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	<title>Minas de História &#187; Conto</title>
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	<description>Minas de História é uma janela para o passado mineiro; é o weblog de Marcos Lobato Martins, professor, doutor em História Econômica pela USP, autor de livros como História e Meio Ambiente (2007) e Breve História de Diamantina (1996). Pretende abrigar leituras de historiografia sobre Minas Gerais e apresentar pequisas sobre a trajetória regional.</description>
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		<title>Prosas do Espinhaço central VI</title>
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		<pubDate>Fri, 03 Jul 2009 22:29:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[diamante]]></category>
		<category><![CDATA[Jequitinhonha]]></category>
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		<description><![CDATA[A perdição do pescador no Mendanha Joaquim Ferreira de Aguiar era jovem, mulato de corpo bem-feito, ágil e cheio de expediente, embora não tivesse muitas luzes. Morava na beira do rio Jequitinhonha, na margem esquerda do rio, a poucos passos da escada que conduzia ao adro da igreja do Mendanha, dedicada a Nossa Senhora do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>A perdição do pescador no Mendanha</strong></p>
<p>Joaquim Ferreira de Aguiar era jovem, mulato de corpo bem-feito, ágil e cheio de expediente, embora não tivesse muitas luzes. Morava na beira do rio Jequitinhonha, na margem esquerda do rio, a poucos passos da escada que conduzia ao adro da igreja do Mendanha, dedicada a Nossa Senhora do Rosário. Vivia das águas do rio, não como muitos de seus conterrâneos, afeitos ao trabalho de garimpo. Joaquim era pescador, profissão aprendida com o pai, um português que morreu quando ele contava pouco mais de dez anos de idade.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-502 aligncenter" style="width:500px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/07/vista-de-mendanha.jpg" rel="lightbox[501]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/07/vista-de-mendanha.jpg" alt="" width="500" height="333" /></a>
	<div>Vista de Mendanha, com o rio Jequitinhonha em segundo plano. Foto Luiz Oliveira.</div>
</div>
<p>O pai de Joaquim viera do litoral norte, de uma aldeia de pescadores próxima ao Porto. Ele sonhara fazer fortuna na extração de diamantes. Chegou apenas com a coragem para tentar a sorte nas terras altas do Distrito Diamantino. Logo, o pai de Joaquim enrabichou-se por uma negra forra, tomou-a como esposa e meteu-se no garimpo, lá pelas bandas do Curralinho. Falante, especialmente quando provava uma boa cachaça, o garimpeiro português foi apanhado pelos pedestres da Real Extração, sendo acusado de mineração ilegal e contrabando de diamantes. Condenado, amargou anos de prisão na casa de Câmara e Cadeia da Vila do Príncipe. Cumprida a pena, o homem procurou sua mulher, juntou as poucas tralhas que lhes pertenciam e mudou-se para Mendanha. O povoado vivia, então, afamado pelos novos descobertos de diamante e pelo bom comércio que tinha lugar em suas ruas, por causa das tropas que serviam o Termo de Minas Novas.</p>
<p><span id="more-501"></span></p>
<p>Em Mendanha, abatido pelas agruras sofridas na cadeia, o velho homem do Porto reaprendeu a pescar. Construiu sua canoa e varas de pescar, comprou anzóis e juntou-se aos pescadores que tiravam do Jequitinhonha, muito piscoso naquela época, sacos pesados de surubins, dourados, traíras, piaus, curimatãs, bagres. Limpava o pescado na barranca do rio, enchia cestos de vime e vendia o produto parte no Mendanha, parte nas intendências do Arraial do Tijuco. Apesar da distância, o preço mais elevado, pago pelos fregueses do Tijuco, compensava a caminhada ao longo da acidentada Estrada Real. Pelo menos uma vez por semana, o pai de Joaquim Ferreira de Aguiar gastava suas sandálias de pescador na trilha que ligava Mendanha ao Tijuco.</p>
<p>Joaquim nasceu na beira do rio. Mal engatinhava e já saía na canoa do pai. Acostumou-se a comer peixe com farinha – era sua comida diária, assim que deixou o peito da mãe. Brincava no raso do rio, entre canoas, varas, linhas e anzóis. Feriu o corpo muitas vezes com os instrumentos de pesca. Mas Joaquim não se afastava deles. Ao contrário, pediu ao velho português que lhe ensinasse tudo sobre pesca, peixes e rios. Aos dez anos, pouco mais ou menos, tornara-se bom pescador. Foi quando nasceu sua irmã, batizada como Anita, num parto difícil que custou a vida de sua mãe. O velho desarvorou-se em desespero, definhando lentamente. Cinco anos depois, os dois meninos ficaram órfãos. Na véspera dos festejos natalinos de 1800.</p>
<p>Com o parco dinheiro das pescarias, Joaquim Ferreira alimentava e vestia a si e a sua irmã. Anita era boa menina, contentava-se com as coisas simples do lugar e ajudava o irmão mais velho a manter a casinha que herdaram do pai. Ela empregou-se na venda de Manoel Caetano, antigo amigo da família, com quem Joaquim conversava frequentemente, quando deixava o rio. Joaquim amarrava a canoa numa estaca perto da venda. Limpava os peixes na água do rio, salgava o pescado com sal grosso comprado nas mãos de Manoel Caetano, separava os bagres menores que levava para fritar na cozinha do amigo. Anita preparava o tira-gosto. No meio de outros fregueses, Joaquim e Manoel bebiam aguardente e comiam os bagres passados na farinha de mandioca. A conversa fluía até bem adiantada a noite. Retornava sempre ao mesmo ponto, desdobrando-se como ladainha antiga. Joaquim Ferreira dizia ao amigo:<br />
_ Manoel, um dia eu viro outro. Enrico e saio daqui. Mudo para o Tijuco, levo a Anita. Ponho minha irmã numa casa boa, e volto para buscar a Maria Flor.<br />
_ De que jeito, meu amigo? Um pescador não ganha dinheiro para isso. O que dá dinheiro nessa parte do mundo é diamante ou ouro.<br />
_ Até parece que o amigo, negociante experiente, não enxerga em volta. Quem minera precisa comer, vestir, usar remédios. Diamante não mata fome nem protege do frio. O povo do Tijuco aprecia peixe fresco e seco, também. O bacalhau que vem do Rio de Janeiro é muito caro. Os peixes do Jequitinhonha, mais baratos, vendem bem.<br />
O mercador engoliu um bagre, lavou a goela com um gole de pinga. Jogou a cabeça de um lado para o outro, arranhando a garganta. Olhou para o jovem pescador e sentenciou, em tom de exasperação.<br />
_ Joaquim, você está iludido, homem. Há muitos outros pescadores no Jequitinhonha que também precisam vender. E o mercado do Tijuco é pequeno. A Vila do Príncipe é menor ainda. Com pescaria, você mal sobrevive.<br />
Joaquim olhou para o fundo da venda. Chamou a irmã, ao mesmo tempo em que baixou o copo sobre o balcão. Rispidamente, virou-se para Manoel Caetano e respondeu:<br />
_ O tempo dirá. Este pescador vai subir na vida. E, quando isso acontecer, nunca mais pisará no Mendanha.</p>
<p>O povoado, entretanto, não se dobrava à vontade de Joaquim Ferreira de Aguiar. As casas continuavam de pé, as águas do Jequitinhonha teimavam em correr, arrastando canoas de pescadores queimados pelo sol. As lavras prosseguiam, ora rendosas, ora penosas. Maria Flor andava no Mendanha bonita demais, uma boniteza de enlouquecer os homens. Toda vez que via a moça, o pescador mordia os beiços, sentia os músculos do peito vibrarem e o juízo arder em brasa. O efeito de ver Maria Flor era, para Joaquim Ferreira, como o de uma surra de bacalhau, daquelas que só o verdugo dos escravos no pelourinho do Rio Grande conseguia desferir. A visão da morena mais bonita do Mendanha deixava o pescador ansioso, frustrado. O tempo mostrava-se seu inimigo: nada que ele sonhava havia se realizado. Deus parecia não lhe dar ouvidos. Joaquim então chorava, sentado no meio da canoa, o remo jogado entre os joelhos. Misturava lágrimas às águas grandes do Jequitinhonha. E descria de suas próprias forças.</p>
<p>No dia 10 de janeiro de 1805, o pescador levantou cedo. Engoliu café forte e biscoito de goma. Saiu de casa, desceu para o leito do rio, desamarrou a canoa da estaca e, munido do remo, desceu a correnteza. Estava resolvido a lançar anzóis num ponto do Jequitinhonha, abaixo do povoado, denominado Banquinho. Nesse lugar, as águas alargavam-se e corriam preguiçosas, sobre extenso banco de areia, visível no tempo da seca. Dizia-se no Mendanha que o Banquinho estava bom de peixe. Joaquim Ferreira esperava fisgar muitos surubins e dourados. Iscou os anzóis e lançou-os nas águas, bem longe da canoa. Logo, as varas acusaram a fisga de peixes de bom tamanho. O pescador recolheu as linhas, tirou os peixes da água. Atracou a canoa na margem direita do rio, e, com a faca que trazia presa à cintura, começou a limpar o pescado. De repente, nas vísceras de um dourado, cujo tamanho era tão normal, o gume da faca estancou. Joaquim examinou cuidadosamente a barriga do peixe. Com os dedos, apalpou o cálculo que obstruiu a lâmina. Retirou a pedra de dentro do peixe, limpou-a na água e olhou-a contra o sol. Descobriu um diamante de três vinténs.</p>
<p>O susto paralisou o pescador por longos minutos. Um urro, grito entranhado de conquista e felicidade, despertou-o do transe. Os olhos de Joaquim brilharam, enquanto seus pensamentos imediatamente voaram para Anita, Maria Flor e a casa no Arraial do Tijuco. Pôs a canoa de volta no rio e remou para Mendanha, agitado como prisioneiro que evade de uma fortaleza-prisão. Na curta viagem, Joaquim imaginava que, enfim, sua vida mudaria. Atracou na altura da venda de Manoel Caetano. Correu barranca acima, anunciando-se para o amigo aos gritos. Mostrou o diamante e o peixe para o vendeiro, narrou o acontecido e pediu a avaliação da pedra.</p>
<p>_ Manoel, o diamante saiu da barriga do peixe. Essa pedra é o sinal que eu esperava. Agora, você duvida de mim?<br />
_ Meu amigo, a sorte está do seu lado. O diamante não é grande, mas deve valer algumas centenas de mil réis. Muito mais que uma carga de peixes vendida nas intendências do Tijuco.</p>
<p>Joaquim ria feito menino. Tão alto que chamou a atenção da gente do povoado. O povo chegava em cascata, embolado. Para cada grupo que apinhava o balcão, Joaquim repetia a história, mostrava o peixe e a pedra. Como profeta anunciando a boa nova. Um garimpeiro experiente analisou o diamante: era de primeira água, fazenda fina, de três vinténs. Todavia, não valia a fortuna que Joaquim desejava pedir por ele.</p>
<p>Como rastilho de pólvora, a notícia chegou ao Tijuco e navegou sobre as águas do Jequitinhonha. No Tijuco, Joaquim Ferreira foi recebido com a curiosidade que cerca as legações estrangeiras. Os comerciantes, os tropeiros, os escravos e os moleques ouviram a história do peixe cofre de diamante, atônitos. Nos dias seguintes, as bancas de pescado no Arraial do Tijuco ficaram vazias. Os preços de peixes dispararam. Tanto pescadores como comerciantes não conseguiam afastar a possibilidade de que outros peixes, com diamantes talvez maiores dentro de suas barrigas, fossem inadvertidamente vendidos. O fato é que, por esperteza do comércio e dos pescadores ou por temor de perdas, os bagres passaram a custar caro como jóias.</p>
<p>Joaquim Ferreira resolveu arriscar. Pescou e vendeu como nunca fizera antes. Pensava aproveitar o preço alto para juntar dinheiro, pois sua intuição lhe garantia que, dificilmente, ele mesmo fisgaria outro peixe com diamante nas vísceras. Joaquim não queria abusar da sorte grande. Esperava menos, apenas que os preços dos peixes se mantivessem acima da média no decorrer de vários meses. O suficiente para presentear Maria Flor com brocados finos, pedindo-a em casamento.</p>
<p>_ Manoel Caetano, cheguei agora do Tijuco. Nada dá certo para mim, meu amigo. O peixe está barato demais. Maria Flor escapará de minhas mãos.<br />
_ Rapaz, isso não é de seu alvitre. Toma uma pinga e aquieta sua exasperação.</p>
<p>O desalento do pescador ganhou a altura da Serra do Gamboa, porque seus sonhos despencaram de picos íngremes. O movimento especulativo no mercado de pescado do Tijuco refluiu depressa, justamente quando Joaquim Ferreira começou a juntar uns cobres. Na hora que ele parecia notar mais interesse de Maria Flor, procurando sua canoa no meio do rio, entre tantas que navegavam no Mendanha. Para piorar a situação do jovem pescador, no povoado surgiram acusações contra ele. Desafetos e invejosos, que existem como moscas nos montes de lixo, espalharam boatos de que Joaquim tramara aquilo tudo, inventando história absurda para levar vantagem, explorar a parca algibeira do povo e enriquecer como os pedristas que lesam garimpeiros. As comadres do Mendanha encheram os ouvidos de Maria Flor com a lista dos defeitos tidos e havidos do jovem pescador. Aconselharam a morena a afastar-se de Joaquim, a evitar quem vive de espertezas semelhantes às praticadas pelos mascates judeus ou abusados ciganos.</p>
<p>_ Anita, deixa estar. Eu não quero consolo. Essa gente do Mendanha pagará pelo que me faz. Maria Flor principalmente.<br />
_ Irmão, larga esse povo. Vamos embora, recomeçar longe daqui, como fez nosso pai.<br />
_ De jeito nenhum, Anita. O povoado se curvará diante de mim. Nem que eu tenha de pescar no fundo do rio uma baleia empanturrada de pedrarias.</p>
<p>Obstinado, o jovem pescador convenceu-se de que coincidências ocorrem. Mais dia menos dia, haveria de iscar outros peixes que engoliram diamantes. Garimparia a seu modo, inusitado, improvável, sem apegar-se aos misteriosos meandros do jogo do rio. Joaquim Ferreira enfiou-se no Jequitinhonha. Sua canoa carregava alguém que parecia menos pescador do que navegante obrigado a caminhar na prancha de piratas caribenhos. Ele trabalhou sem descanso. Subiu e desceu o rio, lançando anzóis em cada curva e reentrância. Ficou horas com as varas de pesca armadas nas partes do rio em que havia lajes ou corredeiras, sem se distrair com as espumas agitadas e o barulho monótono. Também nos remansos profundos, escuros, que prenunciavam a presença de lapas que abrigassem peixes grandes, Joaquim Ferreira só faltou mergulhar para apanhar peixes com as próprias mãos. Faria isso, não fosse o fato de que nadava igual machado sem cabo.</p>
