Um elefante viaja do Rio de Janeiro a Diamantina

A coincidência é formidável. Justamente quando José Saramago vem ao Brasil para lançar seu mais recente livro, “A viagem do elefante”, eu ando obcecado com outra viagem de elefante. Uma jornada em território brasileiro, em pleno auge do Império, entre o Rio de Janeiro e a cidade de Diamantina, situada nas grimpas da Serra do Espinhaço Central. Ambas as viagens ocorreram de fato, embora não tenham deixado a mesma quantidade de registros históricos. Ambas revelam muito sobre as sociedades que lhes deram realidade, seus sonhos, idéias fixas e mazelas.

Elefante na Índia.

A viagem de Salomão, o paquiderme originário de Goa, é o núcleo do livro de Saramago. Esta jornada européia ocorreu em 1551-1552, entre Lisboa e Viena. Salomão foi presenteado pelo rei Dom João III e sua mulher, Catarina d’Áustria, ao arquiduque Maximiliano II, primo do rei lusitano, em razão de seu casamento com a filha do poderoso imperador Carlos V. Um tanto esquecido em Lisboa desde que chegara das possessões portuguesas na Índia, o animal encontrou alguma serventia. Seria um presente e tanto, à altura tanto do presenteado quanto daquele que presenteava o noivo. Presente enorme e inusitado, que simbolizava a glória do Império Português. A viagem de Salomão pela Europa foi lenta e, certamente, a sua comitiva despertou atenção por onde passou. Na Viena do século XVI, cidade elegante e requintada, o elefante causou pasmo. Porém, a Corte dos Habsburgos e os vienenses rapidamente enjoaram daquele bicho desengonçado, comilão, difícil de ser adestrado. Por isso, como narra Saramago, o bicho terminou morto e esfolado, suas patas cortadas e transformadas em recipientes para guardar bengalas e sobrinhas. Essa viagem onírica de Salomão pela Europa permite ao escritor português lançar olhar simultaneamente irônico e compassivo sobre os gestos e ações humanos, nossas ilusões e vaidades, bem como sobre a transitoriedade das pessoas, das glórias, dos reinos, da vida. O elefante Salomão presta-se para falar de pompas e ridículos, realidade e poesia, sonhos e pesadelos, do engenho e dos projetos – nem sempre sensatos – dos homens, das viagens. A roda da história se confunde com a jornada do elefante de Goa.

Pois não é que aqui, em pleno interior mineiro, jornada similar também ocorreu, praticamente três séculos depois? Quem dá notícia desse evento que beira o absurdo é o Barão Johann Jakob von Tschudi, no livro “Viagens através da América do Sul”, publicado na Europa no fim da década de 1860. Tschudi se referiu à história da viagem de um elefante do Rio de Janeiro para Diamantina como uma curiosa extravagância. O historiador talvez concorde em essência com o Barão. Para uma cidade rica como Diamantina àquela época, havia o interesse de ver e ter o mesmo que se encontrava na Corte. Era sinal de civilização, de progresso, de brilho. Os diamantinenses desejavam estar afinados com os grandes centros urbanos do país, de modo que as elites locais não perderam oportunidades para trazer ao antigo Tijuco a música, o teatro, as modas, os objetos e os gestos que representariam sua “proximidade simbólica” com a civilização. O que incluía a fruição do exótico, envolto numa atmosfera de ingênuo romantismo. Mas talvez houvesse mais do que isso na viagem do elefante do Rio de Janeiro para Diamantina. Alguma motivação visceralmente humana, fácil de ser frustrada pelo movimento do mundo. Mesmo assim, irresistível em sua força de desencadear gestos humanos. Então, por que não imaginar que o caso relatado pelo Barão Tschudi ocorreu como segue?

