Vetor de Expansão Norte: a sorte do progresso?
Cássio Eduardo Vianna Hissa publicou pequeno e belo artigo sobre o “vetor norte de expansão metropolitana” de Belo Horizonte, na edição de hoje do jornal “O Tempo”. O texto do professor do IGC-UFMG, “Perdendo o norte”, denuncia uma série de problemas que acompanham a realização desse processo, tendendo a transformá-lo em mais uma usina de terríveis “exterioridades urbanísticas”. Diz o Cássio: a) “não há indícios de estruturação (…), nem para o futuro mais distante, de transportes coletivos de qualidade”; b) “às margens da MG-10, a especulação elevou os preços das terras, em diversos casos, para mais de 500%”; c) e “as espacialidades terão novo desenho, (…) não apenas estético: um [outro] layout social”, inclusive na medida em que moradores enraizados na região perderão seus lugares. Segundo Cássio Hissa, estamos equivocados quando, exatamente como nossos avós, orgulhamo-nos “do progresso, das chaminés de fumaça que chegavam às cidades do interior”. E ele termina alertando: “O norte que perdemos não está nas bússolas”.
De fato, nas cidades situadas na área norte-metropolitana, há muita ansiedade sobre os impactos que as políticas estaduais (construção da Linha Verde, ampliação do Aeroporto de Confins, instalação do aeroporto-indústria, construção do Centro Administrativo do Estado e do rodoanel norte) começam a produzir sobre as populações e os espaços municipais. Os debates sobre o “vetor norte” ocorrem já faz alguns anos, e se intensificam paralelamente ao avanço das obras monumentais que fixam as linhas de força para a remodelação, presente e futura, do sub-espaço regional. Em cada cidadeda porção norte da RMBH, as discussões e mobilizações acontecem de maneira específica.
Para o caso de Pedro Leopoldo, que é minha cidade, escrevi algo sobre o modo como percebo o estado de espírito dos governantes e da maioria dos moradores diante das notícias e das obras relacionadas ao chamado “Vetor norte de expansão metropolitana”. Um pequeno artigo publicado na “Folha de Pedro Leopoldo”, em abril de 2007, que reproduzo abaixo:
A sorte do progresso
Na década de 1890, a sorte duas vezes bateu à porta da futura cidade de Pedro Leopoldo. Um ex-senhor de escravos, dono de certa fortuna e há muito à procura de novos negócios, deparou com a Cachoeira Grande e viu nela a força motriz necessária para tocar teares de uma fábrica de panos de algodão. Pôs mãos à obra, reuniu outros fazendeiros da região e fundou a Companhia Fabril Cachoeira Grande. A fábrica e seu núcleo de casas operárias deram início ao povoado. As sutilezas da topografia, por sua vez, fizeram do pequeno vale do Ribeirão da Mata o traçado natural para a Estrada de Ferro Dom Pedro II, que rumava para o norte, buscando alcançar terras baianas. O relevo lançou no colo do povoado industrial minúsculo uma estação ferroviária, fazendo o lugar crescer e mudar de nome. Uma baita sorte, em dose dupla, gerou a cidade, emancipada de Santa Luzia no alvorecer dos anos 1920.
Décadas depois, mais uma vez o cavalo da sorte passou arriado, parou por aqui e, mansamente, deixou que os pedroleopoldenses montassem seu lombo rijo. No período entre os anos 1950 e 1970, as imensas jazidas de calcário situadas no município atraíram indústrias cimenteiras, algo facilitado pela posição da cidade em relação a Belo Horizonte e pela existência da ligação ferroviária com os grandes mercados do Sudeste brasileiro. Os capitais do Cel. Juventino Dias e, vinte anos depois, dos suíços da Holcim, instalaram na periferia dacidade grandes plantas fabris. Eufóricos, os pedroleopoldenses viram como que cair dos céus empregos, impostos, renda, que fizeram do município uma das mais promissoras terras mineiras. A expansão industrial e urbana brasileira jogou sobre nós benesses incríveis, graciosamente. Tanto que Pedro Leopoldo continuou gerando fazendeiros – como fazia desde o século XIX – e passou a oferecer gerentes e técnicos para as indústrias instaladas ao redor da cidade. Esqueceu-se, porém, de produzir seu próprio empresariado, ainda que dotado de capitais mais modestos.