<p>O jovem pescador fundiu-se com a canoa rústica, escavada no enorme tronco de uma barriguda. Só era visto sobre a canoa, no meio do rio. Assemelhava um poseidon decaído, cavalgando disformes cavalos-marinhos. Ou um Jonas extenuado, entregue ao destino, resignado a terminar seus dias no ventre do monstro que o havia engolido. Joaquim Ferreira pescava dia e noite, sob o calor e o frio, desdenhando da chuva e dos silvos dos animais selvagens que habitavam matas ribeirinhas, ao redor do Mendanha. Nas noites sem lua, alumiava o Jequitinhonha com um candeeiro a azeite, preso por tiras de couro cru na ponta da proa do barco. Nas noites luminosas, graças à lua cheia que prateava as águas do rio e as copas das árvores nas encostas, Joaquim redobrava o esforço na lida, porque notava brilho maior sob as escamas dos peixes. Quem sabe numa noite assim, de lua cheia, iscaria o diamante que tanto procurava?</p>
<p>Sem arroubos de qualquer espécie, o jovem pescador limpava os peixes fisgados, cortava-lhes os ventres num talho profundo, remexia as tripas e, como não deparava com nenhuma pedra, jogava os despojos nas margens. De modo que montes de peixes estripados cobriram determinadas barrancas do rio, apodrecendo sob a ação dos insetos ou servindo de repasto para gatos e urubus. Joaquim Ferreira não levava para casa sequer um quilo de pescado. Anita chorava. O que ela ganhava na venda de Manoel Caetano era pouco para sustentar o rancho da família.</p>
<p>Morta de dor por ver o irmão aluado na correnteza do rio, os cabelos sujos e desgrenhados, a pele queimada a ponto de perder o viço, Anita procurou Manoel Caetano. Julgava que o patrão poderia influir sobre o comportamento do pescador.</p>
<p>_ Seu Manoel Caetano, converse com o Joaquim. Diz pra ele que Maria Flor não vale o sacrifício dele, nem a gente do Mendanha. Recupera o juízo do meu irmão. Promete que vai tentar, Seu Manoel Caetano.<br />
_ Menina, garantia eu não dou. O Joaquim é teimoso, e sobre ele pesa sortilégio muito grande.<br />
_ Como assim, Seu Manoel Caetano? Quem enfeitiçou meu irmão?<br />
_ Anita, é a força do diamante que atarantou seu irmão. Dizem que o diamante é pedra viva, que prende o espírito do homem como o olho da cobra captura o corpo do sapo, deixando o bicho imóvel até que o bote fatal caia sobre o coitado. O diamante tem brilho que cega a alma. Seu irmão perdeu os olhos quando encontrou dentro daquele maldito peixe a pedra de três vinténs. E falam também, Anita, que os diamantes têm seus donos. Não adianta outra pessoa encontrar o carbonato, pois apenas aquele que, pelo destino, é o verdadeiro dono da pedra, será feliz por causa dela.<br />
_ Seu Manoel Caetano, não diz isso. É crença do povo. Deus não deixa isso acontecer&#8230;<br />
_ Menina, há mais de cem anos que essas coisas ocorrem aqui, no Tijuco, no Ribeirão do Inferno, no Curralinho, Milho Verde e São Gonçalo. A experiência dos garimpeiros é essa. Acontece bastante. Quem, por um “desvio da sorte”, pega diamante que não é seu por direito, acaba sofrendo. Mais cedo do que imagina, o sujeito dá pra trás. Perde o rumo e os cobres amealhados. Pode perder a cabeça ou mesmo a vida.</p>
<p>O vendeiro consolou a pobre menina. Não deixaria faltar-lhe as coisas em casa, e ainda pediria ao vigário para rezar missa em favor de Joaquim, assim que o padre apeasse na soleira da porta de entrada da venda. Anita pegou no trabalho, contendo os soluços, com o coração apertado.<br />
As rezas de Anita, os conselhos de Manoel Caetano e a missa do vigário pouco adiantaram. Joaquim não se emendou. Não escutou ninguém. Só pensava em peixes recheados de diamantes e nos presentes que entregaria a Maria Flor, para comprar o amor da morena. A cada dia odiava Mendanha, mais e mais. E entrava no rio como boi que marcha pro matadouro. Todos notavam o sofrimento de seu corpo e o desatino de sua alma. Porém, ninguém se atrevia a fazer qualquer coisa por ele. Além de certo limite, a solidariedade entre os homens se quebra como galho seco de árvore do cerrado. Mendanha, condescendente, ofereceu dó e piedade a Joaquim Ferreira, talvez por que sentisse que ele tinha mal incurável. Doença do espírito, tentação do diabo.</p>
<p>A luta do pescador com o Jequitinhonha e os peixes continuou. Mais tempo do que deveria permitir a Misericórdia Divina. Joaquim Ferreira iscou e estripou milhares de surubins, dourados, traíras, piaus, curimatãs, bagres. Suas mãos ficaram em carne viva. Porém, nenhum diamante escondido no ventre de peixe remediou sua patente insanidade. Até que numa tarde nublada, fria e triste, cinzenta tal qual as rochas nuas que formam a Serra do Gamboa, Joaquim Ferreira desapareceu. Presume-se que tenha descansado. Uma enchente medonha, que há muito não se via no Jequitinhonha, arrastou o pescador, a canoa e as tralhas de pesca. Tudo sumiu de repente, debaixo de mistura pesada, encorpada, de água e lama. Meses depois, a canoa de Joaquim Ferreira de Aguiar foi encontrada numa lagoa marginal, algumas léguas a jusante do Mendanha. Ela estava embicada na lama, coberta até a metade pela água. As varas e os anzóis fisgados jaziam em desordem dentro da embarcação. Do pescador, não havia qualquer sinal.</p>
<p>O povo acorreu para ver. Demorou até alguém criar coragem e aproximar-se da canoa. Ela foi retirada da lagoa. Então, as pessoas cercaram a canoa e se apressaram em abrir a barriga dos peixes que teriam sido os últimos pescados pelo infeliz Joaquim.<br />
Nada foi achado!</p>
<p>Notícia histórica: 10 de janeiro de 1805. Joaquim Ferreira de Aguiar, morador do Mendanha, acha em um peixe um diamante de três vinténs. Foi anzolado no local do Banquinho, no Jequitinhonha. Os peixes subiram de preço com medo de outros peixes terem diamante também! Esperteza do comércio e dos pescadores! (PEREIRA, Célio Hugo Alves.<strong> Efemérides do Arraial do Tejuco a Diamantina</strong>. Belo Horizonte: Edições CLA, 2007. P. 50)</p>
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		<title>Prosas do Espinhaço central V</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 21:58:04 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa]]></category>
		<category><![CDATA[religiosidade]]></category>

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		<description><![CDATA[Gravuras de São Francisco Era tarde. A noite estava úmida, porque chovera o dia inteiro. No quarto escuro, tocava a música de Mignone no pequeno aparelho de som, encostado na parede branca, sobre um tamborete decorado com motivos campestres. O homem, cansado, desejava dormir. Deitou-se, esticou o corpo o mais que pôde, arrumou o travesseiro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Gravuras de São Francisco</strong></p>
<p>Era tarde. A noite estava úmida, porque chovera o dia inteiro. No quarto escuro, tocava a música de Mignone no pequeno aparelho de som, encostado na parede branca, sobre um tamborete decorado com motivos campestres. O homem, cansado, desejava dormir. Deitou-se, esticou o corpo o mais que pôde, arrumou o travesseiro sob a cabeça e fechou os olhos. A música invadiu os ares do quarto. A “Festa das Igrejas” (1940) ressoava. O homem buscava a melhor posição para o sono, virando-se lentamente, enquanto seus ouvidos se enchiam de música. Gradualmente, a penumbra e a música lhe transmitiram torpor. O sono reivindicava o corpo do homem cansado. As resistências baixaram, uma a uma. Os olhos pesados do homem deitado na cama adormeceram.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-414 aligncenter" style="width:352px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/painel-de-sao-francisco-de-assis-obra-de-portinari-na-igrejinha-da-pampulha.jpg" rel="lightbox[413]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/03/painel-de-sao-francisco-de-assis-obra-de-portinari-na-igrejinha-da-pampulha.jpg" alt="" width="352" height="543" /></a>
	<div>Painel de São Francisco de Assis, obra de Portinari, na igrejinha da Pampulha.</div>
</div>
<p style="text-align: center;"><span id="more-413"></span></p>
<p>Mas a cabeça do sertanejo, que estudara na capital para ser mestre-escola, talvez menos cansada do que o corpo, permaneceu em vigília. A música descia fundo nela. Abria caminho até as memórias. As lembranças começaram a pingar. Despertavam imagens da infância, vivida em uma cidadezinha na boca do sertão. Lugar cuja matéria mais superficial, saliente como as incrustações de pedras preciosas nas antigas jóias das senhoras mineiras, era as festas – sagradas e profanas. E, por causa delas, principalmente as festas de santos, sucediam-se quermesses, novenas e procissões. Nas folhas amareladas, porém ainda legíveis, da memória do homem estendido na cama, as visões dos parentes, vizinhos, amigos e simples conterrâneos adquiriram traços firmes, estranhamente realistas.<br />
Ele viu todos entrando e saindo da igreja, em seguida reunidos na Praça da Matriz. Aí, num burburinho contido pelos acordes da banda de música, a procissão começou. Longa fiada dupla de gente, a cada lado das ruas irregularmente calçadas, moveu-se constrangida. Nesse instante, a cidade ficou morta e apenas a procissão era prova de vida. Sinal pesado de devoção a Deus e aos santos. Reafirmação do prestígio de hierarquias estabelecidas, com o padre à frente e as rezas pronunciadas baixinho, entre os dentes dos fiéis.</p>
<p>As velas acesas exibiam chamas sem medo da noite. As luzes da procissão balançavam suavemente. Um bêbado, que não tinha equilíbrio suficiente para acompanhar a corrente de gente, disse com bonomia: “A reza do povo é como a chama da vela, dura pouco e alumia fino”. O padre, metido numa batina comprida e em botas muito bem engraxadas, desferiu contra o bêbado a ameaça de uma excomunhão de mentirinha. Foi o suficiente para afastá-lo do trajeto da procissão. As beatas, então, trocaram olhares determinados, que exibiam o gosto de quem se sente vingado da afronta mais vil.</p>
<p>Era desse jeito toda procissão na cidadezinha na boca do sertão. Porém, a voz do padre nada podia frente aos cães. Nem seus gestos largos, repressivos. Na pequena cidade, mundo acanhado da infância do homem que tentava dormir, os cachorros não respeitavam a compostura das procissões. Latiam para elas com força. Pareciam tenores de ópera de Puccini. Os cães ensurdeciam o espaço quando as procissões passavam diante deles. Tanto os vira-latas na rua como os cachorros de família, presos por correntes detrás dos muros dos quintais. Os cães latiam como se quisessem fazer da cidade em procissão uma verdadeira do inferno. Latiam com raiva, mostravam os dentes, babavam feito demônios. Havia mesmo cachorros que escapavam das soleiras das portas das casas para beliscar as canelas dos músicos. Por razões desconhecidos, os ataques concentravam-se no tocador de tuba. Contra os cães da cidadezinha, o padre nada podia. Muito menos as beatas, cuja fé serena se transformava em reverendíssimos impropérios dirigidos aos cachorros de mais alta expressão. No íntimo, as mulheres beatas, cobertas pelos véus rendados e negros, desejavam que a cidadezinha fosse libertada dos cachorros na hora das procissões ou que Deus mudasse todos eles, fazendo-os imagem e semelhança do Totó esbranquiçado e encardido. Solícito e resignado, Totó era uma exceção canina: acompanhava os féretros até a entrada do cemitério.</p>
<p>Valha Nossa Senhora Aparecida! O volume dramático e o brilho festivo da peça de Mignone vieram em socorro da vigília do homem deitado na cama, já quase inteiramente entregue às cenas fantasiosas da infância. Espantaram momentaneamente o sono de pedra. Apontaram as lembranças oníricas para outra direção: das ruas escuras e frias da cidadezinha para o interior da Matriz, banhado na luz do sol filtrada através dos vitrais. Nesse espaço sagrado, tornado ainda mais singular pelos raios oblíquos de cores diversas, suaves, que pareciam construir pontes entre o céu e a terra, o homem que tentava dormir tirou o Catecismo e realizou a Primeira Comunhão. No meio da tarde, ao lado de outros meninos e meninas, enquanto repetiam em coro as lições do padre, ele enxergou muitas vezes cachorros entrarem na igreja. Focinhos levantados, rabos abanando, os bichos miravam o olhar vazio no altar, cheiravam os pés dos bancos, levantavam as perninhas e faziam xixi. Depois viravam o traseiro para o padre e o altar, abanavam os rabos novamente e saíam, atrás dos latidos que vinham da rua. Era o suficiente para perturbar a aula de Catecismo. “Allegro moderato”, a turma ria. E o padre, “deciso”, xingava e mandava o sacristão limpar a sujeira dos cachorros.</p>
<p>Aos cães se juntavam os pombos. Os pombos entravam pelas frestas do telhado, voavam no interior da igreja e pousavam nos ombros dos santos, na cruz de Cristo e até no tabernáculo do altar. Arrulhavam – lentos, graves e lentos – e mexiam os pescoços como joão-bolinhas. Em seguida, invariavelmente, sujavam os mantos dos santos e a coroa de espinhos do Nazareno. Os pombos cagavam no altar, diante dos olhos dos meninos do Catecismo.</p>
<p>A música de Mignone acabou. O homem deitado na cama escureceu como o quarto. Dormiu. O último pensamento que brincou na sua cabeça trouxe uma dúvida. Por que não há, contra cães e pombos, anátemas cristãos? Como é que eles aparecem nas representações de São Francisco, alegres ao redor do santo, se desrespeitavam as procissões e a igreja na cidadezinha na boca do sertão? Só se o sertão não for parte do mundo. Ou for um mundo extravagante, onde os cachorros e os pombos, à maneira dos homens, preferem se comportar mal.</p>
