Diamantes, uvas e morangos

Dona Zélia de Cerqueira Barbosa, notável educadora e conhecida diretora geral das Faculdades Pedro Leopoldo, gosta de contar histórias do período de estudo do seu pai no Seminário de Diamantina, na primeira metade do século passado. Ela se diz impressionada pelo carinho que o pai devotava ao antigo Tijuco. Porém, quando teve oportunidade de visitar a cidade, em função das formaturas de parentes e ex-alunos, Dona Zélia também se impressionou com as terras ao redor de Diamantina. Pura pedra e areia, como ela descreve a região dos topos do Espinhaço. Terra impraticável para a agricultura e pecuária, que mal sustentaria rocinhas e criações de subsistência.

Igreja Matriz de Datas, MG. Foto de Sonia Novaes.

Talvez a Dona Zélia tome como padrão de comparação para as terras do entorno diamantinense as áreas do cerrado mineiro – que as pesquisas agronômicas transformaram na fronteira agrícola das décadas de 1980 e 1990 – ou do Sul de Minas, amplamente aproveitadas pela agricultura de alimentos e pecuária leiteira desde o século XVIII e que, no decorrer do século XX, tornaram-se o espaço por excelência do café. Nessa comparação, não há dúvida, o entorno de Diamantina perde de goleada. Mas isso não significa que as terras de montanha do Espinhaço central não possuam aproveitamento agrícola, que elas se prestam apenas para a mineração. Na verdade, o que sempre faltou na região de Diamantina foi combinação virtuosa de três coisas: escolha adequada de culturas, emprego de tecnologia e condições para o escoamento da produção. A história econômica da região oferece provas cabais a respeito disso.

No início do século XX, a viticultura alcançou expressão econômica no município de Diamantina. Existiram diversos parreirais na sede municipal e nos distritos de Gouveia e Conselheiro Mata. A produção local de vinhos, tintos e brancos, rivalizou com a da cidade de Andradas, a maior produtora mineira. O governo do estado chegou a instalar em Diamantina uma Estação Experimental de Enologia, cujas atividades, todavia, não tiveram longa duração. A Igreja Católica e proprietários privados fabricaram vinhos artesanalmente, anunciaram seus produtos nos jornais da região e abasteceram o vasto território do Norte mineiro, empregando as tropas de burros para distribuir o vinho diamantinense. A crise de 1929 e medidas dos órgãos federais de saúde – que estipularam determinadas características para o vinho comercializado no país, como quantidade de açúcar e acidez – destruíram a viticultura e a vinicultura diamantinenses. Os produtores locais, sem maior capital para aprimoramento de suas lavouras (seleção e adaptação de novas variedades de uvas e melhorias nos processos de fabricação do vinho), além do ônus representado pela falta de crédito e infra-estrutura econômica na região, abandonaram o setor. Restaram, em algumas chácaras e quintais de Diamantina, parreiras que deliciaram familiares e vizinhos mais chegados.

Nos anos 1950 e 1960, a cidade de Gouveia aproveitou as várzeas dos rios e córregos para a lavoura do alho. A produção alcançou cifras elevadas, de maneira que a cidade recebeu o título de “capital mineira do alho”. A Festa do Alho, realizada anualmente, atraía grande quantidade de visitantes para a cidade, além de reunir os gouveianos espalhados por Minas e pelo Brasil. No início dos anos 1970, porém, uma praga – para a qual os órgãos de apoio à agricultura não deram resposta eficiente – dizimou a atividade em Gouveia.

A partir dos anos 1980, terras do município de Diamantina receberam novamente lavouras de frutas. Foi a vez do maracujá, cultivado em Conselheiro Mata e no entorno de Senador Mourão. Essa produção era destinada ao CEASA-MG. Em Conselheiro Mata, o impulso econômico gerado pela fruticultura chegou a ser considerável. Em Senador Mourão, a cana-de-açúcar também apareceu como boa promessa, associada a empreendimento forâneo de usina sucro-alcooleira. A usina, na verdade, jamais entrou em operação, fazendo refluir a cana nos chapadões de Senador Mourão, que, então, cederam ainda mais espaço para o eucalipto, que penetrara na região nos anos 1970, aproveitando os generosos benefícios fiscais oferecidos pelos governos federal e estadual do período da ditadura. No entorno de São Gonçalo do Rio Preto e Milho Verde, distritos do Serro, a produção artesanal de vinhos, licores e geléias de frutas, especialmente de jabuticaba, ganhou visibilidade nos anos 1990, no âmbito de projetos sociais e de incentivo ao turismo. Mas os resultados econômicos alcançados foram bastante restritos.

