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	<title>Minas de História &#187; crônica</title>
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	<description>Minas de História é uma janela para o passado mineiro; é o weblog de Marcos Lobato Martins, professor, doutor em História Econômica pela USP, autor de livros como História e Meio Ambiente (2007) e Breve História de Diamantina (1996). Pretende abrigar leituras de historiografia sobre Minas Gerais e apresentar pequisas sobre a trajetória regional.</description>
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		<title>Imagens de uma trajetória urbana no Sul de Minas</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Nov 2010 17:08:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Fama. Óleo sobre tela de Elisabete Gonzaga Rocha (2008). Popularmente se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. De fato, as imagens costumam falar mais diretamente à sensibilidade, mobilizando elementos da intuição e do imaginário antes que recursos do pensamento lógico-conceitual. Por outro lado, especialmente com o desenvolvimento da fotografia, do filme [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/Estação-de-Fama.jpg" rel="lightbox[866]"></a><a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/Estação-de-Fama2.jpg" rel="lightbox[866]"></a><div class="img size-medium wp-image-868  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_01150011.jpg" rel="lightbox[866]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_01150011-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Fama. Óleo sobre tela de Elisabete Gonzaga Rocha (2008).</div>
</div>
<p style="text-align: left;">Popularmente se diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. De fato, as imagens costumam falar mais diretamente à sensibilidade, mobilizando elementos da intuição e do imaginário antes que recursos do pensamento lógico-conceitual. Por outro lado, especialmente com o desenvolvimento da fotografia, do filme e do vídeo, o senso-comum acostumou-se a tratar as imagens como registros fiéis, neutros e objetivos da realidade. Assim, por exemplo, quanto mais pixels uma foto contiver, mais próxima do real ela seria. Analogamente, o vídeo exibido na TV ou internet equivaleria à observação direta, em tempo real, de determinado fenômeno natural ou social. As imagens seriam, por natureza, verdadeiras.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-full wp-image-872  aligncenter" style="width:500px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/Estação-de-Fama3.jpg" rel="lightbox[866]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/Estação-de-Fama3.jpg" alt="" width="500" height="263" /></a>
	<div>Foto da Estação de Fama, anos 1940. Autor desconhecido.</div>
</div>
<p>É claro que não é bem assim. Toda imagem é um “constructo” e, nisso, ela se parece com qualquer discurso elaborado com palavras. Imagens são representações da realidade, produzidas por atores específicos a partir de pontos de vista, intenções e repertórios simbólicos e conceituais que é preciso esmiuçar. Elas não podem ser vistas, ou melhor, lidas e interpretadas ingenuamente. Para os cientistas sociais e historiadores, as imagens são documentos. Dizem alguma coisa, ao mesmo tempo em que silenciam sobre outras coisas. As imagens são carregadas de historicidade, porque são marcas que apreendem dimensões sutis das vidas de indivíduos e sociedades, de hoje ou de outros tempos.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-873  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_02190174.jpg" rel="lightbox[866]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_02190174-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Águas de Fama. Foto de M. L. Martins (25/10/2010)</div>
</div>
<p>Mais que chamativas, cativantes, espetaculares, as imagens permitem ao olhar treinado recuperar os sentidos que orientaram sua própria concepção e fabricação. Na miríade de documentos iconográficos, memória, história e utopia vivem juntas, e misturadas. Por isso as imagens tornaram-se tão importantes no estudo do passado.</p>
<p>Convido o leitor e a leitora a examinarem o conjunto de imagens apresentadas neste post, referente à pequena cidade sul-mineira de Fama, na beira do lago de Furnas. Imagens antigas e imagens recentes, fotografias e pinturas, produzidas por autores diferentes. O que estas imagens sugerem a respeito da trajetória histórica de Fama?</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-874  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_02190188.jpg" rel="lightbox[866]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/11/2010_02190188-512x682.jpg" alt="" width="512" height="682" /></a>
	<div>Janela do lago. Foto de M. L. Martins. Hotel Náutico de Fama, 25/10/2010 </div>
</div>
<p>Elas realçam a existência de uma linha de corte na história do lugar. Falam de virada inesperada, de um golpe de vento que mudou o rumo da história. Um dilúvio que demarcou um antes e um depois. Um antes agrário, rural, movimentado pelas boiadas e pelo trem. Um tempo antigo pacato, de fartura e trabalho com a terra. Um tempo novo dominado pela água, organizado pelo turismo e pelo lazer, um depois de cidade-balneário, transformada em refúgio de fim de semana, ainda pacata, mas onde as fazendas cederam espaço aos condomínios de sítios e casas de veraneio.</p>
<p>Estas imagens insinuam um programa de pesquisa, a ser conduzido na interseção do social com o ambiental, do urbano com o rural, do econômico com o cultural.</p>
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		<title>Passarinhos salvam o dia</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 17:45:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[imagens de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[meio-ambiente]]></category>
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		<category><![CDATA[Corredores ecológicos]]></category>
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		<description><![CDATA[Pica-pau assenhora-se da ponta oeste de Alfenas Sob o peso do feriado, a cidade envergava preguiçosa. Procurava cama, pedia sono. As ruas vazias cediam terreno para a poeira fina, vermelha, soprada de vez em quando por brisa fraca. O suor escorria no rosto de quem observava a tarde declinante, nublada, abafada. O tempo não se [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/2010_01310029.jpg" rel="lightbox[852]"></a><div class="img size-medium wp-image-853  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/2010_01310044.jpg" rel="lightbox[852]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/2010_01310044-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Pica-pau assenhora-se da ponta oeste de Alfenas</div>
</div>
<p>Sob o peso do feriado, a cidade envergava preguiçosa. Procurava cama, pedia sono. As ruas vazias cediam terreno para a poeira fina, vermelha, soprada de vez em quando por brisa fraca. O suor escorria no rosto de quem observava a tarde declinante, nublada, abafada. O tempo não se decidia: hesitava entre chover e firmar. A hora mais triste do dia se aproximava, prometendo cobrir de melancolia a ave-maria entoada no alto-falante do rádio.</p>
<p>Nas Minas Gerais, há dias de Irlanda – plúmbeos, pesados, desesperados. Salvam-nos os passarinhos. A elegância das aves, seus modos delicados, sua altivez sem afetação. A generosidade dos passarinhos remedia tanto o raso quanto o ácido da cena urbana. E indicam o caminho: reconstruir a cidade em bases mais humanas significa torná-la amiga dos pássaros.</p>
<p>Estas criaturinhas merecem mais do que quintais, ruas e parques arborizados, comedouros abastecidos por zelosos porteiros ou motoristas de praça. Não lhes bastam “ilhas verdes” salpicadas no vasto território mineiro. As aves precisam da retração das monoculturas. São poucos os pássaros que conseguem atravessar um cafezal, por exemplo, para alcançar uma mancha de floresta. São poucos os refúgios à disposição das aves nas áreas de nascentes, topos de morros e beiras de rios. As cidades deveriam servir como “âncoras” de capilares e abrangentes “corredores ecológicos”.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-855  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/2010_013100291.jpg" rel="lightbox[852]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/2010_013100291-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Uma palheta de ouro no macadame de Alfenas</div>
</div>
<p>Os passarinhos das fotos, flagrados em Alfenas, retribuiriam com mais cor, mais canto, mais beleza. As cidades ficariam mais otimistas, a vida urbana ganharia mais qualidade. Os dias hesitantes, plúmbeos e abafados seriam mais suportáveis. Na paisagem ocupada pelo homem e suas cidades, encontraríamos um caminho de menor resistência.</p>
<p>Esta promessa não é pequena. Realizá-la talvez nos permita morrer a boa morte, morrer como passarinho. Este era o desejo do meu avô. Só agora compreendo seu alcance.</p>
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		<title>A mina de Morro Velho era o inferno de Dante?</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Oct 2010 02:46:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crítica social]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[imaginário social]]></category>
		<category><![CDATA[Acidentes na mineração]]></category>
		<category><![CDATA[Imagem dos mineradores]]></category>
		<category><![CDATA[mineração]]></category>

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		<description><![CDATA[Mina de Morro Velho, em 1868 O exitoso resgate dos trinta e três mineiros presos, por quase 70 dias, a 700 metros de profundidade, por causa de acidente ocorrido na mina de San José, localizada no Deserto de Atacama (Chile), dominou os noticiários da imprensa nos últimos dias. Um drama que teve final feliz, apesar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-849  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/Mina-de-Morro-Velho-em-1868.jpg" rel="lightbox[848]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/10/Mina-de-Morro-Velho-em-1868-512x389.jpg" alt="" width="512" height="389" /></a>
