Homens do Jequitinhonha que construíram o Mucuri

Afrânio Gonçalves dos Santos, aposentado, vive no pequeno povoado de Mayrink, situado às margens do rio Mucuri, muito próximo à cidade de Nanuque. Lá, ao lado da antiga igreja, ele observa sem pressa o dia-a-dia do lugar. Tem muito tempo para falar do passado, sobre o qual gosta de prosear. Com a voz baixa e jeito contido, Seu Afrânio parece imigrante alemão. Na verdade, porém, ele nasceu numa família de agregados de uma fazenda situada em Joaíma, no Vale do Jequitinhonha, no ano de 1918.

Aos dez anos de idade, Seu Afrânio e a família migraram para Umburatiba, onde o pai havia adquirido uma posse na mata. Nessa posse, eles exploraram madeira, plantaram milho, feijão, abóboras e criaram poucas cabeças de gado. Como numerosas outras famílias de pioneiros da mata, a família de Seu Afrânio tomou gosto pela nova terra, no vale do rio Alcobaça, e participou do lento crescimento do lugar. Umburatiba era conhecida então como Comercinho dos Gangás, uma vez que ali ponteava a enorme parentela dos Gangás, afeita ao comércio a retalho e à pecuária. Foi essa família que doou as terras onde cresceu a povoação, o chamado “comercinho”, a “rua”. Ao redor do nascente núcleo urbano, havia grandes proprietários e muitos posseiros, abrindo uma frente de povoamento na virada dos anos 1920 para 1930. Tudo aquilo era espaço de valentias e de moral latifundiária rígida, na qual a honra do homem e de sua família eram valores supremos. Zona de conflitos fundiários cotidianos, de rixas interpessoais dramáticas, vazia de Estado e polícia até praticamente os anos 1960. Seu Afrânio sabe de diversas histórias de sangue e de vingança no entorno de Umburatiba, como as que nos acostumamos ouvir contar sobre o sertão nordestino. O Nordeste de Minas Gerais foi campo livre para a jagunçada, enquanto as boiadas transitavam, aparentemente sob clima de paz, nos caminhos que levavam para os mercados do sul.

Afrânio Santos (de pé, com blusa) e Durval Santos (sentado, com blusa)
Afrânio Santos (de pé, com blusa) e Durval Santos (sentado, com blusa)

De 1928 a 1948, Afrânio dos Santos viveu em Umburatiba. Casou, teve filhos, lavrou a terra. Uma vida dura, sem diversões, no isolamento do mundo. Decidiu, então, prosseguir viagem, atraído pelas notícias de riqueza algumas léguas ao sul, na região de Nanuque. A riqueza proveniente da exploração de madeira ao longo da linha da Estrada de Ferro Bahia-Minas. Seu Afrânio, como ele mesmo diz, deixou a “mata”. Mudou-se para Mayrink, um lugarejo que pegava corpo ao redor da estação da Bahia-Minas, colada à barranca do Mucuri. As serrarias derrubavam a floresta em Mayrink sem piedade, deixando espaço para os pastos de capim colonião e para a pecuária de corte. O Mucuri ainda era piscoso e deitava enchentes grandes, sempre que chegava a temporada das chuvas. Até os trens costumavam parar de correr, pois os trilhos eram afogados pelo rio empanturrado de águas bravias. Por isso ainda havia as temidas sezões, que provocaram muitas mortes. Em Mayrink, homens de fortuna comandavam as serrarias e a criação de gado, alguns deles radicados em Teófilo Otoni, outros com residência no Rio de Janeiro.

O sonho da riqueza não vingou para Seu Afrânio. Faltavam-lhe os capitais para entrar na indústria madeireira. Restou-lhe instalar-se em Mayrink como posseiro, e trabalhar na roça até aposentar-se. Apenas o vai-e-vem dos trens quebrava a uniformidade da faina agrícola da família. O movimento na plataforma da estação de Mayrink animava o povoado: o apito das composições, a venda de quitandas para os passageiros, a aglomeração de pessoas que desejavam ver e se mostrar, os sons enigmáticos do telégrafo, tudo isso ligava, magicamente, aquela zona longínqua do interior com o mundo, durante escassos minutos. Se os trens ofereciam a sensação de estar no mundo, as enchentes medonhas do Mucuri insistiam na demonstração de quão frágil era essa ligação com o exterior.

Nesse diapasão, Seu Afrânio viu os filhos trabalharem nas fazendas instaladas na região, como é o caso de Durval Gonçalves dos Santos, que hoje reside com o pai em Mayrink. Durval Gonçalves dos Santos nasceu em 1943, na posse da família situada na margem do rio Alcobaça, próxima a Umburatiba. O menino tinha cerca de cinco anos quando acompanhou o pai na migração para o sul, em direção ao Mucuri. Assim que a idade permitiu, Durval empregou-se em várias fazendas de Carlos Chagas. Foi vaqueiro por muitos anos. Vaqueiro dos bons – orgulha-se de dizer o homem. Mais do que o pai, Durval parece típico camponês germânico.
Contudo, frustrado com as possibilidades de futuro oferecidas pela lida com o gado, Durval abandonou as fazendas e tornou-se empregado nas serrarias que operavam na região. A decisão foi tomada no início dos anos 1960. Durval virou ajudante de carpinteiro na firma “Edimex”, pertencente a José Caminetti, um empresário do Rio de Janeiro. A serraria, instalada em Mayrink, exportava madeira pelos trens da EFBM. Mas a empresa foi desativada em meados da década de 1960, deixando sem perspectivas Durval e muitos outros homens do lugar. Ainda restam, no povoado, a alta chaminé da serraria e o casarão que era escritório e alojamento de trabalhadores.

Afrânio e Durval sintetizam bem os milhares de pequenos atores que encenaram a aventura do povoamento do Pampã, a última fronteira agrícola de Minas Gerais, conquistada, a partir de 1890, pelo denodo de migrantes do Médio Jequitinhonha, Norte de Minas e do centro-sul da Bahia.

Por Marcos Lobato Martins, 29 de agosto de 2009.  3 Comentários

3 respostas para ' Homens do Jequitinhonha que construíram o Mucuri '

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  1. melyssa gatinha escreveu,

    em novembro 9th, 2009 às 16:33

    não era o que eu queria mas obrigado

  2. HENDRIKUS escreveu,

    em abril 26th, 2010 às 08:48

    ESSA LIBDA HISTÓRIA CONTA UM POUCO DO INICIO COMO FOI UM DOS PRIMEIROS DESBRAVADORES DE NOSSA QUERIDA UMBURATIBA NO INICIO DO SÉCULO !!!

  3. HENDRIKUS escreveu,

    em abril 26th, 2010 às 08:49

    ESSA LINDA HISTÓRIA CONTA UM POUCO DO INICIO COMO FOI UM DOS PRIMEIROS DESBRAVADORES DE NOSSA QUERIDA UMBURATIBA NO INICIO DO SÉCULO !!!

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