A cidade no ar, através do rádio
A boa fase do Ameriquinha, glorioso decacampeão mineiro, tem me feito ouvir rádio demais. Domingo, então, o meu radinho de pilhas é ligado bem cedo, antes do almoço, e fala até o meio da noite. Notícias de esporte, transmissão de jogos, programas de debate sobre futebol. Por isso, fui obrigado a formar pequeno estoque de pilhas em casa, beber refrigerante em excesso, porque rádio sem boa bebida não dá pé. A conversa é até dispensável, se se deseja concentração para acompanhar os “spekears”. Quem reclama, com justa razão, é minha esposa. Ao que respondo tratar-se de hábito antigo, adquirido na infância, época na qual nada havia para meninos fazerem na minha cidade natal, domingo à tarde, senão dormir, caçar passarinho ou escutar rádio, trepados nos muros das casas, olhos postos na rua.
Em janeiro de 2008, no jornal “Folha de Pedro Leopoldo”, eu escrevi pequeno texto sobre o rádio, o papel do rádio na cidade e na minha casa. Um exercício de memória que me voltou à lembrança nesse instante, enquanto ouvia as últimas sobre o primeiro jogo da final da Copa Libertadores, entre Cruzeiro e Estudiantes de La Plata. Segue o texto, que agora irá além do papel impresso, entrando para o espaço virtual. Melhor do que se fosse lido por um cronista radiofônico, na hora do almoço.
A cidade no ar
Na casa-grande da minha infância, situada à margem da linha de trem, as energias das crianças custavam dissipar. Havia muito espaço, diversos companheiros de brincadeiras, adultos para contar estórias, a Vila Magalhães para ser percorrida em excursões breves. Havia as composições ferroviárias e as oficinas da Central do Brasil, cujos movimentos se transferiam, por correntes invisíveis, mas poderosas, para a alma dos meninos. Os dias sucediam-se agitados. Por isso, era impossível jantar na minha casa antes do breu da noite cair, cobrindo tudo.
Mesmo com o escuro silenciando a cidade, alguma agitação prosseguia na cozinha, ao lado do fogão de lenha. Ali a família toda conversava animada, frequentemente até as nove horas da noite. Quem mais falava era meu pai. Ele respondia as perguntas que fazíamos sobre diferentes assuntos, com paciência de professor bem treinado. Discorria sobre máquinas, descobertas e teorias científicas, contava histórias do sertão e da ferrovia. Descrevia as estações, cidades e vilas na beira da linha. Falava do progresso econômico do país com medido entusiasmo, sem perder oportunidade para mostrar como os autoritarismos tisnaram a trajetória brasileira. Nessas conversas, minha mãe ficava com o papel de pôr fim à festa, sob a alegação de que era preciso arrumar a cozinha e mandar a meninada pro banho.
Contudo, era ela quem, vez ou outra, roubava as atenções na mesa de jantar quando rememorava os tempos antigos de Pedro Leopoldo – os circos de cavalinhos, os passeios de carroça, as aulas no grupo escolar São José, a luz fraca e vermelha dos postes, as inundações e a lama na época das chuvas. Ninguém piscava quando ela começava a falar da Rádio Cauê. A rádio era a diversão do povo nos anos quarenta e cinqüenta, oferecendo programação inspirada nas estações do Rio de Janeiro. Música variada, programas de auditório, radionovelas, notícias, concursos. Minha mãe gostava especialmente da cobertura que a Rádio Cauê fazia das reuniões na Câmara Municipal, no início dos anos sessenta, e de um programa chamado “Ronda”, que criticava, com coragem e humor, a política na cidade.
O rádio, aliás, costumava ocasionar pequenos tumultos lá em casa. O motivo era sempre o mesmo: as empregadas pegavam o rádio do meu pai, coberto com capa de couro marrom, para ouvir a Rádio Cauê, enquanto lavavam e passavam roupa. Corriam pro telefone, ligavam pra Rádio para pedir música e dar recadinhos às amigas e aos namorados. Voltavam para perto do aparelho e esperavam até ouvir suas mensagens. Depois colocavam o aparelho no lugar, porém, com as pilhas gastas. Meu pai só descobria na hora de ouvir a transmissão do futebol no domingo, justo quando não se podia encontrar o comércio aberto. Também acontecia o mesmo com o aparelho de barbear do velho, usado por uma das empregadas para depilar pernas morenas. Meu Deus, a mãe descobria e o tempo fechava! Tantos anos depois, olhando em retrospectiva, penso que essas situações fortalecem aspectos das interpretações de Gilberto Freyre sobre as relações sociais nas famílias brasileiras.