	<div>Mina de Morro Velho, em 1868</div>
</div>
<p>O exitoso resgate dos trinta e três mineiros presos, por quase 70 dias, a 700 metros de profundidade, por causa de acidente ocorrido na mina de San José, localizada no Deserto de Atacama (Chile), dominou os noticiários da imprensa nos últimos dias. Um drama que teve final feliz, apesar da ganância da empresa mineradora – que operava sem condições adequadas de segurança – e das evidentes falhas de fiscalização do Estado chileno. Os mineiros foram salvos, o povo chileno e o mundo inteiro comemoraram, com justa razão.</p>
<p>Para os habitantes de Minas Gerais, província desde o século XVIII associada à mineração, os acontecimentos no Chile devem calar fundo. Nossa história esteve repleta de acidentes trágicos nas catas e galerias, que vitimaram numerosas pessoas e, ainda hoje, continuam vitimando trabalhadores de garimpos. Nas grandes empresas mineradoras que operam em Minas Gerais, os padrões de segurança são bastante satisfatórios, equivalentes aos vigentes no plano internacional. Mas, nos pequenos e médios empreendimentos do setor, ainda há pouca atenção com a segurança do trabalhador. O gasto com segurança é encarado como fator de redução dos lucros, como luxo inaceitável, até porque os donos dos serviços de lavra – como também muitos trabalhadores – acreditam que as técnicas tradicionais são boas e “prudentes”. Nos garimpos mineiros e brasileiros, os acidentes continuam sendo tratados como fatalidades, imposições divinas contra as quais não há remédio. Assim como “bamburrar” é golpe de sorte, ser abatido por acidente seria puro azar. Para os garimpeiros tradicionais, ambas as situações são intrínsecas à mineração – que é sortilégio e jogo. Mudar este tipo de concepção não é fácil, nem rápido. O Estado, porém, tem o dever de agir: fiscalizar as lavras, exigir equipamentos e sistemas de segurança, capacitar os mineradores, fechar os empreendimentos irregulares.</p>
<p>Neste quesito, o Brasil não tem se saído bem. Na Amazônia e no Centro-Oeste, há minas de pedras preciosas que alcançam mais de 200m de profundidade, nas quais os trabalhadores escavam os veios em condições absolutamente precárias: amarrados em cordas, vestidos só de calção, movendo-se em túneis que mais parecem buracos de tatus. Em todo o território nacional, particularmente em Minas Gerais, garimpeiros removem cascalho sob paredes verticais enormes, terra praticamente solta, que podem desabar a qualquer momento. Outros muitos mergulham até o fundo de rios caudalosos, ligados a escafandros improvisados, alimentados pelo ar bombeado a partir de motores instalados em balsas. Todos os dias, centenas, milhares de garimpeiros arriscam a vida em diversos pontos do país, invisíveis às vistas da opinião pública e das autoridades governamentais. Situação triste, inaceitável, marca de nosso atraso social, que remete aos tempos da mineração escravista, séculos XVIII e XIX.</p>
<p>Vejam-se algumas indicações desta faceta trágica da história da mineração. As lavras setecentistas de diamante e ouro, ao redor do antigo Tijuco (atual Diamantina), foram palcos de grandes acidentes. Um destes desastres ocorreu no dia 30 de abril de 1747. Um alude de terra sepultou nas minas de ouro do morro do Pururuca, nas raízes do Arraial do Tijuco, 5 negros, 3 portugueses e 2 italianos (PEREIRA, Célio Hugo Alves. “Efemérides do Arraial do Tejuco a Diamantina”. Belo Horizonte: Edições CLA, 2007, p. 102). Outra catástrofe aconteceu no Acaba-Mundo, lugar apertado e empedrado no rio Jequitinhonha. Ali, em 1768, o Contratador João Fernandes de Oliveira fazia um difícil serviço de cerco. O rio foi represado e forçado a correr em apertado bicame por baixo do qual trabalhavam os escravos em furnas, que ficavam inferiores ao nível do leito. O bicame abateu-se em certo ponto e começou a dar água pela fenda de uma taboa que havia afrouxado de um dos gastalhos. O administrador do serviço mandou um carpinteiro consertar o defeito, mas o artífice, que se achava ébrio, provocou a ruptura do bicame. As volumosas águas do Jequitinhonha irromperam, arrastando tudo, precipitando nas furnas onde trabalhavam mais de duzentos homens, matando mais de sessenta deles (SANTOS, Joaquim Felício dos. “Memórias do Distrito Diamantino”. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 1978, p. 168). Nos séculos seguintes, os garimpeiros, que escavaram por toda parte, nas furnas das serras, nas quebradas dos montes, nos gorgulhos dos campos, descobriram riqueza imensa, mas também sofreram numerosos acidentes – afogamentos e soterramentos.</p>
<p>No Oitocentos, companhias inglesas de mineração instalaram-se em Minas Gerais, dando início aos grandes trabalhos subterrâneos de extração de ouro. Duas delas ficaram bem conhecidas: a Imperial Brazilian Minning, em Gongo Soco (Caeté), e a Saint John Del Rey Minning Company Limited, em Morro Velho (Nova Lima).<br />
Em Gongo Soco, o ouro foi explorado, desde 1745, por Manuel da Câmara Bittencourt e, depois, por seu sobrinho Manoel da Câmara de Noronha Bittencourt. Em seguida, a rica mina passou para as mãos de José Alves Cunha Porto e, por herança, para João Batista Ferreira Chichorro de Sousa Coutinho, o Barão de Catas Altas. Em 1825, o Barão de Catas Altas, um dos homens mais ricos da Província, vendeu Gongo Soco para os ingleses da Imperial Brazilian Minning Association. A companhia trouxe técnicas modernas de exploração do ouro, contando com vantagens fiscais concedidas pelo governo (ao invés do quinto, a empresa pagava o décimo sobre o minério extraído). A equipe inicial da companhia, com homens vindos da Cornualha, era composta de um superintendente, dois capitães-de-mina, trinta e um mineiros e artífices. Para abrigar esses trabalhadores, foi construída uma “vila inglesa”, com ruas, casas, cemitério, ponte, hospital, igreja anglicana e até um arco, com material trazido da Inglaterra. Na fase áurea de Gongo Soco, a vila chegou a ter 900 habitantes, dos quais cerca de 400 eram escravos. Os cativos que trabalhavam na mina moravam em casas de pau-a-pique, fora dos limites da vila.</p>
<p>A Imperial Brazilian Minning operou em Gongo Soco entre 1824 e 1856, extraindo, oficialmente, 123,8 toneladas de ouro. Entre outros fatores, a decadência da companhia ocorreu em função das dificuldades técnicas que a mina apresentava. Não havia, à época, meios adequados e módicos para bombear a água que infiltrava nas galerias mais profundas, impedindo alcançar os veios auríferos. Por causa disso, os soterramentos tornaram-se frequentes. Em 1853, o número de trabalhadores mortos em Gongo Soco foi 18; em 1856, esse número pulou para 30.</p>
<p><span id="more-848"></span></p>
<p>Por sua vez, a Saint John Del Rey Minning Company explorou os depósitos de ouro de Morro Velho desde 1834 até a década de 1960. Esta mina, desativada em 2003, produziu em sua longa história mais de 570 toneladas de ouro, extraídas por cerca de 100 mil trabalhadores, que escavaram galerias que alcançaram 2.700 m de profundidade. Já no século XVIII, Morro Velho era minerada superficialmente. No fim deste século, ela passou para as mãos do Padre Antônio Freitas. Em 1814, a família do sacerdote, por meio do sistema de talho aberto (queimando a rocha, espargindo-lhe água para quebrá-la, moê-la e lavá-la), retirou 16 kg de ouro, empregando 24 trabalhadores livres e 122 escravos. Em 1834, Morro Velho foi adquirida pelos ingleses da Saint John Del Rey Minning. Trabalhadores europeus, especialmente da Cornualha, laboraram ao lado de escravos. Em 1848, havia 1.220 trabalhadores em Morro Velho; em 1862, o número havia alcançado 2.510, sinal da prosperidade do empreendimento. Destes 2.510 mineiros, 154 eram europeus, 906 trabalhadores livres nacionais e 1.450 escravos, a maioria alugados a senhores da região central da Província. Até a década de 1840, os escravos trabalhavam em condições precárias, fazendo jornadas diárias de 12 horas. Mulheres cativas atuavam na mina, especialmente no transporte (usando cestos carregados na cabeça) e na trituração do minério. A escravaria representava 60% do custo total de produção em Morro Velho. No ano de 1867, Richard Burton e sua esposa, Isabel, visitaram Morro Velho. Ela, vestindo capa de mineiro, desceu dentro de uma caçamba até os recônditos escuros da mina, lugares nos quais o ar só entrava através de um respiradouro. Nessas galerias, os negros trabalhavam movimentando-se como gatos, amarrados e dependurados por correntes, manejando alavancas e brocas. Lady Burton comparou Morro Velho ao inferno de Dante (“The Romance of Isabel, Lady Burton”).</p>
<p>Acidentes na mina de Morro Velho não eram incomuns. Em 1857, o desabamento do madeirame que escorava o teto da mina Grande levou ao fechamento da lavra por 12 meses. Em novembro de 1867, poucos meses depois da visita de Lady Burton – confirmação de que a entrada de padre ou de mulher numa mina traz azar? –, ocorreu incêndio e desabamento nas galerias a 360m de profundidade, do que resultaram 18 mortos (1 inglês e 17 cativos). Em 1886, outro grave acidente paralisou grande parte das atividades de Morro Velho e causou a fuga de pessoal. Um desabamento, a 570m de profundidade, sacudiu o subsolo de Congonhas de Sabará (Nova Lima) como um terremoto, colocando os moradores em pânico. Milhares de toneladas de minério fecharam a única entrada da mina, enterrando vivos cerca de 100 trabalhadores. A área do acidente foi abandonada, sendo reaberta só em meados da década de 1950.</p>
<p>A partir dos anos 1880, as catástrofes em Morro Velho declinaram por causa da melhoria da segurança na mina. Mas as ameaças aos mineradores persistiram na forma de doenças ocupacionais, especialmente a “tosse dos pobres”, a silicose. Tanto que, em 1925, o esforço da companhia de aumentar o número de trabalhadores ingleses fracassou redondamente. Dos 215 homens trazidos da Europa no começo deste ano, apenas 30 ficaram até o final, recusando-se os demais a trabalharem nas galerias da mina devido às duras condições ali existentes.</p>
