Toque de recolher, boemia e insônia nas cidades mineiras

Semana passada, os jornais noticiaram a disposição da cidade de Patos de Minas de adotar, a exemplo de urbes paulistas, o toque de recolher para crianças e adolescentes. A discussão sobre a medida adquiriu alguma intensidade, dividindo as pessoas quase meio a meio, entre as que apóiam a iniciativa e as que repudiam essa restrição. Eu não vejo muito sentido nela, do ponto de vista de política pública orientada para o combate à criminalidade. Mas não é isso que desejo discutir agora.

Prefiro me lembrar de texto que havia escrito há anos. Um texto que procurava exaltar o valor da vida noturna para as cidades. Vida noturna que, me parece, deve ser estimulada, não cerceada. Vida noturna que precisa acolher os jovens, não prendê-los em casa. O melhor é dar voz ao texto de agosto de 1998, publicado no “Jornal da Semana”. Seu título original, um tanto presunçoso, era “De boemia e insônia”. Vamos a ele.

 

Toulouse-Lautrec: Baile no Moulin Rouge. Philadelphia Museum.

“Viver não é fácil, nem sei se vale mesmo a pena. Acordar dia após dia e percorrer a cidade cumprindo horas marcadas lembra um exercício enfadonho, como aqueles terríveis abdominais que o professor de educação física impinge aos garotos que querem uma bola de couro a qualquer custo. A bola é gozo e plenitude, enquanto o adiamento do jogo é ausência intolerável. Quando criança, eu tinha mais sabedoria e buscava sentimentos viscerais. A intuição, sem os freios impostos pela razão e os valores convencionais, apontava o caminho: apenas experiências intensas tiram a vida da mesmice sem graça que percorre as almas. Manuel Bandeira testemunhou essa verdade, em versos que aprendi adolescente: ‘A alma é que estraga o amor./ Só em Deus ela pode encontrar satisfação,/ Não noutra alma./ Só em Deus – ou fora do mundo’.

O que vale para as almas, vale igualmente para as cidades, porque as cidades têm alma. Ninguém melhor do Baudelaire captou e expressou o espírito de Paris. Dostoiévski narrou as mudanças de humor da fria São Petersburgo. No Atlântico Sul, a graça da Rua da Alfândega, da Rua Direita, de Botafogo e da Lapa voou nos textos de Machado de Assis. Sem alma, uma cidade não passa de ajuntamento de gente. Bois e vacas num pasto amplo, emoldurado por morros cobertos de matas, inspiram olhares cansados. Amontoados no lombo de um vagão ferroviário, os mesmos bois e vacas apenas cheiram mal. As cidades sem alma são vagões de refugiados, esquecidos num desvio qualquer por descuido do guarda-chaves.

A alma das cidades, quando existe, é um espírito galhofeiro. Assume muitos rostos e tem muitas formas. Uma, entretanto, sempre se revela ao observador atento. É a alma noturna, é o vaivém da boemia. Os boêmios são imprescindíveis, até porque as vanguardas saem do meio deles. Ruas desertas, esquinas vazias, bares silenciosos, luzes apagadas simbolizam a morte da cidade. A primeira lei da sociedade deveria ser: é proibida vida urbana pela metade, só durante o dia. Sejamos hiperbólicos: qualidade de vida significa conversa inteligente e bem-humorada jogada fora, flertes suaves, boa música e bom vinho, barulho de passos na noite. E pouca polícia nas ruas. Poucas cidades têm alma. Esse critério é implacável. A boemia é o cartão de visitas de uma cidade.

Sinto dizer, meus caros concidadãos, mas Pedro Leopoldo carece de boemia. Mal crônico, de cura difícil. No passado, até que a cidade tentou, mas um golpe do destino a derrotou. Mataram Chico de Louro. Aquela bala abateu nossa incipiente boemia, lá nos anos 1950. Desde então, não temos personagens noturnos para inspirar romances e poemas, para produzir lendas e afamar a cidade. Violeiros, cantores, bardos, bêbados e putas são anjos distantes, quase invisíveis, em nossas rodas de bares. Há razões razoáveis, por sinal, para essa ausência trágica. Na cidade sobram operários mal pagos e extenuados, saindo, à tardinha, de nossas fábricas. Resta-lhes força apenas para uma cervejinha a caminho de casa, nada mais. Por outro lado, faltam bandos de amanuenses e de estudantes gazeteiros. Para completar, é muito fácil e rápido chegar à capital.

