho, educado, simpático, engomadinho. Sem grande torcida, não há como atrair grandes patrocinadores. Sem grande e fanática torcida, não haverá bilheteira reforçada. Nem marketing esportivo capaz de gerar dinheiro suficiente para montar equipes de ponta. A trajetória elitista do América Mineiro, perseguida com denodo desde o pós-1945 – por puro preconceito, é bom que se diga –, aprisionou o Coelho num círculo vicioso, que será difícil romper. Depois da Lei Pelé, que acabou com a “semi-escravidão” do jogador de futebol, liberando-o dos grilhões do clube que mais parecia uma “casa grande”, sequer restou ao América a alternativa que lhe garantiu a sobrevivência nos anos 1970 e 1980: revelar, e depois vender, jovens jogadores bons de bola. A parte do clube-formador é relativamente pequena, nas transações do atual mercado de jogadores.<br />
Se o América almeja voltar para a Primeira Divisão, e nela fincar pé, deverá optar pela massa, porque, nas eleições como no futebol, é o povão que garante a vitória.</p>
<p>E viva o América! Coelhão, Coelhão, Coelhão!</p>
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		<title>Sobre o Movimento Cultural de Águas Formosas</title>
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		<pubDate>Fri, 18 Sep 2009 12:52:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Águas Formosas]]></category>
		<category><![CDATA[Festival de Música]]></category>
		<category><![CDATA[Vale do Pampã]]></category>

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		<description><![CDATA[Águas Formosas. Matriz de São Boaventura O Vale do Jequitinhonha se orgulha de possuir, desde a década de 1970, movimento cultural popular organizado em torno da realização do FESTIVALE. O que pouca gente sabe é que o FESTIVALE influenciou jovens artistas muito além dos limites das terras banhadas pelo Jequitinhonha e seus afluentes. O FESTIVALE [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="img alignnone size-full wp-image-561" style="width:768px;">
	<a rel="attachment wp-att-561" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/09/sobre-o-movimento-cultural-de-aguas-formosas/aguas-formosas/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/09/Águas-Formosas.jpg" alt="Águas Formosas. Matriz de São Boaventura" width="768" height="576" /></a>
	<div>Águas Formosas. Matriz de São Boaventura</div>
</div>
<p>O Vale do Jequitinhonha se orgulha de possuir, desde a década de 1970, movimento cultural popular organizado em torno da realização do FESTIVALE. O que pouca gente sabe é que o FESTIVALE influenciou jovens artistas muito além dos limites das terras banhadas pelo Jequitinhonha e seus afluentes.</p>
<p>O FESTIVALE inspirou, por exemplo, um grupo de jovens de Águas Formosas, município do Vale do Mucuri, a criar, no final dos anos 1970, o MOCAF – Movimento Cultural de Águas Formosas. Sobre isso eu conversei, na Biblioteca Municipal da cidade, num sábado (6 de julho de 2009) de sol intenso, com Celso Ferraz, um dos protagonistas desta história. Os olhos de Celso Ferraz brilhavam enquanto ele rememorava os acontecimentos que deram forma ao MOCAF, escrevia letras de músicas compostas por amigos que se envolveram com o MOCAF. Uma ponta de saudade atravessava sua fala, misturada ao orgulho de ter participado do que ele considera uma era de ouro da cultura em Águas Formosas.</p>
<p>Conforme Celso Ferraz, rapazes de 18 e 19 anos, alguns já residindo em Belo Horizonte para estudar e trabalhar, se reuniam nos meses de férias na “capital do Pampã”. Ficavam madrugada adentro nas ruas de Águas Formosas, conversando fiado, esquentando fogo, remoendo assuntos de música e teatro com os quais eles entraram em contato na agitada Belo Horizonte. Entre as novidades de então, figuravam os jovens artistas do Vale do Jequitinhonha, cuja projeção aumentava em função do surgimento do FESTIVALE. Os rapazes de Águas Formosas resolveram emular seus vizinhos do Jequitinhonha, do que resultou a criação do MOCAF. Uma mobilização idealista, generosa, praticamente sem qualquer institucionalização, ao contrário do que acabou ocorrendo com o movimento que lhe serviu de inspiração. Com sonhos na cabeça e disposição para concretizá-los, os rapazes de Águas Formosas obtiveram algum apoio na cidade, da Prefeitura e de homens de negócio, para organizar o Festival da Canção de Águas Formosas (FECAF).<br />