<p>O leitor e a leitora interessados poderão encontrar mais informações sobre as minas brasileiras, e Morro Velho, em particular, nos seguintes trabalhos:<br />
ECKERT, Cornelia. “Os homens da mina: um estudo das condições de vida e representações dos mineiros de carvão em Charqueadas/RS”. 1985. 565 p. Dissertação (Mestrado em Antropologia, Sociologia e Ciência Política). IFCH/UFRS. Porto Alegre.<br />
GROSSI, Yonne de S. “Mina de Morro Velho: a extração do homem”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.<br />
LIBBY, Douglas Cole. “Trabalho escravo e capital estrangeiro no Brasil: o caso de Morro Velho”. Belo Horizonte: Itatiaia, 1984.<br />
PAULA, Fabiano Lopes de. “O espaço da morte nas minerações inglesas em Minas Gerais – o exemplo de Morro Velho”. 1997. 63 p. Dissertação (Mestrado em Arqueologia). FFLCH/USP. São Paulo.<br />
SOUZA, Tânia Maria Ferreira de. “Onde o sol nunca brilha: uma história dos investimentos britânicos e da mudança tecnológica na mineração aurífera de Minas Gerais no século XIX”. 2002. 251 p. Tese (Doutorado em História). FFLCH/USP. São Paulo.</p>
<p>A constatação de que, infelizmente, ainda há, na América Latina e no Brasil, mineradores expostos a grandes riscos, trabalhando em condições impróprias, sofrendo sob forte calor e umidade, respirando poeira tóxica, contraindo doenças ocupacionais e infecto-contagiosas, é sintoma de que as exclusões sociais resistem. De que os governos costumam fazer vistas grossas para as condições dos mineiros, para não atrapalhar as exportações de commodities, tão importantes nas pautas de exportação de muitos países. É sinal de que as grandes empresas de mineração também não estão muito interessadas em pressionar pequenas empresas e garimpeiros, pois, frequentemente, utilizam os préstimos destes últimos na exploração de certos minérios e áreas minerais. Porém, eu acrescentaria outro fator, de natureza simbólica, para entender o crônico descaso com a vida de milhares de mineradores e garimpeiros. Descaso que, na Europa, dominou o cenário do século XIX. Os estudos de Friedrich Engels (“A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”. São Paulo: Global, 1985) e, depois, de Eric Hobsbawm (“Trabalhadores: estudo sobre a história do operariado”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981) mostraram que a expectativa de vida do minerador inglês se esgotava antes dos 40 anos de idade, o que implicava, para sua família, empobrecimento certo. Esta realidade chegou à literatura na voz do mineiro Maheu, que afirmou: “aos quarenta e dois anos muita gente já não presta para mais nada” (ZOLA, Émile. “Germinal”. São Paulo: Abril Cultural, 1981, p. 25).</p>
<p>Mesmo que sem querer, a literatura e o cinema acabaram gerando e difundindo imagem esteriotipada do mineiro, do garimpeiro, do faiscador. A mineração foi retratada como profissão que embrutece os homens. E o mineiro descrito como homem rude, cheio de destemor, força física e orgulho de “macho forte”, autoritário, obsessivo cultivador de animosidades recíprocas. Não é assim o personagem de Zola, o capataz de Montsou, Paul Négul? Ele é um rapaz de pouca idade, ar de pessoa curiosa, dono de inteligência cética, “que se transformava em brusco autoritarismo nas suas relações com os operários. Andava vestido e sujo de carvão como eles, e, para que o respeitassem, desafiava os perigos passando pelos lugares mais difíceis; era sempre o primeiro nos desabamentos e nas explosões de grisu” (ZOLA, 1981, p. 57). Rude, sujo, violento, rastejando sob o chão como fazem os vermes, apartado da “luz” grande parte da vida, o mineiro na América Latina, ademais, é geralmente mestiço. Portanto, aos olhos das elites brancas, uma espécie de pária; na melhor das hipóteses, um marginalizado.</p>
<p>Oxalá, que os acontecimentos na mina de San José, no distante Atacama chileno, ajudem-nos a superar estas representações datadas e distorcidas dos irmãos que trabalham na pequena mineração e no garimpo na província, no país e no continente. Afinal, a intenção de Zola era a de denunciar os grilhões que oprimiam os trabalhadores nas minas francesas. As tintas realistas serviam-lhe neste propósito. Cabe-nos recuperar esta intenção original, perpassada por vontade de promover justiça social.</p>
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		<title>Pássaros de um bosque urbano</title>
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		<pubDate>Mon, 13 Sep 2010 02:50:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[imagens de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[meio-ambiente]]></category>
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		<category><![CDATA[Natureza na cidade]]></category>
		<category><![CDATA[Pássaros urbanos]]></category>

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		<description><![CDATA[Consumi boa parte da manhã de domingo em um belo canto de Alfenas. Estive quase três horas num pequeno bosque urbano, no limite oeste da cidade. De lá se pode ver um braço do lago de Furnas e, mais além, contra o horizonte, uma linha de montanhas. O bosque abriga muitos sons de pássaros, mais [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Consumi boa parte da manhã de domingo em um belo canto de Alfenas. Estive quase três horas num pequeno bosque urbano, no limite oeste da cidade. De lá se pode ver um braço do lago de Furnas e, mais além, contra o horizonte, uma linha de montanhas. O bosque abriga muitos sons de pássaros, mais do que ruídos da cidade. É quase um jardim no limiar da rua e da roça – a poucos passos, há um cafezal que cobre, na direção do poente, milhares de acres de terra.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-821  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040007.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040007-512x682.jpg" alt="" width="512" height="682" /></a>
	<div>Guarnição de árvores no pátio do Hospital IMESA</div>
</div>
<p> </p>
<p>Não fosse a câmara fotográfica digital que eu segurava, poderia me imaginar um homem letrado do século XIX, assaltado pelas novas sensibilidades românticas, gastando tempo num dia ensolarado para observar passarinhos. Pé ante pé, chapéu na cabeça, binóculo pendurado no pescoço, papéis e lápis na mão, este homem caminharia até obter boa posição para desenhar os espécimes que se deixassem mostrar. E então registraria, com olhar treinado e memória prodigiosa, os detalhes das plumas, dos olhos, dos bicos, dos pés e dos dorsos dos pássaros. Em seguida, de volta à cidade, entre amigos igualmente interessados na natureza, o homem letrado determinaria com exatidão os nomes das aves, então redesenhadas em pranchas de aquarelas coloridas. Se eu soubesse, de fato, desenhar como Rugendas ou Debret, desistiria da máquina fotográfica, quem sabe até do século XXI&#8230; Só não abriria mão dos passarinhos.</p>
<p>É curioso. Certas atitudes do passado permanecem entre nós por tanto tempo que nos olvidamos de suas origens remotas. Homens do século XXI que imitam, munidos de gadgets eletrônicos, gestos de antepassados oitocentistas, como que saídos do livro de Keith Thomas (“O homem e o mundo natural”. São Paulo: Companhia das Letras, 1989).</p>
<p>Flagrei alguns habitantes contumazes do referido bosque, que enchem o lugar com seus cantos agradáveis, passos elegantes, visadas desconfiadas, vôos rasantes. Algumas vezes, como a “viuvinha” da foto, estes pássaros aproximam-se das pessoas devagar, mas sem medo. Eles parecem querer nos fitar ou alegrar, talvez nos tocar para transformar cada um de nós em seres melhores.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-810  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040004.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040004-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Passeio da &quot;viuvinha&quot; na manhã de domingo</div>
</div>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"> <div class="img size-medium wp-image-820  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040038.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040038-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Árido repasto do casal de canários da terra</div>
</div>
<p> </p>
<p>Outros percorrem o gramado, ocupados com a companhia um do outro, colhendo sementes e insetos, entre pios de flerte. O mundo ao redor, inclusive o observador armado de máquina fotográfica, não lhes interessa. O amarelo recíproco, manchado de vermelho na ponta superior do corpo, lhes basta. São “canários da terra” que procuram apenas viver sob o céu imenso, do chão para as árvores, enquanto não sobrevém a morte.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-811  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040009.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040009-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Pica-pau empoleirado observa o domingo</div>
</div>
<p> </p>
<p>O mesmo desejo de viver exibem o “pica-pau” e o “joão-de-barro”, também frequentadores de carteirinha do bosque na ponta ocidental da cidade. Pode-se vê-los exibindo os corpos volumosos confiantes, a distância segura, atentos aos bichinhos que ficam ao alcance de seus bicos grossos, bem polidos. Eles pousaram para a câmara como torcedores orgulhosos do último título conquistado pelo time do coração. Estufaram o peito e arregalaram os olhos. Ficaram bem na foto!</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-812  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040048.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040048-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>João de Barro desfila feito soldado de infantaria</div>
</div>
<p> </p>
