Arte, igrejas e modernidade em Minas Gerais

Dá pano pra manga a discussão sobre a trajetória complexa e multifacetada da modernidade nas terras mineiras, modernidade que se implantou não por inteiro e nem de uma vez só. Os parâmetros da modernidade ocidental – o mercado, a racionalidade instrumental, a ciência (e a educação) – desembarcaram por aqui há tempo. Mas de modo ambíguo, misturados a elementos da sociedade tradicional com fortes marcas ibéricas. O mundo rural que sucedeu a sociedade mineradora talvez possa ser acusado de ter reduzido a velocidade de assimilação de traços modernos pelas populações mineiras, mas não de haver interrompido inteiramente esse processo.

Visão da obra "A árvore da vida", de Yara Tupinambá, Matriz de Ferros.

O professor João Antônio de Paula, no conhecido livro “Raízes da Modernidade em Minas” (Autêntica, 2000), defende a tese de que a Capitania de Minas Gerais já nascera em grande parte moderna. A rede urbana, formada por arraiais e vilas interligadas por caminhos e trilhas de tropas de muares, constituía um desses elementos modernos. Nas “vilas do ouro”, despontava estrutura ocupacional diversificada, comércio intenso e monetizado. Outro elemento moderno na Capitania teria sido a própria estrutura administrativa colonial, extensa, em certa medida burocrática, pautada por objetivos pragmáticos (associados essencialmente aos interesses fiscais da Coroa). No plano cultural, as manifestações artísticas e literárias na Capitania guardavam razoável simultaneidade com a Europa. Os árcades e os compositores de Minas sabiam dos cânones da produção artística européia, e foram capazes de selecioná-los e adaptá-los ao ambiente social da Capitania. No século XIX, a marcha da modernidade em Minas Gerais prosseguiu. Avançou a educação, campo no qual destacaram-se os seminários e o Colégio do Caraça. No ensino superior, a Escola de Minas de Ouro Preto implantou no coração de Minas uma cultura cientificista, orientada para o aproveitamento racional dos recursos naturais da Província e valorizando a ação planejada do Estado como forma de promover o progresso. Por outro lado, a imprensa difundiu-se rapidamente, contribuindo para gerar um embrião de “opinião pública” nas Minas Gerais. Uma opinião pública engajada na “religião laica do progresso”. No campo econômico, os mercados e as relações de troca monetizadas não refluíram; ao contrário, a agricultura de abastecimento interno e as atividades manufatureiras e industriais, baseadas na lógica do lucro, dinamizaram a economia regional. Tanto que, em Minas Gerais, muitos empresários, principalmente nos setores têxtil e siderúrgico, realizaram feitos notáveis, a partir da segunda metade do século XIX. Na política, os mineiros abraçaram idéias modernas, consubstanciadas no liberalismo republicano. Dos tempos da Inconfidência aos da Proclamação da República. Para coroar essa “inclinação” das Minas Gerais à modernidade, deu-se concretude ao projeto da criação da nova capital, a cidade planejada de Minas, depois batizada como Belo Horizonte.

Ora, quando o problema é promover e/ou consolidar mudanças no imaginário coletivo e nos padrões da sociabilidade, tarefa inescapável é construir símbolos. Os símbolos da modernidade, artisticamente ressignificados. O trem de ferro foi o símbolo por excelência da modernização (incompleta) da Zona da Mata e do Sul de Minas. A Leopoldina foi cantada em prosa e verso. No centro mineiro, as fábricas galvanizaram o imaginário dos mineiros. Em toda parte, ao redor das principais cidades, a eletricidade anunciou ao povo das Alterosas a chegada da modernidade. E os artistas, primeiro com o barroco e o rococó, depois com o neoclassicismo e o ecletismo, na arquitetura, na pintura e na escultura, tentaram converter a sensibilidade dos mineiros para as diversas intrusões da modernidade nessa terra mediterrânea. Vejam-se, a título de exemplo, os parques das águas no Sul de Minas e as construções originais de Belo Horizonte, que exibem as visões mineiras da modernidade na virada do século XIX para o século XX. Mais recentemente, Cataguases encheu-se de obras modernistas e Juscelino Kubitschek transformou Belo Horizonte num campo para as artes modernas brasileiras. Em escala mais reduzida, algo similar ocorreu em várias cidades. Em Belo Horizonte, a igrejinha da Pampulha catalisou um debate mais amplo, e menos hermético, sobre a estética (e a ética) moderna. A igrejinha da Pampulha congregava painéis de Cândido Portinari e Paulo Werneck, jardins de Burle Marx e esculturas em bronze de Alfredo Ceschiatti. Os mais conservadores não aceitaram as formas da igreja, muito menos os painéis de Portinari. Por isso, a igreja demorou quatorze anos para receber a consagração. O Bispo Dom Antônio dos Santos Cabral dizia que ela era apenas um galpão. Aos poucos, porém, os belo-horizontinos e os mineiros fizeram da igrejinha da Pampulha um cartão-postal e um símbolo maior da modernidade mineira.

