Esquecemos lições fundamentais?

Ano novo, mas a crise já é antiga, iniciada nos fins de 2007. A crise financeira seguirá ocupando as páginas de economia dos grandes jornais talvez por até dois anos. Os analistas que propõem gigantescos pacotes de estímulo fiscal dominam, neste momento, o cenário midiático. Exatamente como resumiu Martin Wolf, o prestigiado colunista do “Financial Times”, num artigo intitulado “Somos todos keynesianos”, publicado na “Folha de São Paulo” no dia de Natal. Afirma o colunista que o fantasma de Keynes “voltou para nos assombrar”.

O que há de interessante no texto de Wolf, lido a partir da perspectiva de um professor de História, é justamente o esforço para, “62 anos após a morte do economista britânico, numa nova era de crise financeira, (…) compreender o que segue relevante em seus ensinamentos”. Não se trata exatamente do velho adágio latino – “a História é mestra da vida” –, mas pelo menos a disposição do colunista evidencia a importância de reler clássicos, de colocar em xeque os gurus da última trintena de uma Economia que se autoproclamava ciência definitiva. Pois é, essa Economia que se transformou simplesmente em matemática, que, como Narciso, enamorou-se de modelos estocásticos elaborados com o auxílio de físicos-economistas, essa Economia construída sobre a idéia reducionista de que os mercados se autodisciplinam foi desmoralizada. A pregação mercadista foi demolida pela crise que começou como estouro da “bolha do subprime”. Com sorte, quem sabe veremos a Economia assumir ares mais humildes e aceitar, de um lado, que bolas de cristal são impossíveis no campo dos fenômenos supercomplexos que envolvem intenções e interesses de milhões de pessoas; e, de outro lado, que há um pouco de arte no que se refere à formulação, execução e avaliação de políticas econômicas.

John Maynard Keynes
John Maynard Keynes

Voltando ao texto de Martin Wolf, ele considera haver três “lições amplas” legadas por John Maynard Keynes (1883-1946). A primeira seria a de que “o conceito de ‘mercados eficientes’ não era com ele”. A segunda lição seria a de que “a economia não pode ser analisada da mesma maneira que uma empresa individual”, o que significa que os cursos de ação mais apropriados para indivíduos, empresas e economias não são sempre idênticos. A terceira – que Wolf afirma ser a mais importante – seria a de que “a economia não deve ser tratada como uma narrativa moral (…) mas como um desafio técnico”. O que significa que, para Keynes, “os mercados não são infalíveis ou indispensáveis (…) podem sair do rumo, e precisam ser administrados”. Os economistas deveriam evitar ser guiados por religiões laicas (as ideologias político-econômicas). E precisariam admitir que, “na economia a verdade é raramente pura e jamais simples”.

Uai (nessa ocasião o mineirismo cai bem), ficou-me a sensação de que algo muito errado anda acontecendo nos templos acadêmicos da Economia de ponta. Será que os estudantes não precisam cursar disciplinas básicas de epistemologia? Essas lições amplas a que se refere Martin Wolf não deveriam constar nos manuais de Introdução à Economia, não deveriam ser objeto de discussão logo nos períodos iniciais das graduações e mesmo das pós-graduações em Economia?

Parece que, além do abandono da História Econômica, relegada a plano secundaríssimo nos currículos (quando não é tratada como “exercício retrospectivo de econometria”), também sobrou para os fundamentos de Epistemologia. E o que foi feito, em termos ainda mais específicos, da História do Pensamento Econômico? Em nome do estatuto de cientificidade – da inveja dos físicos e dos matemáticos! –, a Economia parece ter estado excessivamente disposta a formar alquimistas. Algo que começou como parte das Humanidades (como Economia Política), virou saber autocentrado e cada vez mais esotérico.

Oxalá a crise (financeira e econômica) aguda, que causará a todos nós muito sofrimento nos meses vindouros, sirva para impactar as políticas acadêmicas, modificando direções que o ensino e a produção universitária de conhecimentos têm trilhado nas últimas décadas. Que o sentimento por ora difuso contra os excessos de “formalização”, de “modelagem estatística”, de “abordagens quantitativas” e de apegos ao “paradigma da ação racional” ganhe consistência suficiente para gerar novos equilíbrios no interior da academia, ensejando diálogos mais críticos e esforços mais abrangentes de superação da “especialização de viseira”, na busca da promoção da transdisciplinaridade.

Aproveito a ocasião para colocar a disposição do leitor e da leitora a versão por assim dizer “estendida” de artigo sobre a história das crises financeiras do capitalismo, cuja publicação na revista “Leituras da História” está prevista para o mês que se inicia (ver texto “Da especulaçãp também se vive…).

E que todos vocês tenham um feliz ano novo!

Por Marcos Lobato Martins, 1 de janeiro de 2009.  Comentários

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