Lago de Furnas na Iniciação Científica Jr.
Apresento abaixo o painel preparado pela estudante Paloma Andrade, bolsista de Iniciação Científica Jr., apresentado na III Jornada de Iniciação Científica 2010 da Universidade Federal de Alfenas. Uma pequena pesquisa no campo da História Ambiental, ainda em andamento, na qual a Paloma tem mostrado empenho, inteligência e discernimento. Pena que o formato de divulgação, fixado pela UNIFAL-MG, não seja dos mais apropriados para a divulgação de trabalhos da área das Humanidades. Mas regras são regras… Caberá a nós lutar para flexibilizar os padrões escolhidos pela instituição, em conformidade com a tradição e as necessidades de cada área do conhecimento, sem prejuízo, é claro, da qualidade e do rigor acadêmicos.Trajetória das percepções dos moradores de Alfenas e Fama relativas ao lago de Furnas (1963-1999)
Bolsista BIC-Jr: Paloma Andrade
Orientador: Prof. Marcos Lobato Martins
Introdução
A Usina Hidrelétrica de Furnas surgiu no início da década de 1960, transformando a vida e as paisagens no sul de Minas. Neste trabalho, pretende-se examinar as variações nas percepções (TUAN, 1980) relativas ao lago de Furnas dos moradores das cidades de Alfenas e Fama, de 1963 até os dias de hoje.
Metodologia
A abordagem escolhida foi histórica e qualitativa.
As fontes da pesquisa foram notícias de jornais locais, textos de memorialistas de Alfenas e testemunhos de moradores. As obras dos memorialistas foram empregadas para obter informações do processo de construção da Usina de Furnas e do enchimento do reservatório. O Jornal dos Lagos teve suas edições do período 1984-2009 examinadas, anotando-se as matérias que faziam referência à represa. As matérias foram classificadas, tabuladas e analisadas. As entrevistas semi-estruturadas, num total de 7 (sete), foram realizadas com pessoas de idades, profissões e condições sociais diferentes, incluindo ex-funcionários de Furnas e deslocados pela represa.
Os dados das diversas fontes foram cruzados para encontrar padrões e discrepâncias, visando elaborar “modelos” das percepções do lago ao longo do período estudado.
Discussão dos resultados
Os textos dos memorialistas (VIEIRA, 2002), de modo geral, enfatizam as profundas alterações do espaço regional, os sofrimentos e as perdas provocados pela Hidrelétrica de Furnas. Da mesma forma, a maioria dos depoentes que vivenciaram o processo ressaltou as consequências funestas da represa: inundação de terras agricultáveis, rompimento de laços sociais e modos de vida tradicionais, deslocamento forçado, etc. Curiosamente, o tema da perda e do sofrimento ainda predomina nas notícias do Jornal dos Lagos nos primeiros anos da década de 1980.
Nós não acreditávamos na construção da represa, porque era um abismo cercar um rio como aquele. Se estancasse o rio, ele ia embrabar, cobrir os baixos, emporcalhar e criar mosquito. Quando vi aquele mar de água, foi só recordação e mau humorismo (Depoimento de Benedito Fialho, 79 anos, pequeno agricultor, deslocado pela barragem).
Os depoimentos de pessoas mais jovens, na faixa de 35 a 65 anos, que não afetadas diretamente pelo enchimento do lago de Furnas, tendem a valorizar a beleza cênica da represa e as novas possibilidades de lazer e sociabilidade que surgiram em torno dela. O lago de Furnas é lugar para curtir a “natureza”, os amigos e a família, relaxar e distrair.
Nossa região é privilegiada pela natureza. Tem o lago de Furnas, que é a coisa mais linda. É ideal para ir com a família, ver passarinhos, pescar. Isso alivia a gente. Desde rapazinho eu vou com os amigos para Harmonia e Barranco Alto (Depoimento de Davi Hipólito da Silva, 53 anos, trabalhador rural, colhido em 16 de maio de 2010).
Estas mesmas percepções aparecem nas matérias do Jornal dos Lagos na virada dos anos 1980 para os anos 1990. O jornal fala mais de beleza paisagística e de turismo. E diz que “todos sofrem com a imagem da água secando”, como em 1999.
A partir de 1992-1993, o Jornal dos Lagos, além de diversificar os temas da cobertura relativa ao lago de Furnas, desloca a atenção editorial para as questões do aproveitamento econômico da represa. Esta preocupação, no entanto, não encontra correspondência nos depoimentos da maioria dos entrevistados.
Até pouco tempo o que a população fazia era reclamar. Afinal muita terra foi inundada pela represa de Furnas. Depois veio a fase de somente aproveitar o lago sem qualquer cuidado para sua preservação. (…) Agora a realidade é outra, o lago pode se transformar numa imensa fonte de lucro (Jornal dos Lagos, 15 de fevereiro de 1997).
Considerações finais
No período 1963-2009, podem ser identificados três conjuntos distintos de percepções relativas ao lago de Furnas entre os moradores de Alfenas e Fama. São eles:
Mar artificial funesto: percepção que predominou nos anos 1960 e 1970, na qual o lago de Furnas aparece como obra imposta pelo Governo, causadora de inundação, perdas de terras agricultáveis, rompimento de modos de vida e laços sociais tradicionais.
Natureza aprazível: percepção formada a partir dos anos 1970, com forte presença entre a população comum, que realça as ideias do lago de Furnas como “cartão postal” do Sul de Minas, lugar para curtir a natureza, os amigos e as famílias, patrimônio “natural” da região.
Natureza mercantilizável: percepção formada a partir dos anos 1990, predominante entre técnicos governamentais, políticos e empresários da região, na qual o lago de Furnas é fonte de recursos para os municípios, oportunidade de negócios e suas belezas cênicas são encaradas como algo a ser preservado e submetido a exploração racional.
Bibliografia sumária
VIEIRA, Ildeu Manso. Mandassaia. Alfenas, MG: ArteGráfica Atenas, 2002.
MARTINS, Marcos Lobato. História e meio ambiente. São Paulo: Annablume, 2008.
TUAN, Yi-Fu. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: Difel, 1980.
Por Marcos Lobato Martins, 5 de agosto de 2010. Comentários

