Homens do Jequitinhonha que construíram o Mucuri
Ladainha é talvez o lugar mais aprazível do Vale do Mucuri. A cidade cresceu em torno da estação da Estrada de Ferro Bahia e Minas, inaugurada em 26 de dezembro de 1918 e, depois, das oficinas dessa ferrovia. Logo na entrada da cidade, há a represa da Usina da EFBM que alimentou de energia o maquinário das oficinas, a partir dos anos 1940, bem como os postes e casas de Ladainha. E o pontilhão sobre o encontro dos rios Mucuri e Bonsucesso, além do antigo prédio que abrigava plainas, tornos, prensas hidráulicas, alto-fornos, capazes de fabricar de pequenos parafusos a peças completas de locomotivas. São marcas da ferrovia que, ainda hoje, conferem forte identidade aos moradores de Ladainha, depois de transcorridos mais de quarenta anos de desativação da ferrovia.
As paisagens naturais no entorno de Ladainha são magníficas, a começar pela chamada Pedra de Ladainha, um pão de açúcar granítico que se eleva a mais de 300 metros sobre o plano da cidade. Matas exuberantes cobrem as encostas na região. A temperatura é agradável, embora faça bastante frio no inverno. A cidade, estendida ao longo do leito da ferrovia, possui praças bem cuidadas, gente amistosa e mercado bem destacado na cena urbana, que concentra o movimento do povo.
Foi nessa Ladainha, de boa comida e ótima pousada, que conheci Paulo Soares Alcântara, um senhor de prosa simples, oitenta e dois anos de idade e vigor que só os homens que fizeram muito por um lugar costumam possuir. Seu Paulo chegou a Ladainha procedente de Setubinha, onde aprendera ofício de ferreiro na tenra juventude e estudara na cidade de Teófilo Otoni. Na verdade, Seu Paulo é natural de Minas Novas. Como ele foi parar em Ladainha? Por causa de chamado do irmão, dentista e farmacêutico, João Soares Alcântara, que se candidatara a vice-prefeito na cidade de Pote, a que Ladainha pertencia como distrito. Seu Paulo tomaria conta do Cartório por seis meses, exercendo o ofício de escrivão durante a campanha política e as eleições.
Assim que deixou o Cartório, Paulo Soares Alcântara entrou para a oficina da EFBM, lá trabalhando durante quatro anos, como mecânico, de 1947 a 1951. Nessa época, o chefe das oficinas da ferrovia era João Batista Eleutério, e havia por volta de 130 empregados nessa unidade da Bahia e Minas.
Conforme Seu Paulo, a oficina da Bahia e Minas realizava, frequentemente, trabalhos para os fazendeiros da região. Ele mesmo fabricou muitos alambiques e engenhos para os produtores de Ladainha. Nas décadas de 1940 e 1950, havia na região cerca de 30 alambiques que produziam cachaça famosa em todo de Capelinha a Teófilo Otoni.
Quando se casou, Seu Paulo deixou a ferrovia e foi morar na roça, num local denominado Poaia. Era dono de 50 alqueires de terra, onde plantava café (15 mil pés), milho, feijão, arroz, e criava porco e gado. A produção na mata era rendosa: colhia 200 a 300 alqueires de milho por safra. Tudo que era tirado de seu sítio era vendido na própria Ladainha. Seu Paulo também explorou muita madeira, como fizeram todos os proprietários da região, para fornecer à ferrovia, que precisava de bastante lenha e dormentes. Na sua propriedade, Seu Paulo contava com quatro agregados, cada um dos quais tinha sua casinha, roças e fornecia mão-de-obra para as lavouras, criações e o engenho que ele tocava. O café era descascado na propriedade usando-se uma “gangorra”, nome regional para o monjolo. A gangorra também beneficiava o milho e o arroz. As tropas de burros chegavam até as porteiras das fazendas para transportar os gêneros até a cidade.
No caso do café, que era embarcado na estação de Ladainha com direção ao mercado do Rio de Janeiro, operavam grandes intermediários, destacando-se Elias João Abrão (que foi prefeito de Ladainha) e Virgílio Rodrigues. Entre as maiores fortunas do lugar figuravam Elias João Abraão (lojista de secos e molhados e dono da Fazenda Itagiru, que pertencera ao Major Tavares, personagem quase lendário associado ã fundação de Ladainha), Felipe João Fael (lojista de tecidos), Virgílio Rodrigues, José Ferreira Pena (proprietário da Fazenda Caixa d’Água, com plantações diversas), Gualfreano Carlechi e Leopoldina Cata Preta, ambos grandes pecuaristas.
No ano de 1953, Seu Paulo vendeu a roça, voltou para a cidade, assumindo definitivamente o Cartório de Ladainha. Até que ele demorou a entrar na política. Foi candidato a vereador em 1968, elegendo-se pelo partido de Adhemar de Barros, o PSP (Partido Social Progressista). Todavia, por causa do Cartório, não assumiu o mandato. Orgulha-se, porém, de ter proposto os projetos de criação do Hospital e do Colégio, cuja implantação ocorreria anos depois. Em 1980, Seu Paulo foi candidato a prefeito pela ARENA; acabou derrotado pelo MDB, sinal de que Ladainha possuía tradições políticas singulares, se comparada à maioria das cidades interioranas mineiras, redutos governistas.
