Primeiro, telegrafista em Sucanga. Depois, correr meio mundo.
Talvez se possa resumir dessa forma, em texto telegráfico, a vida de Alcino Rocha Pinto. Senhor simpático, falante, abraçado ao seu rádio de pilha, o olhar posto sobre os ritmos lentos de sua terra natal, o povoado ao redor da antiga estação de Sucanga, da Estrada de Ferro Bahia-Minas. Nesse lugar, no ano de 1931, nasceu menino franzino que logo sonhou tornar-se ferroviário. De tanto espiar a passagem dos trens, a correria dos guarda-chaves, os apitos do chefe de estação…
Aos quatorze anos de idade, Alcino Rocha Pinto, que é tratado, carinhosamente, como Seu Ioiô, entrou na Bahia-Minas como praticante de telegrafia. Passou seis meses na estação de Sucanga lidando com o aparelho e o código Morse, ao fim dos quais havia aprendido bem os segredos da telegrafia. Mais do que isso, Alcino mostrou gostou pela ferrovia. Por isso, em curto tempo foi efetivado, no ano de 1946. Adolescente, já era telegrafista da EFBM. Trabalhou em Sucanga até 1947, ano no qual se mudou para Teófilo Otoni. A estrada de ferro experimentava, então, uma de suas muitas e recorrentes crises. Os salários dos ferroviários estavam baixos, as perspectivas não eram boas. Seu Ioiô resolveu deixar a ferrovia e transferir-se para os Correios e Telégrafos, conservando a função de telegrafista.
Mas Alcino Rocha não foi feito para ficar num só lugar. Sua índole não aceitava a imobilidade, a fixação demorada numa mesma cidade. Ainda era jovem, e sua juventude foi marcada pelo desejo do movimento, de ganhar o país. De maneira que Alcino Rocha ficou na Agência dos Correios de Teófilo Otoni somente até o ano de 1959. Decidiu-se, nesse ano, por deixar o posto de telegrafista e seguir para Brasília. Foi trabalhar na construção da nova capital federal. Virou candango, trabalhando em cargos de administração numa empresa ligada à “NovaCap”, a poderosa autarquia dirigida por Israel Pinheiro. Alcino Rocha permaneceu em Brasília até 1967.
O ex-telegrafista retornou para Minas Gerais, instalando-se na capital. Anos depois, o bicho-formiga picou-o novamente. Era 1985. Seu Alcino fez as malas, entrou para a Construtora Mendes Júnior e viajou para o Iraque. Trabalhou naquele país até 1985.
De volta a Minas, viveu novamente em Belo Horizonte. Durante quatro anos, empregou-se na Precon – uma fábrica de pré-moldados de concreto e de telhas e caixas d’água de amianto, situada na cidade de Pedro Leopoldo. Nesses anos, Seu Alcino residiu no Hotel Castilho e fez amigos na cidade natal de Chico Xavier.
Na década de 1990, aposentado, Alcino Rocha regressou para Sucanga. Depois de tantas andanças, ele mora na pacata localidade antes agitada pelo tráfego das composições da Bahia-Minas. Até 1966, quando a ferrovia foi desativada, Sucanga possuía armazéns que recebiam produtos agrícolas de Poté e Malacacheta; esses mesmos armazéns guardavam os produtos industrializados trazidos do litoral, do porto de Ponta de Areia, especialmente sal e querosene. Os negociantes da região oeste do Vale do Mucuri enviavam tropas para receber, em Sucanga, essas mercadorias. Esses circuitos de distribuição de produtos entre tropas de burros e trens de ferro foram ativos até os anos 1950.
No imediato pós-guerra, a estação de Sucanga possuía 2 agentes, 1 guarda-chaves e 1 telegrafista. Nas segundas, quartas e sextas corria, de Teófilo Otoni para Araçuaí, um trem de passageiros chamado M3. Nas terças, quintas e sábados, esse trem de passageiros voltava de Araçuaí para Teófilo Otoni, com a denominação de M4. As composições de carga FC15 e FC16 replicavam os esquemas do M3 e M4. Em Teófilo Otoni, os passageiros que desejavam alcançar Carlos Chagas, Nanuque ou o litoral baiano tomavam o M1, que corria nos mesmos dias do M3. Para retornar, era preciso embarcar no M2, que corria nos mesmos dias do M4. Entre Sucanga e Teófilo Otoni, os trens de passageiros gastavam, em média, uma hora e meia.