De 1979 a 1984, o Festival da Canção de Águas Formosas ocorreu regularmente, no mês de julho, com programação diversificada ao longo de três dias. Música, teatro e oficinas de arte integravam as atividades do Festival. As eliminatórias e a final do Festival de Música aconteciam à noite, no Parque de Exposições da cidade.</p>
<p>As cidades próximas de Águas Formosas, como Crisólita, Machacalis, Fronteira dos Vales e Pavão, contribuíram para engrossar o público que acompanhava os eventos do FECAF. Músicos e compositores do Vale do Pampã apresentaram-se nessas edições do Festival. Todavia, as cidades ribeirinhas do rio Todos os Santos (Teófilo Otoni) e do rio Mucuri (Carlos Chagas e Nanuque) ficaram bastante alheias ao Festival. Sinal evidente de que, no plano cultural, o Vale do Mucuri jamais alcançou o nível de coesão que se observa no Vale do Jequitinhonha. Se na direção sul de Águas Formosas imperava a desarticulação, nos rumos oeste e norte vingavam as trocas intensas, o congraçamento familiar e entusiasmado. Os artistas do Vale do Jequitinhonha foram presenças constantes no FECAF. Rubinho do Vale (de Rubim), Carlos Lucena (de Joaíma) e José Machado (de São Pedro do Jequitinhonha, animador dos trabalhos no campo do teatro). Outros artistas mineiros também participaram do Festival de Águas Formosas: João Carlos Cavalcanti (de Ponte Nova), Tadeu Franco, Chico Canela (de Três Pontas) e Sérgio Moreira. Por sinal, é de Sérgio Moreira a letra da música “Águas Formosas”, uma espécie de hino do FECAF, composto enquanto os rapazes tomavam banho de cachoeira à espera da noite final do evento, na edição de 1982:</p>
<p>Águas Formosas<br />
Águas Formosas, formosas águas,<br />
Belas meninas nas mini-saias,<br />
Pura beleza plantada nas águas do Mucuri.</p>
<p>Canto a noite, estrelas em pleno parque,<br />
A gente vai se unir.<br />
Águas Formosas, o Mucuri te alcança<br />
E lança um sorriso, cobre de alegria a praça.</p>
<p>Águas Formosas, formosas águas,<br />
E a gente que chegou te ama,<br />
Te abraça.</p>
<p>A partir de 1985, diversos motivos fizeram o Festival da Canção de Águas Formosas desaparecer. Para Celso Ferraz, faltou apoio das administrações municipais e, principalmente, saíram muitos jovens ligados ao MOCAF. As obrigações sisudas da vida adulta tomaram o tempo deles, afastando-os da fruição da produção cultural desinteressada. Na verdade, penso eu, a mística dos festivais e da cultura popular arrefeceu, na medida em que a indústria cultural avançou rapidamente no país, durante o último quartel do século passado.</p>
<p>O que causa angústia é saber que a maioria das canções e dos trabalhos de arte e artesanato apresentados nas seis edições do FECAF está se perdendo ou já se perdeu inteiramente. Não há registros organizados sobre o Festival, que parece não ter tido um memorialista ou cronista dedicado, meticuloso, inventivo. O próprio Celso Ferraz lembrou com dificuldade da letra que compôs, musicada por Zé das Águas, e que obteve o segundo lugar na edição de 1983 do FECAF. Uma canção escrita na fazenda, varando a madrugada, depois que Celso Ferraz viu na TV as notícias e imagens dramáticas dos combates na Guerra das Malvinas:</p>
<p>Canto Latino<br />
A América planta com as mãos<br />
Os corpos dos seus irmãos,<br />
Tentando assim entender a flor que irá brotar.</p>
<p>Canta América viva, canta sua poesia.<br />
Se não perdermos a guerra, a paz nascerá no outro dia.<br />
E a mãe não vai mais chorar.</p>
<p>Cabeças sem medo erguerão,<br />
Divisas voarão pelo ar,<br />
Meu povo virá à avenida prá todos juntos cantar,<br />
Prá todos juntos cantar.</p>
<p>Afia o facão seu posseiro,<br />
Trincheire o chão garimpeiro,<br />
Anuncie com berrante vaqueiro<br />
E vamos todos lutar.</p>
<p>É uma parte importante da cultura de Minas Gerais que cai no esquecimento. Expressões de sentimentos e de vivências que parecem ter gorado, porque não deixaram legado e não se prestarão a reinterpretações.</p>
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		<item>
		<title>A burca, o Islã radical e a República laica</title>
		<link>http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/07/a-burca-o-isla-radical-e-a-republica-laica/</link>
		<comments>http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/07/a-burca-o-isla-radical-e-a-republica-laica/#comments</comments>
