Prosas do Espinhaço Central IV
Riacho dos Ventos
Ramiro tinha uma cicatriz sobre o olho esquerdo, feita a faca. O corte fora largo e antigo. No momento em que a lâmina abrira a pele de Ramiro, pela brecha escapou sua alma. Apenas um pouco de espírito restou dentro do corpo dele. Ramiro tornou-se mau, embora não tivesse nascido desse jeito. Aos quarenta anos ele parecia constituído de matéria mineral, tal como as pedras que brotam da terra como correições de formigas espalhadas em todas as direções, nos contrafortes do Espinhaço.
Ramiro era duro e seco. Vestido com suas roupas de tropeiro, rasgadas e sujas, assemelhava rocha coberta de musgos, cinzenta, áspera, enrugada, batida nas pelejas da vida. Ramiro cortava a carne desprevenida que ousava tocá-lo, lançava sombra fria sobre os vales encaixados e fundos que percorria. O homem era o oposto da flor, a danação da ternura. Mas era trabalhador, um dos melhores tropeiros da região. A história da transformação de Ramiro em pedra bruta é a história de uma longa rixa, dessas que se arrastam no meio das lavras, pelos caminhos e povoados no vasto mundo da cordilheira mediterrânea. O chão movimentado da serra, formado por massa de terra e rocha expulsa doloridamente do ventre da natureza, perturba os nervos dos homens, talvez a ponto de inclinar alguns para o amor da violência.
Ramiro nasceu em um pequeno sítio, próximo ao arraial de Datas. Seu pai, conhecido como Chico de Herculano, fazia de tudo um pouco. Cultivava cana e alambicava cachaça no seu sítio, vendendo a produção em Gouveia e Diamantina. Também minerava com dois ou três ajudantes. Tivera a sorte de encontrar bons diamantes num córrego vizinho a sua propriedade, o que lhe permitiu comprar dois lotes de burros e fazer-se tropeiro. Dizia para sua mulher, Aparecida: “Sabe, esses burros são nossa segurança. O garimpo é traiçoeiro, o que ele oferece no dia de hoje, toma no dia de amanhã. A gente mais perde do que ganha no serviço de mineração. A tropeiragem dará tranqüilidade para nós e nossos filhos, que já estão a caminho, né mulher?” Aparecida fingia que não ouvia a conversa de Chico, mas concordava com ele, pois era de família de faiscadores. Vira seu pai e seus irmãos se acabarem na faina de minerar. Não queria isso para seu marido, e muito menos para o filho que trazia no bucho. Aparecida notara que a regra estava atrasada, de modo que esperava uma criança. Pelos seus cálculos, a criança nasceria no fim do verão, entre fevereiro e março. Aparecida custou a tomar coragem para anunciar a boa nova a Chico de Herculano. Temia que ele tivesse um ataque de tanta felicidade. Numa noite clara, os dois sentados no alpendre da casa do sítio, Aparecida virou-se para o marido e falou subitamente: “Chico, seu filho vem aí. Eu estou de barriga! A comadre Maria afiançou que será um menino homem”.
Chico de Herculano engasgou com a fumaça do cigarro de palha que pitava. Perdeu a respiração por um instante, arregalando os olhos. Levantou alto os dois braços, como se agarrasse ar para os pulmões. Depois soltou uma gargalhada. “Comadre Maria nunca se engana, Aparecida. Será menino e vai se chamar Ramiro, nome do meu avô”. A mulher dobrou o pescoço e inclinou a cabeça em sinal de consentimento, enquanto Chico tecia planos em voz alta, visivelmente vermelho e agitado. De pé no alpendre, o sitiante-tropeiro entabulava conversa: “Esse menino será tropeiro, com a benção de Deus. Terá mais fregueses do que o pai e conhecerá a região inteira, como a palma de sua mão. Mão forte e destemida. Ramiro será uma lenda”. Aparecida ouvia o marido, acabrunhada, de olho na lua que subia no céu. Pensava consigo mesma, sem coragem de falar para Chico ouvir: “O mourejar de tropeiro é tão penoso. Santana proteja o meu filho”.
Os dias correram. Para Aparecida, o tempo passou devagar, arrastado, cheio de incômodos de grávida. Para Chico de Herculano, o tempo mais pareceu estirão de coelho do mato fugindo ao avistar raposa. Ele cercou a mulher de cuidados, nos limites de seus recursos e posses. Sabia que Ramiro seria seu único filho, porque a mulher tivera dificuldades para apanhar aquela semente. O útero de Aparecida, bem mais velha do que Chico, perdera a fertilidade há anos. Nas viagens que realizava entre Datas, Gouveia e Diamantina, levando milho, feijão, rapadura, pinga e frutas para a Intendência do Laje, Chico de Herculano temia deixar a mulher grávida sozinha no sítio. Não partia sem antes expor numerosas recomendações e pedir aos vizinhos que passassem em sua casa para saber se Aparecida precisava de algo. Na trilha, nem os cincerros das mulas madrinhas distraíam sua preocupação. Em Diamantina, Chico descarregava o mais rápido possível, corria os principais negociantes com o fito de vender suas cargas e arranchava na Intendência com o pensamento na barriga da mulher. No dia seguinte, antes do sol surgir atrás da Serra de Santo Antônio, ele acordava os ajudantes, perfilava os dois lotes de burros e carregava as bruacas com as encomendas dos fregueses de Datas e Gouveia. Mal tomava o café, coado à maneira tradicional, forte e sem açúcar, Chico de Herculano procurava o caminho de volta. Sua exasperação era tanta que contaminava os tocadores e os animais da tropa. A viagem ficava mais difícil e lenta. Ele xingava, com mau-humor dos diabos.
De retorno a sua propriedade, diante da casa do sítio, Chico gritava: “E aí, mulher, meu Ramiro já veio ao mundo?” Aparecida punha-se na porta da frente, os movimentos cada vez mais embaraçados, e respondia, resignada: “Ainda não, Chico. Ele está nas mãos de Deus”. Essa cena, assistida por burros cansados e indiferentes, repetiu-se muitas vezes. Até que, quando terminava a manhã sob chuva pesada no dia da enchente de São José, Chico foi recebido pela Comadre Maria, carregando nos braços, enrolado em panos brancos de algodão, o monturo de carne tenra e choro cortante que, anos depois, daria em Ramiro – peito duro como rocha, cicatriz no alto do flanco esquerdo.