<p>O “bem-ti-vi” ansiava o que todos nós, secretamente, queremos: a eternidade. No bosque do oeste de Alfenas, ele virou estátua eqüestre de si mesmo, como um Carlos V emplumado, poderoso senhor de terras enormes e variadas. Por um instante, o bem-ti-vi tornou-se mármore, essência de pássaro, espécie de imutabilidade vestida de amarelo e máscara negra, a encarar o mundo, imperturbável. Imagem de altar na igreja dos bípedes emplumados, ali onde a cidade ondeia com o vento.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-816  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040026.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040026-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Bem-ti-vi de fina estampa brinca de estátua</div>
</div>
<p> </p>
<p>Quando eu deixava o bosque, ao ser visto por um canário perscrutador, atravessou minha espinha um pensamento ingênuo. Neste domingo, nos quintais de Minas, existem muitas crianças com alma de passarinho, trepadas nos galhos, no meio de folhas, comendo goiabas, chupando jabuticabas, o dia inteiro, alegremente distraídas de que o futuro tem pressa.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-817  aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040017.jpg" rel="lightbox[807]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/2010_01040017-512x384.jpg" alt="" width="512" height="384" /></a>
	<div>Vê-se porque nosso escrete é canarinho</div>
</div>
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		<title>Os gibis, a cultura e a anti-cultura</title>
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		<pubDate>Sun, 05 Sep 2010 21:09:17 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[HQ]]></category>
		<category><![CDATA[Indústria Cultural]]></category>

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		<description><![CDATA[Coleção de gibis: Pato Donald, 60 anos de Brasil Os colegas professores de História talvez não tenham se dado conta de uma efeméride importante: o ano de 2010 marca o cinqüentenário da primeira edição do Pato Donald no Brasil. Este gibi, publicado ininterruptamente desde então, é a mais bem-sucedida HQ da Editora Abril, empresa destacada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img size-full wp-image-798  aligncenter" style="width:287px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Pato-Donald-60-anos.jpg" rel="lightbox[797]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/09/Pato-Donald-60-anos.jpg" alt="" width="287" height="404" /></a>
	<div>Coleção de gibis: Pato Donald, 60  anos de Brasil</div>
</div>
<p>Os colegas professores de História talvez não tenham se dado conta de uma efeméride importante: o ano de 2010 marca o cinqüentenário da primeira edição do Pato Donald no Brasil. Este gibi, publicado ininterruptamente desde então, é a mais bem-sucedida HQ da Editora Abril, empresa destacada na história da imprensa e da indústria cultural brasileira.</p>
<p>A propósito dos personagens de Walt Disney, muito já se escreveu sobre o papel que eles desempenharam na aproximação entre Brasil e Estados Unidos durante a Segunda Guerra. Há quem veja a indústria cultural ianque como porta-voz super-eficiente do american way of life, instrumento por excelência do soft power estadunidense na conjuntura da Guerra Fria, entre as décadas de 1950 e 1970. Filmes de Hollywood e gibis da Disney teriam contribuído decisivamente na formação e consolidação da dependência brasileira diante do Tio Sam. Por isso, os gibis do Pato Donald, do Mickey, do Zé Carioca, do Tio Patinhas seriam, intrinsecamente, nefastos para a vida cultural dos brasileiros, ao promover a desvalorização dos elementos “autenticamente” nacionais e fazer avançar a homogeneização das demandas e dos sonhos mundo afora. Nos anos 1960, houve quem defendesse a urgência de enfrentar o Pato Donald e o Mickey com um exército de sacis-pererês, curupiras e iaras, que preenchessem, com fervor nacionalista, as páginas de revistinhas 100% brasileiras, e populares. A turma da Mônica – a menina dentuça que brandia seu coelhinho azul como borduna na cabeça do Cebolinha, do Cascão, da Magali – foi saudada por muitos como a troupe capaz de ocupar esta suposta lacuna.</p>
<p>Nos anos 1970, na senda de Adorno e Horkheimer, virou moda anatematizar a onipresença dos produtos da indústria cultural no seio da sociedade contemporânea, fenômeno que estaria até mesmo deslocando a “alta cultura” de seu assento tradicional na Universidade. Não haveria mais lugar nem preocupação com a boa literatura, a arte refinada e vanguardista, o humanismo. Tudo estaria sendo sufocado e destruído pela atenção excessiva dedicada à técnica eficaz e pela adesão folgazã à torrente de choques imagéticos e visuais gerada pela “sociedade do espetáculo”. A “anti-cultura”, destilada e disseminada pela indústria cultural, tornaria seus “usuários” cada vez mais dependentes, ignorantes e intelectualmente aleijados. Espécie de zumbis culturais, para ficar no registro dos filmes trash dos anos 1980 e 1990. Banalização, esvaziamento de sentidos, simplificação absurda, entretenimento fácil e fugaz: somente isto os produtos da indústria cultural ofereceriam aos incautos consumidores, enquanto enchem as burras das empresas do setor. Também nos anos 1970 e 1980, sob a chancela de conceitos de certo marxismo que flertava com o estruturalismo então em voga, os gibis, em particular, e a indústria cultural, em geral, foram reduzidos a meras engrenagens nos “aparelhos ideológicos de estado” (Althusser). Curiosamente, a mesma acusação foi desferida contra o futebol.</p>
<p>Ironicamente, porém, a garotada e muitos adultos continuaram lendo gibis e jogando futebol. Fizeram isso com prazer e gratuidade, ainda bem. E aprenderam algo sobre a vida e o mundo nas páginas coloridas dos gibis, nas telas de TV, nos campinhos de várzea e nos estádios onde jogavam os times profissionais com torcidas apaixonadas.</p>
<p>Para comemorar o cinqüentenário do Pato Donald no Brasil, a Editora Abril presenteou os aficionados de HQs com uma série especial, chamada de “Clássicos da Literatura Disney”. Coleção de 20 revistinhas que traz os personagens famosos em estórias inspiradas em obras importantes da literatura mundial, com roteiros e desenhos de Osvaldo Pavese, Guido Scala, Carl Barks, dentre outros. As adaptações livres que compõem cada revistinha representam exercícios instigantes, com resultados diversos, de busca de equilíbrio numa linha tênue entre o respeito ao “original” e a transcriação, entre a homenagem e a vulgarização. Algumas adaptações são inéditas no Brasil, outras já tinham sido publicadas aqui anteriormente. Todos os volumes da coleção têm introduções curtas, mas informativas que esclarecem minimamente a época e a autoria das adaptações, bem como o lugar das obras adaptadas na cultura ocidental. Não há dúvida de que a coleção é iniciativa que agrada colecionadores.</p>
<p>Mas eu penso que ela é também bem-vinda por outra razão. Uma vez que não é desprezível o número de crianças e adolescentes que enveredam pela prática da leitura por causa do contato com os gibis, esta coleção comemorativa dos 60 anos de publicação do Pato Donald no Brasil poderá ser a porta de entrada de muita gente no mundo da “alta literatura”. Quantos não serão induzidos, pela leitura das revistinhas da coleção, a buscarem, mais cedo ou mais tarde, as obras originais? Monteiro Lobato não realizou trabalho similar em seus livros infanto-juvenis, hoje enaltecidos pelos “bem-pensantes”? A Ediouro, nos anos 1970, possuiu uma coleção de livros de bolso, vendida em bancas de jornais, que traziam adaptações de grandes obras da literatura, assinadas por consagrados escritores brasileiros. Eu fui um leitor de carteirinha dessa série da Ediouro – até recentemente guardei a brochura de capa branca de Moby Dick, recontada por Carlos Heitor Cony. Como aconteceu comigo, por que duvidar que outros adolescentes jamais lerão os originais?</p>
<p>Por outro lado, a coleção “Clássicos da Literatura Disney” cumpre o papel de oferecer aos leitores uma lista que coloca alguma ordem na insondável (para os iniciantes) galeria da literatura universal, oferecendo-lhes uma maneira de não naufragar no repertório de opções e, num segundo momento, ajudando-lhes a recortar seus interesses e desenvolver uma paixão pessoal pela literatura.</p>
<p>Apenas o preconceito obstinado é capaz de negar qualquer valor a produtos como as revistinhas comemorativas dos 60 anos de publicação do Pato Donald. Convém lembrar que a industrial cultural nunca encontrou diante de si receptores absolutamente passivos, cérebros vazios como papel em branco, nos quais ela deposita os conteúdos que desejar do jeito que lhe aprouver. Também vale ressaltar que, na história da cultura, os conteúdos e as formas têm enorme circularidade, no sentido de que transitam, de alto a baixo, na pirâmide social e no interior das diversas instituições, de maneira complexa e imprevisível. Por isso, deve-se ter cuidado com afirmações que associam, mecanicamente, “indústria cultural” com “vulgarização” ou “banalização”.</p>
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		<title>Água e montanha no Sudoeste de Minas</title>
		<link>http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/agua-e-montanha-no-sudoeste-de-minas/</link>
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		<pubDate>Tue, 16 Feb 2010 00:27:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[imagens de Minas]]></category>
		<category><![CDATA[imaginário social]]></category>
		<category><![CDATA[Lago de Furnas]]></category>
		<category><![CDATA[Representações sobre as águas]]></category>
		<category><![CDATA[Sudoeste de Minas]]></category>

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		<description><![CDATA[  Povoado de Itaci (carmo do Rio Claro), visto da balsa sobre o Lago de Furnas A “caixa d’água” do Brasil é imensa. Quem se dá ao trabalho de abrir um bom mapa de Minas Gerais vê que muitos rios cortam o território do estado e que alguns desses rios, porque foram represados, originaram grandes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <div class="img aligncenter size-medium wp-image-678" style="width:512px;">