		<pubDate>Fri, 31 Jul 2009 16:01:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crítica social]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[imaginário social]]></category>
		<category><![CDATA[política]]></category>
		<category><![CDATA[Fanatismo religioso]]></category>
		<category><![CDATA[Islã]]></category>
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		<category><![CDATA[Proibição da burca]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Na “Folha de São Paulo” da última segunda-feira, dia 27 de julho, foi publicada entrevista do pensador francês Luc Ferry, ex-professor da École Normale Supérieure, ex-ministro da Educação no governo de Jacques Chirac, atualmente chefe de um grupo de reflexão socioeconômica no governo de Nicolas Sarkozy. Dessa entrevista, chamou-me atenção o ponto de vista de Ferry sobre a controvérsia em torno da proibição do uso da burca na França. Vale transcrever a pergunta específica do jornal sobre o assunto e a resposta do intelectual vinculado ao barulhento governo Sarkozy.</p>
<p>Pergunta – “O debate sobre a burca na França traz à tona a questão do relativismo cultural: impor um modo de pensar como sendo melhor que outro não contribui para acirrar o choque de civilizações previsto por Samuel Huntington?” Resposta – “Muita gente atribui um monte de besteiras a Samuel Huntington sem ter lido seu livro (“O Choque das Civilizações e a Recomposição da Nova Ordem Mundial”), que na verdade é ótimo. Em primeiro lugar, ele nunca estimulou o choque de civilizações, muito pelo contrário. Ele sempre recomendou que o governo americano praticasse o diálogo e a moderação diante do islã. Huntington inclusive se opôs à Guerra do Iraque. Mas é fato que existe, sim, um verdadeiro choque com o islã radical, e a burca, ao contrário de uma opinião comum totalmente errada, não tem nada de símbolo religioso. Ela não consta em lugar nenhum na lista das obrigações determinadas pela religião muçulmana às mulheres. A burca é um sinal de vínculo ao fundamentalismo. Ela significa que as mulheres não devem ter lugar na esfera pública e que elas devem ficar em casa. Se saírem, elas têm de se dissimular. Devemos aceitar essa concepção do lugar da mulher? Respondo tranquilamente não, cem vezes não. E eu não digo isso porque defendo uma tradição cultural ocidental, mas porque penso que as mulheres simplesmente fazem parte da humanidade. Nesse tema, o relativismo é sempre cúmplice dos totalitarismos”.</p>
<p>Como convém aos pensadores franceses, resposta elegante, e polêmica. Há nela, entretanto, alguns pontos que merecem discussão. Para além da avaliação que Ferry faz do livro de Huntington, certos elementos presentes na sua argumentação sobre o veto à burca são problemáticos.</p>
<div class="img alignnone size-full wp-image-524" style="width:400px;">
	<img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/07/Burca-em-Dubai.jpg" alt="Muçulmanas usam burcas em Dubai" width="400" height="300" />
	<div>Muçulmanas usam burcas em Dubai</div>
</div>
<p>O primeiro deles é a própria visão, aliás, bastante difundida, de que o islã radical é mais perigoso do que os demais fundamentalismos religiosos, inclusive os ocidentais. Ferry engrossa a corrente dos que atribuem uma espécie de “defeito congênito” ao islamismo, o de necessariamente produzir fundamentalistas e terroristas fundamentalistas. Ele parece acreditar que todos os islamitas serão, mais cedo ou mais tarde, fundamentalistas. E não que os fundamentalistas islâmicos, como nas demais religiões, constituem uma minoria, embora agitada.</p>
<p><span id="more-523"></span></p>
<p>O segundo aspecto problemático da resposta de Ferry é relativo à sua compreensão mesmo da burca. Para ele, a burca não é símbolo religioso porque não está mencionada na lista de obrigações redigida pelo Profeta Maomé. Ora, então também não é símbolo religioso o crucifixo, o véu usado por irmãs de caridade, o hábito que veste os monges, a batina que os padres envergam nas missas, os chapéus redondos e negros dos judeus ortodoxos e assim por diante. Ferry parece olhar para as religiões como algo estático, reduzindo-as a seus preceitos e escrituras originais (ele é fundamentalista?). Com isso, desconhece-lhes a história, a trajetória nada