Prédio em ruínas na Santa Casa de Caridade de Diamantina ganha sua história

Foi no último dia do ano de 2008 que recebi de presente, enviado de Diamantina, um pequeno livro. Os colegas James Goodwin Jr. e Paulo Francisco Flecha de Alkmim, após beberem meu triste “falecimento” nas lajes do Beco da Tecla, resolveram me mandar lembranças – afinal, eu não estava em Diamantina para acompanhá-los na conversa fiada no meio daquela ruela, nem para observar as pessoas que passavam e o céu azul entre as frestas dos beirais coloniais. Então, compraram o livro de Maria Cláudia Almeida Orlando Magnani, “Hospício da Diamantina: a loucura na cidade moderna”. Escreveram em letra ruim dedicatórias esquisitas, puseram o livro no Correio.

Apenas agora, quatro meses depois de me chegar o embrulho, consegui ler o presente dos colegas, que é o texto da dissertação de mestrado da Maria Cláudia, também colega nos tempos da FAFIDIA (Faculdade de Filosofia e Letras de Diamantina). O livro é curto, o que me faltava era tempo para dedicar ao Hospício da Diamantina. Ainda bem que providencial viagem para resolver problemas pessoais na querida Diamantina me forneceu a desculpa necessária – coloquei o livro na mochila. Dentro do ônibus, li a dissertação da Cláudia Orlandi, de cabo a rabo. Aliás, algo agradável de fazer, pois o texto é bem escrito, direto, objetivo, sem floreios acadêmicos ou aquelas discussões eruditas, tão chatas quanto extensas, que costumam povoar as monografias universitárias.

Na primeira parte do trabalho, Maria Cláudia Orlandi discute o processo de modernização da cidade de Diamantina na virada do século XIX para o XX, bem como a mudança de perspectiva que, no âmbito da Medicina, ocorreu no que se refere à abordagem da alienação. Seu esforço de estabelecer laços fortes entre esses dois processos, o de modernização das cidades e o de constituição de uma medicina social, é plenamente alcançado. E ela ainda indica ao leitor algumas especificidades da cena regional, destacando-se a firme presença da Igreja Católica na cidade de Diamantina e seu controle sobre determinadas formas de vida cultural no antigo Tijuco.

Na segunda parte de “Hospício da Diamantina”, a autora constrói esboço da trajetória da Santa Casa de Caridade de Diamantina, fundada no final do século XVIII, e das complexas causações que fizeram surgir, na década de 1890, o primeiro hospício das Minas Gerais. Destaca-se o trabalho com as fontes documentais locais, notadamente os registros de pacientes da instituição diamantinense, os relatórios elaboradores por diversos provedores da Santa Casa e os jornais do período, que foram espaço privilegiado para a discussão dos “projetos de modernização” abraçados por diferentes segmentos sociais presentes na urbe do Alto Vale do Jequitinhonha. Com escassa documentação primária – muito se perdeu pela incúria das instituições e autoridades –, Maria Cláudia conseguiu realizar análises importantes sobre a temática da loucura e sua apropriação pelo saber médico no Brasil recém-republicano. E esclarecer porque, a despeito dos esforços locais, o Hospício da Diamantina nunca chegou a implantar-se inteiramente, tal como havia sido projetado.

Na terceira parte do livro, Maria Cláudia Orlandi examina as condições de funcionamento do Hospício da Diamantina, seus pacientes, corpo médico, tipos de registros, diagnósticos e curas e as discussões que nele ocorriam sobre “normalidade” e “doença mental”. O que a autora destaca pode ser resumido nos seguintes termos: “Acolher, limpar a cidade, cobrar do poder público as suas obrigações, proteger, tratar e curar muitas vezes eram intenções que coexistiam nas mesmas pessoas. No entanto, a intencionalidade determinante, que partiu do saber médico vigente, e que pretendeu nortear a prática hospitalar do hospício foi preponderante na decisão de sua construção, ainda que a ciência médica tivesse suas dificuldades para substituir tão rapidamente um poder que fora por tanto tempo pela Igreja” (p. 86-87).
Trata-se, sem qualquer dúvida, de um livro que preenche lacuna na historiografia mineira, ainda marcada por número pequeno de trabalhos sobre a história da ciência em geral, e da medicina em particular. A questão da loucura, de tanta ressonância social, geradora de figuras folclóricas nas cidadezinhas interioranas e de perversidades nas cadeias e hospícios, carece de mais investigações. Nesse sentido, “O Hospício da Diamantina” é muito bem-vindo, sobretudo ao focalizar os meandros da absorção, nas terras mineiras, dos novos parâmetros que a psiquiatria progressivamente impôs à lida com os doentes mentais na virada do século XIX para o XX.