Debaixo da vista do pai, Ramiro cresceu à procura do Itambé, a bússola dos tropeiros naquele mundo de serras e chapadões. O menino contemplou os céus, as pedras, as águas, aprendendo seus segredos e as variações de humor da natureza. Acostumou-se a mexer com burros e mulas, chamá-los pelos nomes e avaliar pormenorizadamente suas qualidades e defeitos. Entendia mais de burros do que de pessoas. Ramiro montou muito cedo. Vagou pela serra a cavalo, sem hora para voltar para casa, ora seguindo os caminhos das tropas, ora embrenhando-se no mato. Nas fraldas das serras, de pé sobre o dorso da montaria, à beira do abismo, Ramiro embriagava-se com o frio que lhe subia a espinha e sentia que podia tocar as nuvens. A galope, o menino engolia a bruma espessa que avançava cobrindo os campos cheios de canelas-de-emas, orquídeas e bromélias. Ele abria a camisa e desafiava o vento, brincava na chuva e julgava experimentar mais liberdade que os gaviões inertes no ar. Ramiro pensava ser um deus cujos domínios eram as serras. Sem que ninguém percebesse, Ramiro cresceu desdenhando as normas dos homens: “As coisas que o homem faz não têm comparação com a grandeza da cordilheira. Na serra, o homem não vale mais que o vento, a chuva, o rio e a pedra. Eu quero viver na serra, igual os bichos da serra”. No meio do escampado ou nas grimpas dos paredões, o menino se convencia de que todas aquelas paragens, belas e solitárias, jamais o deixariam partir.
Vendo o filho crescer, Chico de Herculano decidiu: “É hora de colocar esse menino na labuta da tropa. Senão ele acabará garimpeiro ou, o que é pior, vagabundo”. A mãe, como de costume, concordou. Então, Ramiro teve sua rotina alterada, sem compreender por quê. Aos dez anos de idade, ele começou a acompanhar a tropa do pai, num vai-e-vem incessante sobre as cumeeiras das serras do sul do Serro ao norte de Diamantina. Principiou como moleque na cozinha, depois assumiu o posto de tocador e chegou à condição de arrieiro. Na sucessão das viagens, Ramiro compreendeu a regra da tropa, adquiriu as habilidades necessárias ao comércio burriqueiro e moldou seu corpo e idéias ao ofício que abraçou em obediência ao pai.
“Ramiro, acorde preguiçoso. O sol está prestes a mostrar a cara. Ajude o Neco a juntar os burros” – ordenava o pai no dia de partida da tropa. O menino deixava a cama aconchegante, engolia um gole de café e saía pro tempo, sempre úmido e gelado por causa do sereno grosso da noite. Neco o esperava diante do alpendre, e os dois sumiam no mato à procura dos animais. Tiritavam de frio e enchiam-se de carrapatos, reunindo pacientemente os burros e mulas. Aos poucos, a pele de Ramiro ganhou consistência de couro de teiú – endureceu. Juntados os animais, Ramiro, Neco, João e Expedito botavam as cangalhas nos cargueiros, ajeitavam as bruacas nos lombos deles, dispunham as cargas com cuidado de não sobrecarregar nem ferir os burros, enfeitavam a madrinha com peitorais e cincerros de prata. Tudo pronto, Chico de Herculano aparecia na porta de casa, observava os ajudantes selarem seu cavalo e balbuciava a ordem: “Vamos depressa. A gente não tem o dia inteiro”. A tropa começava a andar devagar, como que a contragosto. Ramiro destinava para a mãe um olhar reverente, acompanhando os homens. Depois pensava nas quatro léguas que iria percorrer naquele dia, desde as cinco da manhã até as duas da tarde. Durante a jornada por trilhas nada fáceis, Ramiro e os tocadores verificavam continuamente o estado das cargas e o trote dos cargueiros. Acudiam os burros em dificuldade e, rearranjando os fardos, impediam que as cangalhas e bruacas produzissem feridas nos animais. Na frente, a madrinha ensinava o caminho. A pinga espalhada sobre a pele dos homens da tropa era o único alívio para as picadas de insetos.
Ramiro e seus parceiros preferiam as jornadas sob o sol. O calor aumentava o cansaço, mas podia ser remediado com um banho rápido nos córregos que desciam, numerosos, do cimo das pedras. Nos aguaceiros, as trilhas encharcavam-se, as pedras ficavam escorregadias e nas partes planas dos caminhos multiplicavam-se lamaçais e brejos. Conduzir a tropa, então, equivalia a ser condenado à pena de galés. As cargas deviam ser cobertas com couros de boi. Os cargueiros refugavam nos aclives e declives, avançando somente com a ajuda do braço e da voz dos tocadores. Quando a tropa alcançava um platô, e tudo parecia melhorar, os animais afundavam na lama até o pescoço. Era necessário descarregá-los, tirá-los do lamaçal, descobrir caminho alternativo mais sólido, recarregar os animais, retomar a marcha. Numa dessas ocasiões, Ramiro sentiu seus nervos esticados a ponto de esgarçar. “Diabo de vida! Ninguém sofre mais do que o tropeiro. Que futuro alguém pode ter nessa lida?”. Neco o consolou, garantindo que ninguém andava em maior liberdade que o tropeiro. Ramiro aprumou o corpo, limpou o suor na testa, sorriu com desdém e respondeu: “Liberdade é não trabalhar nem seguir as leis dos homens. Eu fui livre quando zanzava pelas serras, sozinho, longe dessa tropa maldita”.
