Calor que faz pensar
O tempo, esta variável incontornável, tem sido objeto de discussão nos últimos dias. Entre assustado e incrédulo, o povo brasileiro acompanha as notícias sobre recordes de temperatura no início de março, intensidade da insolação, níveis perigosos de raios ultravioletas e baixos índices de umidade do ar. Os que podem se protegem do sol e fazem a alegria dos fabricantes de sorvetes e refrigerantes. Até os paulistanos, vistos na mitologia nacional como trabalhadores obsessivos, cabularam a sexta-feira para pegar praia na Baixada Santista e no litoral norte do estado.
Em situações como essa, a empáfia do gênero humano sofre arranhões. Não logramos nos tornar supernaturais, isto é, imunes às vicissitudes do clima. Pena que os arranhões não sejam ainda suficientemente profundos para destruir nossa máscara de “senhores do universo”, que tudo podem e tudo fazem nesse planeta pequeno e frágil. A propósito do clima, apresento abaixo texto de minha lavra publicado em um informativo do Festival de Inverno da UFMG, edição de 2006. Então, o que chamava a atenção dos moradores de Diamantina e dos participantes do Festival era a onda de frio que varria os topos do Espinhaço central.
O tempo na Diamantina
Há anos a cidade não experimentava temperaturas tão baixas no mês de julho. O frio e o céu limpo contribuem para singularizar ainda mais Diamantina, que é cenário de mais um Festival de Inverno. Parece que o frio quer se tornar protagonista nos eventos culturais que dinamizam o ritmo da vida na velha cidade. Mesmo que algumas pessoas o considerem excessivo, o frio é personagem bem-vindo: incita contatos humanos mais calorosos. E faz pensar sobre o clima…
A microrregião de Diamantina tem sua história bastante influenciada pelo clima. O frio e a chuva presidiram, no passado, os movimentos dos mineradores, tropeiros e lavradores. Os serviços de lavra no rio Jequitinhonha e seus afluentes exigiam trabalhos manuais penosos para desviar os cursos das águas e esgotar as partes dos leitos transformadas em catas. Bicames e rodas de minerar ocupavam o esforço de centenas de trabalhadores, livres e escravos. Esses serviços deviam ser realizados nos tempos de seca, quando o volume dos rios ficava bastante diminuído. Mas bastava uma chuva imprevista na cabeceira dos córregos para ocorrer acidentes e catástrofes, como a do Ribeirão do Inferno no tempo do contratador Felisberto Caldeira Brant, que dizimou centena de escravos. Ainda hoje, as dragas de sucção espalhadas desde São Gonçalo do Rio das Pedras até Senador Mourão interrompem as atividades nos meses de novembro a março. Período de sobrevivência difícil para praças e meia-praças, os trabalhadores do garimpo.
Se a seca favorecia a mineração, dificultava o funcionamento das fábricas de tecidos instaladas no município. Em primeiro lugar, a estiagem, principalmente quando virava seca prolongada, refletia negativamente sobre a oferta de algodão, produzido no Norte de Minas, Sul da Bahia e na região de Minas Novas. Muitas vezes, as fábricas diamantinenses foram obrigadas a importar algodão de São Paulo, por via ferroviária, a preços elevados. Em segundo lugar, o tempo de seca atrapalhava o funcionamento do maquinismo têxtil, que era movido pela força das quedas d’água. A diminuição da água nas cachoeiras provocava a redução das horas diárias de trabalho e do número de teares em operação. A fábrica dos Mata Machado sofreu continuamente com esse problema. A fábrica do Biribiri também, embora de maneira mais atenuada.
O frio nas serras que compõem a cadeia do Espinhaço castigava os animais e os viajantes que percorriam os caminhos para o Serro, Ouro Preto e Minas Novas. As temperaturas em junho e julho caíam freqüentemente a três ou quatro graus centígrados, atingindo a marca de zero no meio da madrugada. Os viajantes estrangeiros que visitaram a região no século dezenove deixaram registros inequívocos do frio nas serras vizinhas a Diamantina. Sofriam com ele principalmente os estafetas do Correio, os garimpeiros e as tropas de pedestres que guarneciam o antigo Distrito Diamantino. Animais das caravanas de muares morreram de frio nos precários ranchos dos caminhos que conduziam a Diamantina. Quantos tropeiros não foram acometidos de pneumonias ao transitar pelas trilhas geladas entre o Serro, Diamantina, Grão Mogol e Minas Novas?
Porém, era a chuva que prejudicava sobremaneira os transportes regionais. Na serra, chovia torrencialmente. Meses a fio, dias inteiros. A chuva erodia completamente trechos extensos das antigas estradas, principalmente nas encostas das serras. As enxurradas encorpavam os rios, que arrancavam as pontes precariamente construídas sobre o Jequitinhonha, o Araçuaí, o Junta-Junta. Os vaus viravam armadilhas – cargas, burros e pessoas perdiam-se na travessia dos leitos cheios dos rios. As tropas de comércio permaneciam presas durante semanas entre os cursos d’água, imobilizadas. Por isso, os preços dos mantimentos triplicavam em poucos dias no mercado de Diamantina. A chuva e as enchentes traziam, praticamente a cada ano, carestia e fome para os lugares urbanos no Alto Jequitinhonha, na virada do século XIX para o século XX.
Até os anos 1920, o frio e a chuva tiveram forte influência sobre a mineração, o comércio de tropas e o abastecimento na região de Diamantina, alterando o fluxo da renda e os níveis de preço, trazendo dificuldades e sofrimentos para os moradores. Durante o século XX, novas tecnologias e melhores estradas e comunicações contribuíram para atenuar grandemente esse quadro. No passado, o frio era um personagem cuja aparição deixava a cidade mais apreensiva do que charmosa. Nos tempos hodiernos, todavia, os eventos climáticos extremos deveriam nos fazer mais cautelosos e nos levar a repensar nossas relações com a natureza.
Por Marcos Lobato Martins, 7 de março de 2009. 1 Comentário


em janeiro 15th, 2010 às 00:59
Ola tudo bem? estou escrevendo porque eu adoro este site pois é muito show você está de parabéns muito legal