Mas voltemos ao rádio. Aos treze anos eu ganhei meu aparelhinho “Evadin”. Com ele, ouvia os programas de esporte da Itatiaia e da Inconfidência, Frank Sinatra e música erudita na Jornal do Brasil. Ah, e o “Rádio Polícia” na hora do almoço, meio-dia e meia. Nunca sintonizava a Rádio Cauê, então decadente, sem noticiários e boa música. Ela acabaria vendida nos anos oitenta para gente de fora, mais interessada na audiência de Belo Horizonte. Pedro Leopoldo perdeu, então, a sua emissora local. Eu não senti a perda. Todavia, imagino a falta que a Rádio Cauê fez para os trabalhadores da cidade, os balconistas, os taxistas, os mecânicos, as meninas namoradeiras, os soldados enfastiados em dia de plantão.
A redemocratização trouxe a onda das rádios comunitárias. Graças a essa onda, Pedro Leopoldo voltou a possuir novas emissoras. Os céus do município outra vez se encheram de palavras, música, reclames, vinhetas, notícias referentes ao seu próprio povo, ruas e casas. Novamente, radialistas surgiram e adquiriram fama. As reuniões dos vereadores voltaram a ser transmitidas para a cidade inteira. Nos escritórios, lojas, repartições, casas e bares, os aparelhos de rádio espalham informações sobre a cidade, saudações entre os moradores, debates de problemas locais. Como nos anos sessenta, alguns radialistas enveredaram pela política no último pleito. É a força do rádio de volta, disposto a recuperar o lugar importante que já foi seu.
Para sociólogos de renome, o fenômeno está relacionado com a “política de lugar”. A globalização, ao deslocar antigas certezas e filiações, exige dos indivíduos e das comunidades repensarem suas identidades. Daí as pessoas buscarem raízes históricas e especificidades dos espaços, fontes de identidade e segurança psicológica. O “lugar” responde a essas demandas, mas também ele precisa ser produzido simbolicamente – e comunicado – para as pessoas que nele vivem, gerando visibilidade e sentimento de pertencimento. Meios de comunicação locais, dedicados a tematizar o “lugar”, são, portanto, essenciais no mundo globalizado.
A despeito do renascimento do rádio na cidade, continuo ouvinte muito ocasional das emissoras locais. Fiz, porém, o que não imaginei sequer na infância: dar entrevistas na Rádio PL FM. E recebi congratulações de amigos, conhecidos e alunos pelas opiniões pronunciadas diante do microfone. O mais curioso é que a diarista de minha casa apanha o meu radinho sem qualquer cerimônia, gasta as pilhas e coloca de volta na cabeceira da cama. Acontece comigo o que aconteceu a meu pai… Por essas ironias sutis é que sinto: a vida é eternidade.
De qualquer maneira, admito agora o que as empregadas da casa da minha infância sabiam tão bem: num dia de inverno gelado e com neblina baixa, ou durante a chuva torrencial e quente do verão, o rádio ligado é um bom companheiro. Dentro de uma casa amiga, se o rádio estiver ligado, esquecemos do mau tempo.
Para os ouvintes, tristes e desamparados como somos nós, o rádio é uma bússola loquaz. De lambujem, impede o desespero de cair sobre a cidade e as estradas.
Por Marcos Lobato Martins, 8 de julho de 2009. 1 Comentário


em julho 8th, 2009 às 15:17
Marcos, a energia das crianças ainda custam a se dissipar e haja fôlego para acompanhá-las. Deliciosas conversas estas ao pé do fogão a lenha e se tiver um milho verde na brasa ou uma batata doce, melhor ainda.
Eu só ouço a Rádio Guarani e Universitária de Alfenas (pela internet). Esta última não tem propaganda e passa muita música erudita.
Pobre coitada da sua esposa, sei bem o que é isto de todo domingo rádio Itatiaia ligado o dia inteiro no futebol! Uma tortura. Tanto, que outro dia escrevi um texto sobre “A mulher do homem futebol”: http://colecionadoradepalavras.blogspot.com/2009/03/mulher-do-homem-futebol.html