De repente, Neco levou a mão à cabeça. Estancou, paralisado. Ramiro recebeu, nas costas e no rosto, chicotadas desferidas pelo pai, sem dó. Chico de Herculano tinha o rosto franzido, irado. “Filho meu não diz bobagem na minha frente. Seja homem, moleque atrevido. Não fuja do trabalho e respeite os mandamentos de Deus. Ramiro, eu não criei você para viver como fera, como as onças que aterrorizam os bichos nos capões. Você honrará meu nome ou não terá vida longa”. Ramiro apertou as mãos, de modo a conter a vontade de atacar o próprio pai. Voltou ao trabalho sem dizer outra palavra, emudecido até que a tropa chegasse ao próximo rancho. Ali, os corpos fatigados não puderam descansar imediatamente. Ramiro e os tocadores desceram as cargas, empilharam as bruacas cuidadosamente, cobrindo-as com os couros. Tiraram as cangalhas dos animais, escovaram os dorsos dos cargueiros e trataram com ungüentos caseiros as pequenas feridas que ameaçavam machucar os burros. Puseram para pastar os vinte animais da tropa. Acenderam o fogo, coaram café, cozeram feijão com toucinho e farinha, e comeram. Extenuados, as costas ardendo e os pés inchados, estenderam lado a lado os corpos no chão do rancho, uma simples choupana coberta de capim. A débil fogueira e os panos que guarneciam as costas dos burros do contato direto com os arreios foram as únicas proteções de Ramiro, Neco e dos outros tocadores contra o frio e as goteiras.
Naquela noite, dormida no alto da serra, a distância de um dia de marcha de Diamantina, Ramiro sonhou com uma criatura esquisita. Atarracada, a criatura não era homem nem mulher, mudava de cor de acordo com a incidência da luz, grunhia sons indecifráveis e carregava um diamante no pescoço curto. Ramiro, estático, viu a criatura se aproximar, pular sobre ele, recitar-lhe algo dentro do ouvido e roubar-lhe a infância. O moço acordou sobressaltado, decidido a evitar os sonhos. Esperou o dia raiar, como invariavelmente ocorre aos bichos da cordilheira: apenas existindo.
A marcha seguinte da tropa de Chico de Herculano terminou na Cavalhada Nova. As mulas foram amarradas nos postes da Intendência do Laje. Ramiro voltaria a Diamantina tantas vezes que a cidade perdeu para ele os encantos. Mas, na primeira vez, o moço ficou deslumbrado. Os sobrados, as igrejas, as ruas calçadas de pedras, a quantidade de gente, o trânsito de tropas em direção ao Mercado, as lojas sortidas, tudo isso encheu os olhos de Ramiro. Ele caminhou pela cidade, ao lado de Neco, quase sem respirar. Reparava em cada coisa, mas jamais deixava de admirar a serra além do Rio Grande e o Itambé, acercado de nuvens. “Neco, quanta gente! Mil casas, becos sem saída, tantos cheiros e sons. O céu só se distingue encaixotado pelos beirais dos telhados. E nem se consegue ver a distância. Isso é um labirinto, Neco. Como se vive aqui dentro?” Assombrado, o companheiro de tropa retrucou: “Vosmecê mais parece bicho que homem. É melhor morar aqui do que lá, no meio do mato, numa grota esquecida da serra”.
Chico de Herculano cumpriu a via sacra de visitas a comerciantes e amigos, bem mais demorada do que o passeio dos seus homens pela capital do Norte. Ramiro e Neco retornaram à Intendência. Ramiro admirou-se do tamanho da cobertura do mercado, da qualidade da construção e do fervedouro de tropeiros no seu interior. Cargas, arreios, cangalhas e homens dividiam o recinto como se fossem abelhas: agitados, mas sem desordem. Lá fora, no largo defronte e nas ruas vizinhas, os cargueiros entupiam as veias que levavam ao coração da cidade – a Catedral de Santo Antônio e as residências elegantes da Rua Direita. E o som dos cincerros de tropas que apontavam na serra cobria de música a imaginação da molecada, debruçada sobre as amuradas da Intendência, observando os tropeiros, pedindo café e comida preparados nos bules e panelas de ferro que pendiam das trempes, armadas sobre fogueiras ali mesmo, no interior do enorme galpão.
Na segunda vez que esteve em Diamantina, Ramiro e Neco travaram conversação com tocadores e arrieiros de outras tropas, originárias de lugares cujos nomes desconheciam. Curimataí, Grota Grande, Pedra Menina, Campinas, Capelinha, Araçuaí. Ramiro animou-se a beber com os pés-rapados funcionários dessas espécies de rústicas legações estrangeiras estacionadas em Diamantina. Bebeu até tontear. E entrou no carteado, jogado sobre um couro de boi estendido no centro do galpão da Intendência. Ramiro apostou sua primeira paga como tocador. Ganhou várias rodadas, sentiu-se imbatível, desafiou a tropeirada toda que cercava o cassino improvisado. Neco tentou advertir Ramiro que era hora de parar, pois a sorte nas cartas muda de lado quando a pessoa menos espera. Foi em vão. Ramiro insistiu no desafio, afrontando os homens no Mercado. Do círculo mais afastado dos que acompanhavam a cena, veio à frente um arrieiro moreno, jovem, a cabeça coberta por elegante chapéu de couro marrom. O arrieiro sentou diante de Ramiro, disse seu nome e propósito: “Eu sou Nicanor, lá das bandas de Pedra Menina, na Serra do Gavião. Aceito seu desafio, moço. Está aí o dinheiro da aposta”. Ramiro encarou o adversário desdenhosamente: tinha certeza que a noite era sua. As partidas, cada vez mais tensas, mergulharam o povaréu do Mercado num denso silêncio. Podia-se ouvir o abanar das orelhas dos burros amarrados no largo diante da Intendência, a muitos metros de distância. A brisa fria da noite, além de dissolver as espirais de fumaça lançadas pelos cigarros de palha, empurrou a sorte para o lado do arrieiro de Pedra Menina. Ramiro perdeu o que havia ganhado antes, e também os mil-réis de sua primeira paga. O pior para ele foi ter que ouvir as risadas da tropeirada, que se considerou vingada pelo jogo astuto de Nicanor. Ramiro era puro desespero, mas ficou paralisado quando Nicanor pôs o dedo em riste, quase tocando o nariz de Ramiro, e disparou: “Menino desaforado, dizer bravata é fácil. Sustentar o que se fala é coisa pra homem”. Humilhado pelo gesto do arrieiro de Pedra Menina, Ramiro escondeu-se nas cargas de sua tropa, encolhido sob os couros das bruacas. Lembrava uma fera acuada na toca, os olhos arregalados, a respiração fora de ritmo e o coração palpitando. “Que baita humilhação. O tal Nicanor me desmoralizou diante daquela gente que nem conheço. Rirão de mim pelo sertão. Ai, que vergonha”. O sono não veio aliviar a mente de Ramiro.