<p>O homem se lembrou que tivera uma tia que gostava de gatos. Os gatos, deitados nos umbrais das janelas, olhos semicerrados, respeitavam – imóveis e silenciosos – as procissões que passavam. Ele nunca vira um gato sequer entrar na igreja, quanto mais sujá-la. Mas eram os gatos que as beatas da cidadezinha na boca do sertão juravam serem animais diabólicos. A indiferença felina ante os dramas humanos talvez desagrade secularmente aos religiosos. Por outro lado, a obstinada vitalidade dos gatos contrasta com as dores e angústias que povoam as almas humanas, de modo que os gatos têm dificuldades para se acomodarem nas fábulas morais. Por que as gravuras de São Francisco, penduradas nas casas sertanejas, nunca exibem um gato?</p>
<p>Antes de ser vencido pelo sono de pedra, o homem deitado na cama decidiu que, pela manhã, caso encontrasse o pároco, perguntaria a ele sobre cachorros, gatos e pombos. Melhor ainda. Iria propor ao padre que escrevessem um Catecismo que falasse de coisas miúdas e cotidianas, sem solenidades e argumentos vaporosos. Afinal, ele também, como sua tia – que Deus a tivesse em bom lugar –, gostava de gatos. E de cerveja, mulher, futebol&#8230;</p>
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		<title>Prosas do Espinhaço Central IV</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Jan 2009 18:28:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Diamantina]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Tropeiro]]></category>

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		<description><![CDATA[Riacho dos Ventos Ramiro tinha uma cicatriz sobre o olho esquerdo, feita a faca. O corte fora largo e antigo. No momento em que a lâmina abrira a pele de Ramiro, pela brecha escapou sua alma. Apenas um pouco de espírito restou dentro do corpo dele. Ramiro tornou-se mau, embora não tivesse nascido desse jeito. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin-bottom: 0.0001pt; text-align: center; line-height: 150%;" align="center"><strong><span style="font-size: 12pt; line-height: 150%; font-family: &quot;Garamond&quot;,&quot;serif&quot;;">Riacho dos Ventos</span></strong><strong></strong></p>
<p>Ramiro tinha uma cicatriz sobre o olho esquerdo, feita a faca. O corte fora largo e antigo. No momento em que a lâmina abrira a pele de Ramiro, pela brecha escapou sua alma. Apenas um pouco de espírito restou dentro do corpo dele. Ramiro tornou-se mau, embora não tivesse nascido desse jeito. Aos quarenta anos ele parecia constituído de matéria mineral, tal como as pedras que brotam da terra como correições de formigas espalhadas em todas as direções, nos contrafortes do Espinhaço.</p>
<p>Ramiro era duro e seco. Vestido com suas roupas de tropeiro, rasgadas e sujas, assemelhava rocha coberta de musgos, cinzenta, áspera, enrugada, batida nas pelejas da vida. Ramiro cortava a carne desprevenida que ousava tocá-lo, lançava sombra fria sobre os vales encaixados e fundos que percorria. O homem era o oposto da flor, a danação da ternura. Mas era trabalhador, um dos melhores tropeiros da região. A história da transformação de Ramiro em pedra bruta é a história de uma longa rixa, dessas que se arrastam no meio das lavras, pelos caminhos e povoados no vasto mundo da cordilheira mediterrânea. O chão movimentado da serra, formado por massa de terra e rocha expulsa doloridamente do ventre da natureza, perturba os nervos dos homens, talvez a ponto de inclinar alguns para o amor da violência.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-365 aligncenter" style="width:512px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/01/pico_itambe_serro_mg_fig1.jpg" rel="lightbox[362]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/01/pico_itambe_serro_mg_fig1-512x415.jpg" alt="" width="512" height="415" /></a>
	<div> A Serra do Espinhaço, destacando o Pico do Itambé, retratado na visão dos naturalistas europeus Spix &amp; Martius (1828).</div>
</div>
<p style="text-align: center;"><span id="more-362"></span></p>
<p>Ramiro nasceu em um pequeno sítio, próximo ao arraial de Datas. Seu pai, conhecido como Chico de Herculano, fazia de tudo um pouco. Cultivava cana e alambicava cachaça no seu sítio, vendendo a produção em Gouveia e Diamantina. Também minerava com dois ou três ajudantes. Tivera a sorte de encontrar bons diamantes num córrego vizinho a sua propriedade, o que lhe permitiu comprar dois lotes de burros e fazer-se tropeiro. Dizia para sua mulher, Aparecida: “Sabe, esses burros são nossa segurança. O garimpo é traiçoeiro, o que ele oferece no dia de hoje, toma no dia de amanhã. A gente mais perde do que ganha no serviço de mineração. A tropeiragem dará tranqüilidade para nós e nossos filhos, que já estão a caminho, né mulher?” Aparecida fingia que não ouvia a conversa de Chico, mas concordava com ele, pois era de família de faiscadores. Vira seu pai e seus irmãos se acabarem na faina de minerar. Não queria isso para seu marido, e muito menos para o filho que trazia no bucho. Aparecida notara que a regra estava atrasada, de modo que esperava uma criança. Pelos seus cálculos, a criança nasceria no fim do verão, entre fevereiro e março. Aparecida custou a tomar coragem para anunciar a boa nova a Chico de Herculano. Temia que ele tivesse um ataque de tanta felicidade. Numa noite clara, os dois sentados no alpendre da casa do sítio, Aparecida virou-se para o marido e falou subitamente: “Chico, seu filho vem aí. Eu estou de barriga! A comadre Maria afiançou que será um menino homem”.</p>
<p>Chico de Herculano engasgou com a fumaça do cigarro de palha que pitava. Perdeu a respiração por um instante, arregalando os olhos. Levantou alto os dois braços, como se agarrasse ar para os pulmões. Depois soltou uma gargalhada. “Comadre Maria nunca se engana, Aparecida. Será menino e vai se chamar Ramiro, nome do meu avô”. A mulher dobrou o pescoço e inclinou a cabeça em sinal de consentimento, enquanto Chico tecia planos em voz alta, visivelmente vermelho e agitado. De pé no alpendre, o sitiante-tropeiro entabulava conversa: “Esse menino será tropeiro, com a benção de Deus. Terá mais fregueses do que o pai e conhecerá a região inteira, como a palma de sua mão. Mão forte e destemida. Ramiro será uma lenda”. Aparecida ouvia o marido, acabrunhada, de olho na lua que subia no céu. Pensava consigo mesma, sem coragem de falar para Chico ouvir: “O mourejar de tropeiro é tão penoso. Santana proteja o meu filho”.</p>
<p>Os dias correram. Para Aparecida, o tempo passou devagar, arrastado, cheio de incômodos de grávida. Para Chico de Herculano, o tempo mais pareceu estirão de coelho do mato fugindo ao avistar raposa. Ele cercou a mulher de cuidados, nos limites de seus recursos e posses. Sabia que Ramiro seria seu único filho, porque a mulher tivera dificuldades para apanhar aquela semente. O útero de Aparecida, bem mais velha do que Chico, perdera a fertilidade há anos. Nas viagens que realizava entre Datas, Gouveia e Diamantina, levando milho, feijão, rapadura, pinga e frutas para a Intendência do Laje, Chico de Herculano temia deixar a mulher grávida sozinha no sítio. Não partia sem antes expor numerosas recomendações e pedir aos vizinhos que passassem em sua casa para saber se Aparecida precisava de algo. Na trilha, nem os cincerros das mulas madrinhas distraíam sua preocupação. Em Diamantina, Chico descarregava o mais rápido possível, corria os principais negociantes com o fito de vender suas cargas e arranchava na Intendência com o pensamento na barriga da mulher. No dia seguinte, antes do sol surgir atrás da Serra de Santo Antônio, ele acordava os ajudantes, perfilava os dois lotes de burros e carregava as bruacas com as encomendas dos fregueses de Datas e Gouveia. Mal tomava o café, coado à maneira tradicional, forte e sem açúcar, Chico de Herculano procurava o caminho de volta. Sua exasperação era tanta que contaminava os tocadores e os animais da tropa. A viagem ficava mais difícil e lenta. Ele xingava, com mau-humor dos diabos.</p>
<p>De retorno a sua propriedade, diante da casa do sítio, Chico gritava: “E aí, mulher, meu Ramiro já veio ao mundo?” Aparecida punha-se na porta da frente, os movimentos cada vez mais embaraçados, e respondia, resignada: “Ainda não, Chico. Ele está nas mãos de Deus”. Essa cena, assistida por burros cansados e indiferentes, repetiu-se muitas vezes. Até que, quando terminava a manhã sob chuva pesada no dia da enchente de São José, Chico foi recebido pela Comadre Maria, carregando nos braços, enrolado em panos brancos de algodão, o monturo de carne tenra e choro cortante que, anos depois, daria em Ramiro – peito duro como rocha, cicatriz no alto do flanco esquerdo.</p>
<p>Debaixo da vista do pai, Ramiro cresceu à procura do Itambé, a bússola dos tropeiros naquele mundo de serras e chapadões. O menino contemplou os céus, as pedras, as águas, aprendendo seus segredos e as variações de humor da natureza. Acostumou-se a mexer com burros e mulas, chamá-los pelos nomes e avaliar pormenorizadamente suas qualidades e defeitos. Entendia mais de burros do que de pessoas. Ramiro montou muito cedo. Vagou pela serra a cavalo, sem hora para voltar para casa, ora seguindo os caminhos das tropas, ora embrenhando-se no mato. Nas fraldas das serras, de pé sobre o dorso da montaria, à beira do abismo, Ramiro embriagava-se com o frio que lhe subia a espinha e sentia que podia tocar as nuvens. A galope, o menino engolia a bruma espessa que avançava cobrindo os campos cheios de canelas-de-emas, orquídeas e bromélias. Ele abria a camisa e desafiava o vento, brincava na chuva e julgava experimentar mais liberdade que os gaviões inertes no ar. Ramiro pensava ser um deus cujos domínios eram as serras. Sem que ninguém percebesse, Ramiro cresceu desdenhando as normas dos homens: “As coisas que o homem faz não têm comparação com a grandeza da cordilheira. Na serra, o homem não vale mais que o vento, a chuva, o rio e a pedra. Eu quero viver na serra, igual os bichos da serra”. No meio do escampado ou nas grimpas dos paredões, o menino se convencia de que todas aquelas paragens, belas e solitárias, jamais o deixariam partir.</p>
<p>Vendo o filho crescer, Chico de Herculano decidiu: “É hora de colocar esse menino na labuta da tropa. Senão ele acabará garimpeiro ou, o que é pior, vagabundo”. A mãe, como de costume, concordou. Então, Ramiro teve sua rotina alterada, sem compreender por quê. Aos dez anos de idade, ele começou a acompanhar a tropa do pai, num vai-e-vem incessante sobre as cumeeiras das serras do sul do Serro ao norte de Diamantina. Principiou como moleque na cozinha, depois assumiu o posto de tocador e chegou à condição de arrieiro. Na sucessão das viagens, Ramiro compreendeu a regra da tropa, adquiriu as habilidades necessárias ao comércio burriqueiro e moldou seu corpo e idéias ao ofício que abraçou em obediência ao pai.</p>
<p>“Ramiro, acorde preguiçoso. O sol está prestes a mostrar a cara. Ajude o Neco a juntar os burros” – ordenava o pai no dia de partida da tropa. O menino deixava a cama aconchegante, engolia um gole de café e saía pro tempo, sempre úmido e gelado por causa do sereno grosso da noite. Neco o esperava diante do alpendre, e os dois sumiam no mato à procura dos animais. Tiritavam de frio e enchiam-se de carrapatos, reunindo pacientemente os burros e mulas. Aos poucos, a pele de Ramiro ganhou consistência de couro de teiú – endureceu. Juntados os animais, Ramiro, Neco, João e Expedito botavam as cangalhas nos cargueiros, ajeitavam as bruacas nos lombos deles, dispunham as cargas com cuidado de não sobrecarregar nem ferir os burros, enfeitavam a madrinha com peitorais e cincerros de prata. Tudo pronto, Chico de Herculano aparecia na porta de casa, observava os ajudantes selarem seu cavalo e balbuciava a ordem: “Vamos depressa. A gente não tem o dia inteiro”. A tropa começava a andar devagar, como que a contragosto. Ramiro destinava para a mãe um olhar reverente, acompanhando os homens. Depois pensava nas quatro léguas que iria percorrer naquele dia, desde as cinco da manhã até as duas da tarde. Durante a jornada por trilhas nada fáceis, Ramiro e os tocadores verificavam continuamente o estado das cargas e o trote dos cargueiros. Acudiam os burros em dificuldade e, rearranjando os fardos, impediam que as cangalhas e bruacas produzissem feridas nos animais. Na frente, a madrinha ensinava o caminho. A pinga espalhada sobre a pele dos homens da tropa era o único alívio para as picadas de insetos.</p>
<p>Ramiro e seus parceiros preferiam as jornadas sob o sol. O calor aumentava o cansaço, mas podia ser remediado com um banho rápido nos córregos que desciam, numerosos, do cimo das pedras. Nos aguaceiros, as trilhas encharcavam-se, as pedras ficavam escorregadias e nas partes planas dos caminhos multiplicavam-se lamaçais e brejos. Conduzir a tropa, então, equivalia a ser condenado à pena de galés. As cargas deviam ser cobertas com couros de boi. Os cargueiros refugavam nos aclives e declives, avançando somente com a ajuda do braço e da voz dos tocadores. Quando a tropa alcançava um platô, e tudo parecia melhorar, os animais afundavam na lama até o pescoço. Era necessário descarregá-los, tirá-los do lamaçal, descobrir caminho alternativo mais sólido, recarregar os animais, retomar a marcha. Numa dessas ocasiões, Ramiro sentiu seus nervos esticados a ponto de esgarçar. “Diabo de vida! Ninguém sofre mais do que o tropeiro. Que futuro alguém pode ter nessa lida?”. Neco o consolou, garantindo que ninguém andava em maior liberdade que o tropeiro. Ramiro aprumou o corpo, limpou o suor na testa, sorriu com desdém e respondeu: “Liberdade é não trabalhar nem seguir as leis dos homens. Eu fui livre quando zanzava pelas serras, sozinho, longe dessa tropa maldita”.</p>
