O que Petrópolis tem a ver com Jequitinhonha ou Paraguaçu?

Entre os dias 23 e 25 de outubro último, levei para trabalho de campo na cidade de Petrópolis (RJ), trinta e três estudantes de História da Universidade Federal de Alfenas. O objetivo da viagem era fazer visitas guiadas a monumentos e museus ligados ao período do Segundo Reinado, bem como discutir com os estudantes, no ambiente estimulante e provocativo da antiga “Cidade Imperial”, questões relativas a memória, patrimônio cultural e usos turísticos dos “lugares de memória”.

Casa da Princesa Isabel, em Petrópolis
Casa da Princesa Isabel, em Petrópolis

Logo que o ônibus da UNIFAL-MG estacionou na cidade, ao lado do Palácio de Cristal, bem no início da manhã de um sábado que se revelaria luminoso, quente e cansativo, mas memorável, eu me dirigi aos estudantes para lhes falar sobre os seguintes temas: a) as origens da cidade de Petrópolis, relacionando-as com os problemas urbanos e sanitários do Rio de Janeiro; b) os projetos de colonização do II Reinado; c) as fortunas e o fausto gerado pela cafeicultura, cujos sinais estão visíveis na arquitetura petropolitana e; d) as concepções das elites imperiais sobre a “civilização” do Brasil e as influências recebidas da Europa na segunda metade do século XIX. Procurei estimular os estudantes a identificar elementos no cenário urbano de Petrópolis que indicassem, principalmente, a assimilação de ideias, atitudes e valores provenientes da França e da Inglaterra. Pedi a eles que observassem sem pressa e com olhar meticuloso o casario, o traçado das ruas, a distribuição espacial dos antigos elementos urbanos, os detalhes estilísticos nos edifícios e nos jardins. E que, portanto, usassem e abusassem de suas máquinas fotográficas.

Assim, o dia teve muitas ocasiões nas quais, diante de velhos prédios de Petrópolis, os estudantes exercitaram sua capacidade de classificar estilos arquitetônicos. Um exercício que eu procurei tornar mais que um “jogo” fechado em si mesmo, mobilizando exclusivamente informações sobre estilos de época, técnicas construtivas e escolas artísticas. Quis levar os estudantes a ultrapassar rótulos como neogótico, neoclássico, alpino francês, normando vitoriano, eclético etc. Pedi a eles que refletissem sobre a “Cidade Imperial” como signo concreto de um desejo das elites do Segundo Reinado, o desejo de “civilizar-se”. Desafiei os estudantes a enxergarem Petrópolis como marco de uma ruptura, tentativa de rompimento com o passado colonial e “atrasado”, encarnado nos casarões e igrejas barrocas construídos com adobe ou taipa, madeira e pedra. Petrópolis, ao contrário, foi erigida em pedra e alvenaria, com ferro fundido e vitrais trazidos da Europa. Com jardins conforme a moda européia, amplos e dominados pelo verde de espécies de árvores imponentes. Com racionalidade, expressa na presença de referências neoclássicas e de preocupações higienistas.

Ao longo daquele sábado, insisti nesse ponto: Petrópolis é o anseio, em pedra, cal, ferro e vidro, de ajustamento da “boa sociedade” imperial aos ideais, valores e modos europeus. A “Cidade Imperial” simboliza o desejo de “civilização”, algo que implicava em negar o passado e, de outro lado, aderir aos padrões estéticos, científicos e culturais da Europa burguesa. Sem abrir mão da agricultura de exportação, é claro.
Durante toda a viagem, fiquei a provocar os estudantes, dizendo-lhes: em diversas cidades do Brasil, este mesmo anseio está impresso na materialidade das ruas e casas. Inclusive, e talvez hoje, principalmente, nas pequenas cidades, pois elas escaparam à fúria modernista que varreu as metrópoles desde os anos 1920. Eu lhes dizia que, nesse sentido, Petrópolis é muito parecida com Jequitinhonha, Pedra Azul, Paraguaçu, bairros belorizontinos como Santa Efigênia e Lagoinha, e tão diferente de Diamantina e Grão Mogol. Obviamente, os estudantes estranharam a proposição. Alguns, porém, acabaram convencidos de que havia algum sentido nela. E graças à familiaridade que eles têm em relação ao casario mais antigo de Paraguaçu, cidade vizinha a Alfenas.

