Prosas do Espinhaço Central I
A revolta póstuma de Alcino
Há vidas que se arrastam anos a fio, sem que nada extraordinário aconteça. São vidas bestas, moldadas inteiramente pelas circunstâncias, acomodadas ao tempo, submetidas à monotonia dos bons dias e boas noites, ditos protocolarmente. Não se saberia dizer se esse foi o caso da vida de Alcino.
Alcino viveu poucos anos. Enquanto pôde ser visto, em carne e osso, em São João da Chapada, Alcino alcançou uma vitória digna de nota, e experimentou uma enorme frustração. Logo depois morreu, como um passarinho, antes de abrir a venda que herdara do pai e que comandara sistematicamente desde quando deixara o Seminário de Diamantina. Era um rapaz bom, piedoso, calado, freqüentemente imerso em seus pensamentos a ponto de sequer ouvir os fregueses. Por isso, havia quem o considerasse louco. Outros achavam que ele tinha um amor recalcado, que o comia por dentro, lentamente. Porém, todos os dias, sem falhar nenhum, Alcino podia ser encontrado na venda que seu pai abrira numa rua secundária de São João da Chapada, com o dinheiro que ajuntara nas lavras do Barro Duro e Barro Mole.
A venda era típica do interior mineiro, uma espécie de mescla de mercado e bar. Duas portas dominavam a fachada do edifício, cada uma delas com duas folhas em madeira de lei, bastante altas, pintadas de azul. Na parede de trás, a dois metros do balcão de madeira – uma peça inteiriça que ia de fora a fora dentro da venda, deixando na extremidade esquerda pequena passagem, guarnecida por cancela na forma de xadrez – ficavam numerosas prateleiras presas nos tijolos com mãos francesas. Sobre essas prateleiras de madeira, que chegavam até o teto, repousavam garrafas de diversas formas e latas de coloridos berrantes. Alguns objetos estavam cobertos por grossas camadas de poeira, a denunciar que dormiam ali desde a abertura da venda. Próximas ao balcão, na frente como atrás dele, havia muitas caixas de madeira, suspensas sobre tábuas apoiadas em tocos retangulares, que guardavam mantimentos, ferramentas, utensílios domésticos, arreios e selas, chapéus, capas e botas rústicas. Nas paredes laterais, cujo reboco punha a nu o acabamento apressado da construção, pregos grandes sustentavam cordas, mangueiras, bateias, fumos de rolo e até armarinhos. Sobre o balcão, cuidadosamente distribuídos, havia baleiros e tabuleiros repletos de tira-gostos encomendados ali mesmo, a cozinheiras de São João da Chapada. Quatro ou cinco tamboretes serviam de descanso para os fregueses de Seu Antônio – o pai de Alcino – e, depois, para os clientes do próprio Alcino. No interior, os fregueses são repassados de pai para filho, como se fossem elementos de inventário.
O chão da venda era de terra batida. O pé-direito, muito alto, terminava coberto por telhado de telhas de barro, gradeado por paus roliços cortados nas matas vizinhas ao distrito. As telhas, de tão gastas, estavam finas e porosas. As chuvas grossas faziam minar água do telhado, de modo que era preciso cobrir as caixas de mercadorias com couros de boi. O fato de não haver forro de qualquer espécie abaixo do telhado da venda, tornava seu interior fresco e agradável no tempo de calor, mas excessivamente frio durante os meses de maio a agosto. Tantos os fregueses quanto Alcino tiritavam, resignados, nas noites límpidas do inverno, que enregelava São João da Chapada, o lugar mais frio do Espinhaço central. Na mesma rua da venda, cerca de duzentos metros na direção sul, ficava a casa de Alcino. Uma construção pequena, sem requinte, alinhada com a rua que, naquela altura, abria-se num largo gramado, em cuja extremidade fincara-se, em tempos de antanho, um cruzeiro de madeira. Alcino nunca dormia sem antes acender aos pés do cruzeiro uma vela e dizer orações pelos seus: seu pai Antônio e sua mãe Josefa, morta justamente ao dar à luz o menino Alcino. No quintal da casa, com algum desdém Alcino mantinha uma horta, cafezal e pomar, cujos frutos levava para vender em seu estabelecimento. Nessas tarefas, era ajudado por Joaquim, negro velho que servira antes a seu pai. Não fosse Joaquim, a casa de Alcino viveria fechada, sem luz e limpeza. Havia quem acreditava que, graças a Joaquim, Alcino não se alimentava de vento.
