Prosas do Espinhaço Central II
Bilionários de bolsos vazios.
Fazia frio abaixo de zero. A neve caía branda, os riachos começavam a congelar. Fora das casas, o clima estava medonho, tal qual a economia, embicada rumo à recessão. Na residência luxuosa no vilarejo de Blaubeuren, no sul da Alemanha, Adolf Merckle experimentava terrível confusão. Suas costas estavam mais arqueadas que de costume, sob o peso de uma frustração inigualável. Ele não conseguia acreditar no que ocorrera tão rápido, a partir de setembro. O trabalho de uma vida inteira havia derretido. Os ativos de Merckle, industrial poderoso, o quinto homem mais rico da Alemanha, afundaram em queda livre. Suas ações perderam valor e as empresas que ele comandara por tanto tempo ficaram brutalmente endividadas. Já velho, com 74 anos, Merckle não imaginava o que poderia fazer para salvar o emprego de 10 mil pessoas ou preservar a fortuna da família. Ele tivera, somente em outubro, perdas de um bilhão de euros – uma quantia que é muito difícil juntar.
Naquela noite tenebrosa, talvez Merckle tenha relido os jornais dos dias anteriores, cuidadosamente empilhados sobre a escrivaninha do escritório, ao lado do abajur antigo e delicado, jóia do design art nouveau. E corrido os olhos, rasos em lágrimas, na notícia da morte de Thierry de La Villehuchet, investidor francês que conhecia pessoalmente. Villehuchet suicidara-se num quarto luxuoso de hotel em Nova Iorque, num gesto de desespero diante da perda de bilhões de dólares com a crise financeira. Usando uma faca, à maneira dos japoneses, que praticam o “haraquiri” quando fracassam ou desonram seu país, sua empresa ou família. Merckle pensava que o “haraquiri” era coisa do passado e que, definitivamente, esse não seria o modo apropriado de um francês, rico e refinado como Thierry, pôr fim à própria vida. Lá fora, o frio e a neve tomavam conta de tudo. A cabeça de Merckle girava e doía.
“Eu não me sinto bem”, murmurou Nicolau, de honorável família mineradora do Serro. O mal-estar que acometia Nicolau alcançara o ápice. Ele não distinguia direito as luzes distantes, que o capitão do vapor anunciara ser as da orla litorânea da capital brasileira. Nicolau estava cabisbaixo, enjoado, melancólico. Retornava da Europa como se tivesse a espinha quebrada. Nem a presença da jovem esposa ao seu lado melhorava seu ânimo. Nicolau sabia que, a essa altura, quanto mais o vapor se aproximava do Rio de Janeiro, mais gente recebia notícia sobre seu infortúnio nos negócios. Pensava que os credores bateriam à sua porta tão logo pusesse os pés em Diamantina. O povo da cidade, indiscreto e cruel, comentaria na sua passagem que o poderoso diamantário perdera tudo, num golpe cruel do destino. Corria o ano de 1874. No ano anterior, Nicolau empregara centenas de contos de réis, toda a fortuna que acumulara até então, na compra de muitas partidas de bons diamantes. Decidiu-se a vendê-las diretamente na Holanda e na França, aproveitando para presentear a esposa com uma viagem de princesa. Planejou a empreitada meticulosamente: aquela viagem faria dele o dono da maior fortuna do Norte de Minas. Poderia viver o resto da vida folgadamente, ao lado da mulher e na cidade que amava.
Acontece que, poucos anos antes, os ingleses descobriram fabulosas minas de diamantes na África do Sul. De uma hora para outra, as praças européias foram inundadas de pedras de alta qualidade. Os preços desabaram, caindo quase setenta por cento. Ao desembarcar na Europa, Nicolau percebeu que estava perdido – não recuperaria nem um terço do dinheiro que empregara para comprar diamantes nas lavras de Diamantina e do Sincorá. Ele percorreu Amsterdã e Paris desesperado, fez o que pôde para obter preços razoáveis. Em vão. Quase ficou sem dinheiro para regressar ao Brasil com a mulher. Na travessia do Atlântico, Nicolau praticamente nada comeu, bebeu e falou. Arrastou-se pelos corredores e convés do vapor como um espectro. Sua esposa não sabia mais o que tentar para reanimá-lo. Nicolau ficou ainda mais fragilizado pela monotonia da viagem. O oceano enorme ampliou a sensação de impotência que conquistara o espírito dele.