Contudo, eu faço duas ressalvas ao livro de Cláudia Orlandi. A primeira delas refere-se ao papel de protagonismo que ela atribui à Igreja na modernização da vida econômica e social de Diamantina, a ponto de acreditar que as fábricas de tecido fundadas na região pertenceram à Igreja. Isso não é verdade, nem mesmo no caso da Fábrica de Biribiri, cuja construção foi animada e comandada pelos irmãos Felício dos Santos (entre os quais o Bispo Dom João). Na verdade, a chamada doutrina social da Igreja – baseada na Encíclica “Rerum Novarum” – foi adotada pelos empresários diamantinenses. Mas essa doutrina não é, creio eu, algo que possa ser classificado como antimoderno. O movimento ultramontano, que alcançou grande força na vastíssima Diocese de Diamantina, não é antimoderno, meramente reacionário. É hostil à religiosidade popular, mas não à ciência, in limine.

A segunda ressalva tem a ver com a questão da profissionalização da Medicina e do tratamento dos loucos. A autora toma como indícios da precária profissionalização do tratamento dos loucos, em Diamantina, dois fatos: a) o regime de trabalho voluntário dos médicos que atendiam na Santa Casa de Caridade e no Hospício e; b) a presença de irmãs de caridade nessas instituições, com remuneração específica. Considero problemáticas tais inferências. O fato dos médicos atuarem voluntariamente talvez esteja mais ligado ao estatuto liberal da profissão, vigente desde tempos imperiais, do que a uma pretensa valorização ainda incompleta do saber médico pela população. E o fato das irmãs cuidarem diretamente dos doentes não significa que elas fossem responsáveis pelas prescrições e diagnósticos, nem que, nesses campos, escapassem ao poder dos médicos. Ademais, a tradição de atuação dos religiosos nos campos da assistência social, da saúde e da educação era e ainda é bem aceita pelos mineiros. Quando se observa que, no currículo das meninas educadas no internato do Colégio Nossa Senhora das Dores, dirigido pelas mesmas irmãs francesas vicentinas que atuaram na Santa Casa de Caridade de Diamantina, havia a disciplina “Puericultura”, lecionada por médicos da cidade, temos dificuldade em aceitar a existência de um “cabo de guerra” entre a Igreja e os médicos pelo controle dos hospitais e hospícios, dos doentes e das crianças. A “higienização da sociedade” não parece ter sido, em Diamantina, objetivo oposto ao de sua (re)afirmação na fé católica romana. Noutros termos, eu não vejo incompatibilidade fundamental entre o projetor modernizador dos Bispos (Dom João Antônio dos Santos e Dom Joaquim Silvério) e aquele que animava as elites regionais encabeçadas por bacharéis (como os médicos Antônio Felício dos Santos e João da Matta Machado Júnior).

Esperemos que este “Hospício da Diamantina” inicie uma pesquisa ainda mais alentada sobre a loucura e sua medicalização nas Minas Gerais, conduzida numa abordagem eminentemente comparativa, cruzando dados de origens diversas – São João Del Rei, Diamantina, Barbacena, Belo Horizonte, etc. –, de maneira a que se construa quadro mais detalhado, e multifacetado, desse processo na história regional. A colega Maria Cláudia Orlandi terá contribuições importantes a oferecer nessa direção.

Por Marcos Lobato Martins, 2 de maio de 2009.  1 Comentário

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  1. James escreveu,

    em agosto 31st, 2009 às 17:54

    é isso, mando o livro pro cara e ainda tenho que ler que minha letra é ruim… mas o livro é bom!!!

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