A cafeicultura no Sul de Minas: como entrar no século 21?
Minas Gerais é, já há algumas décadas, o principal produtor de café no Brasil. O café, que adentrou o território mineiro nas primeiras décadas do século XIX pela Zona da Mata, espalhou-se pelo Sul de Minas a partir dos anos 1870. Gradativamente, o Sul de Minas tomou o lugar da Zona da Mata como principal área cafeicultora de Minas, deslocamento que se completou logo no decurso dos anos 1930. Quarenta anos depois, na esteira da “revolução verde” patrocinada pela ditadura militar, o café alcançou as áreas de cerrado no Alto Paranaíba. E, em fins da década de 1980, o café avançou sobre o Alto Jequitinhonha. Se, na virada do século XIX para o século XX, o café era o principal produto de exportação de Minas Gerais, ele é hoje a segunda mercadoria que mais gera divisas para o estado.
Curiosamente, apesar da importância econômica e social da cafeicultura na formação mineira, as pesquisas de história econômica relativas ao complexo de atividades cafeeiras em Minas Gerais é pouco densa. Talvez haja apenas uma exceção: a Zona da Mata, graças aos esforços dos pesquisadores vinculados à Universidade Federal de Juiz de Fora. A lacuna é mais saliente quando se olha para o recorte do século XX, justamente o período no qual a lavoura mais progrediu no território mineiro. Por mais que se compreenda que os processos de diversificação da economia e de industrialização (puxada pela siderurgia) exerçam grande atração sobre os estudiosos da nossa economia, não é admissível que a história mais recente da cafeicultura mineira continue completamente negligenciada. As universidades – em particular, os cursos de História – precisam reverter esse quadro.
Isto posto, gostaria de fazer rápidas observações acerca das tendências e desafios que caracterizam a cafeicultura mineira no momento. O ponto de partida, que é impressionista, é uma narrativa recorrente que tenho ouvido desde que cheguei a Alfenas, há seis meses. Comerciantes e fazendeiros da cidade contam que, na sua infância, ouviam seus pais e tios falando que a pecuária e as lavouras de mantimentos serviam para manter o giro das fazendas, para garantir a manutenção da propriedade e da família. Mas seria o café o produto capaz de possibilitar ao fazendeiro ou ao comerciante o investimento, a compra de imóveis urbanos, a aquisição de veículos – o trator e o automóvel. E a narrativa segue, sempre na mesma toada: hoje, todavia, o café não daria mais para bancar esses sonhos. A não ser para os produtores muito grandes, para empresas poderosamente capitalizadas. Aliás, essa narrativa surgiu também no artigo que Marcelo Vieira e Luiz Suplicy Hafers publicaram na Folha de São Paulo (“Café, o fim de um ciclo”, na seção “Tendências”, p. A2), em 7 de janeiro último. Escreveram eles: “O Brasil ainda é o maior produtor de café, o maior exportador, mas, mesmo numa fase de preços internacionais relativamente favoráveis, nosso produtor não tem obtido retorno adequado”.
Para Marcelo Vieira e Luiz Suplicy Hafers, a explicação dessa realidade negativa recente é simples: o encarecimento da mão de obra no Brasil vis-a-vis a dos outros países pobres produtores, resultante do desenvolvimento geral do País, está gerando perda de competitividade da cafeicultura nacional, especialmente das áreas tradicionais de montanha. Eles lembram que, na cafeicultura, a mão de obra representa mais de 50% do custo de produção. Por conseguinte, eles acreditam que “nossa cafeicultura passa hoje pelo mesmo desafio pelo qual passaram indústrias intensivas em mão de obra que, aos poucos, migraram de países ricos para o Terceiro Mundo”. Também está em curso a conquista progressiva do mercado mundial de café pela variedade robusta, adaptada a áreas de menor altitude, em detrimento da tradicional variedade arabica, tão conhecida em Minas. O resultado combinado desses dois processos é o recorrente endividamento de um grande número de cafeicultores, que não têm nenhuma perspectiva de gerar resultado na produção para abater a dívida. Vieira e Hafers propõem que a saída para a crise da cafeicultura exige três cursos de ação. No curto prazo, providenciar meios para o (grande) cafeicultor endividado e sem perspectiva abandonar a lavoura, livre de prejuízos que o incapacitem economicamente – em bom português, renegociação de dívidas favorável aos cafelistas. Por outro lado, estimular efetivamente a cafeicultura baseada na propriedade familiar, uma vez que a expansão do setor se deve a esse tipo de produtor e porque a lavoura do café, intensiva em mão de obra e no uso da terra, adapta-se bem à agricultura familiar. E, finalmente, desenvolvendo estratégias de longo prazo para a recuperação da competitividade, sem as quais nossa cafeicultura permanecerá nesse impasse dos últimos anos.
