Proposta estúpida: armar o bedel com um fuzil
O problema da violência/criminalidade ocupa espaço central nas discussões cotidianas, no Brasil e no mundo. E fica ainda mais agudo quando ocorrem episódios de elevada dramaticidade, cobertos intensamente pela imprensa. Tomem-se os casos dos recentes massacres no sul da Alemanha – no qual um jovem estudante invadiu sua escola e matou quinze pessoas, suicidando-se depois de ser encurralado pela polícia – e de um trabalhador americano que matou familiares e transeuntes em duas cidades do Alabama, também suicidando em seguida, já cercado pela polícia. Debates pipocaram nos jornais e na televisão, autoridades noticiaram os passos das investigações e todos, mais ou menos perplexos, procuraram entender os motivos dessas explosões de barbárie. Uma impaciência exasperante exige medidas de prevenção a novos incidentes desse tipo, bem como ação repressiva mais eficiente das polícias. Nas rodas de conversa, cada um tem uma opinião que expressa entusiasmadamente. E cada um também possui sugestões a dar para as autoridades. Nessa hora, é preciso aceitar que, ao contrário do que asseverava famoso pensador iluminista, o bom-senso não é a coisa melhor distribuída no mundo.
Exemplo chocante de estupidez e arrogância foi publicado em artigo na “Folha de São Paulo”, no caderno Ilustrada, edição de 17 de março, pelo colunista João Pereira Coutinho. Sob o título “Adeus às armas?”, o colunista desqualificou as opiniões de “especialistas” sobre eventos como os citados anteriormente, que ele assegura – sem demonstrar – que são repetitivas e, pior, pouco práticas. Conforme Coutinho, os especialistas entoam mantras sobre a proibição de armas, o efeito nocivo da violência nos filmes e nos games, a necessidade de ter psicólogos vigiando a saúde mental das crianças e adolescentes, sem o quê os massacres nas escolas tendem a continuar. Para Coutinho, os “especialistas” ouvidos pela imprensa são ignorantes (nunca leram Hannah Arendt sobre a “banalidade do mal” e nunca estudaram história do crime e da violência) ou agem de má-fé, na medida em que elaboram “filosofias românticas e vagas: filosofias que servem de pouco quando o criminoso tem um revólver, e os inocentes, não”. O sábio colunista está seguro de que “a única forma de proteger as escolas não está em desarmá-las perante um agressor desse tipo [jovens alienados]. Está em permitir que exista em cada uma delas alguém – um professor, um funcionário, um diretor, na impossibilidade de um policial permanente – que possa parar uma arma com outra arma”.
Veneno contra veneno, fuzil contra fuzil! A fórmula do colunista Coutinho é, no limite, o retorno triunfal aos tempos do farwest, do bang-bang. Que o bedel tenha um fuzil e duas beretas, além, é claro, de ser treinado na SWAT americana. Os estudantes e seus pais teriam motivo para se protegerem de ocasionais falhas do bedel armado, de maneira que também iriam armados para a escola. Na minha Faculdade, eu escolheria o Dirty Harry Callahan, o personagem policial de Clint Eastwood, para ser o funcionário xerife salvador da pátria.
