Povoados miúdos no Jequitinhonha e Mucuri
Meu último trabalho de campo, com uma equipe do IGA-MG, levou-me a Santo Antônio do Mucuri. Pequeno povoado que pertence a Malacacheta e onde se situa a nascente do Mucuri do Sul. Um lugar escondido entre montanhas sobressaltadas, encavaladas umas sobre as outras, desdenhando de vales apertados que escondem fios de água. Nas costas dos morros, como cabeleira vasta que disfarça a pele vermelha da terra, matas de verde escuro. Rumor de vento que dobra galhos e derruba folhas, que levanta poeira e açoita os homens. Mata que expele névoas ora em colunas altas, ora em nuvens espessas. Uma estrada difícil – de chão cru, acidentado –, capaz de cansar até o carro mais potente. Algumas dezenas de casas, acanhadas, pintadas em desordem, miseráveis, que rumam para as margens do Mucuri do Sul, ali apenas linha aquosa que corre sem pressa, e sem força, entre taiobas enormes.
Na praça única do lugar, pessoas embrulhadas no tempo, afogadas nele. Olhares inexpressivos, bocas compassadas, gestos de espera. Lugar embriagado de rotina rural, sem bússola para sair do território do primeiro Novecentos, quando só havia cafeeiros e tropas de burros. Quando nem se ouvia o apito das locomotivas da Bahia-Minas que evitaram, prudentemente, a correria de montanhas que é Santo Antônio do Mucuri. Mas nada no mundo é tão alheio a ponto de evitar as intrusões da modernidade. Um caminhão de coca-cola, o sonho de morar na cidade grande, o trabalho mal-pago em Teófilo Otoni, Belo Horizonte ou São Paulo. Ainda não há lan houses nem celulares no povoado. Por quanto tempo?
Primeiro eu pensei nas interações entre o urbano e o rural, na ideia de “urbanidades no rural”. Pensei em Santo Antônio do Mucuri como manifestação de território híbrido, no qual fazem amor – e brigam muito, também – o urbano e o rural. Pensei no devir de novas territorialidades, nas transformações tardias que, enfim, afetam os Vales do Mucuri e do Jequitinhonha. Depois, enquanto procurava o quê fotografar, parei de pensar, assaltado por súbita dor, pela força de memórias de outras viagens. Senti um mal estar. Desejei sair de Santo Antônio do Mucuri o mais rápido possível. Lembrei-me de outros lugares parecidos que percorri no Vale do Jequitinhonha. Punhados de casas perdidos no espaço, salpicados a esmo, de futuro improvável. Ponte do Pasmado, Engenheiro Schnoor, Pedra Grande, General Dutra. Lugares desconfiados, tristes, desesperançados. Retratos medonhos da miséria que ainda existe em Minas Gerais, que nem a beleza das paisagens consegue amenizar ou distrair.
Eu fitava Santo Antônio do Mucuri e via de esguelha todos esses outros povoados. Engoli seco, dissimulei o quanto pude – meus olhos ficaram marejados. Busquei conforto ou distração, não sei bem, nos poemas que falam sobre lugarejos interioranos, que eu havia lido desde os tempos de ginásio. Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Emílio Moura. Guardei a câmara e andei uns minutos, na rua mal calçada de Santo Antônio do Mucuri, dizendo trechos desses poemas, ou melhor, rezando-os.
Transcrevo aqui essas orações que rezei nas margens do Mucuri do Sul. Mesmo por que são obras belíssimas, que os leitores gostarão de encontrar novamente:
Cidadezinha qualquer (Carlos Drummond de Andrade)
Casas entre bananeiras/ mulheres entre laranjeiras/ pomar amor cantar.// Um homem vai devagar./ Um cachorro vai devagar./ Um burro vai devagar./ Devagar… as janelas olham.// Eta vida besta, meu Deus. (“Alguma poesia” – 1930)
Província (Cecília Meireles)
Cidadezinha perdida, no inverno denso de bruma,/ que é dos teus morros de sombra,/ do teu mar de branda espuma,// das tuas árvores frias/ subindo das ruas mortas?/ Que é das palmas que bateram/ na noite das tuas portas?// Pela janela baixinha,/ viam-se os círios acesos,/ e as flores se desfolhavam/ perto dos soluços presos.// Pela curva dos caminhos,/ cheirava a capim e a orvalho/ e muito longe as harmônicas/ riam, depois do trabalho.// Que é feito da tua praça,/ onde a morena sorria/ com tanta noite nos olhos/ e, na boca, tanto dia?// Que é feito daquelas caras/ escondendo o seu segredo?/ Dos corredores escuros/ com paredes só de medo?// Que é feito da minha vida/ abandonada na tua, do instante de pensamento/ deixado nalguma rua?// Do perfume que me deste,/ que nutriu minha existência,/ e hoje é um tempo de saudade,/ sobre a minha própria ausência? (“Viagem & Vaga Música”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. p. 64-65)