Hoje, Alcino Rocha cultiva lembranças da Bahia-Minas, da vida de telegrafista em Teófilo Otoni e dos tempos agitados de candango, em Brasília. Divide suas histórias com os moradores de Sucanga, que o veem como a “memória viva” do lugar. Numa casinha modesta, Seu Ioiô estimula os sonhos de sua filha de criação, Simone, que almeja formar-se em Engenharia.
Realista, Seu Alcino não acredita nos discursos daqueles que pregam o retorno rápido da EFBM ao Nordeste mineiro para incrementar o turismo na região. Sua paixão de infância – o trem de ferro – encontrou repouso calmo nas águas da lembrança. O que mais preocupa Alcino Rocha é a situação da mocidade em Sucanga, com dificuldades para estudar, encontrar lazer e empregos, tanto na região quanto fora dela. Ele sente que sua história de vida não é mais uma alternativa para a maioria dos meninos e meninas que o cumprimentam, ao vê-lo sentado na soleira das portas dos velhos armazéns de café, em Sucanga, com o rádio de pilha na mão.
Por Marcos Lobato Martins, 24 de junho de 2009. 14 Comentários


em setembro 17th, 2009 às 15:14
essa historia é muito interessante,porem tem uma coisa q não é verdade esse simone não é filha do seu Alcino,moro em bh mais sou de sucanga e conheço eles muito bém se querem contar uma historia tem q passar a saber direitinho de cada detalho essa simone é a penas a empregada dele e amiga.bjoss e desculpe pela crítica.
em fevereiro 2nd, 2010 às 21:16
-.-. / .- / .-. / — .- / — / .. / —
.- / .-.. / -.-. / .. / -. / — Traduzindo: Caro amigo Alcino.
Que bom ouvir sua história! Quando a EFBM foi desativada, vários ferroviários daí vieram para Goiás trabalhar na Estrada de Ferro de Goiás. Ficando por aqui até aposentadoria. Sou, também, telegrafista! Foi meu único trabalho! Na RFFSA trabalhei na SR-2 BH – Sempre aqui no estado de Goiás, embora tenha trabalhado em Araguari-MG.
Saudações,
Elson
Ipameri-Go.
em março 19th, 2010 às 13:54
Muito interessante esse circuito de distribuição entre tropas de burros e trens. E não faz tanto tempo assim.
Jeanne Albuquerque
em junho 21st, 2010 às 17:55
Sou filho de ferroviário, morei em Sucanga,eu conhecí Bahia e Minas,eu conheço Ioiô, também tem o Sr.Antônio Roque,o último funcionário EFBM remanecente em SUCANGA. Eu chorei, quando tiraram os trilhos da ferrovia em frente a minha casa. Vamos restaurar aquela estação em SUCANGA, o patrimônio histórico de um povo de uma era.
em agosto 18th, 2010 às 15:26
Quando, queremos colocar em publico, historias de pessoas com IOIÔ, ou qualauer outra pessoa, devemos primeiro conhecer relamente a historia para nao trocar gatos por lembre. Concordo com a Janaina porque esta poate que a Simone é filha do Sr Alcino nao é verdade ela é simplismente a em pregada dele que por sua vez ficou sem teto e com o senhor alcino é um homen bom teve pena e assim ela vivi na casa dele. Mas falando de Ioiô, pessoa simplis, umilde, e muito amigo, teve o prezer de conhece-lo e é uma pessoa espetácular. IOIÔ, desejo-lhe muita saude e paz para voce e que Deus te abençoe hoje e sempre!!!
em setembro 18th, 2010 às 22:37
Como tem pesoas que gosta de pr gosto ruim em tudo,filho é pessoa que consideramos com tal,pai é pessoa que consideramos com tal,vamos deixar de querer ser a plaina do mundo.Parabens companheiro eu tambem já fui quase um telegrafista. Aqui de Matogrosso do Sul
em outubro 26th, 2010 às 16:09
Em agosto de 2010, fui Sucanga, foi a maior proza com Sr.ALCINO OU “IOIÔ”,. O último ferroviário remanecente em Sucanga encontra-se muito enfemo.
