No sábado de Carnaval, de automóvel e balsa
Viajar é, para mim, um prazer inigualável. Aprecio o movimento, o esforço de ligar paisagens infinitamente variáveis às linhas dos mapas rodoviários e das cartas geográficas, na tentativa de pôr carne nos esqueletos minuciosos – porém bidimensionais – gerados pela ultramoderna cartografia. Penso também que o historiador regionalista precisa viajar, percorrer os lugares sobre os quais recai sua vontade de pesquisar, perder-se nas rugosidades do território e do espaço social. E, principalmente, acredito que devemos valorizar o problema da formação regional como eixo historiográfico indispensável para a compreensão da história nacional.
Mesmo que essas coisas sejam somente racionalizações para meu “espírito de andarilho”, formado em viagens de infância pelos trilhos sertanejos da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil e fortalecido nas leituras adolescentes de Jack London, o fato é que aproveito os feriados prolongados para rodar, para conhecer mais pedaços de Minas Gerais, para conversar com outros mineiros e descansar debaixo de árvores de praças diferentes. Subir montanhas que não vira antes, entrar em águas que jamais tocara, queimar a pele outra vez, mesmo que o cair da noite se faça acompanhar de incômodas ardências. Essas pequenas viagens me rendem perguntas, dúvidas e hipóteses – por quanto tempo ficarão à espera de projetos de pesquisa que buscarão elucidá-las?
Neste sábado de Carnaval, saí de Alfenas para conhecer Carmo do Rio Claro, um ponto afamado no litoral do Mar de Minas. Uma cidade pequena aos pés da Serra da Tormenta, cujas terras são banhadas por braços do lago de Furnas. Urbe hospitaleira, organizada, onde se pode saborear comida simples e gostosa, boa cachaça, doces extraordinários. Carmo do Rio Claro oferece artesanato em tecido, variado, notável e tem o bom senso de não esfolar o visitante com preços absurdos. A tecelagem de panos grossos de algodão, na base da roca e do tear de madeira, na melhor tradição da indústria têxtil doméstica do Oitocentos, está sabendo utilizar ferramentas modernas de gestão, capacitação de mão de obra e comercialização/divulgação da produção. A atividade secular foi retomada em novas bases, e parece ter futuro promissor em Carmo do Rio Claro. Na área rural do município, de enorme beleza, a lavoura do milho e a cafeicultura predominam, embora a pecuária de leite conserve posição de destaque. O que se observa é a modernização da agropecuária local, processo que não parece ficar circunscrito às maiores propriedades, pois alcança as unidades camponesas. Nesse aspecto, Carmo do Rio Claro não destoa do que acontece no Sul de Minas. O dado singular talvez seja a cronologia: no município, essa modernização é tardia se comparada a outras partes da região. A própria cafeicultura adquiriu maior força nas terras carmelitanas a partir dos anos 1960, coisa, portanto, recente.
Quem percorre os caminhos rurais de Carmo do Rio Claro não perde a referência da Serra da Tormenta e, recorrentemente, avista as águas azuis de Furnas nos fundos de vales. Espelho d’água brilhante que não deixa esquecer quanta terra agricultável ficou submersa ao se fecharem as comportas da Usina Hidrelétrica de Furnas, no início dos anos 1960. Minha impressão é a de que apenas hoje, mais de cinqüenta anos depois do enchimento do lago, os carmelitanos acomodaram-se à transformação radical do espaço regional desencadeada pelo projeto de Furnas. Somente agora as antigas queixas das numerosas famílias afetadas pela construção de Furnas – queixas que não foram esquecidas, é claro – começam a ser nuançadas, e não silenciam completamente as vozes dos que enxergam perspectivas renovadas para a cidade e sua gente. O trauma do passado começa a ser superado, por meio de uma combinação espontânea de reconversão agrícola (cafeicultura), manufatura de tecidos e negócios de lazer (pousadas e pesca esportiva) que exploram o mundo de água e o sol que Carmo do Rio Claro tem o ano inteiro.
Na volta para Alfenas, escolhi passar por Itaci e Campo do Meio. Estradas de terra e travessias em balsas sobre o lago de Furnas eram as vantagens dessa opção. São dezenas de quilômetros no meio de imenso jardim, de faixas cultivadas com esmero que descem até as margens do espelho d’água da represa e se estendem, para oeste, até os contrafortes de serra magnífica, espichada no sentido norte-sul. Na balsa de Itaci, conversei com uma velha senhora que retornava a sua terra natal para passar o Carnaval. Ela falou sobre o rio Sapucaí, afogado pela represa quando ela era criança. Lembrou-se do vapor que navegava pelo Sapucaí. Mas preferiu lamentar as vidas que afundaram nas águas de Furnas, vidas de moços e meninos que o lago tragou nesses anos todos. Entre elas, a de seu jovem e belo sobrinho que voltava de festa numa fazenda próxima a Itaci, vida perdida por causa do naufrágio da canoa em que seis pessoas atravessam o lago, conduzidas por um barqueiro bêbado. Impossível não pensar no repertório multifacetado de sofrimentos, tensões e conflitos que o lago de Furnas acumulou na região. Essa matéria doída não deve pertencer exclusivamente à seara dos memorialistas – dizia eu para mim mesmo, já na estrada de Itaci para outro porto de balsa que atravessa para o lado de Campo do Meio.
As rápidas manobras desta segunda balsa para permitir o embarque de três veículos deram-me uns minutos para conversar com um senhor que observava o movimento. Nascido nos anos da Segunda Guerra, ele apontou a linha do leito do rio Sapucaí. Indaguei sobre a navegação de vapores, ao que o homem respondeu que o trânsito de embarcações cessara antes do enchimento do lago, ainda nos anos 1950. De criança, ele viu o vapor subir e descer o Sapucaí. Quando subia, levava no sentido de Alfenas principalmente manteiga e doce, fabricados no entorno de Carmo do Rio Claro. Quando descia, o vapor trazia sal, querosene e artigos industriais. O curtíssimo testemunho do septuagenário senhor coloca uma dúvida: poderá mesmo ser creditada na conta dos malfeitos de Furnas a extinção da navegação no Sapucaí, como querem muitos memorialistas do Sul de Minas?
Na segunda travessia de balsa, na estrada para Campo do Meio – outra cidade pousada à beira das águas de Furnas –, e, finalmente, na sinuosa rodovia asfaltada que leva a Campos Gerais e Alfenas, permaneci enredado na frase de Guimarães Rosa: “Perto de muita água, tudo é feliz”. Será assim realmente? Ou apenas é assim nas veredas do sertão?
Neste sábado de Carnaval, viajando de automóvel e balsa, convenci-me de que a “história íntima” do Mar de Minas está para ser escrita.
Por Marcos Lobato Martins, 13 de fevereiro de 2010. 1 Comentário



em junho 22nd, 2011 às 16:46
balsa de guapé opera em ritimo de tartaruga a cidade creceu e a menti dos politicos encolheu filas de espera balseiros da noite dormen e quandos são acionados achão ruim por charmar de balsa da tartaruga gostariamos de que a furnas tomace providencias pois e a causa dora dos trastornos que enfrentamos.os balseiros dis que não pode andar mais depresa porque o motor ta fundindo e consome muito diesel mas não e a furnas que da amanuntenção?esta reclamação e da balsa que liga guapé a capitolio precisamos mesmo e de uma ponte aqui fica aqui o meu protesto