	<a rel="attachment wp-att-678" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/agua-e-montanha-no-sudoeste-de-minas/img_6653/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/02/IMG_6653-512x682.jpg" alt="Povoado de Itaci (carmo do Rio Claro), visto da balsa sobre o Lago de Furnas" width="512" height="682" /></a>
	<div>Povoado de Itaci (carmo do Rio Claro), visto da balsa sobre o Lago de Furnas</div>
</div>
<p>A “caixa d’água” do Brasil é imensa. Quem se dá ao trabalho de abrir um bom mapa de Minas Gerais vê que muitos rios cortam o território do estado e que alguns desses rios, porque foram represados, originaram grandes lagos. Enormes reservatórios de água doce, sem ondas, mas azuis como o céu. Mares interiores, que flertam com serras circundantes, e animam cidades diversas, enchendo-as de pescadores e banhistas.<br />
Talvez o mais famoso desses mares mineiros seja o Lago de Furnas. Chamado de “Mar de Minas”, o Lago de Furnas possui números impressionantes. O “Mar de Minas” é cinco vezes maior que a Baía de Guanabara – a superfície do espelho d’água mede quase 1.500 km2. O volume de água alcança 23 bilhões de m3, e o perímetro da costa do “Mar de Minas” chega a 3.700 km (quase metade da extensão do litoral brasileiro). A usina hidrelétrica de Furnas produz até 1.216 megawatts de energia. O lago banha mais de 30 municípios, onde habitam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Um mar de água doce que molha montanhas, vales, matas, plantações de milho e de café. Que não tem praias compridas de areia clara, mas encanta por causa de cânions com cachoeiras que deságuam diretamente no lago.</p>
<p>Como surgiu este imenso lago artificial? Em 28 de fevereiro de 1957, Juscelino Kubitschek de Oliveira criou a Central Elétrica de Furnas, por meio de decreto assinado no Palácio do Rio Negro, em Petrópolis (RJ). O então Presidente, no âmbito de seu Plano de Metas – que objetivava fazer o país avançar “50 anos em 5” – ousava construir a maior e mais moderna usina hidrelétrica do Brasil, para evitar o colapso energético do Sudeste. No ano seguinte, as obras começaram, tanto na construção da barragem como dos túneis de desvio da nova usina. A sede da empreitada ficou em Pouso Alegre e um dos acampamentos de “furneiros” – os trabalhadores das obras civis da hidrelétrica – foi instalado em Carmo do Rio Claro. Quatro anos foram consumidos na construção da barragem, situada na garganta do Rio Grande, a jusante de sua confluência com o Rio Sapucaí. Em 1962, o lago de Furnas começou a encher rapidamente, alterando as paisagens regionais e afetando a vida de muitas cidades e famílias.</p>
<p>Principalmente em Guapé, Carmo do Rio Claro, Alfenas, Boa Esperança e Formiga, as mulheres encheram as igrejas com terços nas mãos, entoando cânticos lamuriosos pedindo por salvação do dilúvio. Fazendeiros se rebelaram contra as obras, tentaram deter a construção da barragem, entraram em choque com as autoridades. Até tropa do Exército de Itajubá deslocou-se para Guapé, para dirimir resistências contra Furnas. A inundação terminou ocorrendo: submergiram povoados, estradas, fazendas, memórias, afetos. O enchimento do reservatório de Furnas obrigou a mudança de numerosas famílias de áreas rurais para as maiores cidades da região.</p>
<p>O “Mar de Minas”, contudo, está aí. Grande, azul, cheio por causa das boas chuvas dos últimos anos. Em torno dele avolumam-se promessas e problemas, mas já não há tantas resistências como nos anos 1960 e 1970. As cidades da região não querem mais ficar de costas para o “Mar de Minas”, querem aproveitá-lo de alguma forma. Tateiam em busca de caminhos para alcançar o desenvolvimento.</p>
<div class="img aligncenter size-medium wp-image-682" style="width:512px;">
	<a rel="attachment wp-att-682" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/agua-e-montanha-no-sudoeste-de-minas/img_6627/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/02/IMG_6627-512x384.jpg" alt="Braço do Lago de Furnas. Ao fundo, Pico de São Gabriel e Serra da Tormenta" width="512" height="384" /></a>
	<div>Braço do Lago de Furnas. Ao fundo, Pico de São Gabriel e Serra da Tormenta</div>
</div>
<p>O Lago de Furnas, enfim, impede a indiferença. Não se pode observá-lo, de longe ou de perto, sem se inquietar, sem pensar na relação intrincada dos mineiros do sudoeste com as águas, as águas dos rios e as águas da represa, as águas de ontem e as águas de hoje. Não se consegue percorrer as áreas lindeiras ao lago sem matutar sobre a paixão intrincada, paradoxalmente explícita e recatada, do mineiro pelo mar. Os poetas é que sabem falar dessas coisas. Um deles, Cacaso, escreveu “O Fazendeiro do Mar”, de que transcrevo abaixo alguns versos:</p>
<p>“Mar de mineiro é vão/ mar de mineiro é chão/ (&#8230;) mar de mineiro é lagoa/ (&#8230;) Mar de mineiro é viagem/ (&#8230;) mar de mineiro é margem/ (&#8230;) Mineiro tem o mar de menos/ mineiro tem o mar de mais/ (&#8230;) Mar de mineiro é savana/ mar de mineiro é sovina/ mar de mineiro é banana/ mar de mineiro é bonina/ mar de mineiro é mina/ (&#8230;) mineiro tem o mar de fonte/ mineiro tem o mar de rio/ mineiro tem o mar de monte/ mar de mineiro é horizonte/ Mar de mineiro é tudo/ (&#8230;) Mar de mineiro é mar/ (&#8230;) mar de mineiro é ar/ mar de mineiro é lago/ mar de mineiro é vago/ (&#8230;) mar de mineiro é profundo/ (&#8230;) mar de mineiro é mundo/ (&#8230;) mar de mineiro é montanha/ (&#8230;) mar de mineiro é benvindo/ mar de mineiro é maldito/ (&#8230;) mar de mineiro é céu/ (&#8230;) Mar de mineiro é centro/ (&#8230;) mar de mineiro é dentro/ (&#8230;) Mar de mineiro é arroio/ (&#8230;) mar de mineiro é aboio/ (&#8230;) mar de mineiro é minério/ Mar de mineiro é Gerais/ mar de mineiro é campinas/ mar de mineiro é Goiás/ Mar de mineiro é colinas/ mar de mineiro é minas”.</p>
<p>Meu primeiro sonho foi ser marinheiro. Tinha, então, 13 anos. Hoje estou vivendo no litoral do “Mar de Minas”, grumete recém-chegado, disposto a singrar o oceano de histórias que se misturaram às terras e águas do Sul, na antiga bacia do Sapucaí.</p>
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		<title>No sábado de Carnaval, de automóvel e balsa</title>
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		<pubDate>Sun, 14 Feb 2010 02:34:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[história ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[História regional]]></category>
		<category><![CDATA[memórias]]></category>
		<category><![CDATA[Carmo do Rio Claro]]></category>
		<category><![CDATA[História de rios e lagos]]></category>
		<category><![CDATA[Sul de Minas]]></category>

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		<description><![CDATA[Balsa de Itaci, lago de Furnas em Carmo do Rio Claro Viajar é, para mim, um prazer inigualável. Aprecio o movimento, o esforço de ligar paisagens infinitamente variáveis às linhas dos mapas rodoviários e das cartas geográficas, na tentativa de pôr carne nos esqueletos minuciosos – porém bidimensionais – gerados pela ultramoderna cartografia. Penso também [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><div class="img size-full wp-image-664 aligncenter" style="width:640px;">
	<a rel="attachment wp-att-664" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/no-sabado-de-carnaval-de-automovel-e-balsa/balsa/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/02/Balsa.jpg" alt="Balsa de Itaci, lago de Furnas em Carmo do Rio Claro" width="640" height="480" /></a>
	<div>Balsa de Itaci, lago de Furnas em Carmo do Rio Claro</div>
</div>
<p>Viajar é, para mim, um prazer inigualável. Aprecio o movimento, o esforço de ligar paisagens infinitamente variáveis às linhas dos mapas rodoviários e das cartas geográficas, na tentativa de pôr carne nos esqueletos minuciosos – porém bidimensionais – gerados pela ultramoderna cartografia. Penso também que o historiador regionalista precisa viajar, percorrer os lugares sobre os quais recai sua vontade de pesquisar, perder-se nas rugosidades do território e do espaço social. E, principalmente, acredito que devemos valorizar o problema da formação regional como eixo historiográfico indispensável para a compreensão da história nacional.</p>
<p>Mesmo que essas coisas sejam somente racionalizações para meu “espírito de andarilho”, formado em viagens de infância pelos trilhos sertanejos da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e fortalecido nas leituras adolescentes de Jack London, o fato é que aproveito os feriados prolongados para rodar, para conhecer mais pedaços de Minas Gerais, para conversar com outros mineiros e descansar debaixo de árvores de praças diferentes. Subir montanhas que não vira antes, entrar em águas que jamais tocara, queimar a pele outra vez, mesmo que o cair da noite se faça acompanhar de incômodas ardências. Essas pequenas viagens me rendem perguntas, dúvidas e hipóteses – por quanto tempo ficarão à espera de projetos de pesquisa que buscarão elucidá-las?</p>
<p>Neste sábado de Carnaval, saí de Alfenas para conhecer Carmo do Rio Claro, um ponto afamado no litoral do Mar de Minas. Uma cidade pequena aos pés da Serra da Tormenta, cujas terras são banhadas por braços do lago de Furnas. Urbe hospitaleira, organizada, onde se pode saborear comida simples e gostosa, boa cachaça, doces extraordinários. Carmo do Rio Claro oferece artesanato em tecido, variado, notável e tem o bom senso de não esfolar o visitante com preços absurdos. A tecelagem de panos grossos de algodão, na base da roca e do tear de madeira, na melhor tradição da indústria têxtil doméstica do Oitocentos, está sabendo utilizar ferramentas modernas de gestão, capacitação de mão de obra e comercialização/divulgação da produção. A atividade secular foi retomada em novas bases, e parece ter futuro promissor em Carmo do Rio Claro. Na área rural do município, de enorme beleza, a lavoura do milho e a cafeicultura predominam, embora a pecuária de leite conserve posição de destaque. O que se observa é a modernização da agropecuária local, processo que não parece ficar circunscrito às maiores propriedades, pois alcança as unidades camponesas. Nesse aspecto, Carmo do Rio Claro não destoa do que acontece no Sul de Minas. O dado singular talvez seja a cronologia: no município, essa modernização é tardia se comparada a outras partes da região. A própria cafeicultura adquiriu maior força nas terras carmelitanas a partir dos anos 1960, coisa, portanto, recente.</p>
