Sul de Minas: da agricultura de abastecimento à agroexportação cafeeira

Colheita de café no Sul de Minas
Colheita de café no Sul de Minas

Já foi dito que o Sul de Minas é uma região rica, mas para a qual a historiografia ainda é pouco densa. Sabe-se que no Sul de Minas alcançou expressão, nas primeiras décadas do século XIX, a agricultura de abastecimento, capaz de forjar uma camada de proprietários rurais que angariou fortuna e prestígio político na Corte. O trabalho de Alcir Lenharo (“As tropas da moderação”. São Paulo: Símbolo, 1979) apontou pioneiramente essa realidade. Douglas Cole Libby (“Transformação e trabalho em uma economia escravista. Minas Gerais no século XIX”. São Paulo: Brasiliense, 1988), por sua vez, mostrou que o Sul de Minas conservou, no decurso do Oitocentos, vinculação estreita com a produção agropecuária e com a indústria doméstica de tecidos. Afonso de Alencastro Graça Filho (“A Princesa do Oeste e o mito da decadência mineira”. São Paulo: Annablume, 2002) estudou detalhadamente a praça mercantil de São João Del Rei e suas vinculações com o Rio de Janeiro, realçando o dinamismo dos homens de negócio daquela cidade e sua influência sobre vastas áreas da Província de Minas Gerais, especialmente o Oeste e a Zona da Mata. Todavia, há muitas lacunas sobre a trajetória histórica do Sul de Minas, sobretudo quando se tem em mente as zonas mais próximas de São Paulo, como as terras banhadas pela bacia do Rio Sapucaí.

Uma destas lacunas mais salientes diz respeito justamente ao avanço da cafeicultura, que ainda hoje é a atividade mais destacada no Sul de Minas. Praticamente nada se sabe sobre o período de transição da hegemonia da agricultura de abastecimento para a hegemonia da cafeicultura, iniciado na década de 1870. Também não há informações suficientes e acuradas sobre a marcha dos cafeeiros na região, os padrões de organização das fazendas, de comercialização e financiamento da cafeicultura. Há quem assevera que se passou, no Sul de Minas, algo parecido ao que ocorreu na Zona da Mata, enquanto outros preferem pensar na cafeicultura da região como projeção do Oeste Paulista. Quem terá razão? Ou estarão todos os que pensam assim equivocados?

Tendo em vista obter respostas para essas questões, apresentei à Pró-Reitoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) projeto intitulado “Transformações no campo sul-mineiro oitocentista: do abastecimento da Corte à cultura do café”. O que se pretende conhecer são as transformações das paisagens agrárias do Sul de Minas no Oitocentos – e suas projeções sobre o mundo urbano em formação –, mais especificamente no período compreendido entre as décadas de 1840 e 1890. O interesse da investigação não se restringe ao café – a introdução comercial e expansão da cafeicultura na região –, embora a pesquisa possua nesse produto um de seus focos. O escopo é mais amplo, uma vez que os temas da pesquisa incluem as variadas unidades produtivas agrícolas sul-mineiras, as atividades nelas desenvolvidas, os arranjos de mão de obra empregados no decorrer do período, as práticas de transporte e comercialização da produção, os mecanismos de financiamento à disposição dos proprietários rurais e a infraestrutura econômica construída ao longo do século XIX. Ademais, aspectos relacionados ao modo de vida das famílias de grandes proprietários rurais (carreiras de negócios, organização familiar, “estilos de vida” e cultura material, hábitos e valores, etc.) também interessarão à pesquisa, de modo a se elaborar quadro mais complexo da sociedade e da sociabilidade no campo e nas cidades do território sul-mineiro. Enfim, o projeto buscará elucidar os modos pelos quais a introdução e expansão da cafeicultura geraram acomodações, deslocamentos, fricções na paisagem agrária do Sul de Minas.

Em termos metodológicos, o projeto de pesquisa pretende seguir na senda aberta pelos estudos das regiões rurais francesas produzidos nas décadas de 1950 e 1960, marcados pela busca da apreensão global do objeto e da análise interdisciplinar, empregando grande volume de documentação de acervos locais para abordar temas como os sistemas agrários, as hierarquias sociais, as formas de trabalho e os repertórios de técnicas, a cultura material e os estilos de vida, as trocas internas e externas à região, as interações entre núcleos urbanos e propriedades rurais, os investimentos e as fortunas, etc. O modelo em tela é o clássico trabalho de Emmanuel Le Roy Ladurie (1997) sobre o Languedoc. No plano da historiografia brasileira, a pesquisa inspira-se em estudos sobre áreas cafeeiras, dentre os quais estão os trabalhos de Stanley Stein (“Vassouras: um município brasileiro do café, 1850-1900”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990), Warren Dean (“Rio Claro: um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920”. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977), Renato Leite Marcondes (“A arte de acumular na economia cafeeira: Vale do Paraíba século XIX”. Lorena, SP: Stliano, 1998) e Mônica Ribeiro de Oliveira (“Negócios de famílias: mercado, terra e poder na formação da cafeicultura mineira – 1780-1870”. Bauru, SP: Educs; Juiz de Fora, MG: Funalfa, 2005).

A démarche da pesquisa será pautada pela adoção de perspectiva de longa duração e estratégias de investigação relacionadas à micro-análise, de maneira a abordar, de forma integrada, os nexos entre a economia mineradora do século XVIII, o funcionamento do mercado interno brasileiro e a consolidação do sistema agrário-exportador do Sul de Minas, no último quartel do século XIX. Também decisiva é a opção pelo recorte regional, em busca de singularidades a serem apreendidas pelo minucioso estudo das características de diferentes localidades do Sul de Minas, as quais serão confrontadas com as conclusões e hipóteses presentes na historiografia brasileira e mineira.