<p>De repente, Neco levou a mão à cabeça. Estancou, paralisado. Ramiro recebeu, nas costas e no rosto, chicotadas desferidas pelo pai, sem dó. Chico de Herculano tinha o rosto franzido, irado. “Filho meu não diz bobagem na minha frente. Seja homem, moleque atrevido. Não fuja do trabalho e respeite os mandamentos de Deus. Ramiro, eu não criei você para viver como fera, como as onças que aterrorizam os bichos nos capões. Você honrará meu nome ou não terá vida longa”. Ramiro apertou as mãos, de modo a conter a vontade de atacar o próprio pai. Voltou ao trabalho sem dizer outra palavra, emudecido até que a tropa chegasse ao próximo rancho. Ali, os corpos fatigados não puderam descansar imediatamente. Ramiro e os tocadores desceram as cargas, empilharam as bruacas cuidadosamente, cobrindo-as com os couros. Tiraram as cangalhas dos animais, escovaram os dorsos dos cargueiros e trataram com ungüentos caseiros as pequenas feridas que ameaçavam machucar os burros. Puseram para pastar os vinte animais da tropa. Acenderam o fogo, coaram café, cozeram feijão com toucinho e farinha, e comeram. Extenuados, as costas ardendo e os pés inchados, estenderam lado a lado os corpos no chão do rancho, uma simples choupana coberta de capim. A débil fogueira e os panos que guarneciam as costas dos burros do contato direto com os arreios foram as únicas proteções de Ramiro, Neco e dos outros tocadores contra o frio e as goteiras.</p>
<p>Naquela noite, dormida no alto da serra, a distância de um dia de marcha de Diamantina, Ramiro sonhou com uma criatura esquisita. Atarracada, a criatura não era homem nem mulher, mudava de cor de acordo com a incidência da luz, grunhia sons indecifráveis e carregava um diamante no pescoço curto. Ramiro, estático, viu a criatura se aproximar, pular sobre ele, recitar-lhe algo dentro do ouvido e roubar-lhe a infância. O moço acordou sobressaltado, decidido a evitar os sonhos. Esperou o dia raiar, como invariavelmente ocorre aos bichos da cordilheira: apenas existindo.</p>
<p>A marcha seguinte da tropa de Chico de Herculano terminou na Cavalhada Nova. As mulas foram amarradas nos postes da Intendência do Laje. Ramiro voltaria a Diamantina tantas vezes que a cidade perdeu para ele os encantos. Mas, na primeira vez, o moço ficou deslumbrado. Os sobrados, as igrejas, as ruas calçadas de pedras, a quantidade de gente, o trânsito de tropas em direção ao Mercado, as lojas sortidas, tudo isso encheu os olhos de Ramiro. Ele caminhou pela cidade, ao lado de Neco, quase sem respirar. Reparava em cada coisa, mas jamais deixava de admirar a serra além do Rio Grande e o Itambé, acercado de nuvens. “Neco, quanta gente! Mil casas, becos sem saída, tantos cheiros e sons. O céu só se distingue encaixotado pelos beirais dos telhados. E nem se consegue ver a distância. Isso é um labirinto, Neco. Como se vive aqui dentro?” Assombrado, o companheiro de tropa retrucou: “Vosmecê mais parece bicho que homem. É melhor morar aqui do que lá, no meio do mato, numa grota esquecida da serra”.</p>
<p>Chico de Herculano cumpriu a via sacra de visitas a comerciantes e amigos, bem mais demorada do que o passeio dos seus homens pela capital do Norte. Ramiro e Neco retornaram à Intendência. Ramiro admirou-se do tamanho da cobertura do mercado, da qualidade da construção e do fervedouro de tropeiros no seu interior. Cargas, arreios, cangalhas e homens dividiam o recinto como se fossem abelhas: agitados, mas sem desordem. Lá fora, no largo defronte e nas ruas vizinhas, os cargueiros entupiam as veias que levavam ao coração da cidade – a Catedral de Santo Antônio e as residências elegantes da Rua Direita. E o som dos cincerros de tropas que apontavam na serra cobria de música a imaginação da molecada, debruçada sobre as amuradas da Intendência, observando os tropeiros, pedindo café e comida preparados nos bules e panelas de ferro que pendiam das trempes, armadas sobre fogueiras ali mesmo, no interior do enorme galpão.</p>
<p>Na segunda vez que esteve em Diamantina, Ramiro e Neco travaram conversação com tocadores e arrieiros de outras tropas, originárias de lugares cujos nomes desconheciam. Curimataí, Grota Grande, Pedra Menina, Campinas, Capelinha, Araçuaí. Ramiro animou-se a beber com os pés-rapados funcionários dessas espécies de rústicas legações estrangeiras estacionadas em Diamantina. Bebeu até tontear. E entrou no carteado, jogado sobre um couro de boi estendido no centro do galpão da Intendência. Ramiro apostou sua primeira paga como tocador. Ganhou várias rodadas, sentiu-se imbatível, desafiou a tropeirada toda que cercava o cassino improvisado. Neco tentou advertir Ramiro que era hora de parar, pois a sorte nas cartas muda de lado quando a pessoa menos espera. Foi em vão. Ramiro insistiu no desafio, afrontando os homens no Mercado. Do círculo mais afastado dos que acompanhavam a cena, veio à frente um arrieiro moreno, jovem, a cabeça coberta por elegante chapéu de couro marrom. O arrieiro sentou diante de Ramiro, disse seu nome e propósito: “Eu sou Nicanor, lá das bandas de Pedra Menina, na Serra do Gavião. Aceito seu desafio, moço. Está aí o dinheiro da aposta”. Ramiro encarou o adversário desdenhosamente: tinha certeza que a noite era sua. As partidas, cada vez mais tensas, mergulharam o povaréu do Mercado num denso silêncio. Podia-se ouvir o abanar das orelhas dos burros amarrados no largo diante da Intendência, a muitos metros de distância. A brisa fria da noite, além de dissolver as espirais de fumaça lançadas pelos cigarros de palha, empurrou a sorte para o lado do arrieiro de Pedra Menina. Ramiro perdeu o que havia ganhado antes, e também os mil-réis de sua primeira paga. O pior para ele foi ter que ouvir as risadas da tropeirada, que se considerou vingada pelo jogo astuto de Nicanor. Ramiro era puro desespero, mas ficou paralisado quando Nicanor pôs o dedo em riste, quase tocando o nariz de Ramiro, e disparou: “Menino desaforado, dizer bravata é fácil. Sustentar o que se fala é coisa pra homem”. Humilhado pelo gesto do arrieiro de Pedra Menina, Ramiro escondeu-se nas cargas de sua tropa, encolhido sob os couros das bruacas. Lembrava uma fera acuada na toca, os olhos arregalados, a respiração fora de ritmo e o coração palpitando. “Que baita humilhação. O tal Nicanor me desmoralizou diante daquela gente que nem conheço. Rirão de mim pelo sertão. Ai, que vergonha”. O sono não veio aliviar a mente de Ramiro.</p>
<p>Na manhã seguinte, o rapaz, arrasado e sem dinheiro, tomou café amargando os esculachos do pai. Chico de Herculano soubera do acontecido de madrugada, enquanto bebia com amigos num cabaré do Beco do Mota. O orgulhoso dono de tropa, que nunca perdera carteado, encarou o tombo do filho no jogo como mácula na reputação da família. Furioso, Chico de Herculano esbravejou com o filho alto o suficiente para atrair os olhares dos homens e animais amontoados no largo da Cavalhada Nova. O sofrimento de Ramiro parecia vir em ondas, na forma de pancadas como as derradeiras chuvas de março. Ele, sem se dar conta, perdia as reservas de docilidade. Porém, Ramiro compreendeu definitivamente que não é fácil viver entre os vivos.</p>
<p>A terceira vez de Ramiro em Diamantina, após intervalo incomum que se prolongara por meses, foi menos conturbada. O arrieiro de Pedra Menina não estava na cidade. Ramiro corou de alívio. “Aquele cabra inimigo está longe. Neco, a cidade é só minha. Vamos logo pegar o que ela oferece”. Como os serviços de descarga da tropa terminaram, os dois deixaram para trás a Praça do Mercado. Ramiro e Neco entraram em botequins, o tempo necessário para beber uma, no máximo duas garrafas de cerveja. A esmo, subiram um beco e desceram por outro. Faziam isso havia horas, quando Ramiro empacou feito burro, diante de uma mulata sentada na pedra. Neco notou que o parceiro descobrira coisa mais interessante do que estrelas, insinuada através de um decote de chita colorida. Ramiro desejava ver a queda de um botão no vestido de Neguinha. Este era o nome da mulata, cujos seios fartos e colo liso como seda enfeitiçaram Ramiro. O bote de Neguinha arrebatou Ramiro. Ao dar novamente por si, ele estava num quarto paupérrimo e desalinhado, nu sobre o corpo macio e em pêlo da mulata, ofegante, suado, enlouquecido. O cheiro do sexo entorpeceu Ramiro, que não viu as estrelas circundarem o céu, nem o quê havia levado o pouco dinheiro que lhe sobrara na algibeira da calça surrada. Quando acordou ele estava sozinho no quarto estranho. Vestiu-se, abriu a porta, cruzou o corredor e respirou novamente quando já andava na rua, descendo na direção da antiga basílica. Ao encontrar Neco, Ramiro interrompeu o serviço de botar as cangalhas nos cargueiros. Abriu o coração com o amigo: “Estou apaixonado, Neco. Quero para mim aquela mulher”. Num tom professoral, Neco falou: “Ramiro, larga disso, homem. Aquela mulata é mulher pública. Pegou seu dinheiro, deve estar rindo de vosmecê agora mesmo. A serventia dela é aliviar os instintos de marmanjos afoitos”. Ramiro ficou desolado. Custou a crer que Neguinha o enganara como a uma criança ingênua. O peito de Ramiro principiou a guardar desconfiança de mulher. As fibras do coração do rapaz foram rompidas, e ele jurou que nunca mais procuraria mulher para casamento. “Numa época dessas, casamento é encrenca. Mulher só para matar minhas vontades”. Ramiro pediu a Neco que nada contasse ao pai sobre o encontro com a mulata. Temia que Chico de Herculano lhe aplicasse nova descompostura. O que seria improvável, uma vez que Chico era contumaz freqüentador da cama de Neguinha e das meretrizes do Beco do Mota.</p>
<p>As águas do tempo lixaram o mundo da cordilheira. Nas pedras, produziram mudanças cumulativas, infinitesimais, observadas apenas por quem conhecesse em demasia cada forma, reentrância, corte ou variação de tonalidade. Sobre os campos e as matas, a renovação desvelava forças subjacentes oriundas do âmago da terra. Os bichos, entretanto, envelheciam depressa, como estrelas cadentes que riscam a noite em brilho disparado. Na verdade, tudo adquiria aspecto ruiniforme. Ainda agora é assim. Mas Deus não compartilha com os homens da serra essa visão terrível. No meio das ruínas, a mais constrangedora era Ramiro. Os anos produziram efeito dúbio sobre ele. Ramiro esticou e engrossou, virou homem forte, troncudo. Seu rosto e sua pele, todavia, perderam o viço, enrugaram. Aos dezoito anos, pouco mais ou menos, ele inspirava certo temor e enorme desconfiança. Parecia uma máscara funerária, envelhecida pela ação dos elementos, incapaz de exibir sentimentos sutis. Ramiro mostrava-se indiferente ou convulsionado. Entre esses dois extremos, seu rosto não adquiria qualquer outra feição intermediária.</p>
<p>Por essa época, Ramiro era arrieiro, assumindo muitas tarefas que Chico de Herculano, por causa da velhice, abandonava gradualmente. E quanto mais controle o moço assumia sobre a tropa, mais soberba e agressividade lutavam para escapar de seu íntimo. O companheirismo com Neco esfriara. Ramiro procurava a companhia de mascates turbulentos, de rufiões e marafonas, jogadores de cartas e toda espécie de vagabundo que rodeava os mercados do Serro e Diamantina. Um freio, porém, ainda impedia que Ramiro deslizasse inteiramente para o terreno das feras. Talvez lembranças da mãe e da vida pacata no sítio em Datas. Mas era só um fio, fino e frágil, que poderia romper com mais um dissabor. Precisamente o que aconteceu debaixo de nuvens de chumbo, a meia légua do Acaba-Mundo.<br />
A tropa liderada por Ramiro rumava de Capivari para Curralinho, viajando da Serra do Gavião para Diamantina. Os cargueiros estavam pesados com mantimentos, ansiando o descanso no pouso. A subida era longa, realizada numa trilha estreita, sinuosa, com diversos trechos de pedra escorregadia em que havia passagem para um único animal. No sentido contrário, descia a tropa que acabara de descarregar feijão e milho na Mina da Boa Vista, também ansiosa por alcançar o pouso em Capivari. O prenúncio de tempestade era o que fazia homens e animais nervosos, apertados entre extensas paredes de rocha. Nicanor conduzia a segunda tropa. Numa curva da trilha, justo no trecho mais estreito, as duas mulas madrinhas bateram de frente. Os animais pararam, os homens também, aturdidos, cansados e prevendo barulho. Logo estavam frente a frente Ramiro e Nicanor, remoendo desafetos. Ramiro ameaçou primeiro: “Arrieiro de merda. Tira da frente essa sua comitiva. Eu passo primeiro”. Nicanor franziu o cenho de raiva: “Quem é vosmecê para mandar assim? Ainda não aprendeu que homem não canta bravata?” Ramiro encheu-se de valentia, porque era a chance de vingar a humilhação que sofrera na Intendência de Diamantina. Gritou a plenos pulmões, agitando no ar as mãos cerradas: “Traste de Pedra Menina, é melhor recuar os seus burros ou sentirá o peso desses punhos”. Nicanor desceu da montaria, tirou o chapéu da cabeça e cuspiu no chão. “Vem tentar, mariola. Desce da mula e prepara o corpo pra surra”. A tensão paralisou os tocadores de ambas as tropas. Os cargueiros fizeram silêncio, como bichos que aguardam a contenda que define o chefe do grupo. Ramiro e Nicanor aproximaram-se, trocando insultos. Ramiro, transtornado, exibia olhos vermelhos de fogo e músculos retesados. Nicanor caminhava como quem vai à igreja – manso e despreocupado. Após alguns passos, houve o atracamento. Ramiro era mais forte, mas Nicanor muito mais ágil e experiente. Em segundos, a briga pendeu para a vitória de Nicanor, cujos golpes, variados e certeiros, tiraram sangue no rosto de Ramiro. Sentindo-se derrotado, Ramiro desesperou-se. Chorou feito criança, misturando raiva e dor. Num gesto dramático, Ramiro arrancou da cinta uma faca comprida. Estava disposto a matar. Arremeteu contra Nicanor. Nicanor esquivou-se, aplicando uma rasteira em Ramiro. A queda nas lajes de pedra desarmou Ramiro. Nicanor pulou com os joelhos sobre o peito de Ramiro e socou-o no chão, duas ou três vezes. Recolheu a faca e apontou-a para os olhos de Ramiro. Ramiro implorou: “Não, não, por favor não me mate”. Na última hora, Nicanor desistiu de desferir golpe fatal no adversário. “Você não é de nada. E com a sua faca, obrigarei você a saber disso”. Cuspiu no rosto de Ramiro e abriu um talho sobre seu supercílio esquerdo. Ramiro, no chão, novamente derrotado e humilhado, viu o arrieiro de Pedra Menina quebrar a lâmina de sua faca nas pedras da trilha. E passar com sua tropa, enquanto os tocadores de Ramiro abriam caminho para o vencedor. Ramiro balbuciou, a boca no nível do chão, experimentando gosto de terra e sangue: “Eu mato esse cabra. Chegará o dia que colocarei um balaço no meio da testa dele”. Nicanor seguiu altivo, embalado por “vivas”, pronunciados por seus homens. Atrás dele, na direção de Curralinho e Diamantina, a notícia da briga correu como rastilho de pólvora.</p>