Nova Matriz de Santana, Ferros, MG.

Em Diamantina, o anseio das elites pela modernização do antigo Tijuco resultou no esforço de dotar a cidade de estrada de ferro, prédios neoclássicos, luz elétrica, teatro e cinema, calçamento e água encanada, hospício e asilo para velhos e incapazes. Todavia, uma das obras que melhor exteriorizaram a visão de “modernidade” das elites diamantinenses, plasmada em cultura católica, foi a construção da nova Sé. A antiga Sé de santo Antônio, na rua Direita, de origem setecentista, foi demolida e, no seu lugar, construída uma igreja muito maior, em estilo neocolonial (lembre-se que o modernista Lúcio Costa foi apegado ao neocolonial) para marcar a grandeza da Diocese e os novos tempos que a cidade vivia. Era hora de romper com o passado colonial, de Chicas da Silva, Joões Fernandes e Isidoros Mártires. Já o Seminário de Diamantina abraçou o neoclássico, enquanto sua basílica foi erguida no estilo neogótico.

Curioso é o caso de Ferros, uma pequena cidade incrustada na Serra do Espinhaço, cortada pelo rio Santo Antônio e emoldurada pela serra dos Cocais. Surgida a partir da mineração de ouro e diamantes, o lugar escolheu Santana como padroeira e, para ela, construiu, no último quartel do século XVIII, Matriz tipicamente barroca. Nos anos 1960, a população da cidade envolveu-se num debate intenso, que teve por alvo imediato a alternativa: reforma da antiga Matriz ou sua derrubada (seguida da edificação de nova igreja). Surgiu a campanha pelo “voto verde”, que defendia a construção de nova igreja, em estilo moderno. Contra os “verdes”, organizaram os propugnadores do “voto vermelho”, as pessoas mais conservadoras, que desejavam a preservação da antiga igreja. Ganhou o “voto verde”. E a artista plástica Yara Tupinambá foi chamada para fazer um mural decorativo para o altar da nova e moderna igreja. O painel, chamado “A Árvore da Vida”, continha as figuras de Adão nu e Eva seminua. A polêmica sobre o painel imediatamente grassou entre os moradores, alcançando repercussões nacionais e internacionais.

Tal como Belo Horizonte, que, com o conjunto da Pampulha, almejou assinalar sua opção pela modernidade, também Ferros, no episódio da construção da nova Matriz, enveredou pela busca da modernidade. Observe-se bem. Por meio de um plebiscito, que significa debate, argumentação, uso da razão, deliberação pelo voto, o povo de Ferros decidiu mudar algo importante na cidade. Talvez tenha pensado em se oferecer um projeto de futuro, secularmente construído. Pode ter enxergado, nesse momento, que era dele a responsabilidade, individual e coletiva, de avançar progressivamente na direção de fim determinado, de futuro bem diferente do seu passado, acanhado e tradicional. Ora, não é essa a promessa da modernidade? Uma modernidade incompleta, hipertardia e até inalcançável, é claro. Modernidade de fachada, especialmente numa cidade dominada pela pequena economia agropecuária e relativamente distante das áreas mais dinâmicas de Minas Gerais. Modernidade que se expressa, contraditoriamente, por meio da religiosidade, das formas visíveis do templo católico principal. Igreja e painel do altar que são como “bandeiras” que sinalizam a chegada de tempos distintos, regidos por outras lógicas econômicas, sociais e culturais. A arte prenuncia algo que se deseja, mas que talvez nunca chegue. A arte é, nesse caso, grito e anseio de liberdade dos mineiros que não aceitam a pura repetição do passado.

Por Marcos Lobato Martins, 31 de março de 2009.  9 Comentários

9 respostas para ' Arte, igrejas e modernidade em Minas Gerais '

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  1. carlos alberto da penha santos escreveu,

    em abril 1st, 2009 às 22:15

    Realmente a igreja de Ferros e um marco do modernismo e que era muito avançado para aquela epoca.
    Sempre, qdo posso assito missa lá naquela igreja.

