Água e montanha no Sudoeste de Minas
A “caixa d’água” do Brasil é imensa. Quem se dá ao trabalho de abrir um bom mapa de Minas Gerais vê que muitos rios cortam o território do estado e que alguns desses rios, porque foram represados, originaram grandes lagos. Enormes reservatórios de água doce, sem ondas, mas azuis como o céu. Mares interiores, que flertam com serras circundantes, e animam cidades diversas, enchendo-as de pescadores e banhistas.
Talvez o mais famoso desses mares mineiros seja o Lago de Furnas. Chamado de “Mar de Minas”, o Lago de Furnas possui números impressionantes. O “Mar de Minas” é cinco vezes maior que a Baía de Guanabara – a superfície do espelho d’água mede quase 1.500 km2. O volume de água alcança 23 bilhões de m3, e o perímetro da costa do “Mar de Minas” chega a 3.700 km (quase metade da extensão do litoral brasileiro). A usina hidrelétrica de Furnas produz até 1.216 megawatts de energia. O lago banha mais de 30 municípios, onde habitam aproximadamente 1 milhão de pessoas. Um mar de água doce que molha montanhas, vales, matas, plantações de milho e de café. Que não tem praias compridas de areia clara, mas encanta por causa de cânions com cachoeiras que deságuam diretamente no lago.
Como surgiu este imenso lago artificial? Em 28 de fevereiro de 1957, Juscelino Kubitschek de Oliveira criou a Central Elétrica de Furnas, por meio de decreto assinado no Palácio do Rio Negro, em Petrópolis (RJ). O então Presidente, no âmbito de seu Plano de Metas – que objetivava fazer o país avançar “50 anos em 5” – ousava construir a maior e mais moderna usina hidrelétrica do Brasil, para evitar o colapso energético do Sudeste. No ano seguinte, as obras começaram, tanto na construção da barragem como dos túneis de desvio da nova usina. A sede da empreitada ficou em Pouso Alegre e um dos acampamentos de “furneiros” – os trabalhadores das obras civis da hidrelétrica – foi instalado em Carmo do Rio Claro. Quatro anos foram consumidos na construção da barragem, situada na garganta do Rio Grande, a jusante de sua confluência com o Rio Sapucaí. Em 1962, o lago de Furnas começou a encher rapidamente, alterando as paisagens regionais e afetando a vida de muitas cidades e famílias.
Principalmente em Guapé, Carmo do Rio Claro, Alfenas, Boa Esperança e Formiga, as mulheres encheram as igrejas com terços nas mãos, entoando cânticos lamuriosos pedindo por salvação do dilúvio. Fazendeiros se rebelaram contra as obras, tentaram deter a construção da barragem, entraram em choque com as autoridades. Até tropa do Exército de Itajubá deslocou-se para Guapé, para dirimir resistências contra Furnas. A inundação terminou ocorrendo: submergiram povoados, estradas, fazendas, memórias, afetos. O enchimento do reservatório de Furnas obrigou a mudança de numerosas famílias de áreas rurais para as maiores cidades da região.
O “Mar de Minas”, contudo, está aí. Grande, azul, cheio por causa das boas chuvas dos últimos anos. Em torno dele avolumam-se promessas e problemas, mas já não há tantas resistências como nos anos 1960 e 1970. As cidades da região não querem mais ficar de costas para o “Mar de Minas”, querem aproveitá-lo de alguma forma. Tateiam em busca de caminhos para alcançar o desenvolvimento.
O Lago de Furnas, enfim, impede a indiferença. Não se pode observá-lo, de longe ou de perto, sem se inquietar, sem pensar na relação intrincada dos mineiros do sudoeste com as águas, as águas dos rios e as águas da represa, as águas de ontem e as águas de hoje. Não se consegue percorrer as áreas lindeiras ao lago sem matutar sobre a paixão intrincada, paradoxalmente explícita e recatada, do mineiro pelo mar. Os poetas é que sabem falar dessas coisas. Um deles, Cacaso, escreveu “O Fazendeiro do Mar”, de que transcrevo abaixo alguns versos:
“Mar de mineiro é vão/ mar de mineiro é chão/ (…) mar de mineiro é lagoa/ (…) Mar de mineiro é viagem/ (…) mar de mineiro é margem/ (…) Mineiro tem o mar de menos/ mineiro tem o mar de mais/ (…) Mar de mineiro é savana/ mar de mineiro é sovina/ mar de mineiro é banana/ mar de mineiro é bonina/ mar de mineiro é mina/ (…) mineiro tem o mar de fonte/ mineiro tem o mar de rio/ mineiro tem o mar de monte/ mar de mineiro é horizonte/ Mar de mineiro é tudo/ (…) Mar de mineiro é mar/ (…) mar de mineiro é ar/ mar de mineiro é lago/ mar de mineiro é vago/ (…) mar de mineiro é profundo/ (…) mar de mineiro é mundo/ (…) mar de mineiro é montanha/ (…) mar de mineiro é benvindo/ mar de mineiro é maldito/ (…) mar de mineiro é céu/ (…) Mar de mineiro é centro/ (…) mar de mineiro é dentro/ (…) Mar de mineiro é arroio/ (…) mar de mineiro é aboio/ (…) mar de mineiro é minério/ Mar de mineiro é Gerais/ mar de mineiro é campinas/ mar de mineiro é Goiás/ Mar de mineiro é colinas/ mar de mineiro é minas”.
Meu primeiro sonho foi ser marinheiro. Tinha, então, 13 anos. Hoje estou vivendo no litoral do “Mar de Minas”, grumete recém-chegado, disposto a singrar o oceano de histórias que se misturaram às terras e águas do Sul, na antiga bacia do Sapucaí.
Por Marcos Lobato Martins, 15 de fevereiro de 2010. 1 Comentário



em março 3rd, 2010 às 17:27
a Marcos Lobato
Parabens pela informatividade aliada a sensibilidade do texto sobre o Mar de Minas. Procurava alguns dados para minha crônica O Mar de Minas e encontrei esse belo cenário por vc descrito.
ghiaroni rios