Conforme informou a polícia alemã, Merckle escreveu uma carta com desculpas à família. Disse que não tinha mais forças para resistir, principalmente depois que um jornal local referira-se a ele como “o bilionário de bolsos vazios”. Sozinho no escritório, Merckle vestiu o pesado casaco, colocou o chapéu de feltro elegante na cabeça, abriu a gaveta e apanhou sua arma. Saiu de casa sem despedir-se, silencioso. Caminhou pelas ruas do vilarejo, despedindo-se no meio da neve. Na estação, não havia viva alma. O industrial caminhou na direção dos trilhos, enquanto relembrava a marcha de sua existência. A neve, o frio e a solidão acompanharam-no por algum tempo. A pequena distância da estação, Merckle parou, sentou-se nos trilhos e, em soluços, deu uma última olhada em torno. Tirou a arma do bolso do casaco e suicidou-se. Deixou mulher e quatro filhos. Horas depois, ferroviários encontraram seu corpo estendido nos trilhos. A Alemanha ficou chocada.
Quando a notícia chegou a Diamantina, o choque foi instantâneo e grande. Nicolau havia morrido afogado no mar, na entrada da baía de Guanabara. Numa cidade tão católica, essa era a versão conveniente. Mas muitos sabiam da verdade. Nicolau, inteiramente deprimido com a falência irremediável de seu comércio pedrista, suicidara-se. Ele, que não sabia nadar, no meio da noite fechada atirou-se no mar. Envergando terno de tecido inglês confeccionado num reputado alfaiate da Corte, chapéu e bengala, Nicolau disse à esposa que iria tomar a fresca, despediu-se com ternura incomum, deixou sua cabine e caminhou para o convés. Calmamente, afastou-se dos passageiros aglomerados na amurada voltada para as luzes na linha do horizonte. E, de um lance, com a agilidade de um felino, pulou a amurada oposta, gerando um pequeno círculo de espuma na superfície crispada do mar. Os tripulantes tentaram acudir. Os marinheiros lançaram bóias e cordas, ação inútil porque Nicolau já se decidira: queria livrar-se de vez do fascínio dos diamantes que, ao fim e ao cabo, arruinara sua vida. As autoridades policiais da Corte jamais encontraram o corpo de Nicolau. Como ele, diversos homens de negócio de Diamantina quebraram nos meses seguintes, e houve alguns outros casos de suicídio nas regiões de lavra.
O chefe de polícia do vilarejo de Blaubeuren, enquanto registrava a ocorrência da morte do rico industrial, lembrou-se das histórias narradas por seu avô de investidores que, no lastro da crise de 1929, se jogaram do alto de edifícios em Nova Iorque. Moveu os olhos em direção à janela e falou para seu auxiliar: “Vai ser difícil. Os ativos econômicos sobem e descem, mas se sobem demais, produzem tombos monumentais. E homens morrem por causa disso”. Maquinalmente, o auxiliar do chefe de polícia respondeu: “Isso é da natureza da roda da fortuna”. Porque a família de Nicolau era prezada pelo Bispo de Diamantina, foram autorizadas missas em intenção de sua alma na Capela de Nosso Senhor do Bonfim. Na Pregação, o cônego da Sé repetiu insistentemente: “O dinheiro é a maior evidência de que o diabo existe.(Santo Agostinho, 354-430)”. Gastava seu bom latim para admoestar os homens de negócio. Os fiéis pensaram, mas não falaram em voz alta: “É chover no molhado”.
Por Marcos Lobato Martins, 8 de janeiro de 2009. 1 Comentário


em março 14th, 2009 às 22:43
Em tempos de crise mundial, seu é prenunciativo. Os tempos são outros, é verdade, os homens já não vestem casaca inglesa e não suicidam à moda dos “haraquiri”. Mais fácil os industriais de hoje, se falidos, fugirem para Bora-Bora com uma jovem e bela amante deixando mulher e filhos a ver com as dívidas. Afinal, o dinheiro, como bem disse Santo Agostinho, tem o diabo dentro de si e provocou a prostituição dos valores morais e éticos no decorrer dos séculos. Tudo é negociável.
Abraços,