Vícios antigos nas Minas Gerais
O Ministério da Saúde, por meio da pesquisa de “Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico” (Vigitel-2008), divulgou números preocupantes sobre hábitos de risco entre os brasileiros. 54 mil pessoas, residentes nas 27 capitais estaduais, foram instadas a informar seus hábitos alimentares, consumo de cigarros e bebidas, prevenção de doenças e excesso de peso/obesidade. Na metodologia da Vigitel-2008, consumo abusivo de álcool é, para as mulheres, mais de quatro doses de álcool na mesma ocasião, evento ou festa, no espaço de trinta dias. Para os homens, o valor é mais de cinto doses. E a dose de bebida é uma lata de cerveja, uma taça de vinho ou uma dose de destilados (como uísque ou vodca). Os resultados obtidos mostram o avanço do consumo abusivo de bebidas alcoólicas no país, conforme a tabela abaixo:
Quanto ao tabagismo, os adultos brasileiros que fumam todo dia também aumentaram. No ano passado, a média brasileira de adultos fumantes foi de 15,2% – entre os homens, 19,1%; e, entre as mulheres, 11,9%.
Belo Horizonte ficou mal situada na pesquisa. Os belo-horizontinos bebem muito e fumam muito, acima da média brasileira. Tanto os homens como as mulheres. Em Belo Horizonte, 20,8% dos adultos consumiram bebidas alcoólicas abusivamente em 2008. No caso dos homens, a cifra foi de 30,6%; entre as mulheres, o abuso do álcol atingiu 12,5%. Os números para o tabagismo na capital mineira foram os seguintes: total percentual de fumantes, 19,3%; fumantes entre os homens, 22,5%; e mulheres fumantes, 16,5%. Enquanto a média brasileira foi de dois homens fumantes para cada mulher, na capital dos mineiros a relação foi, praticamente, de um para um.
Curiosamente, ao comentar os dados da Vigitel-2008, o jornalista especializado em economia, Carlos Alberto Sardenberg, da GloboNews, sugeriu que ambos os aumentos (no consumo de bebida e de cigarros) estão relacionados com a melhoria da renda dos brasileiros nos últimos anos. O mesmo fenômeno resultaria no aumento do percentual de brasileiros com excesso de peso e obesidade, também detectado na pesquisa. Esses seriam, segundo Sardenberg, preços a serem pagos pela sociedade brasileira à medida que ela progride, convergindo na direção do cenário já observado no Primeiro Mundo, há décadas. O raciocínio economicista é simples: mais renda disponível implica em mais consumo de bebidas, de cigarros e de alimentos industrializados, ricos em calorias.
Não farei aqui uma crítica extensa e exaustiva ao comentário do jornalista Sardenberg, marcado pelo reducionismo economicista. Basta lembrar que há enormes diferenças regionais nos hábitos de consumo de bebidas, tabaco e alimentos, resultantes de práticas culturais seculares, sobre as quais pequenas variações de renda influem, é verdade, mas nem sempre como variáveis decisivas e de maneira rápida. Quero somente ressaltar o peso das tradições, destacando o caso mineiro.
Os numerosos depoimentos de viajantes estrangeiros que percorreram Minas Gerais ao longo do século XIX têm em comum a referência ao popularíssimo hábito de tomar pinga. Bebia-se cachaça no desjejum, para matar “bichos” (vermes), nas refeições (almoço e jantar). Livres, libertos e escravos gostavam de cachaça. Homens e mulheres tomavam pinga, no âmbito da vida familiar, nas festas religiosas e civis, nas horas de folga. Assim, explicam-se os versinhos folclóricos recolhidos por Eduardo Frieiro no Norte de Minas: “Montes Claros dá toucinho,/ Bocaiúva dá feijão,/ Buenópolis dá dinheiro,/ Diamantina dá pifão”. Ainda segundo Frieiro, os estudantes de Ouro Preto teriam ensinado a Zé da Fé, tipo popular sempre bêbado, cantar pelas ruas: “Os moços desta cidade/ São como os velhos daqui:/ Bebem demais, é verdade,/ Não passam sem parati” (“Feijão, angu e couve”. Belo Horizonte: UFMG, 1966. p. 242-243).