linear e pacífica que elas tiveram ao longo de séculos e que, ainda hoje, comporta muita contradição, incoerência, divisão, etc. Não sei qual historiador das religiões estaria disposto a subscrever a opinião de Ferry, para quem as burcas nada têm a ver com religião! Eu realmente não aprecio as burcas, mas não tenho a pretensão de dissociá-las de certas versões correntes do islamismo. A burca está, inegavelmente, relacionada a certas visões de mundo, ancoradas em bases religiosas, cujas existências não nos cabe negar, ainda que queiramos, por alguma razão, ver superadas. Questão fundamental, especialmente para a França (que possui enorme comunidade islâmica): reconhecer a existência do outro, com sua cultura complexa e diferente da nossa!</p>
<p>Fato que nos traz ao segundo aspecto questionável da resposta de Ferry. Não se trata de relativismo cultural, mas de multiculturalismo. Uma coisa não é igual à outra. As nações contemporâneas são multiculturais, pronto e acabou. Esse é o ponto de chegada, por enquanto, do longo processo histórico que promoveu, desde a Idade Média, o que os franceses preferem denominar “mundialização”. De modo que somos condenados a conviver com ideias, hábitos, crenças, práticas diversos. Essa dificuldade aparece nitidamente na resposta de Ferry, que traz à cena um apelo – e um tema – iluminista, qual seja: a “natureza humana”, a “humanidade”, concebida como idêntica em toda parte e em qualquer tempo. Por isso, as mulheres devem se comportar do mesmo modo em toda parte, porque “elas simplesmente fazem parte da humanidade”. Ora, não existem mulheres abstratas; existem mulheres seres históricos, o gênero feminino que é diverso no espaço e no tempo, e dentro dos países. A afirmação de Ferry de que “a burca é um sinal de vínculo ao fundamentalismo” pressupõe que toda mulher que usa a burca é incapaz de leitura crítica e autônoma do mundo. Que toda mulher que usa a burca foi obrigada a isso pela sua família fundamentalista, pelo seu pai radical, pelo seu esposo ou irmão mais velho. Por que ninguém, no Ocidente, pensa assim sobre as irmãs de caridade? Sobre monges e freiras que vivem enclausurados? Por que, deles e delas, não pensamos que foram obrigados a abandonar seu lugar na esfera pública? O argumento de Ferry é o de que o uso da burca sempre, e em toda parte, significa perda de autonomia da mulher, submissão da mulher ao homem, interdição do espaço público para a mulher. Fico pensando no livro de Orhan Pamuk, “Neve”, no qual o debate entre secularismo e fanatismo religioso é conduzido de maneira muito mais sutil, levando-se em conta as fraquezas humanas que estão por trás das duas atitudes. Fico pensando em mulheres da Turquia e do Irã, da França e da Inglaterra que freqüentam as ruas e as universidades portando véu, que usam o véu fora de casa como símbolo de sua identidade, de uma escolha política e cultural. O que elas dirão da afirmação de Ferry?</p>
<p>O terceiro aspecto questionável do ponto de vista de Ferry sobre a proibição do uso da burca na França diz respeito ao livre-arbítrio, pedra de toque do pensamento dos liberais e dos conservadores, de baluartes como Tocqueville – nome citado por Ferry na entrevista. Se muitas mulheres islâmicas vivendo na França decidem usar a burca, porque foram criadas na tradição ou porque desejam expressar uma escolha identitária e/ou política, o Estado têm o direito de proibir?  Tal intenção é, na perspectiva liberal e conservadora, inaceitável, evidentemente autoritária, de tendência totalitária. A proibição significa impor a todas as mulheres padrão uniforme de comportamento, em nome do princípio do laicismo ou da igualdade entre homens e mulheres. Ideiais republicanos, caros à tradição francesa, são empregados, nesse caso, para estreitar o “círculo de escolhas e de garantias” individuais. Quem usar a burca, então, terá sobre si olhares negativos, hostis, desconfiados, o que só faz aumentar a espiral de incompreensões mútuas e preconceitos entre as pessoas. Logo haverá quem sentirá “gozo” em denunciar para a polícia ou algum agente público que essa ou aquela mulher usa a burca. E depois haverá vizinhos incomodados com mulheres vestidas com burca dentro da casa ao lado, e quem sabe a proibição será estendida para além dos espaços públicos. A proibição da burca implica numa estigmatização, não há dúvida. A questão é: sociedades democráticas ficam bem quando geram estigmas variados e numerosos?</p>
