Prosas do Espinhaço central V
Gravuras de São Francisco
Era tarde. A noite estava úmida, porque chovera o dia inteiro. No quarto escuro, tocava a música de Mignone no pequeno aparelho de som, encostado na parede branca, sobre um tamborete decorado com motivos campestres. O homem, cansado, desejava dormir. Deitou-se, esticou o corpo o mais que pôde, arrumou o travesseiro sob a cabeça e fechou os olhos. A música invadiu os ares do quarto. A “Festa das Igrejas” (1940) ressoava. O homem buscava a melhor posição para o sono, virando-se lentamente, enquanto seus ouvidos se enchiam de música. Gradualmente, a penumbra e a música lhe transmitiram torpor. O sono reivindicava o corpo do homem cansado. As resistências baixaram, uma a uma. Os olhos pesados do homem deitado na cama adormeceram.
Mas a cabeça do sertanejo, que estudara na capital para ser mestre-escola, talvez menos cansada do que o corpo, permaneceu em vigília. A música descia fundo nela. Abria caminho até as memórias. As lembranças começaram a pingar. Despertavam imagens da infância, vivida em uma cidadezinha na boca do sertão. Lugar cuja matéria mais superficial, saliente como as incrustações de pedras preciosas nas antigas jóias das senhoras mineiras, era as festas – sagradas e profanas. E, por causa delas, principalmente as festas de santos, sucediam-se quermesses, novenas e procissões. Nas folhas amareladas, porém ainda legíveis, da memória do homem estendido na cama, as visões dos parentes, vizinhos, amigos e simples conterrâneos adquiriram traços firmes, estranhamente realistas.
Ele viu todos entrando e saindo da igreja, em seguida reunidos na Praça da Matriz. Aí, num burburinho contido pelos acordes da banda de música, a procissão começou. Longa fiada dupla de gente, a cada lado das ruas irregularmente calçadas, moveu-se constrangida. Nesse instante, a cidade ficou morta e apenas a procissão era prova de vida. Sinal pesado de devoção a Deus e aos santos. Reafirmação do prestígio de hierarquias estabelecidas, com o padre à frente e as rezas pronunciadas baixinho, entre os dentes dos fiéis.
As velas acesas exibiam chamas sem medo da noite. As luzes da procissão balançavam suavemente. Um bêbado, que não tinha equilíbrio suficiente para acompanhar a corrente de gente, disse com bonomia: “A reza do povo é como a chama da vela, dura pouco e alumia fino”. O padre, metido numa batina comprida e em botas muito bem engraxadas, desferiu contra o bêbado a ameaça de uma excomunhão de mentirinha. Foi o suficiente para afastá-lo do trajeto da procissão. As beatas, então, trocaram olhares determinados, que exibiam o gosto de quem se sente vingado da afronta mais vil.
Era desse jeito toda procissão na cidadezinha na boca do sertão. Porém, a voz do padre nada podia frente aos cães. Nem seus gestos largos, repressivos. Na pequena cidade, mundo acanhado da infância do homem que tentava dormir, os cachorros não respeitavam a compostura das procissões. Latiam para elas com força. Pareciam tenores de ópera de Puccini. Os cães ensurdeciam o espaço quando as procissões passavam diante deles. Tanto os vira-latas na rua como os cachorros de família, presos por correntes detrás dos muros dos quintais. Os cães latiam como se quisessem fazer da cidade em procissão uma verdadeira do inferno. Latiam com raiva, mostravam os dentes, babavam feito demônios. Havia mesmo cachorros que escapavam das soleiras das portas das casas para beliscar as canelas dos músicos. Por razões desconhecidos, os ataques concentravam-se no tocador de tuba. Contra os cães da cidadezinha, o padre nada podia. Muito menos as beatas, cuja fé serena se transformava em reverendíssimos impropérios dirigidos aos cachorros de mais alta expressão. No íntimo, as mulheres beatas, cobertas pelos véus rendados e negros, desejavam que a cidadezinha fosse libertada dos cachorros na hora das procissões ou que Deus mudasse todos eles, fazendo-os imagem e semelhança do Totó esbranquiçado e encardido. Solícito e resignado, Totó era uma exceção canina: acompanhava os féretros até a entrada do cemitério.