O viajante austríaco chegou ao antigo Tijuco no ano de 1857, debaixo de muita chuva. Hospedou-se na casa do Barão de Araçuaí, o homem de negócios mais rico do Norte de Minas Gerais e, na companhia de seu anfitrião, percorreu a cidade, assistiu valdevilles no Teatro Santa Isabel, participou de saraus e, é claro, visitou as ricas lavras de diamante de São João da Chapada. Enquanto estava na cidade, recebeu uma carta de dois compatriotas pedindo auxílio. Eram dois rapazes da Saxônia aprisionados na cadeia local, acusados de furtar dinheiro dos dois maiores “diamantários” (negociantes de diamantes) da região, Francisco José Almeida e Silva e Rodrigo de Souza. Os dois prisioneiros queriam que Tschudi intercedesse por eles, alegando que tudo não passara de mal-entendido. O digno viajante não acreditou nos seus compatriotas, mas admitiu fazer algo para livrá-los da companhia de negros que ocupavam a mesma cela. O Barão Tschudi foi à procura do Delegado de Diamantina, João Vieira, para solicitar cela separada para os dois estrangeiros.

Achou o Delegado Vieira em sua casa. Recebido com a maior cortesia, o Barão Tschudi foi levado ao escritório da residência onde havia um magnífico exemplar do belo urubu-rei. A ave tinha uma corrente no pé, de modo que ela podia correr livremente no quintal junto com as galinhas e os marrecos. Impressionou-lhe o fato de que o urubu-rei não tinha ferido nenhuma outra ave doméstica, o que era sinal de que aquele pássaro grandioso podia ser adestrado para viver entre os homens. De tão atento ao urubu, o Barão demorou a perceber a chegada do Delegado, o qual se desmanchou nas mesuras de praxe quando os senhores do Brasil oitocentista se achavam diante de ilustres viajantes europeus. João Vieira, após sentar-se atrás da pequena escrivaninha de jacarandá, logo perguntou ao Barão as razões que lhe traziam à sua humilde presença. Tschudi respondeu que estava ali por causa dos prisioneiros estrangeiros e disse: “Peço que o Senhor Delegado providencie uma cela exclusiva para os dois, porque é inusitado mantê-los encarcerados junto com negros forros e escravos”. João Vieira, sem alterar a voz e franzir a testa, aquiesceu ao pedido, fazendo um pequeno reparo: “Meu caro Barão, aqui nesta terra acontecem coisas muito mais inusitadas, inteiramente absurdas”. E imediatamente começou a narrar para o visitante o caso da viagem do elefante.

“Senhor Barão, alguns anos atrás, um elefante foi trazido do Rio de Janeiro para ser exibido em Diamantina. A viagem, de cerca de 150 léguas, durou muito mais tempo do que a jornada de uma tropa de burros. O maldito elefante, bicho colossal e preguiçoso, arrastava-se devagar pela Estrada Real. Empacava toda hora, comia feito fornalha de engenho poderoso. Não havia capim que lhe bastasse. O pior era quando a comitiva se descuidava e o paquiderme invadia as roças vizinhas da estrada, devorando centenas de pés de milho, sem que ninguém conseguisse detê-lo. No vau dos córregos e rios, o elefante atrasava ainda mais a viagem, porque ficava dentro d’água horas a fio, fazendo esguicho com a tromba. Molhava a comitiva e quem mais se aproximasse. Me disseram que o bicho pisoteou no caminho uma dúzia de cachorros. Os cães corriam para atacar aquela coisa estranha, latindo desarvoradamente. O elefante chutava os pobres coitados como quem se livra de caroços de manga. Os mais atrevidos terminavam debaixo das patas do africano. Era uma cena horrível. Depois de muito custo, o elefante chegou a Diamantina”.

O Barão Tschudi, a princípio, não quis acreditar no que dizia o Delegado João Vieira. Para não desagradar o dono da casa, cujo desejo de bem receber o viajante era evidente, Tschudi deu trela à conversa. Perguntou: “Senhor João Vieira, não seria impossível conduzir tamanho animal por essas estradas e pontes?” Ao que replicou prontamente o Delegado: “O Barão teria razão se a jornada tivesse sido tentada no período das chuvas. Mas, na seca, ela é perfeitamente possível. O bicho não ficaria atolado nos caminhos e nem correria o risco de ser levado pela correnteza dos rios. Se é que algum rio de Minas poderia afogar animal daquele porte”. Agora mais vivamente interessado pelo caso, o Barão tornou a perguntar: “Senhor Delegado, por que diabos alguém traria para Diamantina um elefante? Somente para exibir o animal exótico para as famílias ricas e curiosas? E isso seria negócio rentável o suficiente para pagar os riscos da empreitada?”.