Produção de morangos em Datas.

Do ponto de vista histórico, deve-se ressaltar que parte significativa do abastecimento das populações de Diamantina e núcleos urbanos vizinhos fazia-se por intermédio da produção familiar de alimentos. Nas unidades domiciliares, quintais e chácaras, mantimentos, frutas, hortaliças, animais de criação ensejavam produção variada de alimentos in natura e de quitandas e conservas, trocados e vendidos nas localidades. No meio das pedras e sobre o solo arenoso e pobre dos topos do Espinhaço, as famílias diamantinenses cuidaram zelosamente da produção de alimentos, empregando técnicas tradicionais. A tal ponto que as cozinhas e os terreiros ocuparam posição de destaque na sociabilidade das famílias e das vizinhanças. Até os anos 1960, Diamantina era cidade repleta de quintais e chácaras produtivos, que introjetavam no espaço urbano tarefas que tendemos a associar exclusivamente aos territórios rurais.

Agora é a hora do morango. Nas terras arenosas e altas entre Datas e Diamantina, os morangos avançam. As plantações, forradas de plásticos e cobertas por estufas que parecem, ao longe, hangares brancos e compridos, proliferam nas proximidades da BR-259. Expansão que tem ocorrido com maior intensidade nos últimos três ou quatro anos, envolvendo, sobretudo, pequenos produtores. No ano de 2008, havia 33 hectares da fruta plantados em Datas; hoje, a área plantada cresceu para 45 hectares. As estimativas são de 2,7 milhões de pés de morangos, que produzirão, até o final do ano, cerca de 1.800 toneladas de frutas. A produtividade média por pé, em Datas, ficará na casa de 700 gramas, maior do que a obtida na região de Estiva, no Sul de Minas, que lidera o ranking mineiro dessa lavoura. A EMATER calcula que a lavoura de morango emprega cerca de 300 pessoas em Datas, cuja população é de 5.400 habitantes (cada hectare plantado com morango emprega, em média, oito trabalhadores). A produção é escoada para Belo Horizonte, Governador Valadares, Montes Claros e estados do Nordeste brasileiro. Na cidade de Datas, já existe uma unidade de processamento de polpa (morango, com 100 toneladas beneficiadas por ano, acerola, goiaba e tamarindo, cultivadas em fundo de quintal).

A introdução do morango na região deveu-se a empresários do Sul de Minas, de Estiva e Pouso Alegre, de onde ainda vêm metade das mudas. Os cultivares predominantes são “oso grande” (mais resistente a intempéries e que dá frutos próprios para o consumo in natura) e “camino real”. Os pioneiros cuidaram de desenvolver a tecnologia, a seleção de mudas e a adaptação de variedades. A Associação dos Fruticultores do Vale do Jequitinhonha (Frutivale) produz 50% das mudas empregadas na região e tem atuado na profissionalização dos produtores, lançando mão de recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). No conjunto, a produção prevista para Datas corresponderá a parte pequena do total mineiro, estimado em 76 mil toneladas. Mas a euforia local é grande, pois há quem afirme que “o garimpo praticamente acabou e o morango surgiu como uma redenção na cidade” (Ewerton Giovanni dos Santos, extensionista da Emater-MG. Caderno Agropecuário. “Estado de Minas”. 6 de abril de 2009).

Eis a questão crucial para a região: a substituição do garimpo. Ainda que haja quem busque “uma redenção” para as cidades do Alto Jequitinhonha, o importante é que ocorram experimentos, ensaios, e que deles resulte a diversificação das bases econômicas municipais. Há espaço para o morango, como no passado havia espaço nos quintais e chácaras para outras frutas, especialmente as “árvores de espinho”. Há espaço para a agricultura familiar e para produtos regionais típicos: quitandas, doces, conservas, bebidas, laticínios. A infra-estrutura econômica regional melhorou bastante nas últimas décadas. Existe hoje uma Universidade Federal sediada em Diamantina com cursos na área de Ciências Agrárias, o que poderá facilitar o desenvolvimento técnico das atividades agropecuárias regionais. Se houver políticas públicas, estaduais e municipais, capazes de operar a necessária coordenação entre os agentes econômicos e juntar as pontas dos programas de fomento turístico com os de desenvolvimento rural, a região de Diamantina, mesmo com suas terras altas, arenosas e pedregosas, terá condições de ascender a níveis mais elevados de qualidade de vida.

