A burca, o Islã radical e a República laica
Na “Folha de São Paulo” da última segunda-feira, dia 27 de julho, foi publicada entrevista do pensador francês Luc Ferry, ex-professor da École Normale Supérieure, ex-ministro da Educação no governo de Jacques Chirac, atualmente chefe de um grupo de reflexão socioeconômica no governo de Nicolas Sarkozy. Dessa entrevista, chamou-me atenção o ponto de vista de Ferry sobre a controvérsia em torno da proibição do uso da burca na França. Vale transcrever a pergunta específica do jornal sobre o assunto e a resposta do intelectual vinculado ao barulhento governo Sarkozy.
Pergunta – “O debate sobre a burca na França traz à tona a questão do relativismo cultural: impor um modo de pensar como sendo melhor que outro não contribui para acirrar o choque de civilizações previsto por Samuel Huntington?” Resposta – “Muita gente atribui um monte de besteiras a Samuel Huntington sem ter lido seu livro (“O Choque das Civilizações e a Recomposição da Nova Ordem Mundial”), que na verdade é ótimo. Em primeiro lugar, ele nunca estimulou o choque de civilizações, muito pelo contrário. Ele sempre recomendou que o governo americano praticasse o diálogo e a moderação diante do islã. Huntington inclusive se opôs à Guerra do Iraque. Mas é fato que existe, sim, um verdadeiro choque com o islã radical, e a burca, ao contrário de uma opinião comum totalmente errada, não tem nada de símbolo religioso. Ela não consta em lugar nenhum na lista das obrigações determinadas pela religião muçulmana às mulheres. A burca é um sinal de vínculo ao fundamentalismo. Ela significa que as mulheres não devem ter lugar na esfera pública e que elas devem ficar em casa. Se saírem, elas têm de se dissimular. Devemos aceitar essa concepção do lugar da mulher? Respondo tranquilamente não, cem vezes não. E eu não digo isso porque defendo uma tradição cultural ocidental, mas porque penso que as mulheres simplesmente fazem parte da humanidade. Nesse tema, o relativismo é sempre cúmplice dos totalitarismos”.
Como convém aos pensadores franceses, resposta elegante, e polêmica. Há nela, entretanto, alguns pontos que merecem discussão. Para além da avaliação que Ferry faz do livro de Huntington, certos elementos presentes na sua argumentação sobre o veto à burca são problemáticos.
O primeiro deles é a própria visão, aliás, bastante difundida, de que o islã radical é mais perigoso do que os demais fundamentalismos religiosos, inclusive os ocidentais. Ferry engrossa a corrente dos que atribuem uma espécie de “defeito congênito” ao islamismo, o de necessariamente produzir fundamentalistas e terroristas fundamentalistas. Ele parece acreditar que todos os islamitas serão, mais cedo ou mais tarde, fundamentalistas. E não que os fundamentalistas islâmicos, como nas demais religiões, constituem uma minoria, embora agitada.
O segundo aspecto problemático da resposta de Ferry é relativo à sua compreensão mesmo da burca. Para ele, a burca não é símbolo religioso porque não está mencionada na lista de obrigações redigida pelo Profeta Maomé. Ora, então também não é símbolo religioso o crucifixo, o véu usado por irmãs de caridade, o hábito que veste os monges, a batina que os padres envergam nas missas, os chapéus redondos e negros dos judeus ortodoxos e assim por diante. Ferry parece olhar para as religiões como algo estático, reduzindo-as a seus preceitos e escrituras originais (ele é fundamentalista?). Com isso, desconhece-lhes a história, a trajetória nada linear e pacífica que elas tiveram ao longo de séculos e que, ainda hoje, comporta muita contradição, incoerência, divisão, etc. Não sei qual historiador das religiões estaria disposto a subscrever a opinião de Ferry, para quem as burcas nada têm a ver com religião! Eu realmente não aprecio as burcas, mas não tenho a pretensão de dissociá-las de certas versões correntes do islamismo. A burca está, inegavelmente, relacionada a certas visões de mundo, ancoradas em bases religiosas, cujas existências não nos cabe negar, ainda que queiramos, por alguma razão, ver superadas. Questão fundamental, especialmente para a França (que possui enorme comunidade islâmica): reconhecer a existência do outro, com sua cultura complexa e diferente da nossa!
