Produção doméstica de alimentos em Diamantina e seu entorno
Ainda falta publicar um trabalho apresentado no Seminário “Visões do Vale 4”, promovido pelo Projeto Jequitinhonha, da Pró-Reitoria de Extensão da UFMG. Trata-se do artigo escrito em conjunto com a Profa Tânia Regina Riul, do Curso de Nutrição da UFVJM (Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri). Ao colocá-lo no blog, fico em dia com as promessas feitas aos leitores (ver texto anexo).
Creio que devemos ampliar as discussões sobre a produção de alimentos no país e, por consequência, sobre a agricultura familiar, responsável pela produção de aproximadamente dois terços dos alimentos que os brasileiros consomem. Curiosamente, ontem (17 de junho), na página de opinião da “Folha de São Paulo”, publicou-se artigo do Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, João Sampaio, intitulado “Minha terra, minha vida!”. O principal ponto do referido artigo é uma crítica à inação do Governo Federal no que tange às invasões de “propriedades produtivas” por integrantes “furiosos” de movimentos de trabalhadores sem-terra. Porém, há outros elementos no texto que merecem reflexão.
Em primeiro lugar, a exaltação que o Secretário João Sampaio faz ao papel histórico dos “agricultores”, comparados ao dos bandeirantes – desbravamento do território, construção da “civilização brasileira” sobre grandes extensões de matas inóspitas abertas para dar lugar às roças. A velha, e equivocada, contraposição entre “natureza” e “civilização”. A apologia da degradação ambiental promovida ao longo de mais de cinco séculos de história brasileira. Escreveu João Sampaio: “Hoje, quem vê a bela paisagem rural brasileira, com as mais distintas culturas, uma produção organizada e uma estrutura empresarial, não imagina o que foi o esforço dos primeiros colonos, seus descendentes e aqueles que se aventuraram à busca de um pedaço de chão para viver”. O Secretário dá vivas ao latifúndio e à monocultura, a nossa “estrutura empresarial” agrícola desde os primeiros tempos coloniais.
Mais do que isso. João Sampaio afirma a necessidade histórica de uma estrutura fundiária concentrada no Brasil. Conforme suas palavras: “É fácil criticar nossa estrutura fundiária e a existência de grandes propriedades. Porém, não haveria outro modo de desbravar, desenvolver e existir um sistema rural neste território continente. Também não se pode ignorar o significado da agropecuária para a economia e a legitimidade das atuais propriedades produtivas”. Então, está bom. A questão agrária, no fim das contas, se resume ao debate sobre aumento da produtividade e produção em larga escala. E às enormes dimensões do território pátrio. Como se não houvesse alternativas históricas ao modelo secular do latifúndio e da “revolução verde” das últimas décadas do século XX. O agronegócio brasileiro é, pelas mãos de João Sampaio, transformado em saga, em mito. E se afirma que nosso modelo agrícola faz do “Brasil referência da sustentabilidade, privilégio econômico que brota no seu solo fértil, iluminado pelo sol perene e fecundado pelo estoicismo e pela capacidade de trabalho dos homens do campo”. Ora, qual história agrária o Secretário paulista anda lendo e estudando? Certamente, uma história agrária deslavadamente oficial, laudatória do latifúndio e dos grandes senhores de terra. Uma história agrária que faz questão de não enxergar os conflitos no campo, o trabalho escravo, a pequena propriedade e seu dinamismo, os camponeses e sua capacidade de resistência aos impactos socioculturais negativos da “agricultura empresarial”. João Sampaio olha o campo brasileiro e não vê outra coisa senão os senhores de engenho e seus assemelhados.
Por isso é curiosa, e contraditória, a referência que o Secretário paulista faz à pequena produção agrícola: “É óbvio que a multiplicação da agricultura familiar, com o assentamento organizado e a garantia de posse da terra àqueles dispostos a trabalhar, é um dos grandes desafios brasileiros (…) O Brasil tem áreas suficientes para uma verdadeira e cada vez mais premente democratização do acesso à terra. Basta vontade política!”. Muito bem, agora os luminares “tucanos” se convenceram da necessidade de uma reforma agrária ampla no país! Só agora, quando são oposição. Enquanto eram governo, os “tucanos” pouco ou nada fizeram pela causa. Consideravam-na discussão anacrônica, assunto superado. Hoje, porém, criticam o governo Lula por descumprir uma de suas promessas de campanha. “Basta vontade política!” – eis a fórmula mágica das elites conservadoras. Em 500 anos de história, o que as camadas populares alcançaram senão por meio de mobilizações e lutas tenazes?
Este oportunismo político mal disfarçado revela o quanto não é importante para gente como o Secretário da Agricultura de São Paulo, João Sampaio, a agricultura familiar, a pequena produção de alimentos. Para os interesses do agronegócio que João Sampaio representa, a agropecuária e a agroindústria são pensadas sem referência a temas como soberania e autonomia alimentar, regionalização da produção, valorização da diversidade cultural, preservação de ecossistemas, atenção aos camponeses.
Por isso, diante dos oportunismos políticos que cercam a questão do campo no Brasil, é muito importante que as pessoas se interessem pelo assunto, discutam os problemas agrários que afetam o país e, principalmente, examinem sem preconceitos a tradicional produção camponesa, cuja força é inegável em tantas e tão diversas regiões brasileiras.
Por Marcos Lobato Martins, 18 de junho de 2009. Comentários

