Ponte das Amoras
Domingo, 8 de fevereiro. O sol estava a pique, à procura de uma borda de serra para anoitecer. Fazia horas que o ônibus vencia quilômetros de asfalto. Então, entre colinas suaves, cafezais e milharais, apareceu outro braço da represa de Furnas. E sobre ele, atravessando-o sem piedade, uma extensa ponte. A ponte das Amoras – soube o nome depois, na banca de revistas da praça da Matriz, em Alfenas.
Ao ver a ponte pela janela do ônibus, lembrei-me imediatamente dos versos de Drummond. No meio da ponte, o poema ficou ainda mais expressivo. Senti que estava pendurado sobre o “mar de Minas”, maior do que a Baía de Guanabara, repleto de águas doces e calmas, sem marolas, vento suave, habitado por um gado manchado de branco e preto que desliza até as margens bovinamente, pensando na vida. A ponte das Amoras – imaginei comigo mesmo – foi construída menos para ligar Alfenas com a Fernão Dias, mais para dar concretude à literatura, que nunca é apenas literatura. Literatura é sempre história, psicologia, sociologia e caminho entre o homem e seus sonhos, heroísmos, pretensões, loucuras e desejos, ainda que vãos. A ponte das Amoras é uma das mais belas pontes que correm pela nossa Minas Gerais. Mirante de ferro e concreto erigido para a gente reparar na “Lagoa”, de Carlos Drummond de Andrade:
“Eu não vi o mar./Não sei se o mar é bonito./ Não sei se ele é bravo./ O mar não me importa./ Eu vi a lagoa./ A lagoa, sim./ A lagoa é grande/ e calma também./ Na chuva de cores da tarde que explode,/ a lagoa brilha./ A lagoa se pinta/ de todas as cores./ Eu não vi o mar./ Eu vi a lagoa”.
Não sinto falta do mar. Mas não vivo sem os ribeirões e os rios, nem posso passar sem as lagoas e cachoeiras. As lagoas naturais são lindas. Na volta de Alfenas, atravessei novamente a ponta das Amoras, sob sol de quase meio-dia. A visão continuava linda. Porém, algo melancólico nublou meus olhos, turvou meu pensamento. O braço de água que a ponte das Amoras subjuga é artificial. A represa sepultou num caixão líquido, aquoso, azul, léguas quadradas de terras, plantas e bichos. Que desenhos fascinantes a represa encobriu? Que arranjos sutis ela sepultou, dando-nos de volta só um espelho de água plano, tranqüilo, quase imóvel? O espelho de água do lago de Furnas, com seus inumeráveis braços, é impressionante. Contudo, ele é monótono. A lagoa é monótona, mais do que calma, brilhante e grande. Quantas cores, texturas, formas, rampas, movimentos, uivos a lagoa escondeu para sempre? Continuo achando a ponte das Amoras linda. Vou atravessá-la muito mais vezes.
Sei, porém, que de suas amuradas não conseguirei acessar um mar de memórias que a represa cobriu: memórias de paisagens, de lugares, de famílias fazendeiras e campesinas, de bichos e plantas. Memórias que são naus adormecidas no fundo da água, sem fortuna, sem alegria. As memórias do submergido escapam à vista de quem só atravessa a ponte das Amoras. Distraído pela composição clássica do cenário de jardim inglês setecentista, quem percorre a ponte das Amoras não pensa em nada. Eu preciso resistir a essa tentação da paisagem do lago de Furnas, vista da ponte das Amoras. Tão contraditória, bela e brutal.
Por Marcos Lobato Martins, 14 de março de 2009. 5 Comentários



em abril 13th, 2009 às 01:18
Meu falecido pai trabalhou nesta ponte, o sr Jefferson Cabral, qdo estou passeando em alfenas dou um pulinho por ali , o local é mto bonito, um grande abraço , obrigado, tiau.
em abril 13th, 2009 às 01:21
Meu falecido pai trabalhou nesta edificação , sempre que vou a casa de minha mãe , a sra dna maria da rua prof carvalho junior 678, faço questão de levar minha esposa e filhos para um banhosinho na represa, fiquem com o grandioso, um abração , até um dia se o pai permitir, e ele permitirá porque é mto generoso, até lá , obrigado. tiau.
em março 19th, 2011 às 22:47
Eu amo a Ponte das Amoras, quantos carnavais eu passei neste local! Sou de Campos Gerais, e hoje quase não passo por estas bandas, mas não esqueci o quanto e belo o Lago de Furnas e fascinante a Ponte das Amoras.
em março 23rd, 2011 às 00:01
Com certeza! A Ponte das Amoras é um lugar de muitas histórias, muita beleza e uma referencia para as pessoas da região. Ponte que liga Campos Gerais / Alfenas. Cidades maravilhosas de povo acolhedor, ligadas por esse “elo” lindo e deslumbrante! Lindos relatos Marcos. Valeu.
em junho 22nd, 2011 às 13:55
Irei amanhã prá Minas, a Ponte é um dos roteiros; somente por sua causa, a verei com outros olhos. Também gosto de ver o que seria, todavia sua ênfase me inspira a “mergulhar”.