<p>Ah, mas pode-se objetar que a ampla maioria das mulheres que usam burca foi obrigada a isto. Talvez seja realidade. Talvez Luc Ferry possua números para demonstrar que é assim. Pois bem, nesse caso, o Estado não teria que esperar a manifestação queixosa de cada uma delas, de um parente, amigo ou vizinho, para intervir de alguma maneira, após a devida e bem feita investigação? Não é assim que se atua com respeito, por exemplo, aos casos de violência contra a mulher?</p>
<p>O mais importante me parecer ser o efeito produzido pela simples aprovação de uma lei – a partir desta data, fica proibido no território francês qualquer mulher usar, em espaços públicos, burca ou traje similar. A lei esconderá algo que me parece mais fundamental: as condições históricas que tornaram o uso da burca uma questão tão angustiante para os ocidentais. Os processos históricos que, de um lado, fizeram ganhar realce o fundamentalismo (inclusive e principalmente o fundamentalismo islâmico) e, de outro lado, a evidente incapacidade das “sociedades abertas” de lidar com esse fenômeno. Essa reflexão é urgente. E ela deve desembocar em ações políticas, econômicas, sociais e culturais coordenadas que objetivem reverter, ou pelo menos atenuar, o quadro contemporâneo de tensões a que Huntington denominou, inapropriadamente, “choque de civilizações”. De proibição em proibição os franceses, ou qualquer outro país, não conseguirão resolver os problemas postos pelo multiculturalismo, tensões étnicas, presença de minorias sociais, etc. Nessa direção, por sinal, a folha de serviço dos europeus e americanos não é muito boa. Eles têm feito pouco para eliminar as condições econômicas, sociais e políticas que, mundo afora, geram levas de fundamentalistas dispostos a ameaçar o modo de vida ocidental ou mesmo varrê-lo do planeta, por meio de guerras santas.</p>
<p>Quero, por fim, transcrever o que escrevi junto com o colega Marcos Antônio Lopes, nas últimas páginas do livro “A Peste das Almas: histórias de fanatismo”, publicado pela FGV Editora, em 2006: “Se o Islã, por exemplo, adentrou a Europa e os Estados Unidos, como pode alguém seguir acreditando em um mundo que se apresenta predominante ou hegemonicamente ‘nosso’ – cristão, ocidental, racional, liberal, progressista –, contraposto a um ‘outro’ mundo hostil que seria islâmico, oriental, irracional, despótico, tradicionalista? (&#8230;) É preciso aceitar a presença do ‘outro’, escutar seu próprio entendimento e anseio, dar-lhe oportunidades reais, ainda que isso pareça desterrar-nos do lugar que julgamos merecer. Para curar a ‘peste das almas’ [intolerância] e derrubar fanatismos, convém lembrar do remédio proposto por Theodor Adorno: colocar em presença e convívio os que discriminam e os que são alvo dessa discriminação, esclarecendo e ensinando sobre si mesmos no cotidiano. Tarefa difícil, demorada, prova de paciência e de tolerância. Exercício de compreensão e de razão” (p. 110).</p>
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		<title>Arte, igrejas e modernidade em Minas Gerais</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Mar 2009 21:20:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Dá pano pra manga a discussão sobre a trajetória complexa e multifacetada da modernidade nas terras mineiras, modernidade que se implantou não por inteiro e nem de uma vez só. Os parâmetros da modernidade ocidental – o mercado, a racionalidade instrumental, a ciência (e a educação) – desembarcaram por aqui há tempo. Mas de modo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Dá pano pra manga a discussão sobre a trajetória complexa e multifacetada da modernidade nas terras mineiras, modernidade que se implantou não por inteiro e nem de uma vez só. Os parâmetros da modernidade ocidental – o mercado, a racionalidade instrumental, a ciência (e a educação) – desembarcaram por aqui há tempo. Mas de modo ambíguo, misturados a elementos da sociedade tradicional com fortes marcas ibéricas. O mundo rural que sucedeu a sociedade mineradora talvez possa ser acusado de ter reduzido a velocidade de assimilação de traços modernos pelas populações mineiras, mas não de haver interrompido inteiramente esse processo.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-419 aligncenter" style="width:450px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/visao-da-obra-a-arvore-da-vida-de-yara-tupinamba-matriz-de-ferros.jpg" rel="lightbox[418]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/visao-da-obra-a-arvore-da-vida-de-yara-tupinamba-matriz-de-ferros.jpg" alt="" width="450" height="371" /></a>