Na manhã seguinte, o rapaz, arrasado e sem dinheiro, tomou café amargando os esculachos do pai. Chico de Herculano soubera do acontecido de madrugada, enquanto bebia com amigos num cabaré do Beco do Mota. O orgulhoso dono de tropa, que nunca perdera carteado, encarou o tombo do filho no jogo como mácula na reputação da família. Furioso, Chico de Herculano esbravejou com o filho alto o suficiente para atrair os olhares dos homens e animais amontoados no largo da Cavalhada Nova. O sofrimento de Ramiro parecia vir em ondas, na forma de pancadas como as derradeiras chuvas de março. Ele, sem se dar conta, perdia as reservas de docilidade. Porém, Ramiro compreendeu definitivamente que não é fácil viver entre os vivos.
A terceira vez de Ramiro em Diamantina, após intervalo incomum que se prolongara por meses, foi menos conturbada. O arrieiro de Pedra Menina não estava na cidade. Ramiro corou de alívio. “Aquele cabra inimigo está longe. Neco, a cidade é só minha. Vamos logo pegar o que ela oferece”. Como os serviços de descarga da tropa terminaram, os dois deixaram para trás a Praça do Mercado. Ramiro e Neco entraram em botequins, o tempo necessário para beber uma, no máximo duas garrafas de cerveja. A esmo, subiram um beco e desceram por outro. Faziam isso havia horas, quando Ramiro empacou feito burro, diante de uma mulata sentada na pedra. Neco notou que o parceiro descobrira coisa mais interessante do que estrelas, insinuada através de um decote de chita colorida. Ramiro desejava ver a queda de um botão no vestido de Neguinha. Este era o nome da mulata, cujos seios fartos e colo liso como seda enfeitiçaram Ramiro. O bote de Neguinha arrebatou Ramiro. Ao dar novamente por si, ele estava num quarto paupérrimo e desalinhado, nu sobre o corpo macio e em pêlo da mulata, ofegante, suado, enlouquecido. O cheiro do sexo entorpeceu Ramiro, que não viu as estrelas circundarem o céu, nem o quê havia levado o pouco dinheiro que lhe sobrara na algibeira da calça surrada. Quando acordou ele estava sozinho no quarto estranho. Vestiu-se, abriu a porta, cruzou o corredor e respirou novamente quando já andava na rua, descendo na direção da antiga basílica. Ao encontrar Neco, Ramiro interrompeu o serviço de botar as cangalhas nos cargueiros. Abriu o coração com o amigo: “Estou apaixonado, Neco. Quero para mim aquela mulher”. Num tom professoral, Neco falou: “Ramiro, larga disso, homem. Aquela mulata é mulher pública. Pegou seu dinheiro, deve estar rindo de vosmecê agora mesmo. A serventia dela é aliviar os instintos de marmanjos afoitos”. Ramiro ficou desolado. Custou a crer que Neguinha o enganara como a uma criança ingênua. O peito de Ramiro principiou a guardar desconfiança de mulher. As fibras do coração do rapaz foram rompidas, e ele jurou que nunca mais procuraria mulher para casamento. “Numa época dessas, casamento é encrenca. Mulher só para matar minhas vontades”. Ramiro pediu a Neco que nada contasse ao pai sobre o encontro com a mulata. Temia que Chico de Herculano lhe aplicasse nova descompostura. O que seria improvável, uma vez que Chico era contumaz freqüentador da cama de Neguinha e das meretrizes do Beco do Mota.
As águas do tempo lixaram o mundo da cordilheira. Nas pedras, produziram mudanças cumulativas, infinitesimais, observadas apenas por quem conhecesse em demasia cada forma, reentrância, corte ou variação de tonalidade. Sobre os campos e as matas, a renovação desvelava forças subjacentes oriundas do âmago da terra. Os bichos, entretanto, envelheciam depressa, como estrelas cadentes que riscam a noite em brilho disparado. Na verdade, tudo adquiria aspecto ruiniforme. Ainda agora é assim. Mas Deus não compartilha com os homens da serra essa visão terrível. No meio das ruínas, a mais constrangedora era Ramiro. Os anos produziram efeito dúbio sobre ele. Ramiro esticou e engrossou, virou homem forte, troncudo. Seu rosto e sua pele, todavia, perderam o viço, enrugaram. Aos dezoito anos, pouco mais ou menos, ele inspirava certo temor e enorme desconfiança. Parecia uma máscara funerária, envelhecida pela ação dos elementos, incapaz de exibir sentimentos sutis. Ramiro mostrava-se indiferente ou convulsionado. Entre esses dois extremos, seu rosto não adquiria qualquer outra feição intermediária.
Por essa época, Ramiro era arrieiro, assumindo muitas tarefas que Chico de Herculano, por causa da velhice, abandonava gradualmente. E quanto mais controle o moço assumia sobre a tropa, mais soberba e agressividade lutavam para escapar de seu íntimo. O companheirismo com Neco esfriara. Ramiro procurava a companhia de mascates turbulentos, de rufiões e marafonas, jogadores de cartas e toda espécie de vagabundo que rodeava os mercados do Serro e Diamantina. Um freio, porém, ainda impedia que Ramiro deslizasse inteiramente para o terreno das feras. Talvez lembranças da mãe e da vida pacata no sítio em Datas. Mas era só um fio, fino e frágil, que poderia romper com mais um dissabor. Precisamente o que aconteceu debaixo de nuvens de chumbo, a meia légua do Acaba-Mundo.