Casarão no centro de Paraguaçu
Casarão no centro de Paraguaçu

Paraguaçu, por exemplo, é bem conservado exemplar de cidade da “belle époque” tropical: casas com fachadas murais, alinhadas rentes às calçadas de ruas que se esforçam para serem retas e longas; telhados escondidos por áticos; paredes externas que abrigam detalhes dóricos, jônicos ou coríntios, ordenados e delicados. Casas que não se fecharam à incorporação de novidades “art nouveau” ou “art decó”, especialmente nos alpendres e nas ferragens de muros e balaustradas. Calçadas de pedras retangulares, nas quais árvores e plantas só se intrometeram recentemente. Tudo isso está à vista em Paraguaçu e em Jequitinhonha, mais na primeira do que na segunda, por que Paraguaçu é resultado da riqueza do café, enquanto Jequitinhonha é produto menos opulento da pecuária extensiva. Tanto numa como noutra, porém, alcançou proeminência esse modo arquitetural que buscava erigir a impressão de ordem, de regularidade e de calma, tão ao gosto das elites proprietárias conservadoras brasileiras. Uma arquitetura que compunha paisagens urbanas harmoniosas e precisas, sujeitas a uma geometria regrada (do espaço e das hierarquias sociais). Uma arquitetura que os modernistas de 1922 desprezaram, viram como nefasta influência européia e acusaram como traidora da arte “nacional” surgida nos tempos coloniais, cuja máxima expressão seria o barroco das “cidades históricas”.

Então, curiosamente, enquanto visitávamos Petrópolis, recordávamos Paraguaçu, Jequitinhonha, Pedra Azul, as praças e ruas de Santa Efigênia. As imagens urbanas interagiam, entrelaçavam-se, disso resultando mais conhecimento, mais sensibilidade. Nas pausas do trabalho de campo em Petrópolis, eu também me percebia no centro velho de Pedra Azul, na praça da matriz de Paraguaçu, como se, magicamente, pudesse estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Não me saíam da cabeça as cidades fantásticas de Italo Calvino, nem a certeza de que, para conhecer Veneza, é preciso viajar até Pequim e lá perder-se nas ruas, entre o povo.
Aproveitei a oportunidade da viagem para fazer emergir das profundezas das rotinas cotidianas, que achatam a consciência de todos nós, estudantes e professores, a percepção da riqueza e diversidade urbanas, das múltiplas experiências vividas que estão presentes ou podem ser identificadas no cenário urbano. Casas, ruas, praças, quintais, jardins, monumentos, espaços coletivos, na sua imensa variedade de formas e cores, expressam concepções e sonhos de indivíduos e de grupos sociais, por meio de diferentes “modos arquiteturais”. Por isso mesmo, temos que compreender essas arquiteturas, valorizá-las e lutar para conservar as suas marcas.

Recomendei aos estudantes que lessem “As cidades invisíveis”, do citado Italo Calvino.

Por Marcos Lobato Martins, 3 de novembro de 2009.  2 Comentários

2 respostas para ' O que Petrópolis tem a ver com Jequitinhonha ou Paraguaçu? '

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  1. Romeu Adriano da Silva escreveu,

    em novembro 21st, 2009 às 16:05

    Caro Marcos,
    Escrevo para parabelizá-lo pela empreitada de levar os estudantes a Petrópolis e pela forma como os instigou a pensar a partir de referências históricas, em suas peculiaridades e em suas relações mais gerais.
    Grande abraço
    Romeu

  2. Romeu Adriano da Silva escreveu,

    em novembro 21st, 2009 às 16:11

    Caro Marcos,
    Escrevo para parabelizá-lo pela empreitada de levar os estudantes a Petrópolis e pela forma como os instigou a pensar a partir de referências históricas, em suas peculiaridades e em suas relações mais gerais.
    Grande abraço
    Romeu

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