<p>Ramiro levantou arrasado, o lado esquerdo do corpo coberto de sangue. Prosseguiu a jornada, cabisbaixo, lamurioso. Na sua tropa, nem os cargueiros emitiram qualquer som antes de alcançarem Curralinho. Ramiro era soluços e melancolia. Algo havia quebrado dentro dele, rasgando de vez qualquer floreio sonhador que restasse no seu espírito. Daí em diante, tudo em Ramiro ficou impulsivo, cruel e fatal. A cicatriz esculpida na sua testa pela ira de Nicanor seria, nos anos vindouros, a prova material do terrível choque ocorrido na trilha do Acaba-Mundo. Choque sem assimilação, incidente implacável. O ponto final na história até então ambígua de Ramiro. Depois da surra, Ramiro perdeu os tênues matizes que ainda lhe conferiam humanidade. Virou instinto e violência. Nada mais. Mesmo assim, ele continuou a fazer pilhérias com os homens de sua tropa, embora não admitisse gracejos com sua pessoa.</p>
<p>Como moto contínuo terrível, Ramiro seguiu tropeirando para cá e para lá, para cima e para baixo. No decorrer de 300, 350 jornadas, talvez mais, Ramiro deitava-se fora dos ranchos, as costas amassando o capim alto e ficava olhando o desenho aleatório das nuvens no céu, a dança das folhas nas copas das árvores e o vôo dos pássaros. Quando caía a noite, na mesma posição, Ramiro contava estrelas e riscava constelações. Enquanto isso, seus dentes enegreceram – Ramiro adquirira o hábito de mascar fumo –, sinal externo do que acontecia com seu espírito. Além de Ramiro, muitas coisas no Norte mudaram em marcha lenta. Uma das mudanças foi a aproximação do trem de ferro pelo vale do Rio das Velhas, com destino a Pirapora, Montes Claros e a fronteira baiana.</p>
<p>A estrada de ferro agitou os sonhos sertanejos, colocou as cidades em disputa – todas queriam para si uma bela estação – e atraiu, como serpente que hipnotiza passarinho, as tropas do comércio burriqueiro. O contato com as estações estimulou a importação de artigos industrializados, mercadorias de luxo e as viagens de pessoas, facilitando o trânsito para as capitais de Minas e do Brasil. Ramiro foi um dos tropeiros que redesenhou as trilhas dos seus cargueiros, colocando-se a serviço da Fábrica de Tecidos São Roberto que homens de fortuna instalaram no distrito de Gouveia. Os lotes de burros de Ramiro abasteceram a Fábrica de óleos, graxas e pequenas peças de maquinário têxtil descarregados pelo trem, primeiro na estação de Matozinhos, e depois na estação de Cachopa, nas proximidades de Curvelo. Para alcançar a estação de Matozinhos, ponto extremo da estrada de ferro em meados da década de 1890, Ramiro tornou-se freqüentador de uma rota cujo movimento começou a crescer justamente por causa do trem. A rota que cruzava o Rio Paraúna, no povoado do mesmo nome, e o Rio das Velhas, em Jequitibá. Nessa rota, a cerca de quatro ou cinco léguas de Gouveia, formou-se o pouso de Riacho dos Ventos. Um lugar agreste, assolado por vento que nunca cessa, situado no socavo de montanha magnífica. Riacho dos Ventos tornou-se o rancho preferido do tropeiro que era já mais pedra do que gente.</p>
<p>Com efeito, o lugar possuía beleza singular. Dois platôs, estreitos, dispostos como degraus de uma escada, abrigavam meia-dúzia de casebres, feitos de adobe, cobertos de capim e com chão batido. Cada casebre exibia na porta de entrada pequeno gramado e, nos fundos, quintal esticado cercado por paus desalinhados. No platô mais baixo, serpenteava entre as paredes das serras o curso do Paraúna, até embicar numa cachoeira. As águas precipitavam-se nas costas de pedras escuras, da altura de 40 ou 50 metros, produzindo grande quantidade de espuma branca, encardida, e uma fina camada de névoa. O barulho da cachoeira, entretanto, não era ouvido no topo das serras laterais e nem no platô mais alto. O vento abafava o som da água. Nas escarpas que guarneciam Riacho dos Ventos, árvores pequenas e retorcidas disputavam espaço com os maciços de pedra, cobertos por grossas camadas de lodo e liquens. A luz do sol desenhava filetes de prateados e sombras nas faces das serras, num jogo de tonalidades que extasiava os viajantes. As nuvens passavam rentes aos platôs, roçando as serras, tal qual massa líquida canalizada por enorme bicame. No centro do grupo mais denso de casas, no platô mais elevado, ficava o rancho de Luis Almeida, homem originário de Gouveia, que se mudara para Riacho dos Ventos com a mulher e a filha fazia poucos anos.</p>
<p>O rancho de Seu Luis era típica venda de beira de caminho, ao lado da qual, à distância de 30 braças, havia um galpão circundado por meias-paredes de madeira que servia para depositar as cargas dos animais de tropa. Todo o conjunto – casa de morada da família, venda e rancho – ocupava o centro de área plana e descampada, atravessada pela trilha. O sítio era acolhedor e Seu Luis conhecido por praticar bons preços, ter prosa agradável e fácil trato. Na cozinha da venda, a mulher de Seu Luis garantia comida simples, farta e muito bem feita. Para atender aos fregueses, o negociante contava com a ajuda da filha, moça simpática e prendada. O nome dela era Ritinha. Os tropeiros se admiravam com a beleza e a candura de Ritinha, ainda mais por que ela estava na idade de casar. Muitos devem ter sonhado com a felicidade de casar com Ritinha, morena de traços esmerados, corpo elegante, voz macia, olhos e cabelos negros como o carvão, pele sedosa e lábios carnudos, seios rijos, pernas lisas como diamantes lapidados. Os homens da região talvez a vissem como modelo vivo favorita de um grande pintor da Corte, por isso apreciavam respeitosamente a graça e a beleza da moça. Temiam magoá-la com o menor gesto impertinente. O que levava Ritinha a se sentir segura naquele mundo de beira de estrada, acanhado e rústico.</p>
<p>Havia uma exceção: Ramiro. Ele nunca amou Ritinha, sequer pensou nela como sua mulher. Ramiro apenas desejava possuir Ritinha, gastar as carnes dela. Desejava transformá-la numa mulher como a Neguinha do Beco do Mota, com a diferença de que exigiria exclusividade de deitar-se com ela. Ramiro adivinhava, com riqueza de minúcias, as formas e as texturas escondidas por baixo dos vestidos de brim de Ritinha, levemente decotados. Fechava os olhos e ficava a imaginar os gostos da moça, da boca, do colo, do púbis, das coxas. Ramiro sentia que era apenas uma questão de tempo. Quando sua vontade de possuir Ritinha estivesse suficientemente crescida, nada o impediria de agarrá-la. Numa noite de sono atribulado, Ramiro sonhou que se metera numa luta feroz contra o Diabo por causa de Ritinha. O Diabo tentava tirar-lhe o corpo da moça que já lhe estava entregue. O cheiro de enxofre do Demônio fez Ramiro suar frio e deixar de respirar o hálito quente e sensual que brotava da boca da moça. A cena pareceu tão real que Ramiro pôde sentir a tensão que esticava seus músculos no embate terrível com o Diabo. No sonho esquisito, o tropeiro com cicatriz no flanco esquerdo do rosto venceu o Chifrudo, conservando como troféu o corpo de Ritinha. Ao acordar, Ramiro convenceu-se de que havia adquirido o direito de fazer e acontecer com Ritinha, de usar métodos de qualquer espécie para possuir a filha do dono do rancho, a coisa mais linda em Riacho dos Ventos. Ardilosamente e em surdina, ele se preparava para essa ocasião, como macho que instintivamente procura a melhor fêmea para copular. “Essa Ritinha não me escapa!”, murmurava Ramiro. O vento que rugia na superfície das escarpas e dos platôs escondia o rumor agressivo das maquinações do tropeiro, fazendo-se seu cúmplice. Por isso, Ramiro apreciava tanto o pouso em Riacho dos Ventos.</p>
<p>Alheia ao perigo, Ritinha seguia ingênua. Sonhava com o viajante que se casaria com ela e a levaria para Diamantina, Serro ou Curvelo. Ela acreditava que esse homem estava próximo e lhe mostraria a face versátil da vida, livrando-a da monotonia de Riacho dos Ventos. Então, aguardava, ajudando seu pai a tocar o rancho. Todos os dias, porém, Ritinha consumia uns minutos na frente de um espelhinho, pendurado na parede do quarto, penteando languidamente os cabelos, pinçando as sobrancelhas, recortando na imaginação os traços de seu príncipe – que, na verdade, maiores chances teria de ser mascate ou tropeiro.</p>
<p>E o príncipe apareceu, num dia de sol, calor e vento mais fresco do que suave. Ritinha percebeu de imediato a chegada do moço, acompanhou-o desmontar, amarrar a montaria numa das estacas ao redor do rancho e dar ordens para os tocadores fazerem os preparativos de praxe para o descanso da tropa. Ritinha viu o moço entrar na venda de seu pai e sentar-se num canto, diante da única janela. Correu para atendê-lo, desmanchada em sorrisos. Ele disse seu nome e fez elogio à beleza de Ritinha, fitando-a com vivo interesse. Ela quase perdeu o ar. O sangue lhe subiu às bochechas, corando-as. O moço notou e sorriu. Ela tampou a boca com a mão direita, escondendo o riso. Os dois trocaram olhares, observados por Seu Luis detrás do balcão. O dono do rancho aproximou-se deles, ficou diante do moço e perguntou: “Que negócios trazem vosmecê aqui? O senhor é novo nessas bandas, não é mesmo?” Em tom respeitoso, o moço informou: “Sim, eu sou novo nessa trilha. Fui contratado por comerciantes do Serro para buscar querosene na estação de Matozinhos. Agora farei essa rota mensalmente. Ah, meu nome é Nicanor”. Ritinha ouviu a resposta com alegria indisfarçável. “E vosmecês, quem são?” Ritinha antecipou a resposta do pai, dizendo: “Eu sou Ritinha e esse é meu pai, Luis Almeida. Somos os donos do pouso. O que devo servir ao senhor e aos seus homens?” Nicanor afastou a cadeira, ficou de pé e estendeu a mão para Seu Luis e Ritinha. Cuidadosamente, pediu comida e bebida, sem tirar os olhos da moça. “Eu também preciso de algumas quartas de milho para alimentar os cargueiros da tropa”, completou Nicanor. Seu Luis respondeu: “Sem problema. A Ritinha pegará no paiol o que vosmecê mandar. Mas primeiro comam vosmecê e seus ajudantes”.</p>
<p>O sol procurou seu pouso atrás das montanhas, permitindo o avanço lento das sombras sobre Riacho dos Ventos. Nicanor havia se retirado para o rancho, descansando algumas horas no meio dos tropeiros. Ritinha terminou os serviços na venda, e então foi para o quintal cuidar da horta e das criações. Saiu de dentro da venda com um balde na mão, aguou as plantas e rumou para o paiol. Encheu o balde de milho, encostou as costas na cerca e começou a dar comida às galinhas, alvoroçadas diante dela. Nesse instante, surgiu um homem. Veio do rumo do rancho. Cumprimentou a moça, conversou com ela, ajudou-a no cuidado com as galinhas. Os dois trocaram olhares cada vez mais voluptuosos, as vozes cada vez mais doces. O homem tomou Ritinha nos braços. Este homem era Nicanor. Beijaram-se&#8230; Beijaram-se! Esconderam-se atrás do paiol, abraçados e ofegantes. Seus corpos sobre a relva mesclaram-se, presos em prazer e delicadamente excitados sem pesar. Ritinha e Nicanor inundaram o socavo da cordilheira de amor. Devagar, no lusco-fusco do crepúsculo – a topografia de Riacho dos Ventos antecipa o crepúsculo –, as estrelas emergiram no céu em cima das copas das árvores e das pontas das pedras.</p>
<p>De par com os voluteios da fumaça expelida na chaminé da cozinha da venda, Ritinha e Nicanor namoraram nos meses posteriores. Ele pousava em Riacho dos Ventos periodicamente, pontual como relógio suíço. Todos fizeram muito gosto nesse namoro. De fato, os dois formavam belo casal, do tipo que o sofrido sertão reúne dispersa e parcimoniosamente. Nas trilhas para o Cipó, Matozinhos e Cachopa, a notícia da reconfortante alegria do casal misturou-se ao trânsito de viajantes, burros e cargas. De modo que não demorou a encontrar os ouvidos de Ramiro.</p>
<p>A notícia estremeceu o corpo de Ramiro: seu íntimo ferveu, a cicatriz sobre o olho esquerdo teve uma pontada. A rixa adormecida acendera-se novamente. Mas não era ciúme de Ritinha o que Ramiro sentiu. Era algo pior, mais baixo e infinitamente mais destrutivo. O estupor da vingança, da desforra. A embriaguês causada pela vinhaça do ódio zelosamente cultivado. Ramiro emitiu um esturro, e se decidiu. Passou a vigiar Riacho dos Ventos, oculto entre as pedras, deitado nas moitas. Manteve Ritinha sob a mira de olhos atentos, estudou longamente os hábitos da moça. Espreitou os amores da moça com Nicanor através das frestas no paiol, enquanto mascava fumo e cuspia na relva uma gosma negra, espessa, viscosa. Ramiro espionou os banhos de cachoeira de Ritinha, e notou que eram a ocasião mais apropriada para atacá-la. Planejou atacar num dia tão bonito que ninguém esperaria que algo ruim acontecesse.</p>
