Por que um arquivo histórico na UNIFAL-MG?
É bastante conhecida a máxima de Fustel de Coulanges (1830-1889), historiador francês autor do clássico La Cité Antique: Pas de documents, pas d’Histoire (“não há história-conhecimento sem documentos”). Ela permanece válida nos dias que correm, ainda que o conceito de documento e a prática da História tenham sofrido transformações enormes no decurso do século XX. A máxima de Coulanges realça a necessidade de estreitar a solidariedade do trabalho documental (em todas as suas instâncias) e da produção do conhecimento histórico. Em termos mais diretos, o ofício do historiador – e, portanto, a história-conhecimento – não pode existir sem que ele encontre, examine e interprete registros dos atores sociais do passado e de suas ações. Esta é a condição de possibilidade da pesquisa histórica.
Isto significa que, do ponto de vista acadêmico, professores e estudantes universitários de História, e não apenas eles, precisam contar com acervos documentais para levar adiante seu ofício, para escrever monografias, dissertações, teses, livros e propor projetos de pesquisa. O avanço do conhecimento histórico e da historiografia, notadamente no que se refere aos recortes local e regional, exigem a existência de bons arquivos. Os cursos de História necessitam desses organismos documentais para enveredarem nos caminhos da pós-graduação (mestrado e doutorado). Por outro lado, a criação do Arquivo é decisiva para a preservação da memória institucional, de forma a evitar que sejam perdidas as informações sobre os procedimentos e decisões do passado da Universidade. Como afirma Heloisa Bellotto, os arquivos universitários: “Possibilitam eficiência administrativa-acadêmica, informam sobre os procedimentos passados de ensino e de pesquisa; guardam direitos e deveres de professores, alunos e funcionários durante seu tempo de permanência na universidade e mesmo depois dele; finalmente, fornecem dados de toda ordem como ‘grande capital de experiência’ para a continuidade institucional da universidade” (BELLOTTO, 1989, p.25).
Tudo isto já seria razão suficiente para justificar a criação do Arquivo Histórico da Universidade Federal de Alfenas. Justificativa talvez excessivamente autocentrada, por assim dizer quase “egoísta”, até mesmo “corporativa”. Felizmente, contudo, há outras razões de natureza sócio-cultural que justificam o projeto, basicamente ligadas ao fato de que a preservação de registros do passado também é a condição de possibilidade da memória social e da formação das identidades culturais.
Paradoxalmente, a sociedade capitalista contemporânea está ávida por memória e por identidade, fato que torna a questão do patrimônio documental numa demanda de primeira ordem. Não era assim nas sociedades tradicionais, de ritmos lentos e comunicação direta, face a face, pequena escala e abrangente compartilhamento da experiência dos indivíduos e grupos. Nelas, a história e a identidade eram forjadas e transmitidas basicamente pela narração dos rapsodos, como na Grécia homérica ou nas tribos africanas. Na sociedade capitalista, porém, os eventos históricos ocorrem com tal rapidez e em tal escala de massa que não podem ser assimilados diretamente pela experiência cotidiana. Há, por um lado, a ruptura dos laços orgânicos entre passado e presente. Para o homem moderno, “o passado é um país estrangeiro”, no qual se movem outras sociedades e flui outro tempo. Por outro lado, há a operação de poderoso processo de esquecimento: a geração lucrativa de mercadorias requer a obsolescência programada dos produtos e a ocultação dos mecanismos de produção; o excesso de informações que atingem o indivíduo força-o a esquecer depressa a maior parte delas; a lógica da especulação imobiliária impede o apego aos lugares, alterados radicalmente da noite para o dia; a ideologia do novo privilegia a substituição contínua de coisas, ideias, comportamentos, valores, etc. etc. Traumatizados pelo corte do cordão umbilical que os uniria a um passado sem descontinuidade, os homens das sociedades contemporâneas pugnam pelo direito à história, pelo direito à memória e pelo direito à identidade social, trazendo uma série de reivindicações para a ordem do dia.