  2. Roberto escreveu,

    em abril 27th, 2009 às 13:58

    por favor me fale somente o q foi a arte na sociedade mineradora e como foi q surgiu….valeu
    e outra coisa está ótima esse seu resumo sobre a arte mineradora…flwsss

  3. salvador nicacio escreveu,

    em junho 12th, 2010 às 14:12

    olha eu nasci em FERROS NO DIA DE MARÇO DE 1983 vivi praticamente meia vida la hoje moro no estado de curitiba , ferros foi pra mim uma cidade muito pacata tranquila e espitaleira minha familia ainda mora la , a festa do rosario e otima , cavalgada entao nem se fala ne mulherada linda da cidade

  4. salvador nicacio escreveu,

    em junho 12th, 2010 às 14:16

    FERROS 100 SOMBRA DE DUVIDA A MELHOR CIDADE DE MINAS < AMO MUITO A CIDADE MAS A CADA DIA QUE PASSA SE MODERNIZA MAIS <,,,,,,, os CASAROES ANTIGOS ESTAO SENDO DERRUBADO < CASAS NOVAS ESTAO SENDO CONSTRUIDAS < ISSO E RUIM NE PRESERVER A HISTORIA DA CIDADE

  5. Nelma Correia Lazzarin escreveu,

    em novembro 2nd, 2010 às 10:29

    Sou Nelma, nasci em Ferros em 1º de novembro de 1960. Vivi lá a minha primeira infância, depois minha família se transferiu para Itabira, e Vitoria, e eu uma vez casada fui para Italia e hoje me encontro no Maranhão.Ferros sempre ficou no meu coração, mesmo lembrando pouco dos tempos que lá vivi. Tanto que em 97 passei por la junto com o marido e alguns parentes. Precisava rever a cidade natal. Hoje na festa do meu MEIO SECULO,feliz da vida! revendo minha trajetoria de vida, resolvi procurar por Ferros na Internet, achei muita coisa e adorei.Eu gosto da historia de meu nascimento:Minha mãe estava na missa da Igreja Matriz quando começou a sentir dores muito forte, moravam do outro lado do rio, meu pai atravessou o rio velozmente para chamar a parteira e minha mãe foi em outra jangada junto á vovò. Quase nasci na jangada, so foi o tempo de chegar! Obrigada Ferros por me ter acolhido e me alimentado nos meus primeiros anos de vida. Sou feliz porque você faz parte da minha Historia

  6. wagner escreveu,

    em novembro 28th, 2010 às 16:17

    Ferros é o lugar onde nasci é se Deus quizer quero morrer lá, pois meus pais e parentes ainda moram lá, pois estou em Coronel Fabriciano a trabalho,onde sempre que tenho folga vou lá. Nesta igreja meus pais se casaram é nesta cidade foi onde eu estudei, saia de Esmertaldas de Ferros todos os dias é ia estudar na cidade, o tempo bão minha gente….

  7. aline escreveu,

    em janeiro 7th, 2011 às 23:47

    eu amo ferros cada detalhe a minha terra e mai linda de toda mg

  8. eugenia escreveu,

    em maio 14th, 2011 às 13:33

    Tbém sou de Ferros, mas há 28 anos moro em BH.
    Meus queridos conterraneos, Ferros hoje pede socorro. Estão querendo matar o rio Santo antonio. contruindo no seu leito 8 barragens com 22 mts de barramento. Peço a todos, mas todos mesmo que gostam dessa cidade que nos ajude a manter o rio santo antonio livre de barragens.
    Dia 21/05/2011 estarei lá na defesa desse rio, na igreja matriz juntamente com várias personalidades para mostrar ao povo que não nos calaremos diante de um crime sem tamanho. Se pudurem comparecer que sejam bem vindos.

    Abraços

  9. ELYRTON ANDRADE escreveu,

    em junho 2nd, 2011 às 09:43

    SOU FERRENSE DE CORAÇÃO E ALMA , INFELIZMENTE HOJE ESTOU UM POUCO DISTANTE , E RESIDO EM UBERLÂNDIA , MAS COMO FALEI O MEU CORAÇÃO E MEU AMOR POR ESTE TORRÃO NATAL NÃO SE ACABARÁ NUNCA .
    INFELIZMENTE ALGUMAS BELEZAS NATURAIS DESTE PARAISO ESTÃO SENDO DEIXADAS PARA TRÁS , COMO O NOSSO RIO SANTO ANTONIO DE TÃO BELAS PRAIS E DE AGUAS FORMOSAS E LIMPAS QUE MINHA INFÂNCIA E PRÉ-ADOLECÊNCIA NADAVA .
    COMO MEUS PAIS RESIDEM AÍ , SEMPRE QUE TENHO UM TEMPO, TENHO O PRAZER DE VOLTAR .
    ” FERROS , ÉS PEQUENINA , MAS O SEU POVO É GRANDE E TEM UM BOM CARAÇÃO ”
    ” ETA CIDADEZINHA BOA PARA SE MORAR ”
    REZUMINDO ..
    ” FERROS MINHA TERRA , MEU VALE AMADO , MEU TORRÃO ”
    ABRAÇOS..

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