Cidade Administrativa tem olhos voltados ao futuro?

Obra do nova Cidade Administrativa de Minas Gerais
Obra do nova Cidade Administrativa de Minas Gerais

O engenheiro José Carlos Sussekind publicou, na edição de 11 de março, na Folha de São Paulo, um pequeno artigo em defesa da obra da Cidade Administrativa Tancredo Neves, inaugurada com pompa e circunstância pelo Governador Aécio Neves. O artigo é muito instrutivo, no sentido de que revela a permanência de arraigadas ideias sobre desenvolvimento urbano e regional nas lideranças políticas mineiras. O século XXI já começou faz tempo, mas ainda há quem siga acreditando que governar é fazer obra, e que o desenvolvimento regional se alcança com gigantescos projetos, orçados em bilhões de dólares.

O artigo de Sussekind principia pela afirmação de que a Cidade Administrativa é projeto vanguardista, visionário. As palavras do engenheiro são contundentes: “Situada em um dos pontos extremos (sic) da região metropolitana de Belo Horizonte, a Cidade Administrativa é o catalisador final que se soma ao vizinho aeroporto internacional, à via expressa que os interconeta (e também ao centro da cidade) e à disponibilidade de terras (sic) que abrirão o caminho para a expansão urbana e o crescimento da Grande Belo Horizonte. É um projeto cuja gênese contemplou uma lúcida análise com olhos voltados ao futuro”. Para Sussekind, a obra, que é a vitrine principal do “choque de gestão” do tucano Aécio Neves, tem o poder de reverter a “tendência autofágica da maioria das grandes cidades brasileiras”, de evitar adensamento populacional, engarrafamentos, desabamentos e enchentes, fazendo “Minas se juntar ao bom exemplo de Curitiba”. É o caso de se perguntar qual Belo Horizonte o engenheiro está enxergando. Desde quando a simples construção de um complexo administrativo, situado a 20 km do centro da capital, resolve problemas tão diversos como enchentes e desabamentos ou gargalos de trânsito na metrópole? Quem, sem recair no simplismo ou na pura apologia de uma ação governamental, pode acreditar que uma única obra grandiosa, vazada em concreto e vidro, realizada com “técnica e fantasia” e projetada por Oscar Niemeyer, encaminha de uma vez por todas os problemas urbanos de Belo Horizonte?

Na verdade, há quem preveja, e com muita razão, que a expansão do chamado “vetor norte” de Belo Horizonte já está produzindo problemas de montão. O engenheiro Sussekind se esqueceu de que não há, para início de conversa, disponibilidade de terras na região. A área norte-metropolitana é sensível do ponto de vista ambiental – aí estão situados o entorno do Parque Nacional da Serra do Cipó e a área carste de Lagoa Santa, patrimônio arqueológico brasileiro e mundial bastante ameaçado pela expansão de cidades que integram a RMBH, expansão esta que a obra de Aécio terá o condão de acelerar. Parece que Sussekind não se dispôs a tomar conhecimento dos debates que ocorrem entre o governo e a sociedade a respeito da fragilidade ambiental da região norte-metropolitana, no qual abundam críticas bem fundamentadas a diversos projetos estaduais para essa parte da RMBH. A simples combinação de “Linha Verde” e “Cidade Administrativa” muda o quê nos crônicos problemas de transporte coletivo na região? A extensão do metrô rumo a Pedro Leopoldo, Matozinhos e Lagoa Santa é apenas conversa, há décadas. O engenheiro também não atentou para a onda de especulação imobiliária que a megaobra deslanchou na área. Por isso, é retórica ou, para ser diplomático, exercício de “wishfull thinking” a afirmação de Sussekind: “Vejo a atual Belo Horizonte interromper e reverter o processo que, fatalmente, inviabilizaria sua qualidade de vida”.

Por outro lado, parte do enorme investimento feito na construção da Cidade Administrativa Tancredo Neves não teria sido melhor aplicado em desburocratização e simplificação da gestão estadual? Não daria a mesma visibilidade ao candidato à Presidência da República, é certo. Assim como considerações relativas aos patrimônios ambiental e cultural e à preservação da vitalidade do centro de Belo Horizonte pesam pouco nos cálculos políticos das lideranças mineiras.

Enfim, o artigo do engenheiro José Carlos Sussekind carrega o indisfarçável odor do “velho desenvolvimentismo”, aquele obcecado com grandes obras. Que os mineiros, aliás, JK à frente, souberam promover como ninguém nesse país.

Por Marcos Lobato Martins, 13 de março de 2010.  Comentários

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  1. Max Perdigão escreveu,

    em julho 23rd, 2010 às 11:56

    Prezado Marcos.

    Realmente, falando do Sussekind, nunca vi tanta besteira escrita no mesmo lugar. Quanto à obra, não precisa dizer muita coisa, a aberração arquitetônica, urbanística e ambiental está lá, juntamente com a Linha Verde, pra quem quiser ver. Pra início de conversa, o projeto deveria ser implantado no aeroporto Carlos Prates, algo que já seria um absurdo. Não sei como algo que, a princípio, foi concebido para um lugar pode ser implantado em outro totalmente diferente e “dar tão certo”.

    O Niemayer parou no tempo, faz a mesma arquitetura desde a década de 40 e ainda encontra quem a chama de vanguarda. Soma-se a isso o grande desserviço feito pela classe política que quer um projeto dessa grife a qualquer custo.

    Temos excelentes arquitetos no Brasil e é um absurdo ver uma obra desse porte ser feita sem um concurso, que poderia ser até internacional. Isso sim ampliaria a discussão sobre os problemas das grandes cidades, traria benefícios e colocaria Belo Horizonte no cenário contemporâneo. O problema é que a agenda política não bate com os interesses da cidade.

    Basta dar uma olhada no trabalho de arquitetos como Siegbert Zanettini, César Pelli, Renzo Piano, I.M. Pei e Álvaro Siza para ver que o tempo não para. Todos eles tem mais ou menos o mesmo tempo de carreira do Niemayer.

    Vanguanda tem que estar à frente do seu tempo. No caso em questão, acredito que esteja, pelo menos, com uns 50 anos de atraso…

    Parabéns pelo blog.
    Grande abraço! Max

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