<p>Ramiro arremessou-se como tigre sobre Ritinha. Queria ali mesmo, deitado sobre as arestas das pedras da cachoeira, no meio do vento e da água, servir-se do corpo núbil da moça, gozar entre as pernas de Ritinha, apoderar-se dela como quem realiza um festim carnívoro. Ramiro rasgou o vestido da moça num golpe, agarrou-a como se devesse estraçalhar seu corpo, crispando os dedos e rasgando a pele morena com as unhas escuras por causa dos vestígios de fumo. Dominou Ritinha com o peso do próprio corpo, tampou-lhe a boca com uma das mãos até quase o sufocamento. Mordeu os seios e as coxas da moça, puxou seus cabelos longos e negros e penetrou-a tomado por energia odiosa. Ramiro fez mais do que violar Ritinha. Tal qual fera faminta e furiosa, parecia desejar as vísceras e o coração da moça. Ramiro deixou o sexo dela em carne viva. Após cansar-se, Ramiro jogou-a de lado, sobre uma laje lisa molhada por respingos de água da cachoeira. Virou-se para ela e disse: “Como eu te odeio, Ritinha! Agora é a hora de eu me vingar do arrieiro de Pedra Menina”. Limpou o suor das mãos, juntando-as no pescoço da moça. E começou a esganá-la. “Adeus! Está tudo acabado. Vosmecê perderá Nicanor. E o cabra maldito ficará sem chão”. Ritinha não teve forças para reagir. Estava entregue à morte cruel, murmurando entre os dentes, a voz trêmula e inaudível: “Nicanor, me salve. Me salve, meu amor”.</p>
<p>Mas o vento batia nas águas, ensurdecendo os campos e as escarpas da serra ao redor. A música marcial do vento dizia: “A moça jamais voltará para os braços de Nicanor”. Adiante, na estrofe seguinte, após realizar vastas piruetas sobre aquela porção do vale do Paraúna, o vento perguntava: “Qual é o valor da vida no alto da cordilheira?” Esbugalhados, os olhos de Ritinha cessaram de enxergar os espaços vaporosos do vento, as cores da luz e os contornos fragmentados das pedras. Ramiro soltou um suspiro insano, vestiu-se instintivamente e subiu a trilha na direção do rancho de Seu Luis, mascando um pedaço de fumo tirado da algibeira. Sentou-se na porta do rancho, pediu uma garrafa de cachaça e bebeu sozinho e pausadamente. O vento soprava violento, assobiando nas pedras. Os poucos habitantes do lugar caminhavam com as mãos segurando os chapéus, atarracados nas cabeças a ponto de cobrir a linha dos olhos. O vento machucava o corpo inerte de Ritinha, abandonado na beira da água fria. O sopro invisível que percorria o campo e subia as montanhas oprimia Riacho dos Ventos, ocultando desditas.</p>
<p>O vento demorou a amainar. Correu em remoinhos, agitando as águas, dobrando os arbustos, chocando-se nas pedras, para lá e para cá, em cada reentrância da serra. Aceitou a calmaria somente quando findaram as exéquias à alma de Ritinha. Um mensageiro saiu à procura de Nicanor, a mando dos pais da moça. Encontrou-o sobre a ponte do Acaba-Mundo. Nicanor recebeu a notícia como se ouvisse palavras finais fulminantes. Rolou pelo assoalho da ponte, desesperado. Ao levantar-se, era já desvario. Enlouqueceu completamente. Seu Luis e o rancho prostraram-se de fazer dó, definhando, definhando. Antes mesmo do trem de ferro alcançar Diamantina e tornar inútil o caminho de tropas que cortava Riacho dos Ventos, o pouso na venda de Luis Almeida virara pó. E Riacho dos Ventos encruou, como se expiasse um castigo infindável.</p>
<p>Houve quem suspeitasse de Ramiro. Mas ninguém possuía provas de que o tropeiro frio como pedra, cruel como bicho, perigoso feito cascavel e com a horrível cicatriz sobre o olho esquerdo, fora o autor do crime que vitimou Ritinha, Nicanor, Seu Luis e Riacho dos Ventos. Seria prudente não dar motivos de ira para Ramiro, guardar distância dele, esquecer o que se passara na beira da cachoeira do Paraúna. O que ficou mais fácil por que, alguns anos depois, uma empresa de Diamantina, conhecida como “Hulha Branca”, construiu no local pequena usina que fornecia eletricidade para Diamantina e Curvelo.</p>
<p>Quanto a Ramiro, seguiu vivendo como um espantalho, talvez como uma assombração. Ele notou que o ofício de tropeiro estava com os dias contados, que os automóveis logo reduziriam as rotas do comércio burriqueiro a trechos curtos, de lucratividade reduzida. Então, pensou numa maneira de acomodar-se ao progresso. Há tanto tempo conscrito da ferocidade, incapaz de qualquer generosidade, Ramiro entrou para a Força Pública. Assentou praça em Diamantina, Bocaiúva, Minas Novas e Jequitinhonha. Retornou a Diamantina como cabo, cotado para promoção a sargento. Ramiro considerou a decisão de alistar-se na polícia natural, pois sua escolha, desde os tempos de tropeiro, fora viver dentro de si, em solitária liberdade e movimento. Para ele, ficar parado era a morte, a pior das mortes num mundo bárbaro, viril e violento, que exigia o aprendizado do convívio com os poderosos e homens de vontade férrea, por força da necessidade de sobreviver e se afirmar.<br />
Ramiro esteve uma última vez em Riacho dos Ventos, de passagem, no comando de meia-dúzia de soldados encarregados de garantir a segurança nas eleições na Vila de Paraúna, onde as facções do partido governista consumiam-se em ameaças e atentados. O cabo pôde ver as ruínas do rancho de Seu Luis Almeida, descer até a beira da cachoeira. Ali, Ramiro tirou a casaca parda do uniforme, desabotoou a braguilha e mijou sobre as pedras, com os olhos fechados. Sequer conseguiu lembrar-se da morte de Ritinha.</p>
<p>Nesse instante, o vento engrossou, e ressoou como um guincho. Buscou as alturas como um gavião afugentado por um tiro disparado contra ele bate asas na direção do espaço remoto.</p>
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		<title>Prosas do Espinhaço Central II</title>
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		<pubDate>Thu, 08 Jan 2009 21:37:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Diamantina]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[Fortunas]]></category>
		<category><![CDATA[História inventada]]></category>
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			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>Bilionários de bolsos vazios. </strong></p>
<p>Fazia frio abaixo de zero. A neve caía branda, os riachos começavam a congelar. Fora das casas, o clima estava medonho, tal qual a economia, embicada rumo à recessão. Na residência luxuosa no vilarejo de Blaubeuren, no sul da Alemanha, Adolf Merckle experimentava terrível confusão. Suas costas estavam mais arqueadas que de costume, sob o peso de uma frustração inigualável. Ele não conseguia acreditar no que ocorrera tão rápido, a partir de setembro. O trabalho de uma vida inteira havia derretido. Os ativos de Merckle, industrial poderoso, o quinto homem mais rico da Alemanha, afundaram em queda livre. Suas ações perderam valor e as empresas que ele comandara por tanto tempo ficaram brutalmente endividadas. Já velho, com 74 anos, Merckle não imaginava o que poderia fazer para salvar o emprego de 10 mil pessoas ou preservar a fortuna da família. Ele tivera, somente em outubro, perdas de um bilhão de euros – uma quantia que é muito difícil juntar.</p>
<p>Naquela noite tenebrosa, talvez Merckle tenha relido os jornais dos dias anteriores, cuidadosamente empilhados sobre a escrivaninha do escritório, ao lado do abajur antigo e delicado, jóia do design art nouveau. E corrido os olhos, rasos em lágrimas, na notícia da morte de Thierry de La Villehuchet, investidor francês que conhecia pessoalmente. Villehuchet suicidara-se num quarto luxuoso de hotel em Nova Iorque, num gesto de desespero diante da perda de bilhões de dólares com a crise financeira. Usando uma faca, à maneira dos japoneses, que praticam o “haraquiri” quando fracassam ou desonram seu país, sua empresa ou família. Merckle pensava que o “haraquiri” era coisa do passado e que, definitivamente, esse não seria o modo apropriado de um francês, rico e refinado como Thierry, pôr fim à própria vida. Lá fora, o frio e a neve tomavam conta de tudo. A cabeça de Merckle girava e doía.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img size-medium wp-image-354 aligncenter" style="width:550px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/01/navio-a-vapor-brasileira-atracado-no-porto-de-pernambuco.jpg" rel="lightbox[353]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2009/01/navio-a-vapor-brasileira-atracado-no-porto-de-pernambuco.jpg" alt="" width="550" height="322" /></a>
	<div>Navio a vapor &quot;Brasileira&quot;, atracado no porto de Pernambuco no século XIX.</div>
</div>
<p style="text-align: center;"><span id="more-353"></span></p>
<p>“Eu não me sinto bem”, murmurou Nicolau, de honorável família mineradora do Serro. O mal-estar que acometia Nicolau alcançara o ápice. Ele não distinguia direito as luzes distantes, que o capitão do vapor anunciara ser as da orla litorânea da capital brasileira. Nicolau estava cabisbaixo, enjoado, melancólico. Retornava da Europa como se tivesse a espinha quebrada. Nem a presença da jovem esposa ao seu lado melhorava seu ânimo. Nicolau sabia que, a essa altura, quanto mais o vapor se aproximava do Rio de Janeiro, mais gente recebia notícia sobre seu infortúnio nos negócios. Pensava que os credores bateriam à sua porta tão logo pusesse os pés em Diamantina. O povo da cidade, indiscreto e cruel, comentaria na sua passagem que o poderoso diamantário perdera tudo, num golpe cruel do destino. Corria o ano de 1874. No ano anterior, Nicolau empregara centenas de contos de réis, toda a fortuna que acumulara até então, na compra de muitas partidas de bons diamantes. Decidiu-se a vendê-las diretamente na Holanda e na França, aproveitando para presentear a esposa com uma viagem de princesa. Planejou a empreitada meticulosamente: aquela viagem faria dele o dono da maior fortuna do Norte de Minas. Poderia viver o resto da vida folgadamente, ao lado da mulher e na cidade que amava.</p>
<p>Acontece que, poucos anos antes, os ingleses descobriram fabulosas minas de diamantes na África do Sul. De uma hora para outra, as praças européias foram inundadas de pedras de alta qualidade. Os preços desabaram, caindo quase setenta por cento. Ao desembarcar na Europa, Nicolau percebeu que estava perdido – não recuperaria nem um terço do dinheiro que empregara para comprar diamantes nas lavras de Diamantina e do Sincorá. Ele percorreu Amsterdã e Paris desesperado, fez o que pôde para obter preços razoáveis. Em vão. Quase ficou sem dinheiro para regressar ao Brasil com a mulher. Na travessia do Atlântico, Nicolau praticamente nada comeu, bebeu e falou. Arrastou-se pelos corredores e convés do vapor como um espectro. Sua esposa não sabia mais o que tentar para reanimá-lo. Nicolau ficou ainda mais fragilizado pela monotonia da viagem. O oceano enorme ampliou a sensação de impotência que conquistara o espírito dele.</p>
<p>Conforme informou a polícia alemã, Merckle escreveu uma carta com desculpas à família. Disse que não tinha mais forças para resistir, principalmente depois que um jornal local referira-se a ele como “o bilionário de bolsos vazios”. Sozinho no escritório, Merckle vestiu o pesado casaco, colocou o chapéu de feltro elegante na cabeça, abriu a gaveta e apanhou sua arma. Saiu de casa sem despedir-se, silencioso. Caminhou pelas ruas do vilarejo, despedindo-se no meio da neve. Na estação, não havia viva alma. O industrial caminhou na direção dos trilhos, enquanto relembrava a marcha de sua existência. A neve, o frio e a solidão acompanharam-no por algum tempo. A pequena distância da estação, Merckle parou, sentou-se nos trilhos e, em soluços, deu uma última olhada em torno. Tirou a arma do bolso do casaco e suicidou-se. Deixou mulher e quatro filhos. Horas depois, ferroviários encontraram seu corpo estendido nos trilhos. A Alemanha ficou chocada.</p>
<p>Quando a notícia chegou a Diamantina, o choque foi instantâneo e grande. Nicolau havia morrido afogado no mar, na entrada da baía de Guanabara. Numa cidade tão católica, essa era a versão conveniente. Mas muitos sabiam da verdade. Nicolau, inteiramente deprimido com a falência irremediável de seu comércio pedrista, suicidara-se. Ele, que não sabia nadar, no meio da noite fechada atirou-se no mar. Envergando terno de tecido inglês confeccionado num reputado alfaiate da Corte, chapéu e bengala, Nicolau disse à esposa que iria tomar a fresca, despediu-se com ternura incomum, deixou sua cabine e caminhou para o convés. Calmamente, afastou-se dos passageiros aglomerados na amurada voltada para as luzes na linha do horizonte. E, de um lance, com a agilidade de um felino, pulou a amurada oposta, gerando um pequeno círculo de espuma na superfície crispada do mar. Os tripulantes tentaram acudir. Os marinheiros lançaram bóias e cordas, ação inútil porque Nicolau já se decidira: queria livrar-se de vez do fascínio dos diamantes que, ao fim e ao cabo, arruinara sua vida. As autoridades policiais da Corte jamais encontraram o corpo de Nicolau. Como ele, diversos homens de negócio de Diamantina quebraram nos meses seguintes, e houve alguns outros casos de suicídio nas regiões de lavra.</p>
<p>O chefe de polícia do vilarejo de Blaubeuren, enquanto registrava a ocorrência da morte do rico industrial, lembrou-se das histórias narradas por seu avô de investidores que, no lastro da crise de 1929, se jogaram do alto de edifícios em Nova Iorque. Moveu os olhos em direção à janela e falou para seu auxiliar: “Vai ser difícil. Os ativos econômicos sobem e descem, mas se sobem demais, produzem tombos monumentais. E homens morrem por causa disso”. Maquinalmente, o auxiliar do chefe de polícia respondeu: “Isso é da natureza da roda da fortuna”. Porque a família de Nicolau era prezada pelo Bispo de Diamantina, foram autorizadas missas em intenção de sua alma na Capela de Nosso Senhor do Bonfim. Na Pregação, o cônego da Sé repetiu insistentemente: “O dinheiro é a maior evidência de que o diabo existe.(Santo Agostinho, 354-430)”. Gastava seu bom latim para admoestar os homens de negócio. Os fiéis pensaram, mas não falaram em voz alta: “É chover no molhado”.</p>
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		<title>Prosas do Espinhaço Central I</title>