A tropa liderada por Ramiro rumava de Capivari para Curralinho, viajando da Serra do Gavião para Diamantina. Os cargueiros estavam pesados com mantimentos, ansiando o descanso no pouso. A subida era longa, realizada numa trilha estreita, sinuosa, com diversos trechos de pedra escorregadia em que havia passagem para um único animal. No sentido contrário, descia a tropa que acabara de descarregar feijão e milho na Mina da Boa Vista, também ansiosa por alcançar o pouso em Capivari. O prenúncio de tempestade era o que fazia homens e animais nervosos, apertados entre extensas paredes de rocha. Nicanor conduzia a segunda tropa. Numa curva da trilha, justo no trecho mais estreito, as duas mulas madrinhas bateram de frente. Os animais pararam, os homens também, aturdidos, cansados e prevendo barulho. Logo estavam frente a frente Ramiro e Nicanor, remoendo desafetos. Ramiro ameaçou primeiro: “Arrieiro de merda. Tira da frente essa sua comitiva. Eu passo primeiro”. Nicanor franziu o cenho de raiva: “Quem é vosmecê para mandar assim? Ainda não aprendeu que homem não canta bravata?” Ramiro encheu-se de valentia, porque era a chance de vingar a humilhação que sofrera na Intendência de Diamantina. Gritou a plenos pulmões, agitando no ar as mãos cerradas: “Traste de Pedra Menina, é melhor recuar os seus burros ou sentirá o peso desses punhos”. Nicanor desceu da montaria, tirou o chapéu da cabeça e cuspiu no chão. “Vem tentar, mariola. Desce da mula e prepara o corpo pra surra”. A tensão paralisou os tocadores de ambas as tropas. Os cargueiros fizeram silêncio, como bichos que aguardam a contenda que define o chefe do grupo. Ramiro e Nicanor aproximaram-se, trocando insultos. Ramiro, transtornado, exibia olhos vermelhos de fogo e músculos retesados. Nicanor caminhava como quem vai à igreja – manso e despreocupado. Após alguns passos, houve o atracamento. Ramiro era mais forte, mas Nicanor muito mais ágil e experiente. Em segundos, a briga pendeu para a vitória de Nicanor, cujos golpes, variados e certeiros, tiraram sangue no rosto de Ramiro. Sentindo-se derrotado, Ramiro desesperou-se. Chorou feito criança, misturando raiva e dor. Num gesto dramático, Ramiro arrancou da cinta uma faca comprida. Estava disposto a matar. Arremeteu contra Nicanor. Nicanor esquivou-se, aplicando uma rasteira em Ramiro. A queda nas lajes de pedra desarmou Ramiro. Nicanor pulou com os joelhos sobre o peito de Ramiro e socou-o no chão, duas ou três vezes. Recolheu a faca e apontou-a para os olhos de Ramiro. Ramiro implorou: “Não, não, por favor não me mate”. Na última hora, Nicanor desistiu de desferir golpe fatal no adversário. “Você não é de nada. E com a sua faca, obrigarei você a saber disso”. Cuspiu no rosto de Ramiro e abriu um talho sobre seu supercílio esquerdo. Ramiro, no chão, novamente derrotado e humilhado, viu o arrieiro de Pedra Menina quebrar a lâmina de sua faca nas pedras da trilha. E passar com sua tropa, enquanto os tocadores de Ramiro abriam caminho para o vencedor. Ramiro balbuciou, a boca no nível do chão, experimentando gosto de terra e sangue: “Eu mato esse cabra. Chegará o dia que colocarei um balaço no meio da testa dele”. Nicanor seguiu altivo, embalado por “vivas”, pronunciados por seus homens. Atrás dele, na direção de Curralinho e Diamantina, a notícia da briga correu como rastilho de pólvora.
Ramiro levantou arrasado, o lado esquerdo do corpo coberto de sangue. Prosseguiu a jornada, cabisbaixo, lamurioso. Na sua tropa, nem os cargueiros emitiram qualquer som antes de alcançarem Curralinho. Ramiro era soluços e melancolia. Algo havia quebrado dentro dele, rasgando de vez qualquer floreio sonhador que restasse no seu espírito. Daí em diante, tudo em Ramiro ficou impulsivo, cruel e fatal. A cicatriz esculpida na sua testa pela ira de Nicanor seria, nos anos vindouros, a prova material do terrível choque ocorrido na trilha do Acaba-Mundo. Choque sem assimilação, incidente implacável. O ponto final na história até então ambígua de Ramiro. Depois da surra, Ramiro perdeu os tênues matizes que ainda lhe conferiam humanidade. Virou instinto e violência. Nada mais. Mesmo assim, ele continuou a fazer pilhérias com os homens de sua tropa, embora não admitisse gracejos com sua pessoa.
Como moto contínuo terrível, Ramiro seguiu tropeirando para cá e para lá, para cima e para baixo. No decorrer de 300, 350 jornadas, talvez mais, Ramiro deitava-se fora dos ranchos, as costas amassando o capim alto e ficava olhando o desenho aleatório das nuvens no céu, a dança das folhas nas copas das árvores e o vôo dos pássaros. Quando caía a noite, na mesma posição, Ramiro contava estrelas e riscava constelações. Enquanto isso, seus dentes enegreceram – Ramiro adquirira o hábito de mascar fumo –, sinal externo do que acontecia com seu espírito. Além de Ramiro, muitas coisas no Norte mudaram em marcha lenta. Uma das mudanças foi a aproximação do trem de ferro pelo vale do Rio das Velhas, com destino a Pirapora, Montes Claros e a fronteira baiana.