Att,
Abraço
Paulo Roberto.
em dezembro 3rd, 2010 às 22:11
Hum grande abraço para o nosso amigo IOIOZINHO,que DEUS lhe abencoe.Sinto muitas saudades da minha adoravel SUCANGA.
em dezembro 4th, 2010 às 14:18
lembro me muito bem la para os meados dos anos 60,quando ioio voltava para sucanga,para passar ferias,gastava todo o seu dinheiro com os amigos,soube aproveitar bem a sua vida,uma pessoa maravilhosa,sempre foi muito querido por todos,pessoa maravilhosa tudo de bom
em maio 14th, 2011 às 21:10
ola, boa noite, tb sou filho de um telegrafista, que trabalhou nesta ferrovia, meu pai e Sebastião Dantas Miguez, chamado de tiãozinho do vallão, ainda temos fotos da desativação, qdo retaram os trilhos e dormentes, que tristeza.
Dizem que a vale do rio Doce vai abrir um braço de ferrovia de Gov. Valadares ate Grão mogol, sera?
Gostaria de receber notiçias de componheiros de trabalho do meu pai, eu e ele ficaria-mos muitos felizes, obrigado e fiquem com Deus.
meu email. nmvistorias@gmail.com
em junho 29th, 2011 às 18:31
legal muito bom queria q a ferrovia não tivesse acabado. IOIÔ um grande amigo meu.
em agosto 8th, 2011 às 08:57
Sou de T.Otoni e, com muito orgulho, primo do YOyô. Minhas férias escolares eram em Sucanga. Ia e voltava de trem (que saudade…). Alcino é como um irmão para mim. Gosto demais dele e o admiro muito. Foi ele quem me ensinou a me virar aqui em BH, no início dos anos 90, onde moro até hoje. Grande abraço Yoyô. Prepare a galinha com quiabo, que estou chegando aí para matarmos as saudades.
Seu primo Gilson.
em agosto 12th, 2011 às 11:19
A saudade é o que queremos ou permitimos que ela seja. Depende apenas do ponto de vista do qual encaramos a vida.
Assim, a saudade pode doer ou pode consolar. Pode fazer sofrer ou pode nos mostrar o quanto já fomos e ainda somos felizes!
Meu primo Alcino Rocha Pinto – Yoyô, para os íntimos – é uma dessas saudades que acalentam e fazem um bem enorme!
Todas as minhas lembranças e referências sobre Yoyô têm a ver com Cultura. Desde criança aprendi a admirar e imitar, nos mínimos detalhes, aquele pequeno grande homem que, para mim, era quem “sabia tudo sobre todas as coisas que valiam a pena”!
Foi com Yoyô que tive nas mãos pela primeira vez um exemplar da revista “Seleções Reader’s Digest” que ele colecionou durante décadas!
Foi com Yoyô que ouvi pela primeira vez The Beatles “She Love You yeah, yeah, yeah” e Roberto Carlos “E Que Tudo o Mais Vá Pro Inferno”!
Foi com ele que ouvi pela primeira vez, na Rádio Bandeirantes, através do seu inseparável rádio a pilha, a voz inesquecível de Hélio Ribeiro, o Poder da Mensagem!
Foi ele quem me apresentou a Rolando Boldrin, o meu primeiro ídolo, e a Hamalta, minha primeira namorada!
Foi para ser tão bom e tão eficiente quanto ele que eu fiz o Curso de Dactilogrfia!
E foi com ele, finalmente, que eu sonhei com horizontes mais amplos, fora do Brasil, o que nunca aconteceu mas valeu a pena ter sonhado.
E é com ele que eu aprendo ainda hoje, quando o vejo realizar o seu maior e mais antigo sonho: voltar para Sucanga e viver em paz os dias que lhe restam, nesta existência. Aprendo que vale a pena sim, viver uma vida inteira de trabalho para se chegar a um objetivo, por mais distante que ele pareça estar!
Desejo apenas que esses “dias que lhe restam” sejam muitos, porque sei que muitas pessoas, assim como eu, ainda têm muito o que aprender com este pequeno brasileiro quase anônimo, mas extremamente notável!
Que Deus te abençoe, Alcino Rocha Pinto, para sempre Yoyô!
Luiz Carlos Lemos ( Compadre Lemos)
em dezembro 15th, 2011 às 15:52
sou filho dessa linda terra,sucanga com simplicidade vivi e viverei sempre nessa linda terra, e admiro a vida alcino rocha pinto, granda homem q emfretou a vida com muita luta e obteve o maior sucesso.