Valha Nossa Senhora Aparecida! O volume dramático e o brilho festivo da peça de Mignone vieram em socorro da vigília do homem deitado na cama, já quase inteiramente entregue às cenas fantasiosas da infância. Espantaram momentaneamente o sono de pedra. Apontaram as lembranças oníricas para outra direção: das ruas escuras e frias da cidadezinha para o interior da Matriz, banhado na luz do sol filtrada através dos vitrais. Nesse espaço sagrado, tornado ainda mais singular pelos raios oblíquos de cores diversas, suaves, que pareciam construir pontes entre o céu e a terra, o homem que tentava dormir tirou o Catecismo e realizou a Primeira Comunhão. No meio da tarde, ao lado de outros meninos e meninas, enquanto repetiam em coro as lições do padre, ele enxergou muitas vezes cachorros entrarem na igreja. Focinhos levantados, rabos abanando, os bichos miravam o olhar vazio no altar, cheiravam os pés dos bancos, levantavam as perninhas e faziam xixi. Depois viravam o traseiro para o padre e o altar, abanavam os rabos novamente e saíam, atrás dos latidos que vinham da rua. Era o suficiente para perturbar a aula de Catecismo. “Allegro moderato”, a turma ria. E o padre, “deciso”, xingava e mandava o sacristão limpar a sujeira dos cachorros.
Aos cães se juntavam os pombos. Os pombos entravam pelas frestas do telhado, voavam no interior da igreja e pousavam nos ombros dos santos, na cruz de Cristo e até no tabernáculo do altar. Arrulhavam – lentos, graves e lentos – e mexiam os pescoços como joão-bolinhas. Em seguida, invariavelmente, sujavam os mantos dos santos e a coroa de espinhos do Nazareno. Os pombos cagavam no altar, diante dos olhos dos meninos do Catecismo.
A música de Mignone acabou. O homem deitado na cama escureceu como o quarto. Dormiu. O último pensamento que brincou na sua cabeça trouxe uma dúvida. Por que não há, contra cães e pombos, anátemas cristãos? Como é que eles aparecem nas representações de São Francisco, alegres ao redor do santo, se desrespeitavam as procissões e a igreja na cidadezinha na boca do sertão? Só se o sertão não for parte do mundo. Ou for um mundo extravagante, onde os cachorros e os pombos, à maneira dos homens, preferem se comportar mal.
O homem se lembrou que tivera uma tia que gostava de gatos. Os gatos, deitados nos umbrais das janelas, olhos semicerrados, respeitavam – imóveis e silenciosos – as procissões que passavam. Ele nunca vira um gato sequer entrar na igreja, quanto mais sujá-la. Mas eram os gatos que as beatas da cidadezinha na boca do sertão juravam serem animais diabólicos. A indiferença felina ante os dramas humanos talvez desagrade secularmente aos religiosos. Por outro lado, a obstinada vitalidade dos gatos contrasta com as dores e angústias que povoam as almas humanas, de modo que os gatos têm dificuldades para se acomodarem nas fábulas morais. Por que as gravuras de São Francisco, penduradas nas casas sertanejas, nunca exibem um gato?
Antes de ser vencido pelo sono de pedra, o homem deitado na cama decidiu que, pela manhã, caso encontrasse o pároco, perguntaria a ele sobre cachorros, gatos e pombos. Melhor ainda. Iria propor ao padre que escrevessem um Catecismo que falasse de coisas miúdas e cotidianas, sem solenidades e argumentos vaporosos. Afinal, ele também, como sua tia – que Deus a tivesse em bom lugar –, gostava de gatos. E de cerveja, mulher, futebol…
Por Marcos Lobato Martins, 28 de março de 2009. 1 Comentário


em março 29th, 2009 às 19:42
Eu não gosto de gatos, nem de pombos. De cachorros sim. São como crianças fazendo festa ao nosso redor. E combinam com pitangueiras.
Este texto me fez lembrar aquela história que contei, sobre o painel da Igreja de Ferros. Pesquisando no Google, descobri este link: http://www.panoramio.com/photo/6482681, com uma fotografia do dito. Soube, também, que foi feito pela Yara Tupinambá.
Nunca parei para pensar porque os gatos não ilustram painéis da santa-igreja ou aparecem contracenando com São Francisco. Talvez porque são seres soturnos, que não podem ser domesticados. Igrejas gostam de fiéis submissos, se forem babões e barulhentos feitos os cães, ou aparentem ingenuidade feito os pombos, melhor!