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		<pubDate>Fri, 26 Dec 2008 02:32:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Marcos Lobato Martins</dc:creator>
				<category><![CDATA[Conto]]></category>
		<category><![CDATA[Diamantina]]></category>
		<category><![CDATA[Ficção]]></category>
		<category><![CDATA[São João da Chapada]]></category>

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		<description><![CDATA[A revolta póstuma de Alcino Há vidas que se arrastam anos a fio, sem que nada extraordinário aconteça. São vidas bestas, moldadas inteiramente pelas circunstâncias, acomodadas ao tempo, submetidas à monotonia dos bons dias e boas noites, ditos protocolarmente. Não se saberia dizer se esse foi o caso da vida de Alcino. Alcino viveu poucos [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><strong>A revolta póstuma de Alcino</strong></p>
<p>Há vidas que se arrastam anos a fio, sem que nada extraordinário aconteça. São vidas bestas, moldadas inteiramente pelas circunstâncias, acomodadas ao tempo, submetidas à monotonia dos bons dias e boas noites, ditos protocolarmente. Não se saberia dizer se esse foi o caso da vida de Alcino.<br />
Alcino viveu poucos anos. Enquanto pôde ser visto, em carne e osso, em São João da Chapada, Alcino alcançou uma vitória digna de nota, e experimentou uma enorme frustração. Logo depois morreu, como um passarinho, antes de abrir a venda que herdara do pai e que comandara sistematicamente desde quando deixara o Seminário de Diamantina. Era um rapaz bom, piedoso, calado, freqüentemente imerso em seus pensamentos a ponto de sequer ouvir os fregueses. Por isso, havia quem o considerasse louco. Outros achavam que ele tinha um amor recalcado, que o comia por dentro, lentamente. Porém, todos os dias, sem falhar nenhum, Alcino podia ser encontrado na venda que seu pai abrira numa rua secundária de São João da Chapada, com o dinheiro que ajuntara nas lavras do Barro Duro e Barro Mole.</p>
<p>A venda era típica do interior mineiro, uma espécie de mescla de mercado e bar. Duas portas dominavam a fachada do edifício, cada uma delas com duas folhas em madeira de lei, bastante altas, pintadas de azul. Na parede de trás, a dois metros do balcão de madeira – uma peça inteiriça que ia de fora a fora dentro da venda, deixando na extremidade esquerda pequena passagem, guarnecida por cancela na forma de xadrez – ficavam numerosas prateleiras presas nos tijolos com mãos francesas. Sobre essas prateleiras de madeira, que chegavam até o teto, repousavam garrafas de diversas formas e latas de coloridos berrantes. Alguns objetos estavam cobertos por grossas camadas de poeira, a denunciar que dormiam ali desde a abertura da venda. Próximas ao balcão, na frente como atrás dele, havia muitas caixas de madeira, suspensas sobre tábuas apoiadas em tocos retangulares, que guardavam mantimentos, ferramentas, utensílios domésticos, arreios e selas, chapéus, capas e botas rústicas. Nas paredes laterais, cujo reboco punha a nu o acabamento apressado da construção, pregos grandes sustentavam cordas, mangueiras, bateias, fumos de rolo e até armarinhos. Sobre o balcão, cuidadosamente distribuídos, havia baleiros e tabuleiros repletos de tira-gostos encomendados ali mesmo, a cozinheiras de São João da Chapada. Quatro ou cinco tamboretes serviam de descanso para os fregueses de Seu Antônio – o pai de Alcino – e, depois, para os clientes do próprio Alcino. No interior, os fregueses são repassados de pai para filho, como se fossem elementos de inventário.<br />
O chão da venda era de terra batida. O pé-direito, muito alto, terminava coberto por telhado de telhas de barro, gradeado por paus roliços cortados nas matas vizinhas ao distrito. As telhas, de tão gastas, estavam finas e porosas. As chuvas grossas faziam minar água do telhado, de modo que era preciso cobrir as caixas de mercadorias com couros de boi. O fato de não haver forro de qualquer espécie abaixo do telhado da venda, tornava seu interior fresco e agradável no tempo de calor, mas excessivamente frio durante os meses de maio a agosto. Tantos os fregueses quanto Alcino tiritavam, resignados, nas noites límpidas do inverno, que enregelava São João da Chapada, o lugar mais frio do Espinhaço central. Na mesma rua da venda, cerca de duzentos metros na direção sul, ficava a casa de Alcino. Uma construção pequena, sem requinte, alinhada com a rua que, naquela altura, abria-se num largo gramado, em cuja extremidade fincara-se, em tempos de antanho, um cruzeiro de madeira. Alcino nunca dormia sem antes acender aos pés do cruzeiro uma vela e dizer orações pelos seus: seu pai Antônio e sua mãe Josefa, morta justamente ao dar à luz o menino Alcino. No quintal da casa, com algum desdém Alcino mantinha uma horta, cafezal e pomar, cujos frutos levava para vender em seu estabelecimento. Nessas tarefas, era ajudado por Joaquim, negro velho que servira antes a seu pai. Não fosse Joaquim, a casa de Alcino viveria fechada, sem luz e limpeza. Havia quem acreditava que, graças a Joaquim, Alcino não se alimentava de vento.</p>
<p style="text-align: center;"><div class="img alignnone size-medium wp-image-338" style="width:299px;">
	<a href="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2008/12/sao-joao-da-chapada1.jpg" rel="lightbox[335]"><img src="http://www.minasdehistoria.blog.br/wp-content/arquivos/2008/12/sao-joao-da-chapada1.jpg" alt="" width="299" height="352" /></a>
	<div>Vista parcial de São João da Chapada, Diamantina. </div>
</div>
<p style="text-align: center;"><span id="more-335"></span></p>
<p>De fato, o moço possuía hábitos estranhos. Na verdade, não eram incomuns, apenas exagerados. Ia da casa para o trabalho, e do trabalho para casa. Abria a venda às 5 horas da manhã, quando apenas os garimpeiros estavam de pé nos serviços de lavra ao redor do povoado. Fechava à meia-noite, houvesse ou não freguês com os cotovelos postos sobre o balcão. Nas ocasiões de missa, corria para a igreja e deixava a venda, temporariamente, sob os cuidados de Joaquim. Era o momento certo de ir fazer compras no estabelecimento, porque Joaquim costumava errar nas contas, sempre a favor dos fregueses. Alcino não ralhava com o negro velho: achava que era um modo de fazer caridade para a gente pobre de Chapada. As novenas e as quermesses contavam religiosamente com a participação entusiasmada de Alcino. Ele era o braço direito do pároco que assistia o lugar, um francês robusto, sardento e de rosto bastante avermelhado, que todos chamavam de Padre João Pourier. Qualquer observador minimamente atento veria que Alcino só era feliz nas coisas da Igreja. Embora ele nunca dissesse, sonhava realizar batizados, celebrar casamentos de noivas jovens, rezar missas e ungir enfermos. Alcino talvez não tivesse coragem para oferecer o sacramento da extrema-unção. Afinal, quando a morte veio buscar seu pai, ele se trancou no quarto, saindo de lá somente quando já ia longe o cortejo fúnebre.</p>
<p>No comércio, Alcino quedava atrás do balcão. Passava o tempo praticamente sem sorrir, circunspecto, quase constrito. Algo invisível apertava sua garganta, deixando-o apenas respirar. Respondia aos fregueses monossilabicamente. Falava só o essencial, assim mesmo quando era impossível comunicar-se por gestos. Era moço melancólico, porém honesto e paciente. Daí porque sua freguesia não parava de crescer. Sua fortuna crescia gradualmente, embora Alcino sequer tomasse consciência do fato. Por força do comércio, vivia entre camponeses, garimpeiros, donas de casa, crianças levadas – enlouquecidas pelos grandes e coloridos pirulitos que havia nos baleiros da venda – e prostitutas. Valentões e foras-da-lei também entravam na venda, bebiam pingas, ouviam o rádio Telefunkem alojado no meio da parede direita do estabelecimento, diziam imprecações aos gritos e iam embora, assombrados com a calma benfazeja de Alcino.</p>
<p>Todos os moradores de São João da Chapada sabiam que Alcino não era feliz. Ele nunca se queixara a ninguém. Seus olhos, de um negro mais forte do que a plumagem do tiziu, traíam sua infelicidade. Alcino queria ser outra coisa. O destino impediu.</p>
<p>Ainda meninote, criado pelo pai rígido que tudo fizera para afastar o filho sem mãe dos sortilégios do garimpo, Alcino foi destinado à Igreja. Seu Antônio não se cansava de falar ao filho pequeno: “Sua mãe, que Deus a tenha, queria você longe do pecado. Sabe o que pode acontecer de pior a um rapaz? Entrar para o garimpo ou andar por aí dizendo coisas, como o Dr. Felício dos Santos, que tem idéias na cabeça. Alcino, você servirá a Igreja”. O menino prestava atenção ao que dizia o pai, embora demonstrasse, inicialmente, leves sinais de desespero. “O quê, pai? Os meninos daqui dizem que quem é padre renuncia à vida, estraga-a para sempre”. Firme, o pai impediu que a dúvida se instalasse na cabeça de Alcino: “Filho, você acredita nessa gente ignorante do Caeté-Mirim? Quer ser como eles, que além de pobres não sabem ler um simples telegrama? Filho, escute o que eu digo, ser homem da Igreja é a coisa mais digna que há no mundo”.</p>
<p>Quando chegou a idade certa, a educação e a orientação moral de Alcino foram postas nas mãos do Padre João Pourier. Alcino estudou as lições que o Padre lhe dava, com devoção incomum. Aprendeu a ler e escrever, matemática, história natural, francês, um pouco de grego e latim. O menino andava com o catecismo debaixo do braço, enquanto os outros garotos de sua idade jogavam bola nos largos do povoado, corriam atrás de cavalos nos pastos, nadavam no Caeté-Mirim e, aí pelos 10 ou 12 anos, acompanhavam os pais nos garimpos. Alcino mal conhecia o diamante, mas recitava versículos da Bíblia que era uma maravilha. Fizera-se sacristão na Igreja do Bonfim Estudou tanto que conseguiu ser aprovado nos exames do Seminário de Diamantina.</p>
<p>Nessa ocasião, a felicidade era indizível na casa de Seu Antônio e Alcino. Poucos dias depois, o Padre Pourier buscou o menino e deixou-o na porta do Seminário, após fazer detalhadas recomendações. Ali, no Seminário Sagrado Coração de Jesus, Alcino logo mostrou vocação para a vida religiosa. Mais do que bom aluno, Alcino possuía fé que fortalecia a cada dia. Sua alma era mesmo da Igreja. Sacerdotes e seminaristas admiravam Alcino, sua piedade, sua mansidão, sua obediência. E Alcino reconheceu que seu mundo era a Igreja, assim que olhou os fachos de luz filtrados nos vitrais coloridos da Basílica construída em pedra, onde os seminaristas ouviam a missa pela manhã e à noite.</p>
<p>Alcino gostava especialmente das aulas de História Sagrada. As vidas dos santos enterneciam seu coração. Elas lhe bastavam, como para os outros meninos de Diamantina importavam as histórias de monstros e heróis de capa e espada. Alcino desejava, no íntimo, ser santo. E pensava que conseguiria, caso seguisse o exemplo do caridoso Bispo Dom João, o prelado que o Norte mineiro aprendera a respeitar à frente do vasto rebanho dirigido pela Mitra de Diamantina. Alcino até mesmo conseguiu falar com Dom João, o que aumentou a admiração de seus colegas do Seminário Menor.<br />
Nas férias do Seminário, Seu Antônio mandava Joaquim buscar Alcino em Diamantina e trazê-lo para São João da Chapada. A viagem era feita no lombo de burros. Alcino olhava tudo ao longo da estrada: quanto mais via, mais desejava servir a Deus. Fora duas ou três palavras trocadas com Joaquim, Alcino rezava, segurando as contas do terço – presente do Reitor do Seminário, um padre europeu cujo nome era impronunciável. Em São João da Chapada, Alcino pouco saía de casa ou da venda. Só para visitar o Padre Pourier, quando este pousava no povoado para descansar das visitas às paróquias dispersas pelas chapadas da região, desde o Guinda até Curimataí. Alcino exibia a batina com orgulho, deixando-se ver pelos moradores rústicos – e nem sempre bons católicos – do lugar. Isso o deixava feliz. Foi nessa época que Alcino acendeu, pela primeira vez, velas ao cair da noite no pé do cruzeiro situado no largo defronte de sua casa. Aos poucos, uma multidão de mulheres, velhos e crianças começou a se reunir em torno de Alcino para rezar no cruzeiro.</p>
<p>Zeloso e cismarento, Padre Pourier chamou o seminarista. Deu-lhe conselhos, dissertou sobre as responsabilidades do clero e sobre as tentações do Demônio. “Alcino, já que estamos aqui conversando abertamente, me diga uma coisa: você já afastou aquele pensamento absurdo?” A pergunta do Padre Pourier desarmou Alcino. Ele tentou se safar, mudando de assunto. “Ah, Padre João. Isso ficou para trás. É bobagem da infância”. Ao que o sacerdote experiente retrucou: “Não me enrole, menino. Eu conheço seu coração. Vamos, me diga logo, você ainda tem aquele pensamento?”<br />
Apertado, Alcino baixou a cabeça. Desviou os olhos do Padre e sussurrou: “De vez em quando, Padre. Eu luto contra ele, mas parece que ele é mais forte do que eu. Aí eu agarro meu terço e rezo até cansar”. “Meu filho, você precisa se livrar dessa invocação do Diabo”. Ainda mais constrangido, quase aos choros, Alcino respondeu: “Mas Padre, é só uma idéia desbaratada de criança! Como ela pode me desviar do caminho de Deus ou provocar algum mal?” Sem perder a candura, porém aumentando o tom de voz, o Padre Pourier advertiu: “Alcino, nunca subestime as armadilhas que testam nossa fé. Purifica o seu coração, menino. E se livra para sempre dessa idéia que corrói suas entranhas. Jesus também foi tentado por jogos de palavras”. Alcino aquiesceu. Levantou-se devagar e saiu. Na porta da casa do padre, que ficava no fim do povoado, na saída para o Caeté-Mirim, Alcino prometeu que se esforçaria ainda mais. Varreria de sua cabeça aquele pensamento indigno, pronunciado quando fizera o catecismo ali mesmo, diante do Padre Pourier, seu tutor e confessor.</p>
