Paisagens na janela do carro

Casarão na Praça da Matriz em Paraguaçu
Casarão na Praça da Matriz em Paraguaçu
Cafezal na estrada entre Areado e Monte Belo
Cafezal na estrada entre Areado e Monte Belo

Ao redor de Alfenas existem muitas cidades para conhecer. Para quem acaba de chegar ao Sul de Minas, como eu, a curiosidade não dá trégua. A cada dia, se há sol e tempo firme, a vontade de lançar-se à estrada é enorme. Se a luminosidade é intensa e o ar está limpo, a tentação de sair e fotografar as paisagens, as cidades e as pessoas dessa parte de Minas é irresistível. Ainda mais quando se tem, nas disciplinas que leciono, número expressivo de jovens estudantes originários dessas diversas urbes sul-mineiras, relativamente próximas, acessíveis por meio de boas estradas, algumas recentemente refeitas pelo Governo do estado.

Quem lida com história regional precisa ter o hábito de viajar pelo seu “objeto de estudo”. As viagens contribuem para elaborar idéia mais rica do processo de formação dos espaços regionais, da diversidade dos ritmos e dos perfis dos lugares, bem como das tendências que provocam alterações nas relações entre as comunidades no interior da região. Percorrer as localidades e as zonas que constituem uma região é necessário para que o pesquisador apreenda, ainda que numa primeira aproximação, as dinâmicas internas e externas que a singularizam, e permitem, dessa forma, realizar recortes apropriados para as investigações que se tem em mente. O trabalho de campo ultrapassa, portanto, no caso do historiador regionalista, o mergulho nos arquivos locais e regionais. O viajar desinteressado pela região, à maneira do flâner atento às cores, sons, cheiros, objetos, formas e modos de viver que os sentidos captam, é parte do ofício de quem pratica estudos regionais. O contato com a realidade regional atual é imprescindível, pois dele resultam hipóteses e recursos heurísticos que facilitam o trabalho do pesquisador. Mais do que isso: esse contato nutre a empatia que sempre deve haver entre pessoas, sobretudo quando alguém se impõe o propósito de compreender e interpretar as construções sociais do passado e/ou do presente.

Pensando nessas coisas, empreguei dezenas de horas no sábado e no domingo, dias 10 e 11 de outubro, para visitar cidades que eram apenas nomes no mapa de Minas pendurado na parede de meu escritório. Nomes que eu lera também nas placas de automóveis estacionados nas ruas e praças de Alfenas, principalmente na entrada do Hospital Alzira Velano, do qual sou vizinho por enquanto saudável. Nomes que eu havia julgado, até então, esquisitos, alguns, sonoros, outros. Mas que eu era incapaz de associar a imagens. Nomes que não possuíam relação com elementos geográficos tangíveis, nem me faziam lembrar rostos e monumentos. Percorri mais de trezentos quilômetros para começar a formar meu “mapa mental” da região ao sul-sudoeste do gigantesco lago de Furnas. Um primeiro passo na direção de conhecer o Sul de Minas, insuficiente por sua abrangência e impreciso pela rapidez com que foi realizado. Nesse giro, visitei Paraguaçu e Fama, Areado, Monte Belo, Divisa Nova, Serrania e Machado.

A impressão mais marcante, no que se refere ao aproveitamento econômico da área, é obviamente produzida pelo café. As lavouras de café ocupam terras imensas, avançando pelas encostas dos morros, até praticamente o topo. Não importa se o terreno é de ondulação mais suave ou bastante movimentado, o café conquista-o palmo a palmo, às vezes alcançando o acostamento da rodovia. Tem-se, então, a sensação de atravessar um “corredor polonês” constituído por soldados verdes baixinhos, perfeitamente enfileirados numa ordem unida que atravessa anos. Um espetáculo de desnortear os olhos, tal a variedade de tons de verde, de direções dos cafeeiros ao longo das curvas de nível, de manchas de matas nativas e secundárias que surgem repentinamente. Não raro o verde confronta, embaixo, com o azul levemente ondulado dos braços do lago da represa; em cima, além dos mil, mil e duzentos metros de altitude, o verde é detido pelo azul claro, esbranquiçado, de um céu excepcionalmente luminoso no final da primavera. Mas o café começa a ter seu reinado ameaçado. A cana expande-se, faminta, arada, cercando Areado, Monte Belo, Divisa Nova e Serrania. Por isso, os “treminhões” já se tornaram freqüentadores rotineiros das estradas da região, arrastando-se lentamente sob volumosa e pesada carga de canas queimadas.

