A lua cheia e o veranico

Nas montanhas de Minas Gerais, pessoas mais velhas fazem observações inquietantes sobre as variações climáticas. Talvez estejam influenciadas pelo noticiário insistente, e nem sempre preciso, sobre os fenômenos relacionados ao aquecimento global. O que dizem os velhos montanheses é que o tempo ficou biruta, bastante diferente de antigamente.

Eles falam sobre frio intenso no inverno, as serras cobertas até o meio-dia por espessa serração. O mesmo ocorria ao cair da tarde e durante toda a madrugada. A bruma branca e gelada impedia a visão de ir além de alguns palmos adiante do nariz. Era preciso agasalhar bem o corpo, usar gorros ou chapéus de feltro para cobrir a cabeça. Diamantina possuía fábrica de chapéus de feltro, na virada do século XIX para o século XX. O frio chegava em abril e durava até o início de setembro. Nas cumeeiras dos morros, a temperatura chegava facilmente bem próxima de zero.

Lua cheia vista do escritório de minha casa, em Pedro Leopoldo.

Depois do frio, vinha a chuva. Em outubro, caíam as primeiras águas. Em novembro e dezembro o tempo chuvoso encharcava tudo, porque as chuvas praticamente não davam trégua. Chovia dias seguidos. Parava de chover algumas horas e, de súbito, voltava a chover. Chuva fina e insistente, que em algumas regiões recebia o nome de invernada. E chuva a cântaros, como se dizia antigamente. Pancadas violentas, tempestades, trombas d’água. Minas Gerais montanhesa derretia. No início de janeiro, no entanto, a chuva parava cerca de quinze ou vinte dias – era o tal de veranico. Os tropeiros esperavam ansiosamente pelo veranico, pois podiam retomar suas jornadas.

Essas observações dos mais velhos combinam com as informações contidas nos relatos de diversos viajantes que percorreram Minas Gerais no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Saint-Hilaire, Pohl, Mawe, Tschudi, Burton, para citar apenas alguns nomes famosos.

Na minha infância, durante os anos 1960, os ciclos do tempo na região central de Minas Gerais ajustavam-se às impressões existentes nas narrativas dos viajantes. Mas eu comecei a ouvir, então, rumores cada vez maiores sobre alterações no regime das chuvas e dos rios. Os fazendeiros eram os principais portadores dessas novas observações. Pouquíssima gente, entretanto, dava ouvidos a eles e ao que pareciam, então, lamúrias exageradas. No caso de Diamantina, houve quem atribuísse as alterações a efeitos imprevistos da construção da enorme barragem de Três Marias. Outra coisa de que me lembro da infância é das estradas barreadas, dos lamaçais intransponíveis, dos atoleiros que nem os veículos com correntes de ferro nas rodas conseguiam ultrapassar. Também aumentavam os problemas para o tráfego ferroviário – meu pai atendia a número maior de descarrilhamentos e de obstruções na estrada de ferro. As notícias sobre pontes levadas pelas águas eram rotineiras no tempo das chuvas, deixando cidades, vilas e povoados isolados. Todavia, muito menor era a quantidade de notícias sobre alagamentos nas áreas urbanas e deslizamentos de encostas, provocando destruição de casas e mortes. Não se experimentava, então, a dramática expansão das periferias urbanas em áreas de risco. Os prejuízos das chuvas pareciam mais relacionados à destruição de lavouras e pastagens, localizadas em áreas mais baixas e nas várzeas, e a paralisação do transporte de mercadorias. No auge da época de chuvas, Minas Gerais montanhesa assemelhava-se a um mundo insular. O povo ficava quieto em seu lugar, esperando pacientemente as águas passarem. Essas são as lembranças que tenho do clima da região central de Minas, aí pelos anos 1960. Ah, havia a recorrência dos transbordamentos do rio Arrudas na capital. A Praça da Estação, a Escola de Engenharia e a Rua dos Andradas ficavam tomadas de água barrenta.

E eu esperava o veranico ansiosamente, porque só então as férias começavam, de fato. Era possível andar de bicicleta, jogar bola no campo da cidade, nadar no ribeirão. Dezembro era muito chato, justamente porque chovia demais e aprisionava a meninada dentro de casa. As mães eram mais rígidas, ralhavam com a gente quando nos apanhavam na chuva ou brincando nas enxurradas. O veranico era a salvação, tornando janeiro um tempo aguardado, repleto de expectativas de divertimento.

Eu nunca gostei do tempo de chuva. Sei que a chuva é necessária, mas bem que nas cidades podia chover apenas o suficiente para limpar a poeira acumulada nas ruas, calçadas e telhados. Chover sempre do modo como chovia nos janeiros de minha infância: uma pancada rápida, com pingos grossos, seguida de sol forte. É assim que chove em Almenara. Do clima montanhês mineiro, aprecio o frio e o sol claro. A neblina é o máximo. Mas a chuvarada, Deus me livre. Ela deveria cair nas áreas rurais e nas cabeceiras dos rios.

O que me parece curioso, para encerrar esse assunto do clima de antigamente, é ler nas edições modernas de relatos antigos, sobretudo os produzidos no Oitocentos, a palavra “enchente” para caracterizar eventos recorrentes em rios como o Jequitinhonha, o Doce e o Mucuri. Ora, “enchente” é termo que, creio, devemos usar em referência a áreas definitiva e densamente ocupadas pela sociedade. Há enchentes onde existem cidades e populações ribeirinhas concentradas nas imediações das calhas dos rios. Se não há gente, se a ocupação humana mal teve início, o que ocorre são cheias. No século XIX, o Jequitinhonha (a jusante da confluência com o rio Araçuaí) e o Mucuri tinham cheias e vazantes. O volume das águas oscilava conforme fatores absolutamente naturais, do que dependia a reprodução/renovação das paisagens, incluindo plantas e animais diversos. As populações indígenas e os colonos pobres pioneiros sabiam lidar com as cheias e vazantes, não lhes atribuindo conotações negativas. Ao contrário, a época de chuvas era o período de maior fartura para as populações esparsas que dependiam bastante da coleta, da caça e da pesca. Somente o avanço da ocupação colonial, e notadamente a fundação de núcleos urbanos, tornam apropriado o emprego do termo “enchente”.

Enfim, a lua cheia que desde ontem ilumina a noite de Pedro Leopoldo – e de Minas Gerais – trouxe consigo, generosamente, o veranico. Fico muito agradecido, porque já não agüentava mais tanta chuva.

Por Marcos Lobato Martins, 9 de janeiro de 2009.  Comentários

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