Fato que nos traz ao segundo aspecto questionável da resposta de Ferry. Não se trata de relativismo cultural, mas de multiculturalismo. Uma coisa não é igual à outra. As nações contemporâneas são multiculturais, pronto e acabou. Esse é o ponto de chegada, por enquanto, do longo processo histórico que promoveu, desde a Idade Média, o que os franceses preferem denominar “mundialização”. De modo que somos condenados a conviver com ideias, hábitos, crenças, práticas diversos. Essa dificuldade aparece nitidamente na resposta de Ferry, que traz à cena um apelo – e um tema – iluminista, qual seja: a “natureza humana”, a “humanidade”, concebida como idêntica em toda parte e em qualquer tempo. Por isso, as mulheres devem se comportar do mesmo modo em toda parte, porque “elas simplesmente fazem parte da humanidade”. Ora, não existem mulheres abstratas; existem mulheres seres históricos, o gênero feminino que é diverso no espaço e no tempo, e dentro dos países. A afirmação de Ferry de que “a burca é um sinal de vínculo ao fundamentalismo” pressupõe que toda mulher que usa a burca é incapaz de leitura crítica e autônoma do mundo. Que toda mulher que usa a burca foi obrigada a isso pela sua família fundamentalista, pelo seu pai radical, pelo seu esposo ou irmão mais velho. Por que ninguém, no Ocidente, pensa assim sobre as irmãs de caridade? Sobre monges e freiras que vivem enclausurados? Por que, deles e delas, não pensamos que foram obrigados a abandonar seu lugar na esfera pública? O argumento de Ferry é o de que o uso da burca sempre, e em toda parte, significa perda de autonomia da mulher, submissão da mulher ao homem, interdição do espaço público para a mulher. Fico pensando no livro de Orhan Pamuk, “Neve”, no qual o debate entre secularismo e fanatismo religioso é conduzido de maneira muito mais sutil, levando-se em conta as fraquezas humanas que estão por trás das duas atitudes. Fico pensando em mulheres da Turquia e do Irã, da França e da Inglaterra que freqüentam as ruas e as universidades portando véu, que usam o véu fora de casa como símbolo de sua identidade, de uma escolha política e cultural. O que elas dirão da afirmação de Ferry?
O terceiro aspecto questionável do ponto de vista de Ferry sobre a proibição do uso da burca na França diz respeito ao livre-arbítrio, pedra de toque do pensamento dos liberais e dos conservadores, de baluartes como Tocqueville – nome citado por Ferry na entrevista. Se muitas mulheres islâmicas vivendo na França decidem usar a burca, porque foram criadas na tradição ou porque desejam expressar uma escolha identitária e/ou política, o Estado têm o direito de proibir? Tal intenção é, na perspectiva liberal e conservadora, inaceitável, evidentemente autoritária, de tendência totalitária. A proibição significa impor a todas as mulheres padrão uniforme de comportamento, em nome do princípio do laicismo ou da igualdade entre homens e mulheres. Ideiais republicanos, caros à tradição francesa, são empregados, nesse caso, para estreitar o “círculo de escolhas e de garantias” individuais. Quem usar a burca, então, terá sobre si olhares negativos, hostis, desconfiados, o que só faz aumentar a espiral de incompreensões mútuas e preconceitos entre as pessoas. Logo haverá quem sentirá “gozo” em denunciar para a polícia ou algum agente público que essa ou aquela mulher usa a burca. E depois haverá vizinhos incomodados com mulheres vestidas com burca dentro da casa ao lado, e quem sabe a proibição será estendida para além dos espaços públicos. A proibição da burca implica numa estigmatização, não há dúvida. A questão é: sociedades democráticas ficam bem quando geram estigmas variados e numerosos?
Ah, mas pode-se objetar que a ampla maioria das mulheres que usam burca foi obrigada a isto. Talvez seja realidade. Talvez Luc Ferry possua números para demonstrar que é assim. Pois bem, nesse caso, o Estado não teria que esperar a manifestação queixosa de cada uma delas, de um parente, amigo ou vizinho, para intervir de alguma maneira, após a devida e bem feita investigação? Não é assim que se atua com respeito, por exemplo, aos casos de violência contra a mulher?