Como a região e o período em tela são extensos, a pesquisa terá caráter exploratório, no sentido de que focalizará alguns pontos do Sul de Minas escolhidos em função do destaque que tiveram na introdução da cafeicultura, conforme a opinião abalizada do Almanach Sul-Mineiro, publicado em Campanha, no ano de 1874, por Bernardo Saturnino da Veiga. Estes pontos são os entornos das atuais cidades de Alfenas, Camanducaia (antiga Jaguary) e Pouso Alegre. Machado e Muzambinho (antiga São José da Boa Vista) também serão incluídas na pesquisa, em razão da facilidade de acesso a partir de Alfenas, sede da equipe do projeto. Belo Horizonte (Arquivo Público Mineiro) e Campanha (Arquivo Particular Monsenhor José Patrocínio Lefort) estarão na rota do projeto, porque concentram determinados tipos de fontes importantes nessa investigação.

No que se refere à pesquisa documental, pretende-se privilegiar cinco conjunto de fontes. O primeiro destes conjuntos é composto pelos registros nos Livros de Notas dos cartórios do Sul de Minas. Documentos concernentes a transações de compra e venda de propriedades rurais e bens agrícolas, registros sobre escravos, contratos de trabalho e de constituição de firmas, termos de empréstimos com garantia hipotecária, etc. Os Livros de Notas contém informações sobre a dinâmica da economia nos municípios, uma vez que registram transações correntes dos diversos agentes econômicos – trabalhadores, comerciantes, fazendeiros, artífices. A este conjunto de documentos somam-se também as escrituras de propriedades, lançadas nos Livros de Registro de Imóveis, que trazem informações sobre localização, preço, tamanho e características de uso das terras. Os Livros de Notas e os Livros de Registro de Imóveis fornecem pistas sobre a teia infindável e multifacetada de interações entre os indivíduos, famílias e firmas que atuaram na região, durante o período demarcado.

O segundo conjunto de fontes, também locais e imprescindíveis para analisar a dinâmica dos negócios e das relações entre os homens da região, é constituído pelos testamentos e inventários. Os dados encontrados nesses documentos ajudarão a reconstruir a “carreira de negócios” dos inventariados, seus relacionamentos econômicos (dívidas ativas e passivas), além de fornecer indícios sobre valores e estilo de vida que eles tiveram.

As informações colhidas nestas fontes cartoriais permitirão abordagem quantitativa da trajetória da economia e dos sistemas agrários no Sul de Minas, da composição das fortunas e da mão de obra nas fazendas, dos investimentos e financiamentos, dentre outras possibilidades.

O terceiro conjunto de fontes, que se presta melhor a abordagens qualitativas, consiste em relatos de viajantes e memorialistas, bem como textos da literatura regional. Essas fontes possuem impressões sobre a vida na região, o cotidiano no campo e na cidade, as hierarquias sociais, as crenças e os valores, etc. Lidos com as devidas cautelas, esses relatos serão muito úteis para os objetivos da investigação proposta.

O quarto conjunto de fontes é de produção governamental, incluindo os diversos tipos de relatórios e correspondências produzidos pelas Câmaras Municipais, Presidência e Secretarias da Província de Minas Gerais. Também interessam as estatísticas, mapas e estudos elaborados pelo governo mineiro relativos à região sul-mineira oitocentista. No caso das Câmaras, atenção especial será dedicada aos livros de Lançamento de Impostos sobre Indústrias e Profissões. Estas fontes oficiais, municipais e provinciais, possibilitam apreender informações sobre a cena regional, suas transformações e seus problemas, as queixas e reivindicações de lideranças políticas e os planos que foram urdidos com vistas a promover seu desenvolvimento.

O quinto conjunto de fontes corresponde à imprensa regional, concentrada na cidade de Campanha, e na qual ponteava o periódico Monitor Sul-Mineiro, editado por Bernardo Saturnino da Veiga, entre 1872 e 1898. Nas páginas dos jornais eram publicadas informações sobre preços, lavouras, novos produtos, equipamentos e processos, propagandas de firmas comerciais e fabris com atuação regional, opiniões de pessoas destacadas sobre os problemas e as iniciativas regionais, idéias sobre a economia, a política e a vida social, além de notícias sobre os intercâmbios com outras partes de Minas Gerais e do Brasil. Por isso, os periódicos de Campanha contribuirão para lançar luz sobre os temas da pesquisa.

A pesquisa será desenvolvida em dois anos, contados a partir do mês corrente. Nela atuaram três estudantes do Curso de História da UNIFAL-MG, com bolsas de iniciação concedidas pela Universidade. É o que espero.

Por Marcos Lobato Martins, 21 de setembro de 2009.  1 Comentário

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  1. angela correa ribeiro escreveu,

    em novembro 4th, 2009 às 23:33

    Prof marcos , tive o prazer de conhcer sua esposa , junia , na viagem para BH. Gostaria de colaborar no seu trabalho com algumas fotos e comentarios da minha regiao. Sou uma professora aposentada de biologia e na minha simplicidade curiosa tenho algum material que poderei deixar para sua apreciaçao. No momento colaboro no livro MINHA FLOR SEMPRE VIVA, com alguns causos e contos, mistura de ficçao num romance e realidde ,do norte ao sul de MINAS dos mineiros. Com respeito ao seu trabalho e admiradora do seu talento fica aqui um abraço carinhoso. ANGELA CORREA RIBEIRO

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