	<div>Visão da obra &quot;A árvore da vida&quot;, de Yara Tupinambá, Matriz de Ferros.</div>
</div>
<p style="text-align: center;"><span id="more-418"></span></p>
<p>O professor João Antônio de Paula, no conhecido livro “Raízes da Modernidade em Minas” (Autêntica, 2000), defende a tese de que a Capitania de Minas Gerais já nascera em grande parte moderna. A rede urbana, formada por arraiais e vilas interligadas por caminhos e trilhas de tropas de muares, constituía um desses elementos modernos. Nas “vilas do ouro”, despontava estrutura ocupacional diversificada, comércio intenso e monetizado. Outro elemento moderno na Capitania teria sido a própria estrutura administrativa colonial, extensa, em certa medida burocrática, pautada por objetivos pragmáticos (associados essencialmente aos interesses fiscais da Coroa). No plano cultural, as manifestações artísticas e literárias na Capitania guardavam razoável simultaneidade com a Europa. Os árcades e os compositores de Minas sabiam dos cânones da produção artística européia, e foram capazes de selecioná-los e adaptá-los ao ambiente social da Capitania. No século XIX, a marcha da modernidade em Minas Gerais prosseguiu. Avançou a educação, campo no qual destacaram-se os seminários e o Colégio do Caraça. No ensino superior, a Escola de Minas de Ouro Preto implantou no coração de Minas uma cultura cientificista, orientada para o aproveitamento racional dos recursos naturais da Província e valorizando a ação planejada do Estado como forma de promover o progresso. Por outro lado, a imprensa difundiu-se rapidamente, contribuindo para gerar um embrião de “opinião pública” nas Minas Gerais. Uma opinião pública engajada na “religião laica do progresso”. No campo econômico, os mercados e as relações de troca monetizadas não refluíram; ao contrário, a agricultura de abastecimento interno e as atividades manufatureiras e industriais, baseadas na lógica do lucro, dinamizaram a economia regional. Tanto que, em Minas Gerais, muitos empresários, principalmente nos setores têxtil e siderúrgico, realizaram feitos notáveis, a partir da segunda metade do século XIX. Na política, os mineiros abraçaram idéias modernas, consubstanciadas no liberalismo republicano. Dos tempos da Inconfidência aos da Proclamação da República. Para coroar essa “inclinação” das Minas Gerais à modernidade, deu-se concretude ao projeto da criação da nova capital, a cidade planejada de Minas, depois batizada como Belo Horizonte.</p>
<p>Ora, quando o problema é promover e/ou consolidar mudanças no imaginário coletivo e nos padrões da sociabilidade, tarefa inescapável é construir símbolos. Os símbolos da modernidade, artisticamente ressignificados. O trem de ferro foi o símbolo por excelência da modernização (incompleta) da Zona da Mata e do Sul de Minas. A Leopoldina foi cantada em prosa e verso. No centro mineiro, as fábricas galvanizaram o imaginário dos mineiros. Em toda parte, ao redor das principais cidades, a eletricidade anunciou ao povo das Alterosas a chegada da modernidade. E os artistas, primeiro com o barroco e o rococó, depois com o neoclassicismo e o ecletismo, na arquitetura, na pintura e na escultura, tentaram converter a sensibilidade dos mineiros para as diversas intrusões da modernidade nessa terra mediterrânea. Vejam-se, a título de exemplo, os parques das águas no Sul de Minas e as construções originais de Belo Horizonte, que exibem as visões mineiras da modernidade na virada do século XIX para o século XX. Mais recentemente, Cataguases encheu-se de obras modernistas e Juscelino Kubitschek transformou Belo Horizonte num campo para as artes modernas brasileiras. Em escala mais reduzida, algo similar ocorreu em várias cidades. Em Belo Horizonte, a igrejinha da Pampulha catalisou um debate mais amplo, e menos hermético, sobre a estética (e a ética) moderna. A igrejinha da Pampulha congregava painéis de Cândido Portinari e Paulo Werneck, jardins de Burle Marx e esculturas em bronze de Alfredo Ceschiatti. Os mais conservadores não aceitaram as formas da igreja, muito menos os painéis de Portinari. Por isso, a igreja demorou quatorze anos para receber a consagração. O Bispo Dom Antônio dos Santos Cabral dizia que ela era apenas um galpão. Aos poucos, porém, os belo-horizontinos e os mineiros fizeram da igrejinha da Pampulha um cartão-postal e um símbolo maior da modernidade mineira.