Uma toponímia alternativa
Parece que a condição humana não se dissocia da atribuição de nomes às coisas. Desde sempre, os homens dão nomes aos bichos, pedras, rios, plantas e, é claro, aos lugares. Dar nome às coisas é o esporte favorito da humanidade, embora às vezes praticado sem a devida maestria. Afinal, há nomes que pegam e outros que não vingam nem por decreto do Presidente da República.
Somos tão curiosos com os nomes que damos aos lugares que inventamos uma ciência para cuidar disso. Trata-se da toponímia, a ciência que estuda os topônimos, os nomes dos lugares, usando recursos da filologia, lingüística e história. Os estudiosos da toponímia se dão muito valor, chegam mesmo a pensar que decifram o enigma da história dos lugares ao entenderem o processo de formação dos nomes desses lugares. Daí porque abundam os dicionários e os atlas toponímicos, calhamaços enormes que repousam em estantes de bibliotecas públicas e repartições governamentais encarregadas de dirimir questões de fronteiras estaduais e municipais. O princípio mais geral da toponímia afirma que os nomes dos lugares guardam alguma relação com sua ocupação original ou seu processo de povoamento. Pode ser, mas prefiro manter minha crença de leigo: grande parte dos nomes é absolutamente arbitrária, porque não dizer acidental.
Assim, um engenheiro diamantinense romântico, com saudades de sua terra natal, resolveu nomear Acaiaca a uma estação ferroviária, em homenagem ao livro de Joaquim Felício dos Santos, o gênio da raça diamantinense no século XIX. Daí surgiu, nas proximidades de Mariana, a cidade de Acaiaca, onde nunca existiu um só índio puri nem uma palmeira acaiaca. A Cidade Maravilhosa é, oficialmente, São Sebastião do Rio de Janeiro, por capricho do governador geral. Tanto é que o feriado popular de verdade é o dia de São Jorge, merecedor das homenagens dos sambistas e pagodeiros. Aqui mesmo, em Pedro Leopoldo, o topônimo é, para muitos, um acinte: homenageia engenheiro que sequer pôs os pés nas terras da cidade. Pior ainda, fez esquecer o nome mais sonoro, e caipira, de Cachoeira das Três Moças.
Fico imaginando que nomes alternativos minha Pedro Leopoldo poderia ter. Para o grande José Issa, a cidade deveria ter conservado o topônimo Cachoeira das Três Moças. Para alguns antigos moradores de Sete Lagoas, talvez chateados por ver cidade tão pequena abrigar uma Residência da Estrada de Ferro Central do Brasil e, em seguida, uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, o lugar deveria se chamar Vila D’Água. Alternativa que tem sentido, à luz do princípio mais geral da toponímia: éramos realmente uma cidade debaixo d’água todo ano, na época das chuvas, até entrarem os anos 1970. As enchentes e inundações foram elementos marcantes da história do lugar, por isso poderiam ter inspirado o topônimo de minha terra natal.
Eu, gripado como ando nos últimos vinte dias, com uma gripe de fundo alérgico, que estraga o meu humor, proporia outro nome para Pedro Leopoldo. Nome aceitável, eu diria lógico, dedutível do princípio geral da toponímia. Solenemente rebatizo minha cidade: Terras Soltas. A poeira é nossa companheira desde a fundação do burgo. As carroças e os passos dos habitantes levantavam poeira vermelha nas ruas traçados com zelo de arquiteto romano no chão do sertão, quando ainda só havia a Fábrica de Tecidos e a Estação. A poeira, trazida pelo vento, chegava do topo dos morros circundantes, desmatados para servirem de pasto ao gado dos senhores fazendeiros. Os rebanhos, conduzidos para a Estação através da Rua da Boiada, tremiam o chão e espalhavam tufos de poeira, como nos filmes de farwest. Década após década, as procissões e quermesses no Largo da Igreja Matriz levantaram pó, espesso como a fé do povo. Nos campinhos de pelada, os guris chutaram mais terra do que bola, esperando gramados surgirem bem recentemente. E os ônibus jardineiras de Dodô e Zé Diniz arrastaram rolos de poeira pelas ruas e estradas da cidade, conduzindo passageiros para a capital vestidos com guarda-pós bem cortados. Nos caminhos de terra, os meninos se divertiam caçando redemoinhos de vento, obras do diabo capazes de carregar moças. Havia uma oração que a gente dizia quando entrava no meio do redemoinho. Portanto, o cotidiano de Pedro Leopoldo era envolto em poeira do sertão, vermelha, com cheiro de terra, até que as ruas começaram a receber calçamento. E isso ocorreu há pouco tempo, a partir dos anos 1960.