Eu espero que a Dona Zélia possa ver tudo isso. Então, Diamantina será, para ela, cidade menos áspera e cinzenta do que lhe pareceu até hoje.

Por Marcos Lobato Martins, 6 de abril de 2009.  12 Comentários

12 respostas para ' Diamantes, uvas e morangos '

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  1. Rui Edmar Ribas escreveu,

    em abril 20th, 2009 às 19:38

    Marcos,
    parabéns!
    Como datense da família Ribas e Freire agradeço-lhe pelo belo texto.
    Sou historiador e tenho alguns artigos sobre Datas.
    Rui Edmar Ribas

  2. Antônio Carlos Fernandes escreveu,

    em abril 25th, 2009 às 15:13

    Prezado Marcos,

    Li o texto e com a familiar desenvoltura apresentada, desconfiei que seria de um autor que conhecia profundamente as microporosidades da região. Não me surpreendi com seu brilhantismo. Parabéns pela aderência com que você descreveu e analisou as diversas fases das alternativas agrícolas vividas pela região.

    Antônio Carlos – Historiador

  3. Geraldinho da Banca escreveu,

    em abril 25th, 2009 às 17:09

    Marcos

    Quem me deu a dica deste excelente artigo, da sua rica lavra, foi o Toninho. Infelizmente Diamantina não soube conservar você e Júnia por estas paragens. Aceite o meu abraço amigo.
    Geraldinho da Banca

  4. Rui Edmar Ribas escreveu,

    em maio 1st, 2009 às 19:13

    Gostei muito do artigo. Inspirado nele segue…
    Rui Edmar Ribas
    Datense, Mestre em História pela PUCRS
    DATAS dos diamantes e dos morangos: tradição e modernidade.
    Autor: Rui Edmar Ribas, Mestre em História pela PUCRS
    Belo Horizonte, 25 de abril de 2009
    Ontem, diamantes.
    Procurar o que não guardou.
    Imprevisibilidade.
    Ilusão.
    Desconfiança.
    Desagregação.

    Hoje, morangos.
    Cultivar o que alimenta.
    Previsibilidade.
    Satisfação.
    Confiança.
    União.

    Ontem, diamantes.
    Brilho de sonhos.
    Riqueza efêmera.
    Corpo presente.
    Família ressente.
    Datense carente.

    Hoje, morangos.
    Sonhos em realidade.
    Riqueza de qualidade.
    Solidariedade presente.
    Família Consente.
    Datense contente.
    Ontem, diamantes.
    Sonhos sonhando.
    Enxada catiando.
    Peneira peneirando.
    Coração palpitando.
    Realidade sonhos frustrando.

    Hoje, morangos.
    Pedras e cangas adocicando.
    Sabores saborosos saboriando.
    Natureza natural aflorando.
    Moranguenses a terra lapidando.
    Alimento que o corpo alimenta.

    Datas diamantes e morangos.
    Datas ontem e hoje.
    Datas tradição e modernidade.
    Datas catas e campos verdejantes.
    Datas coração que pulsa emoção.
    Datas da mente, do corpo e da alma da gente.

    Datas revigorada
    Revitalizada.
    Datas sagrada
    Sacralizada.
    Datas filtrada
    Em amores e nas dores.
    Datas síntese
    Da epopéia dos seus filhos.

    Datas de ruas e alamedas que cantam.
    Datas de datenses que encantam.
    Datas substantivo próprio
    Adjetivo
    Verbo
    Advérbio.
    Datas tratado
    Biblioteca do nosso mundo.

    Datas de(em) nossos sonhos:
    - rio caudaloso e despoluído;
    - salões de areia límpida;
    Fiéis nas igrejas rezando: Divino Espírito Santo nos proteja,
    Nossa Senhora do Rosário não deixe faltar o pão-de-cada-dia,
    Nossa Senhora da Conceição lá da capelinha interceda por nós agora e sempre. Amém!
    - quintais com hortaliças e galinheiros, pés de jaboticaba, de goiaba, de pitanga e de manga;
    -janelas ornadas de sempre vivas do campo e do ventre;
    Adolescentes apaixonados;
    - lindas crianças no grupo escolar estudando.