Como garoto que se lambuza ao encontrar pote de mel sobre a mesa da cozinha, Pedro Leopoldo também não criou uma camada qualificada de servidores públicos, dotada de visão estratégica e capacidade de planejamento. Ao contrário, preferiu entregar-se a prefeitos e assessores cheios de arroubos caprichosos, que pouco fizeram para preparar a cidade para novos tempos, que sempre chegam, às vezes de surpresa, sem mandar aviso.
Pois uma quadra nova está batendo à nossa porta. Nos gabinetes da Prefeitura, se pode ouvir o rumor de contentamento. Mãos se esfregam alegres, olhos brilham com a oportunidade de receber novos projetos, rostos bem comportados bajulam o Palácio da Liberdade à espera de tratamento privilegiado. Nos escritórios locais, homens de negócio sorriem diante da possibilidade de aumentar seus lucros, de ampliar suas fortunas, mesmo que seja na condição de sócios menores do capital forâneo. A euforia tem nome, aliás, diversos nomes: Aeroporto Industrial, Linha Verde, Centro Administrativo do Estado de Minas Gerais, Anel Viário de Contorno Norte. Por sorte, Pedro Leopoldo fica ao norte de Belo Horizonte, perto do Aeroporto, da Linha Verde, do Centro Administrativo, do Anel Viário. Cidade sortuda, salva da semi-estagnação econômica, social e cultural pela iniciativa de forasteiros (governos estaduais, empresários, gestores). Outra vez a história se repete. Novo ciclo de crescimento aproxima-se, trazido por ventos que sopram do “exterior”. Entre os nossos líderes políticos e homens de negócio permanece válida a ideia de que o desenvolvimento espraia-se em ondas suaves e regulares pelo espaço, de modo que podemos sentar e esperar. Logo chegará até aqui o progresso gerado pelos investimentos direcionados para a área norte-metropolitana. Foi assim antes. Não será diferente agora. Nossa sorte é ser uma cidade de sorte. Para não atrapalhar o progresso, desde sempre apaixonado por Pedro Leopoldo, basta deixar a vida nos levar. Apoiar o Governador, dispor de áreas para ceder aos empresários solicitantes. E que não faltem as festas, as carnes e os golos.
Este lado macunaímico de Pedro Leopoldo, resistente porque bem enraizado, ainda nos levará à condição de cidade-dormitório, feia, degradada, empobrecida, caótica. Se esperarmos o progresso cair em nosso colo, ele virá na forma de trânsito infernal, insegurança, empregos precários, destruição do meio ambiente, precarização dos serviços públicos, perdas irreversíveis de memória e de identidade. Para aproveitar os ventos que agora sopram, é necessário saber velejar e escolher um rumo. Sentar e esperar pelo “transbordamento” do progresso é burrice. Esse tipo de atitude funcionou mal nos anos 1950 e 1960. Hoje ela produzirá desastres.
O vetor de desenvolvimento que se dirige para o norte-metropolitano será aproveitado pelas cidades que se derem conta do que precisam fazer. As prioridades administrativas locais recaem sobre três campos: a regulamentação do espaço urbano e municipal, a segurança pública e a garantia de serviços (de educação e de saúde) de qualidade. Melhorar os processos de gestão e oferta dos serviços essenciais, qualificar as infra-estruturas urbanas e sociais, controlar e reorientar a expansão da malha urbana e do uso do solo, construir nova governança – mais democrática, descentralizada e orientada por metas – são coisas imprescindíveis nesse início de século XXI.
Ora, o que Pedro Leopoldo está fazendo nesses campos? Nossos políticos e a maioria dos eleitores ainda pensam que o importante é ter terrenos para distribuir para oficinas e caldeirarias, e os homens de fortuna da cidade só enxergam oportunidades de encher os bolsos fazendo transações imobiliárias.
Ironicamente, os atrasados anseiam pelo progresso…
Por Marcos Lobato Martins, 28 de junho de 2009. 1 Comentário


em junho 8th, 2011 às 14:34
O que houve em relacao ao Vetor Norte da capital foi uma imposicao da Prefeitura de BHte e do Governo do Estado a medida que a producao desse espaco nao foi discutida com os segmentos da sociedade. Nao se tem discussao tecnica quando o projeto e de carater politico-eleitoral, projeto esse do atual senador Aecio Neves. Alias, vamos agora (re)planejar para aparar as (amplas) arestas.