Mas quando parecia que a cidade se livraria do pó, do pó vermelho do sertão, novo tipo de pó dispersou-se no ar – ou melhor, dominou nosso ar. O pó de calcário, que também é pó da terra, um tipo de terra solta, fininha. De todo lado, das bandas de Dr. Lund e de Lagoa de Santo Antônio e Fidalgo, chegava o branco leitoso da poeira das caieiras e britadores. Na Praça da Estação, as pedras extraídas das jazidas do Coronel Teotônio Batista eram moídas e jogadas nos vagões, liberando nuvens de pó branco sobre nós, meninos, que sentavam nas fraldas do morro para ver o espetáculo do carregamento das composições. Mas foi a chaminé da Cauê, alta como um arranha-céu, que despejou com força, sobre a cidade, a partir de 1954, pó calcário encorpado, em rolos que o vento carregava sem dispersar. Fumaça contínua, cinza esbranquiçada, dia e noite depositada sobre os telhados, os quintais, os móveis e os carros. Amanhecíamos cobertos por nova camada de terra, como se fóssemos cobras em mudança de pele. Nem mesmo as leis ambientais e a gritaria dos ambientalistas deram jeito na chaminé da Cauê. Ainda agora, basta anoitecer, a cimenteira despeja sobre a cidade uma coluna de pó branco. Parece que nos acostumamos com isso. É o que eu disse: o pó mineral constitui elemento incontornável da existência de Pedro Leopoldo.
Atualmente, para manter viva a tradição, as ruas da cidade são cobertas com o pó da areia que sai dos numerosos caminhões que levam embora os ribeirões do Urubu e das Neves. Todo dia, cedinho, as partículas de areia lavada, finas e leves, pairam no ar, renovando a carga que respiramos no dia anterior. E mais: tanto convivemos com o pó que resolvemos aceitar carga adicional, representada pelas obras que rasgam as ruas em diversos pontos da cidade, colocam tubos debaixo da terra, mas permanecem inacabadas. As ruas da cidade estão ficando meio de asfalto e meio de terra. Uma espécie de retrocesso aos anos 50. E o pó sobe com força, levantado pelos veículos, até pelas ecológicas bicicletas.
Como se vê, a vida urbana de Pedro Leopoldo é cercada de pó, respira pó, talvez até ame o pó. Pó vermelho da terra sertaneja, primeiro. Em seguida, pó calcário transformado em cimento. E, hoje, pó expelido por fábrica e pó resultante da incúria na condução de obras públicas. Nosso ar é composto de algum oxigênio e muito pó. Temos terra solta no corpo, nas ruas, na copa das árvores, no telhado das casas e no ar. Não há como esquecer um só instante a sentença bíblica: “Tu és pó e ao pó retornarás”. É tanta terra solta que talvez se explique nossa humildade – para não dizer passividade – diante daqueles que brincam com nossa saúde e ambiente.
Pedro Leopoldo, eu te rebatizo solenemente: cidade das Terras Soltas!
Por Marcos Lobato Martins, 21 de maio de 2009. 1 Comentário

em maio 27th, 2009 às 09:13
Marcos, não há como não lembrar de Guimarães Rosa e o seu “diabo na rua no meio do redemoinho” ao ver esta foto. Não sabia que os ‘redemoinhos’ eram comuns no sertão mineiro. Na infância, lembro-me de pequenos redemoinhos formados na rua de terra onde cresci, na pequena Santa Maria, mas não eram tão grandes como este da foto.
Sobre o ‘rebatismo’ do nome da sua cidade, gostei! Imagina o nó que ia dar na cabeça do povo acadêmico que estuda toponímia daqui a 100 anos? Iam inventar tanta história de índio e escravo, melhor deixar registrado. rs.
Ao ler o seu texto, lembrei-me de Itabira, que teve suas terras ferríferas revolvidas e levadas para o mundo inteiro e que isto sempre justificou a poeira incessante do lugar. Em outros lugares, como você cita, há também este ‘revolver de terras’, cada qual com seu motivo. É esta coisa do homem de querer remover montanhas, se achando muito Deus.
Seu texto é ótimo! Tragicamente cômico.