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-420 aligncenter" style="width:461px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/nova-matriz-de-santana-ferros-mg.jpg" rel="lightbox[418]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/nova-matriz-de-santana-ferros-mg-512x386.jpg" alt="" width="461" height="347" /></a>
	<div>Nova Matriz de Santana, Ferros, MG.</div>
</div>
<p>Em Diamantina, o anseio das elites pela modernização do antigo Tijuco resultou no esforço de dotar a cidade de estrada de ferro, prédios neoclássicos, luz elétrica, teatro e cinema, calçamento e água encanada, hospício e asilo para velhos e incapazes. Todavia, uma das obras que melhor exteriorizaram a visão de “modernidade” das elites diamantinenses, plasmada em cultura católica, foi a construção da nova Sé. A antiga Sé de santo Antônio, na rua Direita, de origem setecentista, foi demolida e, no seu lugar, construída uma igreja muito maior, em estilo neocolonial (lembre-se que o modernista Lúcio Costa foi apegado ao neocolonial) para marcar a grandeza da Diocese e os novos tempos que a cidade vivia. Era hora de romper com o passado colonial, de Chicas da Silva, Joões Fernandes e Isidoros Mártires. Já o Seminário de Diamantina abraçou o neoclássico, enquanto sua basílica foi erguida no estilo neogótico.</p>
<p>Curioso é o caso de Ferros, uma pequena cidade incrustada na Serra do Espinhaço, cortada pelo rio Santo Antônio e emoldurada pela serra dos Cocais. Surgida a partir da mineração de ouro e diamantes, o lugar escolheu Santana como padroeira e, para ela, construiu, no último quartel do século XVIII, Matriz tipicamente barroca. Nos anos 1960, a população da cidade envolveu-se num debate intenso, que teve por alvo imediato a alternativa: reforma da antiga Matriz ou sua derrubada (seguida da edificação de nova igreja). Surgiu a campanha pelo “voto verde”, que defendia a construção de nova igreja, em estilo moderno. Contra os “verdes”, organizaram os propugnadores do “voto vermelho”, as pessoas mais conservadoras, que desejavam a preservação da antiga igreja. Ganhou o “voto verde”. E a artista plástica Yara Tupinambá foi chamada para fazer um mural decorativo para o altar da nova e moderna igreja. O painel, chamado “A Árvore da Vida”, continha as figuras de Adão nu e Eva seminua. A polêmica sobre o painel imediatamente grassou entre os moradores, alcançando repercussões nacionais e internacionais.</p>
<p>Tal como Belo Horizonte, que, com o conjunto da Pampulha, almejou assinalar sua opção pela modernidade, também Ferros, no episódio da construção da nova Matriz, enveredou pela busca da modernidade. Observe-se bem. Por meio de um plebiscito, que significa debate, argumentação, uso da razão, deliberação pelo voto, o povo de Ferros decidiu mudar algo importante na cidade. Talvez tenha pensado em se oferecer um projeto de futuro, secularmente construído. Pode ter enxergado, nesse momento, que era dele a responsabilidade, individual e coletiva, de avançar progressivamente na direção de fim determinado, de futuro bem diferente do seu passado, acanhado e tradicional. Ora, não é essa a promessa da modernidade? Uma modernidade incompleta, hipertardia e até inalcançável, é claro. Modernidade de fachada, especialmente numa cidade dominada pela pequena economia agropecuária e relativamente distante das áreas mais dinâmicas de Minas Gerais. Modernidade que se expressa, contraditoriamente, por meio da religiosidade, das formas visíveis do templo católico principal. Igreja e painel do altar que são como “bandeiras” que sinalizam a chegada de tempos distintos, regidos por outras lógicas econômicas, sociais e culturais. A arte prenuncia algo que se deseja, mas que talvez nunca chegue. A arte é, nesse caso, grito e anseio de liberdade dos mineiros que não aceitam a pura repetição do passado.</p>
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