A estrada de ferro agitou os sonhos sertanejos, colocou as cidades em disputa – todas queriam para si uma bela estação – e atraiu, como serpente que hipnotiza passarinho, as tropas do comércio burriqueiro. O contato com as estações estimulou a importação de artigos industrializados, mercadorias de luxo e as viagens de pessoas, facilitando o trânsito para as capitais de Minas e do Brasil. Ramiro foi um dos tropeiros que redesenhou as trilhas dos seus cargueiros, colocando-se a serviço da Fábrica de Tecidos São Roberto que homens de fortuna instalaram no distrito de Gouveia. Os lotes de burros de Ramiro abasteceram a Fábrica de óleos, graxas e pequenas peças de maquinário têxtil descarregados pelo trem, primeiro na estação de Matozinhos, e depois na estação de Cachopa, nas proximidades de Curvelo. Para alcançar a estação de Matozinhos, ponto extremo da estrada de ferro em meados da década de 1890, Ramiro tornou-se freqüentador de uma rota cujo movimento começou a crescer justamente por causa do trem. A rota que cruzava o Rio Paraúna, no povoado do mesmo nome, e o Rio das Velhas, em Jequitibá. Nessa rota, a cerca de quatro ou cinco léguas de Gouveia, formou-se o pouso de Riacho dos Ventos. Um lugar agreste, assolado por vento que nunca cessa, situado no socavo de montanha magnífica. Riacho dos Ventos tornou-se o rancho preferido do tropeiro que era já mais pedra do que gente.
Com efeito, o lugar possuía beleza singular. Dois platôs, estreitos, dispostos como degraus de uma escada, abrigavam meia-dúzia de casebres, feitos de adobe, cobertos de capim e com chão batido. Cada casebre exibia na porta de entrada pequeno gramado e, nos fundos, quintal esticado cercado por paus desalinhados. No platô mais baixo, serpenteava entre as paredes das serras o curso do Paraúna, até embicar numa cachoeira. As águas precipitavam-se nas costas de pedras escuras, da altura de 40 ou 50 metros, produzindo grande quantidade de espuma branca, encardida, e uma fina camada de névoa. O barulho da cachoeira, entretanto, não era ouvido no topo das serras laterais e nem no platô mais alto. O vento abafava o som da água. Nas escarpas que guarneciam Riacho dos Ventos, árvores pequenas e retorcidas disputavam espaço com os maciços de pedra, cobertos por grossas camadas de lodo e liquens. A luz do sol desenhava filetes de prateados e sombras nas faces das serras, num jogo de tonalidades que extasiava os viajantes. As nuvens passavam rentes aos platôs, roçando as serras, tal qual massa líquida canalizada por enorme bicame. No centro do grupo mais denso de casas, no platô mais elevado, ficava o rancho de Luis Almeida, homem originário de Gouveia, que se mudara para Riacho dos Ventos com a mulher e a filha fazia poucos anos.
O rancho de Seu Luis era típica venda de beira de caminho, ao lado da qual, à distância de 30 braças, havia um galpão circundado por meias-paredes de madeira que servia para depositar as cargas dos animais de tropa. Todo o conjunto – casa de morada da família, venda e rancho – ocupava o centro de área plana e descampada, atravessada pela trilha. O sítio era acolhedor e Seu Luis conhecido por praticar bons preços, ter prosa agradável e fácil trato. Na cozinha da venda, a mulher de Seu Luis garantia comida simples, farta e muito bem feita. Para atender aos fregueses, o negociante contava com a ajuda da filha, moça simpática e prendada. O nome dela era Ritinha. Os tropeiros se admiravam com a beleza e a candura de Ritinha, ainda mais por que ela estava na idade de casar. Muitos devem ter sonhado com a felicidade de casar com Ritinha, morena de traços esmerados, corpo elegante, voz macia, olhos e cabelos negros como o carvão, pele sedosa e lábios carnudos, seios rijos, pernas lisas como diamantes lapidados. Os homens da região talvez a vissem como modelo vivo favorita de um grande pintor da Corte, por isso apreciavam respeitosamente a graça e a beleza da moça. Temiam magoá-la com o menor gesto impertinente. O que levava Ritinha a se sentir segura naquele mundo de beira de estrada, acanhado e rústico.
Havia uma exceção: Ramiro. Ele nunca amou Ritinha, sequer pensou nela como sua mulher. Ramiro apenas desejava possuir Ritinha, gastar as carnes dela. Desejava transformá-la numa mulher como a Neguinha do Beco do Mota, com a diferença de que exigiria exclusividade de deitar-se com ela. Ramiro adivinhava, com riqueza de minúcias, as formas e as texturas escondidas por baixo dos vestidos de brim de Ritinha, levemente decotados. Fechava os olhos e ficava a imaginar os gostos da moça, da boca, do colo, do púbis, das coxas. Ramiro sentia que era apenas uma questão de tempo. Quando sua vontade de possuir Ritinha estivesse suficientemente crescida, nada o impediria de agarrá-la. Numa noite de sono atribulado, Ramiro sonhou que se metera numa luta feroz contra o Diabo por causa de Ritinha. O Diabo tentava tirar-lhe o corpo da moça que já lhe estava entregue. O cheiro de enxofre do Demônio fez Ramiro suar frio e deixar de respirar o hálito quente e sensual que brotava da boca da moça. A cena pareceu tão real que Ramiro pôde sentir a tensão que esticava seus músculos no embate terrível com o Diabo. No sonho esquisito, o tropeiro com cicatriz no flanco esquerdo do rosto venceu o Chifrudo, conservando como troféu o corpo de Ritinha. Ao acordar, Ramiro convenceu-se de que havia adquirido o direito de fazer e acontecer com Ritinha, de usar métodos de qualquer espécie para possuir a filha do dono do rancho, a coisa mais linda em Riacho dos Ventos. Ardilosamente e em surdina, ele se preparava para essa ocasião, como macho que instintivamente procura a melhor fêmea para copular. “Essa Ritinha não me escapa!”, murmurava Ramiro. O vento que rugia na superfície das escarpas e dos platôs escondia o rumor agressivo das maquinações do tropeiro, fazendo-se seu cúmplice. Por isso, Ramiro apreciava tanto o pouso em Riacho dos Ventos.
Alheia ao perigo, Ritinha seguia ingênua. Sonhava com o viajante que se casaria com ela e a levaria para Diamantina, Serro ou Curvelo. Ela acreditava que esse homem estava próximo e lhe mostraria a face versátil da vida, livrando-a da monotonia de Riacho dos Ventos. Então, aguardava, ajudando seu pai a tocar o rancho. Todos os dias, porém, Ritinha consumia uns minutos na frente de um espelhinho, pendurado na parede do quarto, penteando languidamente os cabelos, pinçando as sobrancelhas, recortando na imaginação os traços de seu príncipe – que, na verdade, maiores chances teria de ser mascate ou tropeiro.
