Praça da Liberdade X Centro Administrativo
A edição de hoje (sábado, 11 de abril) do “Estado de Minas”, no caderno “Pensar”, traz artigo escrito pelo professor José Newton Coelho Meneses que todos os mineiros, em especial os belo-horizontinos, devem ler atentamente e, sobre ele, refletir bastante. Não é a primeira vez que o colega José Newton, do Departamento de História da UFMG, traz à baila a questão dos usos novos que o governo do estado pretende dar ao magnífico conjunto da Praça da Liberdade. Em texto anterior, também publicado no “Pensar”, José Newton mostrou a inconsistência do referido projeto na perspectiva da preservação patrimonial. O que o governo Aécio Neves decidiu fazer é transformar a Praça da Liberdade e seus prédios administrativos num “corredor cultural”, dotado de espaços para shows, museus e centros culturais, ao passo que as funções administrativas serão transferidas para o Centro Administrativo em construção, na área do antigo Jockey Clube Serra Verde. Essa obra virou, na verdade, junto com a chamada “Linha Verde”, um dos carros-chefes da campanha de Aécio à Presidência da República.
Na época em que saiu o primeiro artigo do professor José Newton, correu a boca pequena, na capital mineira, a notícia de que as hostes governistas haviam encomendado ao professor Roberto Borges Martins escrever artigo em defesa da proposta governamental. O insigne professor, certamente percebendo o quanto a causa era e continua sendo indefensável, pelo menos na perspectiva do patrimônio cultural, até hoje não escreveu sequer uma linha sobre o assunto. E o governo Aécio silenciou a respeito da crítica sofrida. Aliás, essa é uma característica saliente do atual governo, que parece não apreciar o debate amplo e democrático de suas iniciativas. Esse governo aceita aplausos, vive à procura deles, mas não responde bem a críticas. Finge que não é com ele, silencia e fica à espera que a crítica seja esquecida.
Por isso, fez muito bem o amigo José Newton voltando ao tema, com a devida clareza e contundência. A idéia central da argumentação de José Newton é a de que o projeto do governo para a Praça da Liberdade constitui uma “agressão ao patrimônio, mas, sobretudo, [nele] sobressai o esquecimento em meio ao discurso da memória e da historicidade”. Em termos diretos, sem floreios acadêmicos ou estilísticos, José Newton escreve: “Justificativas para a revitalização de espaços urbanos pouco valorizados ou degradados são pertinentes, mas a experiência histórica não apresenta exemplos de ressignificação de um lugar com a dessignificação de outro que é patrimônio”. A Praça da Liberdade é espaço urbano vivo, valorizado pelos mineiros, repleto de significados e freqüentado pela população de Belo Horizonte e pelas pessoas que visitam a capital. Não se trata de espaço que experimentou, como a região da Estação da Luz, em São Paulo, longo e contínuo processo de esvaziamento e degradação, terminando dominado pelo tráfico e consumo de crack. Ao contrário, os habitantes da capital mineira têm orgulho da Praça da Liberdade e a região no seu entorno é das mais valorizadas no mercado imobiliário. Para preservar o conjunto da Praça, inclusive, os belo-horizontinos aceitaram a transferência da tradicional Feira de Artesanato, que lá acontecia havia décadas.
A propósito do valor patrimonial do conjunto da Praça da Liberdade, o texto de José Newton é cristalino, impecável: “A Praça da Liberdade pode ser lida e interpretada como a expressão de um tempo laico e positivista que foi o momento de sua construção, em uma jovem República que queria se afirmar frente a um recente passado monarquista. (…) Os funcionários que trabalham nesse espaço urbano são tão significativos para a capital e para o estado e tão monumentalmente ligados à função do lugar que nomeiam o bairro que se forma em torno da praça (Bairro dos Funcionários). O lugar transforma-se e reforma-se, mas constrói uma tradição de espaço de vivência/manifestação dos cidadãos da urbe, do footing de ontem e do Cooper e lazer de hoje; serviu e serve para os encontros políticos, para as soluções dos problemas das cidades do interior do estado, para as manifestações cívicas, para os discursos das lideranças políticas”. Esse valor patrimonial, fixado ao longo de cem anos de história, deveria fazer absurda qualquer proposta de mudança de função e de representação da Praça da Liberdade. Conforme José Newton, se as pessoas “tivessem consciência dessa vida identitária, do discurso material do lugar, desse território de relações humanas sediado em um espaço urbano público, (…) não haveria a invenção de outras funções para ela [Praça da Liberdade]; não se gastariam vultosos recursos públicos para a transferência da função administrativa da praça para outro espaço e para a instalação de novos atributos e a construção de nova tradição para o espaço já construído”.
O professor está coberto de razão. Mas a política nem sempre é feita com espírito público, respeitando a memória e a história das cidades. As ambições dos agentes políticos, embora legítimas, costumam exigir a mudança forçada dos usos dos espaços urbanos. Nesses casos, somente uma população bastante consciente do seu patrimônio cultural será capaz de pôr freio aos desejos dos governantes. Mais uma vez, no caso de Minas Gerais, a construção do Centro Administrativo, com projeto de Oscar Niemayer, é tida como passo adicional – e firme – no sentido da modernização do estado. Este discurso gasto do “novo” X “antigo”, que líderes mineiros usam e abusam há décadas, gera projetos de intervenção radical nas localidades, sem respeitar a identidade e os valores dos cidadãos.