O mais importante me parecer ser o efeito produzido pela simples aprovação de uma lei – a partir desta data, fica proibido no território francês qualquer mulher usar, em espaços públicos, burca ou traje similar. A lei esconderá algo que me parece mais fundamental: as condições históricas que tornaram o uso da burca uma questão tão angustiante para os ocidentais. Os processos históricos que, de um lado, fizeram ganhar realce o fundamentalismo (inclusive e principalmente o fundamentalismo islâmico) e, de outro lado, a evidente incapacidade das “sociedades abertas” de lidar com esse fenômeno. Essa reflexão é urgente. E ela deve desembocar em ações políticas, econômicas, sociais e culturais coordenadas que objetivem reverter, ou pelo menos atenuar, o quadro contemporâneo de tensões a que Huntington denominou, inapropriadamente, “choque de civilizações”. De proibição em proibição os franceses, ou qualquer outro país, não conseguirão resolver os problemas postos pelo multiculturalismo, tensões étnicas, presença de minorias sociais, etc. Nessa direção, por sinal, a folha de serviço dos europeus e americanos não é muito boa. Eles têm feito pouco para eliminar as condições econômicas, sociais e políticas que, mundo afora, geram levas de fundamentalistas dispostos a ameaçar o modo de vida ocidental ou mesmo varrê-lo do planeta, por meio de guerras santas.
Quero, por fim, transcrever o que escrevi junto com o colega Marcos Antônio Lopes, nas últimas páginas do livro “A Peste das Almas: histórias de fanatismo”, publicado pela FGV Editora, em 2006: “Se o Islã, por exemplo, adentrou a Europa e os Estados Unidos, como pode alguém seguir acreditando em um mundo que se apresenta predominante ou hegemonicamente ‘nosso’ – cristão, ocidental, racional, liberal, progressista –, contraposto a um ‘outro’ mundo hostil que seria islâmico, oriental, irracional, despótico, tradicionalista? (…) É preciso aceitar a presença do ‘outro’, escutar seu próprio entendimento e anseio, dar-lhe oportunidades reais, ainda que isso pareça desterrar-nos do lugar que julgamos merecer. Para curar a ‘peste das almas’ [intolerância] e derrubar fanatismos, convém lembrar do remédio proposto por Theodor Adorno: colocar em presença e convívio os que discriminam e os que são alvo dessa discriminação, esclarecendo e ensinando sobre si mesmos no cotidiano. Tarefa difícil, demorada, prova de paciência e de tolerância. Exercício de compreensão e de razão” (p. 110).
Por Marcos Lobato Martins, 31 de julho de 2009. 5 Comentários

em agosto 29th, 2009 às 21:15
Caro Marcos,
Li e fui lido por esse texto brilhante que seu gênio produziu. Obrigado.
Reverências caro mestre! Um banquete ler seus escritos!
Grato mais uma vez,
Miguel
em agosto 24th, 2010 às 10:25
Sou professora de português e estou conversando com os alunos sobre “Culturas diferentes, diferentes olhares”. Seu artigo veio a calhar. Parabéns pelas ponderaçõs. Infelizmente o governo francês não as levou em conta…
em março 29th, 2011 às 21:08
Brilhante!
sou aluna do segundo ano do ensino Médio, e
adorei saber mas sobre essa cultura!
parabéns ao escitor.
em abril 11th, 2011 às 06:20
O Senhor teve um brilhante discurso, mas com profundeza relativa, já que,concerteza, ainda não se deu ao trabalho de ler este piqueno livro unipessoal chamado Alcorão, cujo conteudo só promove violência, fanatismos e terrorismo. Deve saber que Islão moderado não existe, pois estaria a desvirtuar o próprio Alcorão. E como é suposto que o bom religioso deva cumprir à fio o livro, então, convenhámos: Bim Ladem, Os Kamikazes, os Talibans, os Jiadistas, etc. são os verdadeiros islamitas. Por favor não brinquemos com coisa séria!!!…LEIA O ALCORÃO, SE FAZ FAVOR…
em abril 12th, 2011 às 19:09
Muito interessante o seu ponto de vista. Bem embasado.
Estava procurando no google sobre os dois lados dessa conversa e no entanto é muito dificil achar algo que valha a pena ler. Geralmente é um monte de gente condenada pela mídia dizendo isso e aquilo sem ao menos conhecer a situação.
Att.
Leonardo