O Coelhão voltou!

Doze mil e quinhentos felizardos, a maioria vestidos nas cores verde e preto, viram o glorioso América Futebol Clube, o América Mineiro, o Coelho mais famoso das Minas Gerais, alcançar mais um título nacional. Dessa vez, fomos campeões da Terceirona, vencendo o ASA de Arapiraca, da nordestina Alagoas. Sábado de sol quente e céu azul, sem nuvens, quase sem vento, cenário perfeito para conquista elevada. O calor no antigo estádio do Horto, o aconchegante Independência, a toca do Coelho, tornou a torcida ainda mais animada. Até houve transmissão ao vivo pela TV, coisa que, a bem da verdade, não ocorre rotineiramente em jogos do América. Por algumas horas, o Coelho voltou a ser um dos grandes de Minas. Fazia anos que os americanos não se sentiam tão confiantes, reconciliados com o passado de vitórias do time.

Eu acompanhei o sábado de decisão de longe, a mais de 500 km de Belo Horizonte. De Alfenas, envergando solitária camisa americana, numa terra onde muitíssimos torcem por times paulistas e cariocas. Diante da TV, vi a partida como se fosse um aloprado: roí as unhas, esbravejei com o time, escondi o rosto nos raros ataques perigosos do ASA. Teria sido bem melhor para o coração estar na arquibancada do Independência. De tão longe, torcer pelo Coelho é experimentar uma sensação de exílio, de banimento, de impossibilidade de realização plena da paixão de ser americano. Tive a certeza de que o pior da situação de exílio é não poder compartilhar com os “nacionais” as angústias de viver, de esperar, de desejar e alcançar conquistas coletivas. Os gregos entenderam a psicologia do cidadão ao definirem o ostracismo como pena pesada para aquele que gerou grave ameaça para a “pólis”.

América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009
América Mineiro recebe o troféu de campeão da Série C 2009

Eu nada fiz que colocasse em risco a existência do América. Todavia, devo confessar: sem a presença de outras pessoas com camisas do América, a vitória teve brilho um pouco menor. Foi mais triste, talvez excessivamente fria e fugidia. A alegria do título baixou rapidamente, logo que o juiz encerrou a partida – faltaram as bandeiras, a gritaria e o barulho da charanga, a carreata, a festa na praça. Quando o Coelho sagrou-se campeão brasileiro da Série B, no ano de 1997, eu, montado num scooter italiano novinho em folha, integrei uma carreata de americanos pelas ruas de Pedro Leopoldo. Foram apenas oito veículos, mas o júbilo era imenso. Dessa vez, não ouvi sequer um foguete.

Por isso, tendo a ser menos otimista do que os americanos que gritaram na arquibancada do Independência: “O Coelhão voltou! O Coelhão voltou!”. Compreendo o desabafo. O grito também me deixou de alma lavada. Mas é preciso ter a cabeça no lugar, não deixar que o “calo da vitória”, como escreveu o poeta João Cabral de Melo Neto, impeça os americanos de enxergar o terreno sobre o qual caminhamos. O futebol de hoje não é habitat amigável para o Coelho de Minas. Ficamos pequenos demais, de forma que teremos que adquirir musculatura para voltar a integrar a elite do futebol brasileiro. Hoje, o América Mineiro é time de Segunda Divisão. E assim continuará por vários anos. Não há demérito nisso, pois penso como os ingleses: a Segunda Divisão também é um luxo. O sucesso prolongado na Segundona é o meio para levar o América de volta para a elite dos times brasileiros, pois será a condição para encorpar a torcida e as receitas do clube, reposicionar a marca. No futebol de hoje, negócio multimilionário, não há espaço na Primeirona para times nanicos, com torcidas reduzidas, simpáticas, mas desacostumadas a freqüentar os estádios, que não envergam, no dia-a-dia, a camiseta do clube, que não sabem cantar o hino do time. Aliás, no caso do América, o hino é de uma infelicidade extrema – parece música composta para sarau da Academia Mineira de Letras.

O Coelhão voltará para a primeira Divisão – e ficará lá – somente quando recuperar a condição de time de massa. Quando abandonar o que me parece ter sido a escolha nefasta de sua história: conformar-se de ser o segundo time no coração de cada mineiro, o time da fina flor da sociedade mineira, engraçadinho, educado, simpático, engomadinho. Sem grande torcida, não há como atrair grandes patrocinadores. Sem grande e fanática torcida, não haverá bilheteira reforçada. Nem marketing esportivo capaz de gerar dinheiro suficiente para montar equipes de ponta. A trajetória elitista do América Mineiro, perseguida com denodo desde o pós-1945 – por puro preconceito, é bom que se diga –, aprisionou o Coelho num círculo vicioso, que será difícil romper. Depois da Lei Pelé, que acabou com a “semi-escravidão” do jogador de futebol, liberando-o dos grilhões do clube que mais parecia uma “casa grande”, sequer restou ao América a alternativa que lhe garantiu a sobrevivência nos anos 1970 e 1980: revelar, e depois vender, jovens jogadores bons de bola. A parte do clube-formador é relativamente pequena, nas transações do atual mercado de jogadores.
Se o América almeja voltar para a Primeira Divisão, e nela fincar pé, deverá optar pela massa, porque, nas eleições como no futebol, é o povão que garante a vitória.

E viva o América! Coelhão, Coelhão, Coelhão!

Por Marcos Lobato Martins, 21 de setembro de 2009.  Comentários

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