Por outro lado, as listas de estabelecimentos comerciais elaboradas pelas câmaras municipais sempre indicaram grande quantidade de tabernas e vendas que negociavam cachaça, vinhos e licores. Outro indicador do generalizado consumo de bebidas alcoólicas pelos mineiros do Oitocentos é dado pela enorme presença de engenhos na Capitania e, depois, na Província de Minas Gerais. A lavoura de cana e a produção de pinga estavam disseminadas pelo território mineiro, constituindo, como mostram os estudos mais recentes, importantes atividades econômicas inseridas em amplos circuitos monetizados de troca, dentro e fora de Minas (Marcelo M. GODOY. Os engenhos entre a norma e a clandestinidade – As relações entre o Estado e a agroindústria canavieira de Minas Gerais no século XIX. “Anais do IX Seminário sobre a Economia Mineira”. Diamantina: CEDEPLAR-UFMG, 2000. p. 213-256). Por isso mesmo, a cachaça mineira adquiriu fama fora das fronteiras da Província, que ainda hoje se mantém Brasil afora.
O consumo de bebidas era tido pelas autoridades mineiras, desde o período colonial, como fator que colocava em risco a ordem pública. Incitava agressões físicas e verbais, provocava correrias nas ruas e becos das vilas, estimulava lascívias e abusos morais. A farta distribuição de cachaça era associada, negativamente, aos freqüentes batuques e lundus. Os botequins recebiam, em razão disso, atenção especial das autoridades. Os códigos de posturas das cidades, desde o século XIX, tentaram coibir as bebedeiras e dificultar o funcionamento desimpedido das tabernas. Os registros criminais da Justiça e, depois, também da Polícia, sempre estiveram repletos de referências ao consumo abusivo de álcool e do papel relevante que este desempenhou como elemento deflagrador de violências. No início do século XX, na nova capital mineira, as desordens nos bares e botequins ocupavam muitos esforços da polícia. Polícia que enxergava os imigrantes italianos, bons de “bico e gole”, como problema de solução difícil (Luciana T. de ANDRADE. “Ordem pública e desviantes sociais em Belo Horizonte (1897-1930)”. Belo Horizonte: UFMG, 1987. Dissertação de mestrado). Cachaça, prostitutas e jogo: essa era a tríade que tirava o sossego dos delegados e dos chefes de família belo-horizontinos.
Temos menor quantidade de estudos sobre o fumo e o tabagismo na história de Minas Gerais. Sabemos, contudo, que muitas famílias cultivavam tabaco em pequenas quantidades, produzindo fumo de rolo. Em várias áreas do Norte e do Sul de Minas, a cultura do fumo alcançou expressão comercial. O fato é que a imagem dos mineiros picando fumo e enrolando palha, nas soleiras das portas e nos bancos das praças, tornou-se estereótipo. O hábito de fumar sempre foi disseminado nas terras mineiras entre os adultos. Os homens fumavam muito, e as mulheres também. As “mulheres de família” não fumavam na rua, apenas em suas casas. Quem conhece o interior ou tem familiares mineiros, sabe disso. As obras da literatura regional, principalmente os textos de cunho memorialístico, fornecem evidências fortes de que o tabagismo alcançou, no passado mineiro, percentuais elevados.
Por conseguinte, o exame histórico dos hábitos de beber e fumar nas Minas Gerais mostra que os números da Vigitel-2008 não são surpreendentes. Eles confirmam a vigência secular do gosto dos mineiros pelo álcool e pelo tabaco, elementos importantes na sociabilidade regional. Na perspectiva da longa duração, talvez a hipótese mais plausível seja o inverso do que está contido na explicação de Sardenberg: o consumo abusivo de bebidas alcoólicas e de tabaco experimenta declínio consistente, embora não-linear, entre os mineiros e, de maneira geral, entre os brasileiros.
Por Marcos Lobato Martins, 9 de abril de 2009. Comentários