João Pereira Coutinho referiu-se à história para lembrar que as sociedades do passado eram mais sanguinárias. De fato, isso é verdade. E uma das razões para isso é que não havia aparatos policiais especializados no controle da violência e da criminalidade, mesmo nas áreas urbanas. Outra razão é, goste ou não o colunista da “Folha”, a ampla difusão da posse de armas. Os indivíduos andavam cotidianamente armados, sempre prontos para resolver diretamente, num duelo ou numa tocaia, mal-entendidos e conflitos. Se Hobbes lhe parecer leitura demasiadamente antiga, Coutinho deveria voltar à leitura mais atenta da obra clássica de Norbert Elias, “O Processo Civilizador”, para compreender a simultaneidade e articulação entre a formação do Estado e a Civilização, isto é, o aumento do autocontrole de indivíduos e grupos sociais está historicamente relacionado com a ameaça efetiva de sanções por parte dos Estados, à medida que estes últimos se fortalecem. Antes que eu seja acusado de mostrar simpatias por alguma forma de Estado autoritário ou totalitário, esclareço que se deve entender fortalecimento do Estado no sentido de construção gradativa do monopólio público do poder de tributar, baixar leis e formar exércitos (e polícias). A historiografia tem mostrado que, no decurso da história, desde os séculos XV/XVI, as camadas sociais têm buscado lograr mais ordem e previsibilidade no convívio social, aproximando-se dos aparatos estatais de controle da ordem e distribuição de justiça. Recorrer à polícia e à justiça é parte inestimável do repertório moderno das pessoas, inclusive das mais pobres, de modo que nada é mais anacrônico do que sugerir essa volta ao “vigilantismo”.
Por outro lado, talvez convenha a João Pereira Coutinho dedicar algum tempo ao estudo da literatura sociológica sobre a criminalidade. Quem sabe descobrirá que a produção dos “especialistas” na sociologia do crime não é tão irrelevante e/ou ignorante como ele julga. Ademais, ela contém sugestões práticas colocadas à prova em diversas partes do mundo, obtendo êxito considerável. Em primeiro lugar, Coutinho encontraria evidências robustas de que uma pessoa armada não fica mais protegida da ação criminosa (roubo, seqüestro, homicídio). Ao contrário, as vítimas armadas possuem chance maior de serem mortas ou ficarem gravemente feridas. Por conseguinte, as estatísticas inclinam-se na direção de mostrar que um jovem alienado – que, curiosamente, planeja seu ataque à escola – não seria eficazmente detido em sua intenção de promover massacre por haver um professor ou funcionário armado. A surpresa está do lado do agressor, não do “defensor” improvisado.
Em segundo lugar, a sociologia do crime ajudaria Coutinho a perceber o equívoco de sua afirmação: a única maneira de proteger as escolas seria armá-las. Ora, ainda mais quando se trata de escolas de países ricos, pode-se recorrer às medidas de prevenção situacional: controle de acessos (uso de barreiras reais, detectores de metais, portas e janelas de materiais mais resistentes), telemonitoramento dos espaços (salas, corredores, ginásios, refeitórios, etc.), sistemas de alarme e comunicação de emergência. A criatividade dos arquitetos e engenheiros poderia multiplicar as dificuldades para os movimentos de eventuais agressores. Medidas como essas, além de reduzirem as oportunidades de ação dos “jovens alienados”, criariam condições para as pessoas se sentirem mais seguras. Duvido que o bedel armado com um fuzil transmita sensação de maior segurança a quem quer que seja dentro de uma escola. Talvez só na Academia Militar, pois nela o bedel é um sargentão das Forças Especiais!
Finalmente, uma vez que o colunista parece apreciar a formulação de heresias, me arrisco a avançar uma sugestão: já que o acesso de pessoas “alienadas” a armas de fogo é risco enorme para a sociedade, por que não integrar os bancos de dados dos serviços de saúde e dos registros de armas? Dessa forma, assistentes sociais e policiais poderiam visitar esses “malucos” e verificar se eles ou seus pais têm armas de fogo. Isso poderia funcionar na Alemanha e na Suíça, no Japão e nos Estados Unidos. No Brasil, a coisa é mais complicada. Mas tal medida feriria a liberdade do “maluco” ou seria uma “reação primitiva” dos “especialistas”?
Com a palavra, o senhor João Pereira Coutinho.
Por Marcos Lobato Martins, 17 de março de 2009. 1 Comentário


em março 21st, 2009 às 16:53
Olá, professor. O comentário não tem muito a ver com texto. Queria saber apenas se o senhor já leu isso: http://www.cartacapital.com.br/app/materia.jsp?a=2&a2=8&i=3642. É absolutamente revoltante.