O que tenho observado na região de Alfenas, onde a cafeicultura tem presença muito significativa, corrobora parcialmente os argumentos esgrimidos por Vieira e Halfers. Minhas impressões – insisto que falo a partir de impressões esparsas e fragmentadas – ressaltam o papel de destaque que os pequenos e médios cafelistas adquiriram no cenário regional. Por isso mesmo, concordo inteiramente com a proposta de que esses produtores precisam ser estimulados e apoiados. Entretanto, também é visível o fato de que grandes “players” nacionais e internacionais continuam atuando na cafeicultura regional, com boa lucratividade. O problema para eles me parece ser de outra natureza: as expectativas de ganho com outros agronegócios são muitíssimo maiores. Cito, para ficar num exemplo apenas, a produção de biocombustíveis. O megainvestidor George Soros é sócio da Usina Monte Alegre, que fabrica etanol nas proximidades das cidades de Areado e Monte Belo. A cana, o eucalipto e até o girassol avançam nas grandes propriedades do Sul de Minas. Ora, isso tem pouco a ver com a competitividade dos cafeicultores da África, América Central e sul da Ásia. Está relacionado com as exigências que já se desenham de uma reconversão da economia dos países mais ricos na direção do “baixo carbono”.
Então, o “x” da questão é a agregação de valor à cafeicultura e o alongamento da cadeia do negócio cafeeiro em Minas Gerais e no País, com base no associativismo/cooperativismo. Em regiões como o Sul de Minas, a opção tem que ser pelos cafés finos. E esses cafés precisam ensejar, na fase de industrialização do produto, “blends” por assim dizer inovadores, orientados para satisfazer os consumidores de mais alta renda e sofisticação do exterior e das grandes metrópoles brasileiras. Enfim, devemos rever a tendência que atravessa nossa história de cuidar apenas de produzir/exportar grãos de café. Ou ousamos disputar espaço no mercado mundial de café solúvel (e derivados) e nas redes de cafeterias, ou nossa cafeicultura rumará para a estagnação ou até mesmo para a regressão, engolida por outros agronegócios hoje mais chamativos.
Mas, para isso, não será hora de elaborar políticas de longo prazo para a cafeicultura brasileira? E o governo, continuará isento de responsabilidades nesse campo? Não se trata, é claro, de ressuscitar o velho IBC. Mas de reconhecer que, no que se refere aos negócios de café, as forças de mercado, entregues a si mesmas, tenderão a perpetuar nossa posição subalterna na indústria mundial que movimenta fortunas na fabricação/consumo de mercadorias finas à base de café.
Por Marcos Lobato Martins, 7 de fevereiro de 2010. 3 Comentários


em março 30th, 2010 às 16:47
Caro Marcos,
Estou fazendo uma pesquisa histórica sobre a economia de Minas Gerais e do sul de Minas no século XIX, e deparei-me com esse artigo. Sou de Três Corações e, de acordo com relatos de historiadores da cidade, a primeira plantação de café em Três Corações foi realizada em 1833, pelo fazendeiro Francisco Antônio da Fonseca. Talvez seja interessante checar esse dado, já que, conforme o seu texto, o café teria se expandido da Zona da Mata para o Sul de Minas apenas na década 1870.
À disposição.
em maio 19th, 2010 às 17:09
Eliana,
também pesquiso sobre o café e de acordo com o que li no texto do Marcos diria que a suposição está correta uma vez que a região de serra do rio de janeiro e a zona da mata de minas foram as pioneiras na comercialização e cultivo do café. Um livro que demonstra essa parte detalhada é Formação Econômica Brasileira, de Celso Furtado.
Espero ter te ajudado.
em maio 31st, 2010 às 15:44
Bom dia! Gostaria de indicar a leitura do artigo: Introdução e expansão do café na região sul de Minas Gerais, localizado em: http://www.dae.ufla.br/revista, volume 3, número 1, janeiro/junho de 2001. Existe uma dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Administração da UFLA cujo título é: Trajetória histórica do café na região sul de Minas gerais. Ambos são de minha autoria. Foi lançado por estas publicações uma percepção de recorte, com três períodos, da trajetória histórica do café. O primeiro inicia com a chegada das primeiras mudas (final do século 18), com expansão contínua, mas limitada pelo escoamento da produção. Em finais do século 19 (1880) inicia-se o segundo período, com o aprimoramento da malha de escoamento (ferrovia) e expansão da lavoura. O terceiro período tem inicio por volta de 1970, com o fomento da renovação cafeeira e da complexo agroindustrial cafeeiro (insumos modernos e tecnologia). Tá tudo lá! Sucesso!!!! Prof. Ferdinando Filetto – UFLA/Faepe