<p>Quem percorre os caminhos rurais de Carmo do Rio Claro não perde a referência da Serra da Tormenta e, recorrentemente, avista as águas azuis de Furnas nos fundos de vales. Espelho d’água brilhante que não deixa esquecer quanta terra agricultável ficou submersa ao se fecharem as comportas da Usina Hidrelétrica de Furnas, no início dos anos 1960. Minha impressão é a de que apenas hoje, mais de cinqüenta anos depois do enchimento do lago, os carmelitanos acomodaram-se à transformação radical do espaço regional desencadeada pelo projeto de Furnas. Somente agora as antigas queixas das numerosas famílias afetadas pela construção de Furnas – queixas que não foram esquecidas, é claro – começam a ser nuançadas, e não silenciam completamente as vozes dos que enxergam perspectivas renovadas para a cidade e sua gente. O trauma do passado começa a ser superado, por meio de uma combinação espontânea de reconversão agrícola (cafeicultura), manufatura de tecidos e negócios de lazer (pousadas e pesca esportiva) que exploram o mundo de água e o sol que Carmo do Rio Claro tem o ano inteiro.</p>
<p>Na volta para Alfenas, escolhi passar por Itaci e Campo do Meio. Estradas de terra e travessias em balsas sobre o lago de Furnas eram as vantagens dessa opção. São dezenas de quilômetros no meio de imenso jardim, de faixas cultivadas com esmero que descem até as margens do espelho d’água da represa e se estendem, para oeste, até os contrafortes de serra magnífica, espichada no sentido norte-sul. Na balsa de Itaci, conversei com uma velha senhora que retornava a sua terra natal para passar o Carnaval. Ela falou sobre o rio Sapucaí, afogado pela represa quando ela era criança. Lembrou-se do vapor que navegava pelo Sapucaí. Mas preferiu lamentar as vidas que afundaram nas águas de Furnas, vidas de moços e meninos que o lago tragou nesses anos todos. Entre elas, a de seu jovem e belo sobrinho que voltava de festa numa fazenda próxima a Itaci, vida perdida por causa do naufrágio da canoa em que seis pessoas atravessam o lago, conduzidas por um barqueiro bêbado. Impossível não pensar no repertório multifacetado de sofrimentos, tensões e conflitos que o lago de Furnas acumulou na região. Essa matéria doída não deve pertencer exclusivamente à seara dos memorialistas – dizia eu para mim mesmo, já na estrada de Itaci para outro porto de balsa que atravessa para o lado de Campo do Meio.</p>
<p>As rápidas manobras desta segunda balsa para permitir o embarque de três veículos deram-me uns minutos para conversar com um senhor que observava o movimento. Nascido nos anos da Segunda Guerra, ele apontou a linha do leito do rio Sapucaí. Indaguei sobre a navegação de vapores, ao que o homem respondeu que o trânsito de embarcações cessara antes do enchimento do lago, ainda nos anos 1950. De criança, ele viu o vapor subir e descer o Sapucaí. Quando subia, levava no sentido de Alfenas principalmente manteiga e doce, fabricados no entorno de Carmo do Rio Claro. Quando descia, o vapor trazia sal, querosene e artigos industriais. O curtíssimo testemunho do septuagenário senhor coloca uma dúvida: poderá mesmo ser creditada na conta dos malfeitos de Furnas a extinção da navegação no Sapucaí, como querem muitos memorialistas do Sul de Minas?</p>
<div class="img aligncenter size-full wp-image-666" style="width:657px;">
	<a rel="attachment wp-att-666" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2010/02/no-sabado-de-carnaval-de-automovel-e-balsa/jardineira-atravessando-o-rio-sapucai-2/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2010/02/Jardineira-atravessando-o-rio-Sapucaí1.jpg" alt="Jardineira atravessando o rio Sapucaí" width="657" height="716" /></a>
	<div>Jardineira atravessando o rio Sapucaí</div>
</div>
<p>Na segunda travessia de balsa, na estrada para Campo do Meio – outra cidade pousada à beira das águas de Furnas –, e, finalmente, na sinuosa rodovia asfaltada que leva a Campos Gerais e Alfenas, permaneci enredado na frase de Guimarães Rosa: “Perto de muita água, tudo é feliz”. Será assim realmente? Ou apenas é assim nas veredas do sertão?</p>
<p>Neste sábado de Carnaval, viajando de automóvel e balsa, convenci-me de que a “história íntima” do Mar de Minas está para ser escrita.</p>
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		<title>O que Petrópolis tem a ver com Jequitinhonha ou Paraguaçu?</title>
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		<pubDate>Tue, 03 Nov 2009 19:36:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[memórias]]></category>
		<category><![CDATA[patrimônio cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Cidade]]></category>
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		<category><![CDATA[Petrópolis]]></category>
		<category><![CDATA[Trabalho de campo]]></category>

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		<description><![CDATA[Entre os dias 23 e 25 de outubro último, levei para trabalho de campo na cidade de Petrópolis (RJ), trinta e três estudantes de História da Universidade Federal de Alfenas. O objetivo da viagem era fazer visitas guiadas a monumentos e museus ligados ao período do Segundo Reinado, bem como discutir com os estudantes, no [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Entre os dias 23 e 25 de outubro último, levei para trabalho de campo na cidade de Petrópolis (RJ), trinta e três estudantes de História da Universidade Federal de Alfenas. O objetivo da viagem era fazer visitas guiadas a monumentos e museus ligados ao período do Segundo Reinado, bem como discutir com os estudantes, no ambiente estimulante e provocativo da antiga “Cidade Imperial”, questões relativas a memória, patrimônio cultural e usos turísticos dos “lugares de memória”.</p>
<div class="img aligncenter size-full wp-image-620" style="width:465px;">
	<a rel="attachment wp-att-620" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/11/o-que-petropolis-tem-a-ver-com-jequitinhonha-ou-paraguacu/casa-da-princesa-isabel-em-petropolis/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/11/Casa-da-Princesa-Isabel-em-Petrópolis.jpg" alt="Casa da Princesa Isabel, em Petrópolis" width="465" height="300" /></a>
	<div>Casa da Princesa Isabel, em Petrópolis</div>
</div>
<p>Logo que o ônibus da UNIFAL-MG estacionou na cidade, ao lado do Palácio de Cristal, bem no início da manhã de um sábado que se revelaria luminoso, quente e cansativo, mas memorável, eu me dirigi aos estudantes para lhes falar sobre os seguintes temas: a) as origens da cidade de Petrópolis, relacionando-as com os problemas urbanos e sanitários do Rio de Janeiro; b) os projetos de colonização do II Reinado; c) as fortunas e o fausto gerado pela cafeicultura, cujos sinais estão visíveis na arquitetura petropolitana e; d) as concepções das elites imperiais sobre a “civilização” do Brasil e as influências recebidas da Europa na segunda metade do século XIX. Procurei estimular os estudantes a identificar elementos no cenário urbano de Petrópolis que indicassem, principalmente, a assimilação de ideias, atitudes e valores provenientes da França e da Inglaterra. Pedi a eles que observassem sem pressa e com olhar meticuloso o casario, o traçado das ruas, a distribuição espacial dos antigos elementos urbanos, os detalhes estilísticos nos edifícios e nos jardins. E que, portanto, usassem e abusassem de suas máquinas fotográficas.</p>
<p>Assim, o dia teve muitas ocasiões nas quais, diante de velhos prédios de Petrópolis, os estudantes exercitaram sua capacidade de classificar estilos arquitetônicos. Um exercício que eu procurei tornar mais que um “jogo” fechado em si mesmo, mobilizando exclusivamente informações sobre estilos de época, técnicas construtivas e escolas artísticas. Quis levar os estudantes a ultrapassar rótulos como neogótico, neoclássico, alpino francês, normando vitoriano, eclético etc. Pedi a eles que refletissem sobre a “Cidade Imperial” como signo concreto de um desejo das elites do Segundo Reinado, o desejo de “civilizar-se”. Desafiei os estudantes a enxergarem Petrópolis como marco de uma ruptura, tentativa de rompimento com o passado colonial e “atrasado”, encarnado nos casarões e igrejas barrocas construídos com adobe ou taipa, madeira e pedra. Petrópolis, ao contrário, foi erigida em pedra e alvenaria, com ferro fundido e vitrais trazidos da Europa. Com jardins conforme a moda européia, amplos e dominados pelo verde de espécies de árvores imponentes. Com racionalidade, expressa na presença de referências neoclássicas e de preocupações higienistas.</p>
<p><span id="more-619"></span></p>
<p>Ao longo daquele sábado, insisti nesse ponto: Petrópolis é o anseio, em pedra, cal, ferro e vidro, de ajustamento da “boa sociedade” imperial aos ideais, valores e modos europeus. A “Cidade Imperial” simboliza o desejo de “civilização”, algo que implicava em negar o passado e, de outro lado, aderir aos padrões estéticos, científicos e culturais da Europa burguesa. Sem abrir mão da agricultura de exportação, é claro.<br />
Durante toda a viagem, fiquei a provocar os estudantes, dizendo-lhes: em diversas cidades do Brasil, este mesmo anseio está impresso na materialidade das ruas e casas. Inclusive, e talvez hoje, principalmente, nas pequenas cidades, pois elas escaparam à fúria modernista que varreu as metrópoles desde os anos 1920. Eu lhes dizia que, nesse sentido, Petrópolis é muito parecida com Jequitinhonha, Pedra Azul, Paraguaçu, bairros belorizontinos como Santa Efigênia e Lagoinha, e tão diferente de Diamantina e Grão Mogol. Obviamente, os estudantes estranharam a proposição. Alguns, porém, acabaram convencidos de que havia algum sentido nela. E graças à familiaridade que eles têm em relação ao casario mais antigo de Paraguaçu, cidade vizinha a Alfenas.</p>
<div class="img aligncenter size-medium wp-image-622" style="width:512px;">