Na verdade, como salienta Paulo Soares de Alcântara, a presença da ferrovia, com suas oficinas, fez de Ladainha um lugar bastante influenciado pelo trabalhismo. O PTB era uma força na cidade, que recebeu Leonel Brizola na época da difusão dos “grupos dos onze”, estratégia de apoio a João Goulart e às reformas de base. O PTB elegeu um prefeito na cidade, João Bastos Caiô, um eletricista da Bahia e Minas. Por isso mesmo, no momento do Golpe de 64, prisões e inquéritos atingiram uns poucos trabalhadores da oficina de Ladainha, acusados de serem comunistas.
Seu Paulo lembra desolado o período de desativação da EFBM, nos anos 1965-1966. A cidade ficou prostrada. Caiu em depressão profunda, enquanto via muitos de seus moradores irem embora e os ferroviários serem transferidos principalmente para Divinópolis e Lavras. Para Seu Paulo, o fim da Bahia e Minas tem razão política: a opção pelas rodovias nos planos governamentais de transporte. E também os problemas de operação da estrada de ferro, por causa da corrupção, do cabide de emprego em que ela havia se transformado desde fins dos anos 1950. Seu Paulo relata que a oficina de Ladainha, que funcionaria perfeitamente bem com 130, 150 pessoas, chegou a ter quase 500 funcionários, graças às nomeações de apadrinhados do Deputado Tristão da Cunha.
Os filhos de Paulo Soares Alcântara espalharam-se por Minas Gerais e São Paulo, na esteira da débâcle que Ladainha experimentou com o fim da EFBM. Ficou na cidade apenas uma filha, Angelina Simões Filha, atual titular do Cartório de Registro Civil de Ladainha.
Por Marcos Lobato Martins, 6 de julho de 2009. 12 Comentários


em julho 28th, 2009 às 15:16
Parabens!!!!!! O materia é maravilhos….
em julho 28th, 2009 às 15:17
Parabens!!!!!! O materia é maravilhosa, sou Ladainhense e fiquei muito feliz!!!!….
em julho 28th, 2009 às 22:24
Parabéns pela matéria, adorei ver o meu avô nela. Só uma pequena observação, o nome dele é Paulo Silvátara.
Atte,
Anngeluce.
em julho 28th, 2009 às 23:27
Tenho muito orgulho de ser neta desse grande homem q lutou e criou sua familia maravilhosamente e viveu e vive ate hoje uma historia com muita luta e muitas vitorias!!! Meu avo lindo sinto muitas saudades!! Hoje estou morando nos Estados Unidos a 6 anos nao o vejo, espero muito um dia denovo se Deus me permitir dar um abraco enorme nele, ir pescar com ele, sentar a beira do fugao a lenha com ele e escutar ele contanto suas historias!!!! etaaa saudade viu!!!!
um beijooo vo!!!
te amo muito!!
Parabens pelo oq o Senhor foi e sempre sera!!
Esse grande homem, grande marido, grande pai, grande avo e hoje grande bisavo ne?? hehehe
SAUDADESSSS!!!!
De sua neta “Lala”
em julho 28th, 2009 às 23:30
ahhh quase me esquecendo…
Parabens ao escritor Marcos Lobato Martins.
Otima materia!!
Beijos.
em julho 29th, 2009 às 22:08
Congratulo-me com seu espírito social que nos pretigia, naturais de Ladainha, com essa simpática prosa sobre pessoas e acontecimentos que escreveram a história desse lugar.
em julho 30th, 2009 às 13:56
Eu estava lá no dia em que entrevistaram meu pai. Foi impagável a fotógrafa deitando na grama molhada (estava chovendo)para tirar foto das garrafas de cachaça da coleção do meu pai.
Parabenizo a todos pela matéria, e agradeço pelo carinho e respeito com que nos prestigiaram.
em julho 30th, 2009 às 19:40
SÓ DESEJO PARABENIZÁ-LO PQ MINHAS TITIAS E PRIMUXAS JÁ DISSERAM QUASE TUDO!!!
OBRIGADO PELA HOMENAGEM
em outubro 12th, 2009 às 09:30
gente, voces fizeram um lindo trabalho,so esqueceram de de uma das grandes educadoras que a maioria dos adultos de hoje agradecem. sra acracia mateus tavares okapa?.
em dezembro 10th, 2009 às 20:21
Inauguramos a iluminação do estádio de Ladainha com o E.C.C.C. (Borroló).
em agosto 27th, 2010 às 23:13
Sou filha de um ladainhense ,Edeildo borges(falecido em jubho de 2009).Gostei muito de saber um pouco da terra do meu pai.Gostaria de saber mais .Ele contava ~´arias histórias principalmente de um tio chamado clemente Borges(Keke borges)<caso tenha connhecimentos das histórias,gosaria mais de saber.Abraços.
em agosto 27th, 2010 às 23:15
Sou filha de um ladainhense ,Edeildo borges(falecido em jubho de 2009).Gostei muito de saber um pouco da terra do meu pai.Gostaria de saber mais .Ele contava varias histórias principalmente de um tio chamado clemente Borges(Keke borges)<caso tenha connhecimentos das histórias,gostaria mais de saber.Abraços.