Lago de Furnas na mira da iniciação científica júnior
A Escola Estadual Judith Vianna fica quase em frente à entrada principal do Campus da Universidade Federal de Alfenas. Alguns estudantes do ensino médio dessa escola integram a nova turma do Programa BIC-Jr. oferecido pela Universidade, com o financiamento da FAPEMIG. Durante um ano, a contar do corrente mês, eles farão pesquisas sob orientação de professores da UNIFAL-MG, usando instalações e recursos da universidade.
Uma das estudantes da E.E. Judith Vianna vai trabalhar comigo. O nome dela é Paloma Caroline de Andrade Alexandre. Nascida em Alfenas, Paloma, que tem 16 anos de idade, cursa o 2o ano, no turno da manhã. Ela gosta da disciplina História, mas que não é apaixonada por esta área do saber – pelo menos por enquanto. Confessa que participa com entusiasmo das aulas nas quais os professores falam sobre assuntos da história de Alfenas e da região que cerca a cidade. Paloma gostaria que houvesse mais aulas desse tipo. E é nessa direção que vamos trabalhar: investigar aspectos da história local na Iniciação Científica Júnior da Paloma. Ela se juntará a outra jovem estudante, Maira de Carvalho, 23 anos de idade, também natural de Alfenas, que cursa o 2o de História na UNIFAL-MG. Maira tem uma “Bolsa Atividade” concedida pela instituição. Paloma e Maira trabalharão numa mesma pesquisa, terão muitas oportunidades para dialogar e cooperar. No final, apresentarão produtos com níveis diferentes de exigência. Caberá a mim, orientador das duas jovens, cuidar para que os esforços delas cheguem a bom termo.
O que elas pesquisarão? O que combinamos é seguir a seara da História Ambiental. Mais especificamente, trabalharemos com o pensamento sobre a natureza, ou melhor, sobre a intervenção humana visando a criar uma segunda natureza – o lago de Furnas é artificial! Uma segunda natureza que, curiosamente, tende a se “naturalizar” à medida que transcorre o tempo. O projeto recebeu nome nitidamente inspirado nas canções de Dorival Caymmi que falam das águas da Bahia. O nome é: “A imaginação do ‘Mar de Minas’: representações das populações de Alfenas e Fama sobre o lago de Furnas (1963-2009)”. Vamos investigar as imagens mentais, as narrativas e os discursos associados ao lago e seu entorno, que foram urdidos durante décadas, desde o já longínquo momento de construção da hidrelétrica e do enchimento da represa. E que continuam sendo reelaborados hoje, quando a região debate formas de aproveitamento econômico do imenso espelho d’água. Vamos investigar as significações presentes no diálogo das pessoas com as águas azuis, aparentemente imóveis, de Furnas. Esse é o objetivo central do projeto.
Para alcançar esse objetivo, precisaremos investigar, diacronicamente, as relações das pessoas de Alfenas e Fama com o lago de Furnas (resistências, acomodações, conflitos), as percepções existentes sobre as alterações que o lago provocou nas paisagens locais, na economia e na circulação, bem como as avaliações que as pessoas fazem sobre os impactos ambientais e sociais da represa. Precisaremos indagar pelos sentimentos e memórias associados ao lago de Furnas. Precisaremos examinar os diversos usos que pessoas de Alfenas e Fama fazem das águas e da orla do lago e como enxergam o futuro do chamado “Mar de Minas”. Identificar os comportamentos dos moradores das duas cidades perante o lago, os modos como o definem e os mapas do “Mar de Minas” que desenham para orientar as interações cotidianas no espaço local e regional.
Pretendemos percorrer trechos da orla do lago, nos municípios de Alfenas e Fama, observar as paisagens, inquiri-las, procurando pistas sobre as ações, percepções, valores e idéias que as pessoas projetam sobre as águas de Furnas. Pretendemos entrevistar moradores antigos, inclusive os que foram deslocados pelo enchimento da represa – fazendeiros, políticos, intelectuais, trabalhadores, negociantes, gente da roça e da cidade. Pretendemos reunir e analisar materiais iconográficos, como os folhetos de divulgação turística, que focalizam o lago de Furnas. E vasculharemos jornais de Alfenas (“Jornal dos Lagos”, “O Alfenense”), à procura de editoriais, artigos e notícias que contêm elementos referentes a percepções e avaliações, de indivíduos e grupos sociais, sobre o “Mar de Minas”.
De minha parte, espero que o projeto, além de contribuir um pouco para o conhecimento da história local, atice e alimente a curiosidade da Paloma, levando-a a gostar mais de estudar e pesquisar. Se, durante a iniciação científica, ela vier a compreender e valorizar o ofício dos historiadores, alcançarei um prêmio e tanto. Quanto a Maira, espero que ela dê passo decisivo na consolidação da opção de se tornar profissional da História.
Por Marcos Lobato Martins, 30 de outubro de 2009. 1 Comentário


em novembro 5th, 2009 às 16:54
Descobri esse blog fazendo uma pesquisa na net.Sou academico de História da PUC/GO e achei muito interessante esse projeto que integra alunos do Ensino Médio.
Parabéns.