    Datas com tantas famílias renascendo nos filhos de hoje:
    - Guedes, Abreu, Freire, Ávila, Ribas, Batista; Azevedo, Pinto, Coelho;
    - Paula, Rodrigues, Ferreira, Carvalhaes, Carvalho, Souza, Silva, Rocha, Rosa;
    - Ribeiro … e todas.
    Datas, família
    Dinastia
    Realeza.
    Linhagem eterna.

  5. ronaldo romao escreveu,

    em agosto 30th, 2009 às 12:55

    parabens DATAS e isso tudo e muito mais devemos falar tambem das lindas cachoeiras e do mais belo por do sol visto do morro da macaca

  6. Ana Beatriz escreveu,

    em março 15th, 2010 às 19:01

    Prescisa mais de imagens e estou procurando sobre se ainda existe minas de diamantes em DIAMANTINA.Não consegui achar

  7. Romaro A.Pereira escreveu,

    em março 23rd, 2010 às 17:21

    cidade amor minha Datas querida,orgulho da minha vida…..
    Bacana ver tantas noticias boas da nossa querida cidade obrigado a todos.

  8. lindomar alves escreveu,

    em agosto 29th, 2010 às 15:24

    cidade do meu coraçao onde tive a oportunidade de ver a belezas naturais como o diamantes das aguas cristalinas ,das cachoeiras e do povo hospitaleiro e maravilhoso onde tive grandes professores qualificados para educar ,parabens datas por uma cidadezinna maravilhosa .sempre estaras no meu coraçao.

  9. Roberto Cesar de Souza escreveu,

    em setembro 13th, 2010 às 17:12

    Parabéns Minha querida cidade de Datas MG estou muito alegre pela as coisas realizadas,principalmente a ordenação sacerdotal do meu irmão Padre Toninho e em especial gostaria de agradecer a Familia do senhor Antonio moreira pelo o apoio prestado ao meu irmão muito obrigado cidade amiga onde me nasci e me criei…Á todos um forte Abraço!!!!!!!!!

  10. valquiria cristiane dos santos escreveu,

    em maio 7th, 2011 às 22:11

    Achei uma linda Homenagem a cidade de Datas onde vivi quando criança,guardo boas lembranças da minha juventude.Parabens.

  11. Joaquim Geraldo da Silva escreveu,

    em maio 17th, 2011 às 15:10

    Parabéns para minha cidade,esta linda gostaria de tornar viver ai. mas vou pensar parabens pelos prefeitos que passaram por seus mandatos sempre com um intuito de fazer desta cidade mais bonita e querida. sou filho de joao soares.

  12. Mateus Meira escreveu,

    em julho 22nd, 2011 às 15:31

    Parabéns, pelo texto Prof. Marcos.
    Além desse texto tive a oportunidade de ler também seu artigo “OS MATA MACHADO DE DIAMANTINA:
    NEGÓCIOS E POLÍTICA NA VIRADA DO SÉCULO XIX PARA O SÉCULO XX”.
    Em ambos os caso retratam muito bem o aconteceu na região de Diamantina e posso lhe dizer que também me preocupa o crescimento Diamantinense, principalmente no que se refere à extinçao do garimpo.
    Sou da terra e formado na atual Universidade aqui existente pelo curso de agronomia. Sempre estive ligado a procura de atividades econômicas que pudessem dar retorno à cidade. Não sei se é do conhecimento dos leitores mas Diamantina conta desde 2005 com uma iniciativa que visa a retomada da produçao vitícola na região e conta com um módulo experimental que contem 9 cultivares testadas na região.
    A cerca de dois anos, por meio do Polo de Inovação Tenológica de Diamantina ligado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior da qual faço parte a viticultura foi diagnostica como um potencialidade para região e sendo assim, o Governo do Estado apostou em um projeto inovador no qual o objetivo final é consolidar a viticultura na região mais uma vez.

    Contamos com um grupo representativo de empresários que concordaram em participar do projeto que está sendo chamado de “Expansão da Viticultura”.

    Para melhor conhecê-lo basta entrar em nosso site http://www.inovales.org.br ou nos ligar.

    Parabéns mais uma vez pelos textos.

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