Daí porque o Estado, as escolas, as entidades privadas, as empresas, os meios de comunicação de massa, os movimentos e organizações políticos, sindicais e culturais, as minorias, e assim por diante, têm procurado refazer sua autoimagem, reordenando e ressignificando as representações existentes no imaginário das nações, grupos sociais e organizações. Disto decorre também a importância assumida pelos lugares de memória (pontos de condensação tópica da memória, de sentido material, simbólico e funcional) em nossa sociedade, como compensação pela perda da memória (e da história) como experiência coletivamente vivida. Conforme Pierre Nora: “Os lugares de memória são, antes de mais nada, restos. (…) É a desritualização de nosso mundo que fez aparecer a noção… Museus, arquivos, cemitérios e coleções, festas, aniversários, tratados, averbações, monumentos, santuários, associações, são os remanescentes testemunhos de uma outra era, ilusões de eternidade. Daí o aspecto nostálgico desses empreendimentos de piedade, patéticos e glaciais. São rituais de uma sociedade sem ritual… signos de reconhecimento e de pertença de grupo numa sociedade que tende a reconhecer tão-somente indivíduos iguais e idênticos” (NORA, p. XXIII-XXIV,1984).
Por causa dessa inquietação profunda com a memória e com a identidade, traço da condição do homem moderno que a modernidade líquida (BAUMAN, 2001) acentua, pode-se falar de uma alucinada “pulsão documental” nos tempos atuais. Um dos sintomas desse fenômeno é a demanda de acesso aos museus e arquivos, seja pela implementação de programas escolares de visitação, seja pelo aumento do interesse geral pelos assuntos da história e da cultura, o que leva às portas de entrada dessas instituições gente que nunca havia botado os pés nesses espaços de ares antes (e talvez ainda hoje) sisudos e restritivos.
É claro que estes fenômenos mundiais incidem sobre a realidade regional sul-mineira, ainda que com singularidades e matizes. O comentário essencial a ser feito aqui diz respeito ao fato de que se experimenta, no âmbito regional, uma situação já em vias de superação em outras partes do País: o avanço da demanda por políticas de memória e de identidade ainda não gerou desdobramentos substanciais no plano institucional, sobretudo nos municípios. As palavras-chave “resgate”, “recuperação” e “preservação”, cada vez mais pronunciadas nas cidades da região, ainda são slogans que renderam poucos e precários frutos institucionais: organismos documentais e de proteção ao patrimônio cultural.
Concretamente, Alfenas e as cidades da região do Lago de Furnas possuem ricos e variados acervos documentais, que incluem registros paroquiais (certidões de batismo e casamento, doações, etc.), registros civis (inventários, testamentos, procurações, contratos, etc.), processos criminais, registros oficiais (termos de vereações, leis e decretos municipais, livros de lançamentos de impostos e profissões, alvarás, correspondências, etc.), jornais, fotografias, cartas, pronunciamentos e discursos, plantas e mapas, memórias etc. Estes acervos, que são transformados em fontes pelo olhar do historiador, merecem cuidado especial porque são capazes de expressar a cultura das populações do Sul de Minas. Porém, o que se observa atualmente é desalentador: muitos acervos regionais e locais estão dispersos, esquecidos e ameaçados, situação que deve ser revertida com urgência.
Será preciso desenvolver ações no sentido de preservar, valorizar e divulgar o patrimônio arquivístico das cidades da região, o que não se fará sem o concurso de arquivos modernos e dinâmicos. Arquivos que inventariem, organizem, protejam e disponibilizem para a pesquisa – seja de historiadores e cientistas sociais, seja do cidadão comum que tem curiosidade sobre o passado – os acervos documentais existentes no Sul de Minas. Todavia, as tarefas citadas anteriormente são especializadas, demoradas e mesmo custosas.
Enfim, todas as considerações reunidas acima demonstram a necessidade de criação de um arquivo público vinculado a uma Universidade Federal, que terá facilidades para levantar recursos financeiros, técnicos e materiais e para constituir quadro composto de profissionais qualificados nos campos da Arquivologia, História, Museologia e Patrimônio Cultural.
Notas:
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BELLOTTO, Heloísa Liberali. Universidade e arquivos: perfil, história e convergência. In: Transinformação, v. 1, n. 3, set/dez 1989, p. 15-28.
NORA, Pierre. Entre mémoire et histoire. In: _____. (Dir.) Les lieux de mémoire I. La République. Paris: Gallimard, 1984.
Por Marcos Lobato Martins, 7 de fevereiro de 2010. Comentários