E o príncipe apareceu, num dia de sol, calor e vento mais fresco do que suave. Ritinha percebeu de imediato a chegada do moço, acompanhou-o desmontar, amarrar a montaria numa das estacas ao redor do rancho e dar ordens para os tocadores fazerem os preparativos de praxe para o descanso da tropa. Ritinha viu o moço entrar na venda de seu pai e sentar-se num canto, diante da única janela. Correu para atendê-lo, desmanchada em sorrisos. Ele disse seu nome e fez elogio à beleza de Ritinha, fitando-a com vivo interesse. Ela quase perdeu o ar. O sangue lhe subiu às bochechas, corando-as. O moço notou e sorriu. Ela tampou a boca com a mão direita, escondendo o riso. Os dois trocaram olhares, observados por Seu Luis detrás do balcão. O dono do rancho aproximou-se deles, ficou diante do moço e perguntou: “Que negócios trazem vosmecê aqui? O senhor é novo nessas bandas, não é mesmo?” Em tom respeitoso, o moço informou: “Sim, eu sou novo nessa trilha. Fui contratado por comerciantes do Serro para buscar querosene na estação de Matozinhos. Agora farei essa rota mensalmente. Ah, meu nome é Nicanor”. Ritinha ouviu a resposta com alegria indisfarçável. “E vosmecês, quem são?” Ritinha antecipou a resposta do pai, dizendo: “Eu sou Ritinha e esse é meu pai, Luis Almeida. Somos os donos do pouso. O que devo servir ao senhor e aos seus homens?” Nicanor afastou a cadeira, ficou de pé e estendeu a mão para Seu Luis e Ritinha. Cuidadosamente, pediu comida e bebida, sem tirar os olhos da moça. “Eu também preciso de algumas quartas de milho para alimentar os cargueiros da tropa”, completou Nicanor. Seu Luis respondeu: “Sem problema. A Ritinha pegará no paiol o que vosmecê mandar. Mas primeiro comam vosmecê e seus ajudantes”.
O sol procurou seu pouso atrás das montanhas, permitindo o avanço lento das sombras sobre Riacho dos Ventos. Nicanor havia se retirado para o rancho, descansando algumas horas no meio dos tropeiros. Ritinha terminou os serviços na venda, e então foi para o quintal cuidar da horta e das criações. Saiu de dentro da venda com um balde na mão, aguou as plantas e rumou para o paiol. Encheu o balde de milho, encostou as costas na cerca e começou a dar comida às galinhas, alvoroçadas diante dela. Nesse instante, surgiu um homem. Veio do rumo do rancho. Cumprimentou a moça, conversou com ela, ajudou-a no cuidado com as galinhas. Os dois trocaram olhares cada vez mais voluptuosos, as vozes cada vez mais doces. O homem tomou Ritinha nos braços. Este homem era Nicanor. Beijaram-se… Beijaram-se! Esconderam-se atrás do paiol, abraçados e ofegantes. Seus corpos sobre a relva mesclaram-se, presos em prazer e delicadamente excitados sem pesar. Ritinha e Nicanor inundaram o socavo da cordilheira de amor. Devagar, no lusco-fusco do crepúsculo – a topografia de Riacho dos Ventos antecipa o crepúsculo –, as estrelas emergiram no céu em cima das copas das árvores e das pontas das pedras.
De par com os voluteios da fumaça expelida na chaminé da cozinha da venda, Ritinha e Nicanor namoraram nos meses posteriores. Ele pousava em Riacho dos Ventos periodicamente, pontual como relógio suíço. Todos fizeram muito gosto nesse namoro. De fato, os dois formavam belo casal, do tipo que o sofrido sertão reúne dispersa e parcimoniosamente. Nas trilhas para o Cipó, Matozinhos e Cachopa, a notícia da reconfortante alegria do casal misturou-se ao trânsito de viajantes, burros e cargas. De modo que não demorou a encontrar os ouvidos de Ramiro.
A notícia estremeceu o corpo de Ramiro: seu íntimo ferveu, a cicatriz sobre o olho esquerdo teve uma pontada. A rixa adormecida acendera-se novamente. Mas não era ciúme de Ritinha o que Ramiro sentiu. Era algo pior, mais baixo e infinitamente mais destrutivo. O estupor da vingança, da desforra. A embriaguês causada pela vinhaça do ódio zelosamente cultivado. Ramiro emitiu um esturro, e se decidiu. Passou a vigiar Riacho dos Ventos, oculto entre as pedras, deitado nas moitas. Manteve Ritinha sob a mira de olhos atentos, estudou longamente os hábitos da moça. Espreitou os amores da moça com Nicanor através das frestas no paiol, enquanto mascava fumo e cuspia na relva uma gosma negra, espessa, viscosa. Ramiro espionou os banhos de cachoeira de Ritinha, e notou que eram a ocasião mais apropriada para atacá-la. Planejou atacar num dia tão bonito que ninguém esperaria que algo ruim acontecesse.
Ramiro arremessou-se como tigre sobre Ritinha. Queria ali mesmo, deitado sobre as arestas das pedras da cachoeira, no meio do vento e da água, servir-se do corpo núbil da moça, gozar entre as pernas de Ritinha, apoderar-se dela como quem realiza um festim carnívoro. Ramiro rasgou o vestido da moça num golpe, agarrou-a como se devesse estraçalhar seu corpo, crispando os dedos e rasgando a pele morena com as unhas escuras por causa dos vestígios de fumo. Dominou Ritinha com o peso do próprio corpo, tampou-lhe a boca com uma das mãos até quase o sufocamento. Mordeu os seios e as coxas da moça, puxou seus cabelos longos e negros e penetrou-a tomado por energia odiosa. Ramiro fez mais do que violar Ritinha. Tal qual fera faminta e furiosa, parecia desejar as vísceras e o coração da moça. Ramiro deixou o sexo dela em carne viva. Após cansar-se, Ramiro jogou-a de lado, sobre uma laje lisa molhada por respingos de água da cachoeira. Virou-se para ela e disse: “Como eu te odeio, Ritinha! Agora é a hora de eu me vingar do arrieiro de Pedra Menina”. Limpou o suor das mãos, juntando-as no pescoço da moça. E começou a esganá-la. “Adeus! Está tudo acabado. Vosmecê perderá Nicanor. E o cabra maldito ficará sem chão”. Ritinha não teve forças para reagir. Estava entregue à morte cruel, murmurando entre os dentes, a voz trêmula e inaudível: “Nicanor, me salve. Me salve, meu amor”.
