Engarrafamento na Serra do Cipó

Na sexta-feira que antecedeu o Carnaval, e no dia seguinte, os telejornais mineiros anunciaram com destaque os imensos engarrafamentos nas saídas de Belo Horizonte. Quilômetros e mais quilômetros de trânsito lentíssimo, nas BR’s 381 e 040 e na MG-010. Os habitantes da capital fugiram para as praias e para o interior, reafirmando que Belo Horizonte é, de fato, o túmulo do samba. Em busca do litoral e das chamadas cidades “históricas”, milhares de famílias entupiram as estradas. E, na direção nordeste, enxames de automóveis buscaram as imediações da Serra do Cipó, para curtir o Carnaval em “contato com a natureza”. É assim todo ano: gente numerosa, excessiva mesma, que acampa nas cachoeiras, que invade os lugarejos nas franjas da serra, que lota os hotéis-fazenda e as pousadas encravadas nos contrafortes do Espinhaço central.
  

Via Expressa, Contagem, saída da Grande Belo-Horizonte no carnaval de 2009.

 

O movimento impressiona. As imagens de TV das estradas exigem reflexão, passado o sentimento inicial de descrença com as serpentinas de carros que a telinha apresenta. Algo de muito problemático esconde-se por detrás dessas imagens, que mais parecem cenas bíblicas de êxodo – o êxodo do Egito transformou-se na diáspora dos urbanóides metropolitanos, desesperados em busca da “tranqüilidade” do campo e ansiosos pela folia na cidadezinha antiga. A Canaã também é outra: a serra monumental, espichada, repleta de mato, de bicho e de água limpa, silenciosa… Até que a multidão da capital chega e se apossa de tudo, vorazmente.

A apropriação privada da natureza é o sentido do espetáculo que as filas de carros na estrada que leva para a Serra do Cipó proporcionam. No entorno do Parque Nacional da Serra do Cipó, proliferam sem controle a ocupação urbana e os negócios de lazer. As paisagens são negociadas por preços diversos, com a gostosa aquiescência de pequenas prefeituras, preocupadas tão somente com o cofre público e os benefícios privados. Um colar imenso de sítios, fazendas, pousadas, restaurantes, campings, centros de compras e condomínios fechados estende-se desde Lagoa Santa até Jaboticatubas. Em Santana do Riacho o mesmo fenômeno fincou pé, e agora avança pros lados de Baldim. Parece o “bonde” do tráfico – está tudo dominado. O Poder Público tem perdido a batalha de preservar as singulares paisagens do Cipó. A mercantilização da natureza caminha célere, sem deter-se diante de obstáculos impostos pelo Estado ou pelos movimentos ambientalistas. Na Serra do Cipó, os negócios do turismo ecológico, rural e de aventura prosperam – a roda da fortuna gira, de modo que não convém travar suas engrenagens por causa de paixões bonitinhas, politicamente corretas. Os habitantes das metrópoles, especialmente as camadas mais abastadas, desejam seu quinhão de “natureza”, seu pedaço de serra e de rio, para ocupar com base na mesma lógica produtivista, de acumulação que preside suas atividades na economia urbana. Cada parte da Serra do Cipó é retalhada, cercada, desfigurada, tornada rancho. Os proprietários se comprazem com uns dias de descanso, voltando revigorados para a competição que os aguarda na malha metropolitana. De modo que não cessa o desejo de mais gente por uma casa de campo, uma franja de serra, uma beira de rio – quem sabe até uma cachoeira exclusiva!

Ora, não há espaço suficiente para semelhante desvario coletivo. A serra não é infindável e inesgotável. As cachoeiras e os cursos d’água existem em número pequeno, não aos milhões ou bilhões. O planeta é um só. Simplesmente não há terra suficiente para tamanho esbanjamento.
A Serra do Cipó não suportará por muito mais tempo o espetáculo dos engarrafamentos, o consumo desesperado de suas paisagens, organizado em termos mercantis e privatistas. É preciso reverter essa cultura de apropriação individual da natureza, que pulveriza chalés sobre as cristas dos morros. É tempo de abandonar o gosto escapista pela natureza, marca das aristocracias românticas nas eras iniciais da Revolução Industrial. As populações metropolitanas precisam parar de entupir os parques nacionais, as praias, as áreas rurais mais ou menos preservadas alegando a necessidade de desanuviar o stress da vida urbana.

Parte da solução para a repetição monótona, e desesperançada, dos engarrafamentos na estrada para a Serra do Cipó virá de políticas urbanas. Incrementar o direito à cidade dos metropolitanos, investir nos equipamentos urbanos, apostar no dinamismo e na criatividade das culturas e dos espaços urbanos. Fazer as gentes gostarem das cidades, e ampliar nas cidades as oportunidades para viver o silêncio, a amplidão da vista, o multicolorido, o contato interpessoal gratuito, fraterno, generoso. As metrópoles brasileiras necessitam de parques imensos – a Serra do Cipó precisa ser trazida para dentro de Belo Horizonte. É mais simples, e mais barato. A praia também poderá ser colocada no coração da cidade, à maneira do Piscinão de Ramos – maravilhosa invenção carioca. Os calçadões podem ser espalhados sem dificuldade, como as praças, os jardins, os centros esportivos. Ao contrário do que muitos imaginam, se as metrópoles ficarem mais humanas, serão salvos os parques nacionais, as áreas rurais e as reservas naturais.

A grande cidade tem que ficar mais republicana, democrática e verde. A “segunda natureza” também requer carinho, embelezamento, cuidado, para que seus encantos magnetizem as multidões. Então, os carros ficarão mais tempo nas garagens, as estradas mais vazias, a natureza menos pressionada por apetites egoístas.

Por Marcos Lobato Martins, 22 de fevereiro de 2009.  1 Comentário

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  1. Cristiane escreveu,

    em fevereiro 24th, 2009 às 14:34

    Estive na Serra do Cipó no ano passado e vi o esfacelamento da natureza. Tinha estado por lá há uns 10 anos e fiquei horrorizada com o que vi ano passado. Latinhas de cerveja, sacolas plásticas de salgadinhos estavam por toda parte. Os homens vão deixam suas “pegadas”. Uma cidade foi construída aos pés da montanha. Condomínios disputam a maior quantidade de hóspedes. Nada disso existia há 10 anos.

    Comungo de sua idéia de que a natureza tem que ser levada para a cidade, tanto é que meu objeto de pesquisa mais precioso são os parques e jardins públicos… infelizmente não há lugar para eles nem na história e nem na vida urbana atual. Sejamos tecnicistas e vamos estudar a formação de classes operárias e a modernidade industrial – assuntos que nunca saem de moda. Vamos derrubar parques para fazer barragens – em Itabira o Parque Ecológico do Itabiruçu foi completamente destruído para construção de uma grande barragem de contenção de minério, e ninguém disse nada. Vamos deixar que as cavernas deixem de ser lugares de preservação para virar lugar de exploração. E, agora, o governo federal quer distribuir as terras das antigas estações ferroviárias para construção de casas populares: que o povo se multiplique e o governo paga suas contas!

    Voltemos ao século XIX, Ebenezer Howard sonhava com cidades-jardins, com cinturões verdes ao redor delas. Durante o XX, Niemayer, Lúcio Costa e seguidores sonharam com o vidro, o ferro e o concreto armado. Venceram os últimos. O verde perdeu para o cinza.

    Não há movimento ambientalista que resista ao desejo do capital.

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