Reparando bem, o mais saudado boêmio de Pedro Leopoldo, o Zé Issa, foi formado na Rua da Bahia, quando ainda havia bondes e árvores nas avenidas de Belo Horizonte. Ao voltar para cá, ele logo ficou caseiro. A boemia dele transferiu-se para a literatura. Do meu ponto de vista, uma troca aceitável, embora desnecessária. O Zezão, outro grande boêmio, vive recordando os velhos tempos, de olho num baile à moda antiga para dançar valsas, boleros e tangos. Pedro Leopoldo é um cemitério de boêmios. Não poderia ser de outra forma uma cidade que, até recentemente, orgulhava-se de ser a ‘capital do cimento’.

Impossível objetar alegando que a cidade não dorme cedo, que há movimento em alguns bares até a madrugada e fregueses assíduos nas mesas desses bares. Sustento que não são boêmios. Ao contrário, são pessoas insoniosas.”

Pois é, em nome da segurança (ou será do puritanismo?), faz sentido obrigar os adolescentes viverem uma vida urbana pela metade? Não será drástico demais? E não sacrificaremos com isso a alma noturna das cidades, força que forja gente criativa, inovadora, crítica, tão necessária à renovação da sociabilidade?

Por Marcos Lobato Martins, 18 de maio de 2009.  2 Comentários

2 respostas para ' Toque de recolher, boemia e insônia nas cidades mineiras '

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  1. Cristiane escreveu,

    em maio 27th, 2009 às 09:34

    Marcos, a cada dia que levanto pela manhã e caminho por minha rua, pelo meu bairro (Floresta) há uma pichação nova. Tenho vizinhos que estão travando uma verdadeira batalha com os pichadores. Pintam os muros e as fachadas por cima das pichações e a gente faz apostas de quantos dias vai durar sem que os vândalos sujem tudo. A cidade parece um purgatório imundo, sujo e fétido das urinas que os ‘boemios’ atuais despejam nas nossas calçadas. Sou radical, penso que a polícia devia prender estes pichadores e cortar um dedo deles a cada vez que forem pegos depredando propriedade alheia.

    Voltar para casa de madrugada – ou nem tão de madrugada – depois de sair com amigos, transformou-se nos dias atuais em medo e insegurança. A cidade não deixou de ter vida, ela não dorme. A verdade é que ela está sendo ocupada por outros, que não tem espaço para transitar por ela durante o dia… e este outro, cheio de revolta, insatisfações e recalques querem despejar o seu ódio no primeiro que aparecer. Não serei eu a dar as caras. Muitos outros também não darão as suas, então, recolhemos todos como prisioneiros dentro de casa. Há alguns meses, pouco depois das 20 hs, caminhando pela Silviano Brandão encontramos um rapaz esfaqueado estirado na calçada. O crime parecia ter acontecido há poucos minutos. Os legumes e frutas que ele trazia do sacolão estavam espalhados ao seu lado. Entrei em desespero! O rapaz dava os seus últimos suspiros na nossa frente, enquanto um outro homem que também passava por ali chamava a polícia e nós o 192. Não consegui esperar a chegada do socorro, entrei em pânico. Quando saímos, ele não respirava mais. Devia ter pouco mais de 20 anos e eram oito horas da noite! A cena deste crime brutal e do sangue escorrendo do seu corpo que ainda tremia, não sai da minha lembrança.

    Como que por premonição, a cidade grande apagou a luz da lua e das estrelas. O céu é vazio e escuro – como são os corações dos que transitam pela noite.

    Não tinha ouvido nada sobre este ‘toque de recolher’, mas enquanto não se mudar a realidade social e cultural do nosso povo, penso ser a melhor alternativa sim, para resguardar os nossos adolescentes – imprudentes por natureza.

    Esta semana recebi por e-mail um desabafo – um grito – de uma jovem moradora do bairro Lagoinha. Ela contou as torturas diárias que os moradores do bairro estão expostos diariamente (principalmente os idosos que não tem condições de mudar). Resumindo, moradores de rua habitaram o bairro e interpelam os habitantes do lugar a qualquer hora do dia e da madrugada nas suas casas, pedindo comida, muitas vezes drogados. A prática do assalto tornou-se comum no lugar à luz do dia ou da noite. Sexo é praticado no gramado da igreja sem que ninguém faça nada.

    Sou como você e tantos outros, adoro a noite! Mas não ESTA noite cheia de medo das cidades atuais. Pobre Baudelaire se tivesse nascido neste século e não no XIX.

  2. Mirian escreveu,

    em junho 8th, 2009 às 15:35

    Eu acho um absurdo o toque de recolher,porque estao reprimindo os jovens, alem de nao adinatr nada,porque quem quer fazer algo errado, faz em qualquer lugar e a qualquer hora. Alem do mais, ja temos idade suficiente para saber o que e certo e o que e errado.

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