	<a rel="attachment wp-att-622" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/11/o-que-petropolis-tem-a-ver-com-jequitinhonha-ou-paraguacu/imagem-026-2/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/11/Imagem-0261-512x384.jpg" alt="Casarão no centro de Paraguaçu" width="512" height="384" /></a>
	<div>Casarão no centro de Paraguaçu</div>
</div>
<p>Paraguaçu, por exemplo, é bem conservado exemplar de cidade da “belle époque” tropical: casas com fachadas murais, alinhadas rentes às calçadas de ruas que se esforçam para serem retas e longas; telhados escondidos por áticos; paredes externas que abrigam detalhes dóricos, jônicos ou coríntios, ordenados e delicados. Casas que não se fecharam à incorporação de novidades “art nouveau” ou “art decó”, especialmente nos alpendres e nas ferragens de muros e balaustradas. Calçadas de pedras retangulares, nas quais árvores e plantas só se intrometeram recentemente. Tudo isso está à vista em Paraguaçu e em Jequitinhonha, mais na primeira do que na segunda, por que Paraguaçu é resultado da riqueza do café, enquanto Jequitinhonha é produto menos opulento da pecuária extensiva. Tanto numa como noutra, porém, alcançou proeminência esse modo arquitetural que buscava erigir a impressão de ordem, de regularidade e de calma, tão ao gosto das elites proprietárias conservadoras brasileiras. Uma arquitetura que compunha paisagens urbanas harmoniosas e precisas, sujeitas a uma geometria regrada (do espaço e das hierarquias sociais). Uma arquitetura que os modernistas de 1922 desprezaram, viram como nefasta influência européia e acusaram como traidora da arte “nacional” surgida nos tempos coloniais, cuja máxima expressão seria o barroco das “cidades históricas”.</p>
<p>Então, curiosamente, enquanto visitávamos Petrópolis, recordávamos Paraguaçu, Jequitinhonha, Pedra Azul, as praças e ruas de Santa Efigênia. As imagens urbanas interagiam, entrelaçavam-se, disso resultando mais conhecimento, mais sensibilidade. Nas pausas do trabalho de campo em Petrópolis, eu também me percebia no centro velho de Pedra Azul, na praça da matriz de Paraguaçu, como se, magicamente, pudesse estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Não me saíam da cabeça as cidades fantásticas de Italo Calvino, nem a certeza de que, para conhecer Veneza, é preciso viajar até Pequim e lá perder-se nas ruas, entre o povo.<br />
Aproveitei a oportunidade da viagem para fazer emergir das profundezas das rotinas cotidianas, que achatam a consciência de todos nós, estudantes e professores, a percepção da riqueza e diversidade urbanas, das múltiplas experiências vividas que estão presentes ou podem ser identificadas no cenário urbano. Casas, ruas, praças, quintais, jardins, monumentos, espaços coletivos, na sua imensa variedade de formas e cores, expressam concepções e sonhos de indivíduos e de grupos sociais, por meio de diferentes “modos arquiteturais”. Por isso mesmo, temos que compreender essas arquiteturas, valorizá-las e lutar para conservar as suas marcas.</p>
<p>Recomendei aos estudantes que lessem “As cidades invisíveis”, do citado Italo Calvino.</p>
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		<title>Paisagens na janela do carro</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Oct 2009 14:12:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Notas]]></category>
		<category><![CDATA[Relato de viagem]]></category>
		<category><![CDATA[Sul de Minas]]></category>

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		<description><![CDATA[Casarão na Praça da Matriz em Paraguaçu Cafezal na estrada entre Areado e Monte Belo Ao redor de Alfenas existem muitas cidades para conhecer. Para quem acaba de chegar ao Sul de Minas, como eu, a curiosidade não dá trégua. A cada dia, se há sol e tempo firme, a vontade de lançar-se à estrada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="img alignnone size-medium wp-image-581" style="width:512px;">
	<a rel="attachment wp-att-581" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/10/paisagens-na-janela-do-carro/imagem-014/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/10/Imagem-014-512x384.jpg" alt="Casarão na Praça da Matriz em Paraguaçu" width="512" height="384" /></a>
	<div>Casarão na Praça da Matriz em Paraguaçu</div>
</div><div class="img alignnone size-medium wp-image-580" style="width:512px;">
	<a rel="attachment wp-att-580" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/10/paisagens-na-janela-do-carro/imagem-082/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/10/Imagem-082-512x384.jpg" alt="Cafezal na estrada entre Areado e Monte Belo" width="512" height="384" /></a>
	<div>Cafezal na estrada entre Areado e Monte Belo</div>
</div>
<p>Ao redor de Alfenas existem muitas cidades para conhecer. Para quem acaba de chegar ao Sul de Minas, como eu, a curiosidade não dá trégua. A cada dia, se há sol e tempo firme, a vontade de lançar-se à estrada é enorme. Se a luminosidade é intensa e o ar está limpo, a tentação de sair e fotografar as paisagens, as cidades e as pessoas dessa parte de Minas é irresistível. Ainda mais quando se tem, nas disciplinas que leciono, número expressivo de jovens estudantes originários dessas diversas urbes sul-mineiras, relativamente próximas, acessíveis por meio de boas estradas, algumas recentemente refeitas pelo Governo do estado.</p>
<p>Quem lida com história regional precisa ter o hábito de viajar pelo seu “objeto de estudo”. As viagens contribuem para elaborar idéia mais rica do processo de formação dos espaços regionais, da diversidade dos ritmos e dos perfis dos lugares, bem como das tendências que provocam alterações nas relações entre as comunidades no interior da região. Percorrer as localidades e as zonas que constituem uma região é necessário para que o pesquisador apreenda, ainda que numa primeira aproximação, as dinâmicas internas e externas que a singularizam, e permitem, dessa forma, realizar recortes apropriados para as investigações que se tem em mente. O trabalho de campo ultrapassa, portanto, no caso do historiador regionalista, o mergulho nos arquivos locais e regionais. O viajar desinteressado pela região, à maneira do flâner atento às cores, sons, cheiros, objetos, formas e modos de viver que os sentidos captam, é parte do ofício de quem pratica estudos regionais. O contato com a realidade regional atual é imprescindível, pois dele resultam hipóteses e recursos heurísticos que facilitam o trabalho do pesquisador. Mais do que isso: esse contato nutre a empatia que sempre deve haver entre pessoas, sobretudo quando alguém se impõe o propósito de compreender e interpretar as construções sociais do passado e/ou do presente.</p>
<p>Pensando nessas coisas, empreguei dezenas de horas no sábado e no domingo, dias 10 e 11 de outubro, para visitar cidades que eram apenas nomes no mapa de Minas pendurado na parede de meu escritório. Nomes que eu lera também nas placas de automóveis estacionados nas ruas e praças de Alfenas, principalmente na entrada do Hospital Alzira Velano, do qual sou vizinho por enquanto saudável. Nomes que eu havia julgado, até então, esquisitos, alguns, sonoros, outros. Mas que eu era incapaz de associar a imagens. Nomes que não possuíam relação com elementos geográficos tangíveis, nem me faziam lembrar rostos e monumentos. Percorri mais de trezentos quilômetros para começar a formar meu “mapa mental” da região ao sul-sudoeste do gigantesco lago de Furnas. Um primeiro passo na direção de conhecer o Sul de Minas, insuficiente por sua abrangência e impreciso pela rapidez com que foi realizado. Nesse giro, visitei Paraguaçu e Fama, Areado, Monte Belo, Divisa Nova, Serrania e Machado.</p>
<p><span id="more-579"></span></p>
<p>A impressão mais marcante, no que se refere ao aproveitamento econômico da área, é obviamente produzida pelo café. As lavouras de café ocupam terras imensas, avançando pelas encostas dos morros, até praticamente o topo. Não importa se o terreno é de ondulação mais suave ou bastante movimentado, o café conquista-o palmo a palmo, às vezes alcançando o acostamento da rodovia. Tem-se, então, a sensação de atravessar um “corredor polonês” constituído por soldados verdes baixinhos, perfeitamente enfileirados numa ordem unida que atravessa anos. Um espetáculo de desnortear os olhos, tal a variedade de tons de verde, de direções dos cafeeiros ao longo das curvas de nível, de manchas de matas nativas e secundárias que surgem repentinamente. Não raro o verde confronta, embaixo, com o azul levemente ondulado dos braços do lago da represa; em cima, além dos mil, mil e duzentos metros de altitude, o verde é detido pelo azul claro, esbranquiçado, de um céu excepcionalmente luminoso no final da primavera. Mas o café começa a ter seu reinado ameaçado. A cana expande-se, faminta, arada, cercando Areado, Monte Belo, Divisa Nova e Serrania. Por isso, os “treminhões” já se tornaram freqüentadores rotineiros das estradas da região, arrastando-se lentamente sob volumosa e pesada carga de canas queimadas.</p>
<p>Outra impressão forte é gerada pela resistência – será esse o termo mais apropriado? – da pequena e média propriedade rural. Salpicadas pelas margens das estradas, organizadas ao redor de casas de morada despretensiosas e reduzidos terreiros para secagem de grãos de café, essas propriedades quebram a monotonia do verde espichado e folgazão das grandes lavouras. Os sítios e as fazendinhas deságuam caminhos de terra sobre o piso asfáltico das rodovias regionais. Junções que forçam paradas de ônibus, ao colocarem homens, mulheres e muitas crianças na beira das estradas. Gente sem pressa à espera da hora de ir ou de vir, no movimento pendular que entrelaça roças, povoados e núcleos urbanos – por isso, a rua de comércio transborda no meio do dia. É a presença dessa agricultura de talhe familiar que mantém vivo o charme que ainda há na feira de domingo, em Alfenas. E também é ela que abastece com produtos deliciosos as vendinhas de estrada, como o Quiosque da Cris, há cinco quilômetros de Monte Belo. Um cantinho simpático em que, ao lado da indefectível coca-cola, o viajante pode saborear doces, quitandas, queijos e embutidos de fabricação artesanal, oriundos de cidades do Sul de Minas.</p>