Animado com a súbita curiosidade demonstrada pelo visitante, João Vieira começou a explicar as conjecturas que fizera sobre o caso, tentando demonstrar suas superiores qualidades de raciocínio, evidentemente necessárias ao homem que ocupava o posto mais elevado da polícia na cidade. “Meu caro Barão, eu penso que o dinheiro era o menos importante nessa história. Houve a cobrança de ingresso para quem desejava ver o elefante, que ficou instalado num curral especialmente construído no pasto do alto do Morro da Grupiara. Os pobres só puderam ver o bicho de relance, enquanto ele era levado do curral para a Intendência de Baixo, que tinha sido tampada por grossos panos de algodão. Lá dentro, as pessoas que pagaram ingressos ficaram horas examinando o africano. De longe, com receio. E saíram reclamando do aspecto do elefante e do cheiro forte do bicho. Os espectadores diziam que o animal tinha sido feito a machado”. O Barão já esquecera completamente o urubu-rei. “Então, Senhor Delegado, se o dinheiro da exibição do elefante não era o razão para buscá-lo no Rio de Janeiro, que diabos motivaram tudo isso?”. O Delegado fitou o Barão por um instante, mexeu devagar nos óculos que estavam sobre a escrivaninha e, com os olhos postos na janela, prosseguiu: “O diabo nada tem a ver com a história. É uma história de amor, meu caro Barão. O senhor está hospedado na casa do honrado Serafim José de Menezes, o Barão de Araçuaí. Pois bem, naquele ano, a falecida esposa do Barão estava doente. Os médicos tinham desenganado a família. O Barão, contudo, acreditava que sua mulher seria salva. Salva pelo seu amor. Um dia, ele sonhou que a cura da esposa viria com um presente. Teria que ser presente digno de rainha, do tamanho da afeição que unia o casal. O Barão ficou a imaginar qual poderia ser este presente. Lendo um exemplar de jornal carioca, deparou-se com a notícia do circo que se encontrava na Corte, que tinha num elefante africano sua maior atração. O Barão cismou que este seria o presente do sonho: o elefante africano. Imediatamente, correu ao seu escritório, retirou do cofre uma capanga cheia de diamantes da mais fina água. Chamou seu filho e encarregou o rapaz de ir buscar o elefante, não importando o preço. Desse jeito, por causa de um sonho de amor, teve início a viagem do elefante do Rio de Janeiro para Diamantina”.

Pasmo com o que ouviu, Tschudi perguntou com a voz embargada: “E a viagem do elefante cumpriu o propósito imaginado pelo mentor da empreitada?”. O Delegado se virou para o viajante. “Não, infelizmente não. Quando o bicho estava próximo de Sabará, a esposa do Barão de Araçuaí faleceu. Ele ficou transtornado. Parecia que não suportaria a perda. Todos na cidade condoeram-se diante do sofrimento do Barão. Enquanto isso, o bicho e sua comitiva caminhavam, alheios aos acontecimentos de Diamantina. Chegaram bem depois do enterro da boa senhora. O enorme talismã não funcionara”.
João Vieira esclareceu que teriam sido os escravos do Barão de Araçuaí que convenceram seu senhor a exibir publicamente o animal. Especialmente um deles, chamado Melquis, que era malê. Esse tal de Melquis queria oferecer aos brasileiros uma prova de que a África, sua terra natal, era grandiosa. Restava uma pergunta incômoda, logo desferida pelo viajante austríaco: “Que fim teve o elefante?” O Delegado mostrou-se incerto sobre o destino do elefante após sua estada em Diamantina. “Meu caro Barão, ficaram apenas histórias. Uns dizem que o elefante foi solto a mando do Senhor Serafim José de Menezes lá nas bandas da vastíssima e mui agreste Chapada do Couto. Nesse caso, deve ter virado comida de onça. Outros dizem que o bicho foi devolvido para o circo que ainda se encontrava no Rio de Janeiro. E há os que acreditam que ele morreu numa das fazendas do Barão, porque estava velho e a viagem fora dura demais para ele”.

