Homem simples do Jequitinhonha: Delmiro de Souza
Vazio o interior de Minas nunca foi. Nos tempos modernos, camponeses e faiscadores palmilharam os solos mineiros, formaram lugarejos e vilas. Outros tantos se espalharam como ermitãos pelo deserto, munidos da fé de que a vida solitária e simples agrada a Deus. Mourejaram entre pedras, árvores, capins e bichos, sob o sol e o escuro da noite. Eles foram embalados tão só pelo vento, ouviram o canto dos pássaros e as longas pausas de silêncio que fazem do mato solene mistério.
Um desses camponeses-mateiros é Delmiro de Souza, conhecido como Nem. Homem pacato, de modos generosos, que mora na região de Pinheiro, perto de Angico, localidade de quatro casas situada a cerca de 25 km de Diamantina. Seu Nem tem 55 anos, inteiramente vividos no mato, ao redor do pequeno sítio que é posse de sua família a mais de 100 anos. Dois cachorros e uma gata são suas companhias, observando os afazeres de Delmiro nas rocinhas de mandioca, feijão, café e no pomar ao redor da casa, onde o café e o urucum ponteiam. A casinha, construída sobre base de pedra, possui pé-direito caracteristicamente baixo, pequenas janelas quadradas e caiação branca. No seu interior, tudo é mantido na mais minuciosa ordem, debaixo de muita limpeza. O terreiro de chão batido apresenta-se rotineiramente capinado e varrido. E um fio de água limpa, nascido na vertente do morro, corre para a bica a dez metros da cozinha da casa.
A parca renda monetária de seu Nem, intermitente e espaçada, resulta da venda de café e urucum no mercado de Diamantina. Dois, no máximo três sacos, ele leva para a cidade no lombo do cavalo “Ruxinho”, em marcha que alcança uma hora. Uma vez na cidade, aproveita a ocasião para visitar alguns amigos e o irmão, fazer umas comprinhas – o fumo não pode faltar! – e sentir saudade do mato.
A implantação do Parque Estadual de Biribiri trouxe temores para Delmiro. Sua posse ficou dentro dos limites do parque, de modo que paira sobre ele a ameaça de ter que deixar a área onde sempre viveu. Nem mesmo a colocação de um coletor de energia solar para sua casa, feita pela Cemig logo após a demarcação do parque, lhe pareceu sinal certo de que o governo deixará que ele morra na posse em que antes viveram seus pais. De fato, o risco de despejo é real, tristemente real.
Fico pensando com meus botões: por que será necessário expulsar de suas posses tão raros moradores que há décadas vivem dentro do recém-criado Parque do Biribiri? Não há dúvida de que é a alternativa mais fácil. Paga-se a cada um deles uma indenização irrisória e, sob a ameaça do tacão da Justiça, toca-se cada um deles para o raio- que- o parta, como se fossem cães sardentos.
Mas poderia ser diferente. Os poucos camponeses residentes na área do Parque do Biribiri poderiam ser reimplantados em áreas do “colar de amortecimento” do Parque, em locais parecidos com os de suas posses originais. Algo que se faz, por exemplo, com as populações atingidas por barragens. Alternativa bem melhor do que simplesmente desapropriar moradores tradicionais.
Existiria ainda uma terceira alternativa, a de manter gente como Seu Nem em sua posse, dentro do parque. Isso exigiria programas de educação ambiental e de geração sustentável de renda. Os burocratas do governo falam sobre isso diante da mídia, para iludir o distinto público. Pregam mentirinhas para faturar verbas nos organismos internacionais. Na prática, porém, eles preferem se livrar dos antigos moradores. A conversa sobre identidade, memória e respeito aos povos tradicionais é pura afetação. Ao que eu saiba, camponeses como o Seu Delmiro de Souza são populações tradicionais!
Gente como Seu Nem poderia ser treinada para prestar serviços ambientais ao Parque, com base nos amplos conhecimentos empíricos que possuem e nas relações afetivas que a ligam ao lugar. Por que não fazer dele guarda-parque, brigadista (de incêndios florestais) e guia turístico?
Ainda não aprendemos a valorizar a história vivida de gente simples como Delmiro de Souza.
Algum dia aprenderemos?
Por Marcos Lobato Martins, 22 de março de 2009. Comentários






