Quintais, chácaras e abastecimento em Diamantina

O turista que visita Diamantina inevitavelmente fica impressionado com a profusão de rochas que cercam toda a cidade, brotando do chão por todo lado, disputando espaço com o capim natural que forma os campos rupestres do topo da Serra do Espinhaço. Caso o turista caminhe pelas imediações da antiga cidade, encontrará solo arenoso, raso, coberto quase sempre por uma camada de pedregulhos que brilham sob o sol. Um ambiente em nada favorável à agricultura, uma terra que mais parece lunar, boa para lagartixas e mocós, animais muito à vontade no mar de lajes de pedra sobre o qual o vento bate inclemente, frio, barulhento. Nem mesmo os numerosos fios d’água que correm nos terrenos de Diamantina são capazes de evitar um juízo comum: neste canto de Minas Gerais, as lavouras nunca prosperaram.

Mercado municipal de Diamantina, por Vítor Lima.
Mercado municipal de Diamantina, por Vítor Lima.

Também assim julgaram os historiadores: o abastecimento alimentar de Diamantina e, antes dela, do Arraial do Tijuco, sempre teve que vir de longe, de plagas mais favoráveis aos trabalhos de roça e de criação de gado. De Minas Novas e do Serro, no lombo de burros, teriam chegado os “gêneros do país” que alimentaram os moradores do Tijuco e Diamantina. De, no mínimo, dez, quinze léguas de distância chegariam os grãos, os legumes, as hortaliças, as frutas, os queijos, as farinhas, o toucinho, etc.

Está na hora de rever este ponto de vista, equivocamente consolidado na historiografia regional. Na senda aberta por José Newton Coelho Meneses, autor de “O continente rústico: abastecimento alimentar nas Minas Gerais setecentistas” (Diamantina: Maria Fumaça, 2000), é preciso seguir criticando a tradicional oposição entre mineração e agropecuária no Alto Jequitinhonha. Insistir que, também nesta região, os indivíduos e as famílias se envolveram com a produção, o beneficiamento, o transporte e a comercialização de alimentos que chegavam aos lares do Tijuco/Diamantina. Inclusive no entorno imediato da cidade, em quintais e chácaras que se estendiam sobre os terrenos tão rochosos das serras de Santo Antônio, da Formação, dos Cristais.
Uma pequena contribuição nesse sentido ofereci, recentemente, por meio de artigo submetido à Comissão Organizadora do XIV Seminário sobre a Economia Mineira, evento que é tradicionalmente promovido pelo CEDEPLAR/UFMG, na cidade de Diamantina. O trabalho, intitulado “Quintais, chácaras, intendências e abastecimento alimentar em Diamantina: séculos XIX e XX”, será apresentado na Sessão de História 1: Produção, Comércio e Abastecimento”, programada para o dia 25 de maio próximo, no horário de 10h45 às 12h.

Coloco à disposição do leitor e da leitora, desde já, o link ( baixe aqui) do referido trabalho, cujo resumo é o seguinte: “Este trabalho investiga a produção alimentar nos quintais e chácaras de Diamantina e o movimento do Mercado Municipal no Oitocentos e Novecentos. O objetivo é analisar as estruturas existentes nos domicílios para a produção de alimentos que contribuíram para o abastecimento local e o papel da Municipalidade nesse campo, especialmente com a criação do Mercado Municipal. São assinaladas as mudanças de atitude da Câmara diante da produção nos quintais e chácaras, bem como os conflitos e dificuldades que marcaram o funcionamento inicial do Mercado Municipal. Utilizam-se narrativas de viajantes e memorialistas, documentos cartoriais, jornais locais e registros fiscais de Diamantina.”

Por Marcos Lobato Martins, 13 de abril de 2010.  Comentários

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