O leitor e a leitora poderão imaginar narrativas bem diversas sobre esse episódio. Ao certo mesmo, o que se sabe é que não ficou registro documental da viagem do elefante que saiu do Rio de Janeiro e chegou a Diamantina na década de 1850.

O historiador está diante de dupla interdição. Uma posta pelos cânones da operação historiográfica, que o impedem de simplesmente imaginar os detalhes que faltam à breve referência encontrada na obra do Barão Tschudi. Esqueleto de uma boa narrativa que o historiador, todavia, não pode encher com carne. A outra interdição é documental: raramente cai nas mãos do historiador documentação que possibilita fazer close-up dos personagens, principalmente dos personagens comuns. Para o historiador, o mais frequente é lidar com travellings. Os dramas íntimos e profundamente humanos encenados nas sociedades de ontem quase sempre escapam às pesquisas históricas, em parte também porque os historiadores desejam ser cientistas, tal como os economistas.

Eu gostaria de possuir imaginação de contista para fazer da breve referência presente no relato de viagem de Tschudi uma narrativa ficcional, que se alimenta de fatos históricos. Não porque eu desejo eliminar as fronteiras que existem entre História e Literatura. Afinal, o trabalho dos historiadores, que supõe fontes, metodologias e critérios de prova discutidos no âmbito de uma comunidade que fala de um passado que não é mais, produz uma verdade provisória e precária sobre a relação entre o discurso de conhecimento e o que aconteceu somente como evento. Ao passo que a Literatura produz outro tipo de conhecimento, dotado de diferente regime de produção, também sobre a relação com os outros, a natureza e a sociedade, talvez passível de caracterização como “saber que enxerga longe”. O exercício da ficção tem lá suas vantagens, seduções, exigências ao lidar com o mais recôndito na alma humana, com o desafio de sintetizar as linhas, cores e ritmos da vida. Enfim, a narrativa ficcional exerce o fascínio que se origina no anseio, humano e poético, de extrair dos motivos aquilo que eles têm de essência. Mais direta e profundamente que a História, a Literatura enfrenta a pergunta que nos acompanha sempre: “quem é que luta dentro de mim?” (Emílio Moura).

Por Marcos Lobato Martins, 2 de dezembro de 2008.  3 Comentários

3 respostas para ' Um elefante viaja do Rio de Janeiro a Diamantina '

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  1. Cristiane escreveu,

    em dezembro 3rd, 2008 às 09:38

    Marcos,

    Mais uma vez você presenteia seus leitores com um belo texto! Nunca ouvi falar nesta história do elefante em terras mineiras. Imagina um elefante na Estrada Real pisoteando cachorros e comendo roças inteiras de milho?! Acho difícil acreditar… Em algumas partes a Estrada era bem sinuosa e forrada com pedras escorregadias. Fiquei imaginando um animal deste porte caminhando pela Estrada Real. Bom, mas tudo é possível.

    Sobre o tema do “romance histórico”, recebi esta semana um livro que veio de Santa Catarina, presente de uma amiga, escrito pela historiadora Urda Alice Klueger chamado “Sambaqui”. Da Urda, escritora que admiro muito e com a qual tive contato apenas virtual, já li diversos textos e partes de outros romances históricos. Darei notícias a você a respeito deste que recebi.

    No seu anseio de promover interdisciplinaridade entre a história e a literatura, creio que o fez nesta bela crônica. Enquanto lia sua narrativa, fiquei lembrando da narração de Manuelzão. Este seu texto tem um quê Roseano.

    Sobre o livro do Saramago, fiquei curiosa.

    Abraços,

  2. Fernando escreveu,

    em junho 22nd, 2009 às 00:16

    Que história fantástica.
    Segue o link para o livro na estante virtual
    http://www.estantevirtual.com.br/mod_perl/info.cgi?livro=17258933

  3. José Augusto Barros escreveu,

    em junho 9th, 2010 às 02:19

    A referência ao episódio no livro do Barão Tschudi é mínima e poderia passar desapercebida, não fosse sua imaginação e talento. O conto se revela na fala do delegado, no humor da travessia, no romantismo da motivação. Parabéns pelo texto, é delicioso!

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