Outra impressão forte é gerada pela resistência – será esse o termo mais apropriado? – da pequena e média propriedade rural. Salpicadas pelas margens das estradas, organizadas ao redor de casas de morada despretensiosas e reduzidos terreiros para secagem de grãos de café, essas propriedades quebram a monotonia do verde espichado e folgazão das grandes lavouras. Os sítios e as fazendinhas deságuam caminhos de terra sobre o piso asfáltico das rodovias regionais. Junções que forçam paradas de ônibus, ao colocarem homens, mulheres e muitas crianças na beira das estradas. Gente sem pressa à espera da hora de ir ou de vir, no movimento pendular que entrelaça roças, povoados e núcleos urbanos – por isso, a rua de comércio transborda no meio do dia. É a presença dessa agricultura de talhe familiar que mantém vivo o charme que ainda há na feira de domingo, em Alfenas. E também é ela que abastece com produtos deliciosos as vendinhas de estrada, como o Quiosque da Cris, há cinco quilômetros de Monte Belo. Um cantinho simpático em que, ao lado da indefectível coca-cola, o viajante pode saborear doces, quitandas, queijos e embutidos de fabricação artesanal, oriundos de cidades do Sul de Minas.

 

Cidades cujos rostos têm feições diversas. Elas expressam o peso econômico e político que o Sul de Minas alcançou nos estertores do século XIX e nas décadas iniciais do século XX, de que é sinal o fato de Paraguaçu, Areado, Monte Belo e Machado serem sedes de comarcas, mesmo com populações pequenas e pouquíssima distância de Alfenas, Varginha ou Poços de Caldas. Na verdade, algumas dessas cidades são aglomerações de casas, com tímidas funções urbanas, circundando praças de igrejas. Não chegam a causar boa impressão no viajante. Divisa Nova, Monte Belo e Fama são desse tipo, embora a última possua o atrativo de flutuar exatamente sobre a linha d’água do lago de Furnas. É uma das “praias” do “mar de Minas”, cortejada por jet skis, lanchas, balsas e barcos. Areado tem praça central agradável, cuidadosamente ajardinada, cercada por alguns edifícios de bela aparência, nem todos conservados adequadamente. Seu traçado é sinuoso, por causa dos morros que compõem o sítio urbano. E pode ser examinado do alto, graças a um mirante situado a pouca distância da igreja matriz, onde foi erigido um alto cruzeiro em ferro fundido, nas comemorações do primeiro centenário da Independência. Porém, o que me chamou atenção foi o número de estabelecimentos que comercializam artesanato, principalmente produtos de tecelagem manual. As rocas e os teares de madeira retomaram sua força nessa cidade, agora fabricando peças que decoram residências mineiras e paulistas. Algo para se estudar, não há a menor dúvida.

Machado é urbe mais encorpada, que se desdobra sobre vertentes íngremes de morros relativamente elevados. Uma cidade que parece viver em dois níveis. A parte mais baixa, ocupada no passado pelas instalações da estrada de ferro, está ligada ao comércio de máquinas e implementos rurais, de gêneros agrícolas e contém também unidades industriais. A parte mais alta, cujo centro é uma bela praça, concentra o comércio mais refinado e os serviços financeiros e administrativos. Curiosamente, há em Machado mais adensamento do que na vizinha Alfenas. Questão talvez de topografia. Ou teria havido ali menor acumulação de capitais do que no antigo distrito de São José e Dores? Seja como for, há muitas décadas Machado chama a si mesma de “Atenas do Sul”, gabando-se de cultivar certo refinamento cultural, em alguma medida revelado no casario e no arruamento da cidade.

Ah, Paraguaçu surpreende. É uma pequena jóia. Delicada e singela jóia, como os brincos de coco e ouro oitocentistas fabricados em Diamantina e Minas Novas. Quem passa pela BR-491 geralmente não se dá conta disso. Entretanto, o viajante que entra em Paraguaçu logo percebe que a cidade é mantida no capricho. Há muitos casarões da primeira metade do século passado bem conservados, duas praças grandes e de paisagismo agradável. As ruas centrais, dispostas à maneira de curvas de nível, elegantemente calçadas, facilitam a caminhada e revelam a pujança que, outrora, a localidade possuiu. Paraguaçu é, por causa de seu patrimônio de “pedra e cal”, uma atração na bacia do Sapucaí. Creio que, nesse caso, vale inteiramente o ditado popular: tamanho não é documento.

É claro que ainda há muito para eu conhecer no Sul de Minas. Espero voltar mais vezes aos lugares que visitei nos dias 10 e 11, dispensando a velocidade do automóvel e libertando-me das limitações que esse tipo de veículo impõe ao ângulo de visão do observador. Desejo passar tempo maior nessas cidades, examinar os arquivos locais, conversar com as pessoas, ler seus cronistas e memorialistas. Percorrer as cercanias, visitar sítios e fazendas, descansar nas margens de seus córregos sob a sombra de suas árvores. Disposição não me falta. Nem bons guias, que são meus estudantes nos cursos de Ciências Sociais e História da Universidade Federal de Alfenas.

Por Marcos Lobato Martins, 14 de outubro de 2009.  1 Comentário

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  1. Cristiane escreveu,

    em outubro 17th, 2009 às 12:20

    Marcos, o meu machadense particular quer saber de onde veio a auto-classificação de Machado como “Atenas do Sul”. Ele disse nunca ter ouvido esta expressão em sua cidade natal. Ficamos curiosos.

    Quanto a Paraguaçu ele concorda em parte com sua descrição poética. De minha parte, destas cidades que visitou é a única que não conheço e fiquei curiosa em conhecê-la.

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