Ouro Preto – I (Emílio Moura)
Que frio! A neblina rói a paisagem./ Sinto o tempo parado em cada pedra que piso./ O passado me envolve, pairo sobre as igrejas e assisto à ressureição/ [dos mortos.// Sou apenas memória. (“Itinerário Poético”. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 252)
Ermo das Gerais (Emílio Moura)
Que céu imenso!/ Lívida, a noite se imobiliza como se nada mais esperasse./ Nada nos prende a nada:/ nem tempo, nem memória./ Estamos todos imóveis,/ imóveis,/ como pedras sem data à beira de um caminho/ perdido. (“Itinerário Poético”. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 258)
Misticismo (Emílio Moura)
O céu lindo da vila pobre!/ E a igreja pequenina, que se espicha toda na torre,/ com vontade de ver o céu.// E o céu tão alto, e o céu tão alto! (“Itinerário Poético”. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002. p. 41)
Poemas bonitos, orações melancólicas. Cantigas de almas penadas que assombram a alma, inquietam o dia-a-dia. Cantigas de almas penadas que gritam: viver dói! Percorrer Minas para encontrar Minas não é brincadeira, nem viagem turística de gente grã-fina. Minas fere fundo. Tão fundo que arrisquei uns versos, mal arranjados, escritos à pressa na caderneta de campo:
Santo Antônio do Mucuri
No ar/ um facho de luz apenas/ a lua não mente – espelha./ As casas por onde passa são sempre brancas e apertadas/ do tamanho do coração dos homens./ Há grilos na praça/ e um sol fraco de entristecer a tarde./ O tempo é lento toda vida:/ homens sentados fumando palha/ mulheres grávidas dia-a-dia.// O ouro passa modorrento/ nas trilhas do açúcar e de missionários berrantes./ O velho fica – permanece!/ navegando sóis de solidão enorme./ O novo gera-se em gravidez de alto risco./ O rio se faz rio e desce, a fonte se faz fonte/ e jorra,/ o céu se faz claro e escurece.// A vida se faz vida e morre,/ desgraçadamente.
Por Marcos Lobato Martins, 28 de julho de 2009. 6 Comentários

em setembro 3rd, 2009 às 00:03
Eu sou desse lugar e o seu texto não mente, mas a realidade do lugar melhorou, penso que deveria ser melhor. Parabéns vc e um bom observador da realidade e por isso escreveu bem a verdade do Santo Antonio do Mucuri
em abril 16th, 2010 às 12:11
Sou do interior de SP minha familia era dessa região sou neta de Amalia Ferrreira Januario infelizmente morreu ano passado,não sei muito de mucuri, mas o que sei pelo que meu pai contava é que os Luises do Nascimento eram uma das familias mais respeitadas da região que possuiam fazendas e tudo, essa cidade é um bom lugar pra se isolar da modernidade, é um lugar pra sentir que nem tudo na vida é dinheiro.
em agosto 30th, 2010 às 17:20
OLA MEU NOME É VAL GOSTARIA MUITO DE VER FOTOS DESSE LUGAR EU NASCI AI MAS NUNCA VIA CIDADE TENHO 32 ANOS POR ISSO GOSTARIA DE UMA FOTO …..PARABÉS
em setembro 11th, 2010 às 14:47
ola sou LEONAR FERREIRA DO NASCIMENTO
nasci nesta cidade hoje moro em maringa /pr faz 21 anos que mudei mais ela nao sai de mim meus rios minhas chacoeiras da minha infancia maravilhosa que passei ai .saudades
em outubro 29th, 2011 às 17:18
eu naci nesta cidade etudo verdade meus pais mora la tenho um irmao desaparecido nome narcelio rodriguis fernades guinho tenho muitas saldade la
em dezembro 30th, 2011 às 15:51
meu caro. por um lado vc tem la as suas razoes no que vc viu. mas.isto ai nao e culpa do lugar que ate hoje nao
ten la suas modernidades mas os grandes culpados por isto que vc viu, sao, primeiro o sistema politico falido que eles aplican la desde os tem
pos de burros de carga. sao os politicos corruptos que guverna mucuri nos tempos de hoje. mucuri vive um
mar profundo de incopetencia politica aonde si elege um vereador simplismente pra carregar doentes para os hopitais!nos au inves
de ficarmos olhando o lado feio do nosso lugar deveriamos nos unirmos e arancar estes sangui sugas que si elegen reelegen e nunca fizeran nada pra melhora as nosas condicoes de vida. deixo aqui
os meus telefones si alguen si enteresa sobre as necec
idades politicas que o noso lugar precize estarei aqui para qualquer esclarecimento. sao paulo 30/12/2011 tel 1159274807/30345370/61470101 e vamos enfrete mucuri nos podemos mais