Sem me vangloriar, mas também sem falsa modéstia, lembro que, em Diamantina, quando o IPHAN, a Prefeitura Municipal e o Banco do Brasil firmaram convênio para transformar o antigo Mercado num centro cultural, fui uma voz solitária pregando contra o modismo de espalhar esse tipo de coisa pelo interior afora. Eu dizia que o melhor era reformar o prédio do mercado, porque ele estava em situação precária, e conservar sua função histórica. E sua função histórica era comercial: lugar que recebia as cargas de mantimentos das tropas e abrigava as operações de compra-venda ligadas ao abastecimento da cidade. Eu julgava que se devia reorganizar o comércio no Mercado reformado, mas não banir a atividade de lá. O colega Paulo Francisco Flecha de Alkmim é quase testemunha solitária de minha pregação, junto com os meus colegas de licenciatura: o Erick, a Maria Eva, a Geralda, o Geraldo, a Sônia e a Valquíria. Discutimos muito sobre a destinação do Mercado pós-reforma. Todavia, acabou prevalecendo a idéia de torná-lo centro cultural. O belo prédio, desde então, fica a maior parte do tempo absolutamente vazio, como esqueleto esfolado pelos bicos de urubus no meio do casario, silencioso, sem vida, à espera de eventos culturais improváveis, sem dúvida, esporádicos. Apenas nos sábados, quando abriga o comércio de produtos artesanais da região, tendo em vista a maior presença de turistas na cidade, o Mercado adquire vida. E Diamantina, que é uma cidade pobre, teve que construir novo mercado, apressadamente, na parte alta, ao lado da rodoviária. Uma construção horrível, sem qualquer esmero, muito menos beleza.
Pois é. Nós, mineiros, talvez ainda tenhamos dificuldades para interpretar e significar os lugares, os edifícios e as manifestações cotidianas que “guardam e traduzem a nossa memória e a nossa construção cultural”. Talvez ainda nos curvemos acriticamente às concepções de história e interpretações do patrimônio que carregam consigo especialistas distanciados da nossa vivência, avessos a conversar com o povo na busca de entendimento do significado das coisas.
Por Marcos Lobato Martins, 11 de abril de 2009. 10 Comentários



em abril 26th, 2009 às 17:32
eu achei uma bosta e sem noção…
em junho 15th, 2009 às 11:37
+ uma obra pra arrecadar um din din publico para a proxima eleicão…!!!!!
em agosto 5th, 2009 às 14:46
Moro na praça da liberdade e nós moradores do entorno estamos adorando a mudança. Não dá para querer que tudo seja sempre do mesmo jeito por séculos. Niguém está propondo demolir a praça e os prédios públicos. A obra vai dar ao povo a possibilidade de desfrutar do espaço interno de prédios antes quase inacessíveis. Parabéns AÉCIO.
em outubro 13th, 2009 às 20:31
O centro adm. sera um grande avanço para o estado e principalmente para a capital, todas secretarias juntas ira economizar tempo e dinheiro, relamente é impossivel agradar a gregos e troianos, mais aecio agrada a grande maioria!!
em novembro 3rd, 2009 às 09:22
gostari de saber se o bairro serra verde vai ter mais ifraestrutura como,melhoria nas escola ,praça,saneamento ,moradia,e oprincipal segurança……
em dezembro 2nd, 2009 às 21:59
com a transferencia da sede para venda nova,faz o mesmo que jk fez em brasilia,tira o centro do poder do sul,para modermizar outros centros proximos como sta luzia e vespaziano…otmia obra,bela visão do aecio.
em janeiro 25th, 2010 às 18:27
Bem, ainda acho q deveria ter sido feita uma licitacao e apresentado outros projetos, esse ai deixou a desejar. Daqui a pouco vao mudar o nome do Estado para Oscar Niemayer. Mas toda e qualquer obra na minha Belo Horizonte, sera sempre bem aceita.
Abraco
em março 8th, 2010 às 13:44
De fato uma beleza, uma excelente obra. Porém nosso Estado de Minas Gerais resolveu competir com os Estados Unidos da Améria ou melhor nosso governador não deve ser chamado de Aécio NEVES e sim RAMSÉS III. Tudo maravilhoso. Só não venha me dizer que o Estado esta em dificuldades. Porque em minha cidade se a Prefeitura não conservar, os predios do Estada caem de podres. Parabens oh todo poderoso RAMSÉS.
em novembro 2nd, 2010 às 09:41
Visão extraordinária. Temos que ter políticos empreendedores e com idéias inovadoras. Uma idéia comparável a tirar o “coelho da cartola” como fez JK, claro numa escala menor, mas não menos importante. Belo Horizonte, Santa Luzia, Vespasiano, R. Neves precisavam disso. Primeiro passo para desconcentração de riqueza na zona sul.
em março 7th, 2011 às 08:02
dois volumes em perfeito conjulgação…