Mas o vento batia nas águas, ensurdecendo os campos e as escarpas da serra ao redor. A música marcial do vento dizia: “A moça jamais voltará para os braços de Nicanor”. Adiante, na estrofe seguinte, após realizar vastas piruetas sobre aquela porção do vale do Paraúna, o vento perguntava: “Qual é o valor da vida no alto da cordilheira?” Esbugalhados, os olhos de Ritinha cessaram de enxergar os espaços vaporosos do vento, as cores da luz e os contornos fragmentados das pedras. Ramiro soltou um suspiro insano, vestiu-se instintivamente e subiu a trilha na direção do rancho de Seu Luis, mascando um pedaço de fumo tirado da algibeira. Sentou-se na porta do rancho, pediu uma garrafa de cachaça e bebeu sozinho e pausadamente. O vento soprava violento, assobiando nas pedras. Os poucos habitantes do lugar caminhavam com as mãos segurando os chapéus, atarracados nas cabeças a ponto de cobrir a linha dos olhos. O vento machucava o corpo inerte de Ritinha, abandonado na beira da água fria. O sopro invisível que percorria o campo e subia as montanhas oprimia Riacho dos Ventos, ocultando desditas.
O vento demorou a amainar. Correu em remoinhos, agitando as águas, dobrando os arbustos, chocando-se nas pedras, para lá e para cá, em cada reentrância da serra. Aceitou a calmaria somente quando findaram as exéquias à alma de Ritinha. Um mensageiro saiu à procura de Nicanor, a mando dos pais da moça. Encontrou-o sobre a ponte do Acaba-Mundo. Nicanor recebeu a notícia como se ouvisse palavras finais fulminantes. Rolou pelo assoalho da ponte, desesperado. Ao levantar-se, era já desvario. Enlouqueceu completamente. Seu Luis e o rancho prostraram-se de fazer dó, definhando, definhando. Antes mesmo do trem de ferro alcançar Diamantina e tornar inútil o caminho de tropas que cortava Riacho dos Ventos, o pouso na venda de Luis Almeida virara pó. E Riacho dos Ventos encruou, como se expiasse um castigo infindável.
Houve quem suspeitasse de Ramiro. Mas ninguém possuía provas de que o tropeiro frio como pedra, cruel como bicho, perigoso feito cascavel e com a horrível cicatriz sobre o olho esquerdo, fora o autor do crime que vitimou Ritinha, Nicanor, Seu Luis e Riacho dos Ventos. Seria prudente não dar motivos de ira para Ramiro, guardar distância dele, esquecer o que se passara na beira da cachoeira do Paraúna. O que ficou mais fácil por que, alguns anos depois, uma empresa de Diamantina, conhecida como “Hulha Branca”, construiu no local pequena usina que fornecia eletricidade para Diamantina e Curvelo.
Quanto a Ramiro, seguiu vivendo como um espantalho, talvez como uma assombração. Ele notou que o ofício de tropeiro estava com os dias contados, que os automóveis logo reduziriam as rotas do comércio burriqueiro a trechos curtos, de lucratividade reduzida. Então, pensou numa maneira de acomodar-se ao progresso. Há tanto tempo conscrito da ferocidade, incapaz de qualquer generosidade, Ramiro entrou para a Força Pública. Assentou praça em Diamantina, Bocaiúva, Minas Novas e Jequitinhonha. Retornou a Diamantina como cabo, cotado para promoção a sargento. Ramiro considerou a decisão de alistar-se na polícia natural, pois sua escolha, desde os tempos de tropeiro, fora viver dentro de si, em solitária liberdade e movimento. Para ele, ficar parado era a morte, a pior das mortes num mundo bárbaro, viril e violento, que exigia o aprendizado do convívio com os poderosos e homens de vontade férrea, por força da necessidade de sobreviver e se afirmar.
Ramiro esteve uma última vez em Riacho dos Ventos, de passagem, no comando de meia-dúzia de soldados encarregados de garantir a segurança nas eleições na Vila de Paraúna, onde as facções do partido governista consumiam-se em ameaças e atentados. O cabo pôde ver as ruínas do rancho de Seu Luis Almeida, descer até a beira da cachoeira. Ali, Ramiro tirou a casaca parda do uniforme, desabotoou a braguilha e mijou sobre as pedras, com os olhos fechados. Sequer conseguiu lembrar-se da morte de Ritinha.
Nesse instante, o vento engrossou, e ressoou como um guincho. Buscou as alturas como um gavião afugentado por um tiro disparado contra ele bate asas na direção do espaço remoto.
Por Marcos Lobato Martins, 18 de janeiro de 2009. 1 Comentário

em março 14th, 2009 às 21:15
Marcos,
Difícil comentar o seu texto. Como é difícil dar definição para um conto de Guimarães Rosa.
Há coisas que é possível exprimir com sentimentos, não com definições.
Seu texto me prendeu por mais de hora, com os olhos fixos na tela do computador, quase sem piscar. Inquietaram-me os pesadelos do homem bruto, prenúncio de coisas ruins, como acontecia a Riobaldo. O primeiro sonho, que lhe roubou a infância, é de um realismo inquietante. A transformação do ser em pedra bruta é assombrosa. Estamos mais acostumados ao caminho inverso ou nos é preferível conhecer histórias quando a trajetória se dá inversamente ao narrado em seu texto.
Ambientando num espaço e numa época, sua narrativa nos faz viajar no tempo. Nunca senti os tropeiros sob esta perspectiva. Nunca mais os lerei da mesma forma.
Excelente!
Abraços,
Cristiane