<p> </p>
<p>Cidades cujos rostos têm feições diversas. Elas expressam o peso econômico e político que o Sul de Minas alcançou nos estertores do século XIX e nas décadas iniciais do século XX, de que é sinal o fato de Paraguaçu, Areado, Monte Belo e Machado serem sedes de comarcas, mesmo com populações pequenas e pouquíssima distância de Alfenas, Varginha ou Poços de Caldas. Na verdade, algumas dessas cidades são aglomerações de casas, com tímidas funções urbanas, circundando praças de igrejas. Não chegam a causar boa impressão no viajante. Divisa Nova, Monte Belo e Fama são desse tipo, embora a última possua o atrativo de flutuar exatamente sobre a linha d’água do lago de Furnas. É uma das “praias” do “mar de Minas”, cortejada por jet skis, lanchas, balsas e barcos. Areado tem praça central agradável, cuidadosamente ajardinada, cercada por alguns edifícios de bela aparência, nem todos conservados adequadamente. Seu traçado é sinuoso, por causa dos morros que compõem o sítio urbano. E pode ser examinado do alto, graças a um mirante situado a pouca distância da igreja matriz, onde foi erigido um alto cruzeiro em ferro fundido, nas comemorações do primeiro centenário da Independência. Porém, o que me chamou atenção foi o número de estabelecimentos que comercializam artesanato, principalmente produtos de tecelagem manual. As rocas e os teares de madeira retomaram sua força nessa cidade, agora fabricando peças que decoram residências mineiras e paulistas. Algo para se estudar, não há a menor dúvida.</p>
<p>Machado é urbe mais encorpada, que se desdobra sobre vertentes íngremes de morros relativamente elevados. Uma cidade que parece viver em dois níveis. A parte mais baixa, ocupada no passado pelas instalações da estrada de ferro, está ligada ao comércio de máquinas e implementos rurais, de gêneros agrícolas e contém também unidades industriais. A parte mais alta, cujo centro é uma bela praça, concentra o comércio mais refinado e os serviços financeiros e administrativos. Curiosamente, há em Machado mais adensamento do que na vizinha Alfenas. Questão talvez de topografia. Ou teria havido ali menor acumulação de capitais do que no antigo distrito de São José e Dores? Seja como for, há muitas décadas Machado chama a si mesma de “Atenas do Sul”, gabando-se de cultivar certo refinamento cultural, em alguma medida revelado no casario e no arruamento da cidade.</p>
<p>Ah, Paraguaçu surpreende. É uma pequena jóia. Delicada e singela jóia, como os brincos de coco e ouro oitocentistas fabricados em Diamantina e Minas Novas. Quem passa pela BR-491 geralmente não se dá conta disso. Entretanto, o viajante que entra em Paraguaçu logo percebe que a cidade é mantida no capricho. Há muitos casarões da primeira metade do século passado bem conservados, duas praças grandes e de paisagismo agradável. As ruas centrais, dispostas à maneira de curvas de nível, elegantemente calçadas, facilitam a caminhada e revelam a pujança que, outrora, a localidade possuiu. Paraguaçu é, por causa de seu patrimônio de “pedra e cal”, uma atração na bacia do Sapucaí. Creio que, nesse caso, vale inteiramente o ditado popular: tamanho não é documento.</p>
<p>É claro que ainda há muito para eu conhecer no Sul de Minas. Espero voltar mais vezes aos lugares que visitei nos dias 10 e 11, dispensando a velocidade do automóvel e libertando-me das limitações que esse tipo de veículo impõe ao ângulo de visão do observador. Desejo passar tempo maior nessas cidades, examinar os arquivos locais, conversar com as pessoas, ler seus cronistas e memorialistas. Percorrer as cercanias, visitar sítios e fazendas, descansar nas margens de seus córregos sob a sombra de suas árvores. Disposição não me falta. Nem bons guias, que são meus estudantes nos cursos de Ciências Sociais e História da Universidade Federal de Alfenas.</p>
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		<title>O Coelhão voltou!</title>
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		<pubDate>Mon, 21 Sep 2009 12:47:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[América Futebol Clube]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Doze mil e quinhentos felizardos, a maioria vestidos nas cores verde e preto, viram o glorioso América Futebol Clube, o América Mineiro, o Coelho mais famoso das Minas Gerais, alcançar mais um título nacional. Dessa vez, fomos campeões da Terceirona, vencendo o ASA de Arapiraca, da nordestina Alagoas. Sábado de sol quente e céu azul, sem nuvens, quase sem vento, cenário perfeito para conquista elevada. O calor no antigo estádio do Horto, o aconchegante Independência, a toca do Coelho, tornou a torcida ainda mais animada. Até houve transmissão ao vivo pela TV, coisa que, a bem da verdade, não ocorre rotineiramente em jogos do América. Por algumas horas, o Coelho voltou a ser um dos grandes de Minas. Fazia anos que os americanos não se sentiam tão confiantes, reconciliados com o passado de vitórias do time.</p>
<p>Eu acompanhei o sábado de decisão de longe, a mais de 500 km de Belo Horizonte. De Alfenas, envergando solitária camisa americana, numa terra onde muitíssimos torcem por times paulistas e cariocas. Diante da TV, vi a partida como se fosse um aloprado: roí as unhas, esbravejei com o time, escondi o rosto nos raros ataques perigosos do ASA. Teria sido bem melhor para o coração estar na arquibancada do Independência. De tão longe, torcer pelo Coelho é experimentar uma sensação de exílio, de banimento, de impossibilidade de realização plena da paixão de ser americano. Tive a certeza de que o pior da situação de exílio é não poder compartilhar com os “nacionais” as angústias de viver, de esperar, de desejar e alcançar conquistas coletivas. Os gregos entenderam a psicologia do cidadão ao definirem o ostracismo como pena pesada para aquele que gerou grave ameaça para a “pólis”.</p>
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	<a rel="attachment wp-att-569" href="http://www.minasdehistoria.blog.br/2009/09/o-coelhao-voltou/america-seriec-gazetapress/"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/09/america-seriec-gazetapress.jpg" alt="América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009" width="436" height="298" /></a>
	<div>América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009</div>
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<p><span id="more-568"></span></p>
<p>Eu nada fiz que colocasse em risco a existência do América. Todavia, devo confessar: sem a presença de outras pessoas com camisas do América, a vitória teve brilho um pouco menor. Foi mais triste, talvez excessivamente fria e fugidia. A alegria do título baixou rapidamente, logo que o juiz encerrou a partida – faltaram as bandeiras, a gritaria e o barulho da charanga, a carreata, a festa na praça. Quando o Coelho sagrou-se campeão brasileiro da Série B, no ano de 1997, eu, montado num scooter italiano novinho em folha, integrei uma carreata de americanos pelas ruas de Pedro Leopoldo. Foram apenas oito veículos, mas o júbilo era imenso. Dessa vez, não ouvi sequer um foguete.</p>
<p>Por isso, tendo a ser menos otimista do que os americanos que gritaram na arquibancada do Independência: “O Coelhão voltou! O Coelhão voltou!”. Compreendo o desabafo. O grito também me deixou de alma lavada. Mas é preciso ter a cabeça no lugar, não deixar que o “calo da vitória”, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto, impeça os americanos de enxergar o terreno sobre o qual caminhamos. O futebol de hoje não é habitat amigável para o Coelho de Minas. Ficamos pequenos demais, de forma que teremos que adquirir musculatura para voltar a integrar a elite do futebol brasileiro. Hoje, o América Mineiro é time de Segunda Divisão. E assim continuará por vários anos. Não há demérito nisso, pois penso como os ingleses: a Segunda Divisão também é um luxo. O sucesso prolongado na Segundona é o meio para levar o América de volta para a elite dos times brasileiros, pois será a condição para encorpar a torcida e as receitas do clube, reposicionar a marca. No futebol de hoje, negócio multimilionário, não há espaço na Primeirona para times nanicos, com torcidas reduzidas, simpáticas, mas desacostumadas a freqüentar os estádios, que não envergam, no dia-a-dia, a camiseta do clube, que não sabem cantar o hino do time. Aliás, no caso do América, o hino é de uma infelicidade extrema – parece música composta para sarau da Academia Mineira de Letras.</p>
<p>O Coelhão voltará para a primeira Divisão – e ficará lá – somente quando recuperar a condição de time de massa. Quando abandonar o que me parece ter sido a escolha nefasta de sua história: conformar-se de ser o segundo time no coração de cada mineiro, o time da fina flor da sociedade mineira, engraçadinho, educado, simpático, engomadinho. Sem grande torcida, não há como atrair grandes patrocinadores. Sem grande e fanática torcida, não haverá bilheteira reforçada. Nem marketing esportivo capaz de gerar dinheiro suficiente para montar equipes de ponta. A trajetória elitista do América Mineiro, perseguida com denodo desde o pós-1945 – por puro preconceito, é bom que se diga –, aprisionou o Coelho num círculo vicioso, que será difícil romper. Depois da Lei Pelé, que acabou com a “semi-escravidão” do jogador de futebol, liberando-o dos grilhões do clube que mais parecia uma “casa grande”, sequer restou ao América a alternativa que lhe garantiu a sobrevivência nos anos 1970 e 1980: revelar, e depois vender, jovens jogadores bons de bola. A parte do clube-formador é relativamente pequena, nas transações do atual mercado de jogadores.<br />
Se o América almeja voltar para a Primeira Divisão, e nela fincar pé, deverá optar pela massa, porque, nas eleições como no futebol, é o povão que garante a vitória.</p>
<p>E viva o América! Coelhão, Coelhão, Coelhão!</p>
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