<p>O povo de Diamantina, a que pertencia o distrito de São João da Chapada, é muito impressionável. Não há quem não acredite em assombrações, sinais do além, feitiço e prodígios sobrenaturais. Mas não é tão comum encontrar quem fique perturbado por pensamentos que pensou há muitos anos, no tempo de criança. Os pensamentos são como aves de arribação, batem asas para longe quando chega a estação certa. Então, o caso de Alcino era deveras curioso. Extraordinário. Para comprovar esse juízo, o próprio escrevera sobre o tal pensamento no diário que mantinha guardado numa caixinha de jacarandá, enfeitada com incrustações de cobre e pinturas de paisagens suíças. A caixinha fora-lhe presenteada pelo Padre Pourier, no aniversário de 10 anos. Nas páginas do diário, a história era contada como segue.</p>
<p>Ao completar o catecismo, quando se preparava para a Primeira Comunhão, Alcino foi perguntado pelo Padre Pourier: “Menino, diga-me o que você aprendeu no Catecismo”. Sem titubear, o filho de Seu Antônio, olhando sobre o ombro esquerdo os colegas sentados atrás dele, disse para o bom padre: “Eu aprendi que devemos ter medo do pecado e do Diabo. O Diabo está em todo canto, disfarçado sob as formas mais sutis. Ele prepara para o cristão golpes terríveis. O livro ensinou que o Diabo se esconde nos detalhes, não é Padre?” Sem tempo nem para respirar, Alcino prosseguiu: “Eu acho que o Diabo acompanha a pessoa aonde ela vai, escondido na sua sombra. O Diabo é a sombra, e a sombra nunca abandona a pessoa. Mesmo no meio-dia, a sombra está debaixo dela, encolhida. O Diabo tenta a pessoa através da sombra que ela forma na luz do sol e do candeeiro. Deus tinha que acabar com a sombra. Eu tenho medo de minha sombra”. Ao ouvir as palavras de Alcino, pronunciadas com judiciosa ingenuidade, o Padre estremeceu. Ficou furioso. Via-se que o sacerdote percebera que, naquela cabecinha tão devota, reinava uma confusão que nunca desapareceria inteiramente. João Pourier admoestou o menino, mandou rezar dezenas de Pais Nossos e Aves-Marias e encerrou o Catecismo, visivelmente perturbado. O diário revelava que, nem mesmo no Seminário, Alcino conseguira se livrar daquela idéia, que identificava o Diabo com a sombra das pessoas. Que fazia de Joões e Marias igualmente filhos de Deus e do Demônio. Nas noites mais escuras, cortadas por trovões e rajadas de temporais, Alcino sonhava com sombras que viravam diabos e pulavam, de mãos dadas, com as pessoas nos becos e travessas de Diamantina. O enorme crucifixo de prata na parede do dormitório do Seminário era incapaz de esconjurar esses pesadelos que sobressaltavam o sono do moço. Mas ele estava decidido a virar padre.</p>
<p>Ninguém acreditaria no contrário. Alcino ia bem no Seminário. Estava prestes a iniciar o curso de Teologia. Era, então, rapaz bem apessoado, corpo rijo e bem torneado, ombros largos, braços fortes, pele naturalmente bronzeada. Alcino misturava o que seu pai, português, e sua mãe, belíssima mulata das bandas de Mendanha, possuíam de traços físicos mais destacados. Metido na batina, fechada até o pescoço pelo colarinho clerical, chamava a atenção por onde passava. A ponto do Reitor do Seminário destacar um seminarista mais velho, que logo seria diácono, para acompanhá-lo discretamente, de modo a proteger Alcino dos arroubos das moças e da inveja dos colegas. Pedro era o nome do quase diácono que deveria cuidar de Alcino. Exagerado, abnegado, Pedro cumpriu a tarefa. Tornou-se a sombra de Alcino. Um dia, ele reparou o jovem seminarista no banho. A visão do corpo molhado, que brincava debaixo da água fria num dia de calor sufocante, deixou Pedro sem ar. Deslumbrado, Pedro não se conteve. Incapaz de resistir aos instintos que o assaltaram, tentou entregar-se a Alcino. O moço repeliu o quase diácono, assustado. Dali em diante, a vida no Seminário ficou impossível para Alcino, perigosa. Pedro era só obsessão. Sua paixão por Alcino fora arrebatadora, não possuía limites e exigia consumação. Os boatos cresceram entre os colegas. Os cochichos sobre Pedro e Alcino extravasaram os dormitórios e as salas de aula. Alcançaram o gabinete do reitor. Até que, numa noite gelada, a situação finalmente explodiu: Pedro foi apanhado bolinando com Alcino, que mal despertara do sono. No dia seguinte, a notícia espalhara-se. Até os comerciantes do Mercado no Largo da Cavalhada Nova comentavam o ocorrido. O escândalo corria solto, como os cães vira-latas que infestavam os becos de Diamantina. Não restou ao Reitor outra saída, senão expulsar ambos os seminaristas.</p>
<p>Para Alcino, aquilo foi a morte. Voltou envergonhado e deprimido para São João da Chapada. Seu Antônio não resistiu ao disse-que-disse. Caiu de cama, doente, e não se recuperou. Morreu alguns dias depois, com o coração alquebrado. Alcino trancara-se no quarto, onde apenas chorava. Seu inseparável terço, com contas que imitavam madrepérola, dormiu esquecido na cabeceira do pai moribundo. Na hora do enterro de Seu Antônio, Alcino levantou-se, vestiu calça escura de linho e paletó preto, abotoou até o pescoço a camisa branca de algodão e saiu do quarto. Falou para Joaquim: “O mal está feito. A partir de hoje, cuidarei da venda de meu pai”.</p>
<p>Por quase vinte anos, Alcino foi vendeiro. Não falava sobre o passado nem sobre o futuro. Apenas vendia o que seus fregueses pediam. Cachaça, doces, salgados, ferramentas para garimpo, mantimentos e tralhas de uso doméstico. Neste tempo todo como negociante, Alcino viajou a Diamantina duas ou três vezes. Rever a cidade lhe causava sofrimento, despertava lembranças doídas. Por isso, combinou com um amigo dos tempos de Seminário, que também exercia o ofício de comerciante de secos e molhados e era respeitado pedrista, para ser seu representante e bastante procurador na praça do antigo Tijuco. Assim, sem afastar-se de São João da Chapada, Alcino recebia os tropeiros que o amigo despachava desde Diamantina. E negociava a dinheiro, fazendo o menor uso possível de notas promissórias.</p>
<p>Alcino tratava os fregueses com igual distanciamento. Vivia encimesmado. O tédio da vida em São João da Chapada não lhe desagradava. Ao contrário, fazia bem para a melancolia de Alcino. Ele passava horas sentado na soleira da porta da venda, ao lado do negro Jacinto, freguês que, ao cair da tarde, picava fumo e enrolava cigarros de palha. Enquanto o negro fumava, Alcino ouvia o assobio do vento nas pedras que são como muralha ao redor do povoado. A única coisa que irritava Alcino eram as aparições de Porcina, cabocla bem feita de corpo lá de Quartéis do Indaiá. Ela possuía olhos grandes, lábios carnudos, ancas largas, cabelos anelados cortados na altura dos ombros e nenhuma instrução. Há muito declarara seu interesse por Alcino. Dizia que sonhava com ele, em afazeres de cama. E que, mais cedo do ele imaginava, os dois se casariam. A conversa de Porcina deixava Alcino desarvorado, em brasa. Por isso, ele afastava a cabocla oferecida tão depressa quanto podia. Chegava a ralhar com ela: “Mulher perdida, não vês que não quero dormir com Satanás?” Logo ouvia a resposta, embrulhada no eco de suas próprias palavras: “Alcino, um dia você me paga. Vai ajoelhar e me pedir pra ser sua”. Afogada em lágrimas, Porcina, coitada, voltava para Quartéis do Indaiá. E tudo recomeçava, como se fora uma espécie de ciclo cósmico, quando terminavam os mantimentos na cabana da cabocla, à beira do Caeté-Mirim.</p>
<p>As discussões de Alcino e Porcina divertiam o povoado. O comentário era geral. Zé Grande, garimpeiro astuto e banguela, falava: “Um homem não pode viver sem deitar com mulher. Tem trem errado com Sô Alcino”. Eufrásio, seu companheiro de gole, emendava sem titubear: “Deixa de ser bobo, Zé. O Alcino é padre gorado. Mas possui mais fé que muito bicho de batina por aí. Pro Alcino, mulher serve é pra ser beata”. A maioria da gente de São João da Chapada, porém, acreditava em silêncio que Porcina acabaria fisgando o vendeiro. Secretamente, havia quem fizesse simpatias casamenteiras em favor de Porcina. Dona Do Carmo, corpo arqueado pelo peso da idade, rosto enrugado como maracujá esquecido no armário, que trouxera meia população do lugar à vida, pensava diferente: “O fim de Alcino será inesperado e triste. Que Nosso Senhor do Bonfim o proteja!”</p>
<p>A diversão de Alcino era pouca. Às vezes, nos domingos límpidos e quentes, se não era dia de missa ou festa de santo, Alcino pegava sua velha espingarda de caça, herança do pai, e entrava pela mata, na direção da Chapada do Couto. Somente Carvão, um cachorro negro que nem breu, esquálido – se podia ver todas as costelas e espinhas do bicho cutucando o couro – e que passava os dias na frente da venda, somente esse companheiro sem raça acompanhava Alcino. As caçadas nada rendiam, talvez porque Alcino nunca aprendera a atirar no Seminário e seu pai não tivera tempo para suprir essa lacuna da educação do moço. Talvez Alcino, justamente quando colocava uma paca ou um veado sob a mira da espingarda, lembrava-se de São Francisco, desistindo de atirar. O segredo morreu com o moço.</p>
<p>Numa madrugada de maio, depois que a lua vermelha deitara atrás das montanhas, deixando no céu nuvens escuras perfiladas à maneira militar, o candeeiro na casa de Alcino não foi aceso. As janelas permaneceram fechadas. A porta, que nunca era trancada, também não abriu. Joaquim apareceu no muro da frente, transtornado. Os cabelos desgrenhados do negro revelaram que algo inesperado havia acontecido. Ele soltou um grito, acordando os vizinhos. Alguns minutos bastaram para que gente do povoado inteiro estivesse diante da casa de Alcino, as costas voltadas para o cruzeiro molhado pelo sereno. Alguém saiu lá de dentro e informou a multidão: “Seu Alcino morreu”. Passada a comoção, começaram os preparativos para o velório e o enterro do vendeiro, que, apesar das esquisitices, era figura bem-quista na comunidade. Trouxeram o caixão e botaram na sala da frente, cujas janelas e portas já estavam escancaradas. O vento soava sem trégua e trouxe Porcina. A cabocla debatia-se, inconformada. Ajoelhou na lateral do caixão, abraçada ao corpo inerte de Alcino. Porcina soluçava profundamente. Não poderia haver maior contraste com o moço defunto: ele jazia silencioso, pálido como a parafina das velas de igreja, olhos cerrados, boca entreaberta, as mãos justapostas sobre a barriga. Vestiram Alcino com as mesmas roupas que ele usara no enterro de Seu Antônio. O que levou Dona Do Carmo a falar em voz baixa: “A vida tem coincidências terríveis”.</p>
<p>O velório encheu a casa de gente. As condolências foram dirigidas ao velho Joaquim, o único membro da família que sobrevivera. Na cozinha, as mulheres faziam fornadas de biscoitos, fritavam lingüiça e torresmo, enchiam garrafas de café e copos de pinga. Os homens na sala, ao redor do caixão, cumprimentavam o defunto, rezavam qualquer coisa e saíam para a rua, formando rodas de conversa. Nessas rodas de conhecidos e amigos, a vida de Alcino era objeto de escrutínio. Fizeram-se juízos sobre a justiça ou injustiça de sua expulsão do Seminário, sobre seu jeito de negociar e, é claro, o caso do amor de Porcina por ele. A comida não parava. Chegaram duas violas e uma rabeca. No quarto de Joaquim, no fundo da casa, buscou-se um pequeno tambor. A música teve início e a dança esquentou. São João da Chapada, como previa o costume, bebia o morto. Veio o crepúsculo, a noite e a madrugada. O frio era intenso. Nem por isso a casa ficou vazia. O defunto na sala sequer um momento foi abandonado: pelo menos um moleque ficava ao lado do caixão, além de Porcina, em prantos.</p>
<p>Algo, contudo, não andava direito. Mesmo imóvel e cada vez mais pálido, Alcino enviava sinais de que era um defunto desconfortável. Imperceptivelmente, os olhos dele se abriram. Os cabelos esvoaçaram de leve, o nariz entortou para a esquerda e as mãos, que repousavam sobre a barriga, separaram-se alguns milímetros. Estas mudanças consumiram horas, mas Porcina percebeu o que se passava. Ela esperava, crente no milagre da ressurreição de seu amado Alcino.</p>
<p>Deitado no caixão, no meio da sala da casa que fora de seu pai e depois dele, Alcino, mortinho da silva, lembrou-se de que, antes de morrer, fora invadido pelo mesmo pensamento indigno que a vida toda tentara esquecer. Sob os cobertores, a cabeça no travesseiro e o rosto apontado para a esteira do teto do quarto, Alcino sentiu um calafrio percorrer sua espinha, de cima para baixo, seguido imediatamente por uma dor fulminante. Alcino teve tempo de concluir, apavorado: “Se a sombra da pessoa é o Diabo que a acompanha, onde quer que ela vá, então, quando eu me deito e minha sombra coincide exatamente com meu corpo, o Diabo finalmente assume o meu ser, engalfinha minha alma”. Nesta linha de raciocínio, enquanto seu coração ainda batia, fraquejando, Alcino se perguntou: “Quem morre deitado, o corpo bem estendido, viverá a eternidade de mãos dadas com o Diabo?” Nesta altura, Alcino cerrou os olhos para sempre.</p>
<p>Imóvel na sala, abraçado por uma Porcina inconsolável, o defunto de Alcino ansiava por liberdade. Porcina compreendeu isso. Entendeu que o vendeiro não era do tipo de morto que precisava de quem o velasse para defendê-lo de inimigos secretos. Alcino também não precisava que o velassem para que ele próprio não aprontasse alguma. Ele nunca gostara de confusão. O que Alcino suplicava, pensou Porcina, era que o deixassem levantar e ir embora, viver tudo aquilo que ele não havia vivido. Quando as velhas carpideiras chegaram, Porcina apertou as mãos de Alcino e falou, com os olhos rasos de lágrima: “Agora vá, meu pobre moço”. Por um instante o velório ficou petrificado. Um sopro gelado escapou do caixão, varrendo os quatro cantos do ambiente e esgueirando-se pela porta da rua, no rumo da estrada. Uma voz trêmula, muito semelhante à de Alcino, falou essas últimas palavras: “Vou realizar minhas vontades, larguem-me!”.</p>
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