De fato, o moço possuía hábitos estranhos. Na verdade, não eram incomuns, apenas exagerados. Ia da casa para o trabalho, e do trabalho para casa. Abria a venda às 5 horas da manhã, quando apenas os garimpeiros estavam de pé nos serviços de lavra ao redor do povoado. Fechava à meia-noite, houvesse ou não freguês com os cotovelos postos sobre o balcão. Nas ocasiões de missa, corria para a igreja e deixava a venda, temporariamente, sob os cuidados de Joaquim. Era o momento certo de ir fazer compras no estabelecimento, porque Joaquim costumava errar nas contas, sempre a favor dos fregueses. Alcino não ralhava com o negro velho: achava que era um modo de fazer caridade para a gente pobre de Chapada. As novenas e as quermesses contavam religiosamente com a participação entusiasmada de Alcino. Ele era o braço direito do pároco que assistia o lugar, um francês robusto, sardento e de rosto bastante avermelhado, que todos chamavam de Padre João Pourier. Qualquer observador minimamente atento veria que Alcino só era feliz nas coisas da Igreja. Embora ele nunca dissesse, sonhava realizar batizados, celebrar casamentos de noivas jovens, rezar missas e ungir enfermos. Alcino talvez não tivesse coragem para oferecer o sacramento da extrema-unção. Afinal, quando a morte veio buscar seu pai, ele se trancou no quarto, saindo de lá somente quando já ia longe o cortejo fúnebre.
No comércio, Alcino quedava atrás do balcão. Passava o tempo praticamente sem sorrir, circunspecto, quase constrito. Algo invisível apertava sua garganta, deixando-o apenas respirar. Respondia aos fregueses monossilabicamente. Falava só o essencial, assim mesmo quando era impossível comunicar-se por gestos. Era moço melancólico, porém honesto e paciente. Daí porque sua freguesia não parava de crescer. Sua fortuna crescia gradualmente, embora Alcino sequer tomasse consciência do fato. Por força do comércio, vivia entre camponeses, garimpeiros, donas de casa, crianças levadas – enlouquecidas pelos grandes e coloridos pirulitos que havia nos baleiros da venda – e prostitutas. Valentões e foras-da-lei também entravam na venda, bebiam pingas, ouviam o rádio Telefunkem alojado no meio da parede direita do estabelecimento, diziam imprecações aos gritos e iam embora, assombrados com a calma benfazeja de Alcino.
Todos os moradores de São João da Chapada sabiam que Alcino não era feliz. Ele nunca se queixara a ninguém. Seus olhos, de um negro mais forte do que a plumagem do tiziu, traíam sua infelicidade. Alcino queria ser outra coisa. O destino impediu.
Ainda meninote, criado pelo pai rígido que tudo fizera para afastar o filho sem mãe dos sortilégios do garimpo, Alcino foi destinado à Igreja. Seu Antônio não se cansava de falar ao filho pequeno: “Sua mãe, que Deus a tenha, queria você longe do pecado. Sabe o que pode acontecer de pior a um rapaz? Entrar para o garimpo ou andar por aí dizendo coisas, como o Dr. Felício dos Santos, que tem idéias na cabeça. Alcino, você servirá a Igreja”. O menino prestava atenção ao que dizia o pai, embora demonstrasse, inicialmente, leves sinais de desespero. “O quê, pai? Os meninos daqui dizem que quem é padre renuncia à vida, estraga-a para sempre”. Firme, o pai impediu que a dúvida se instalasse na cabeça de Alcino: “Filho, você acredita nessa gente ignorante do Caeté-Mirim? Quer ser como eles, que além de pobres não sabem ler um simples telegrama? Filho, escute o que eu digo, ser homem da Igreja é a coisa mais digna que há no mundo”.
Quando chegou a idade certa, a educação e a orientação moral de Alcino foram postas nas mãos do Padre João Pourier. Alcino estudou as lições que o Padre lhe dava, com devoção incomum. Aprendeu a ler e escrever, matemática, história natural, francês, um pouco de grego e latim. O menino andava com o catecismo debaixo do braço, enquanto os outros garotos de sua idade jogavam bola nos largos do povoado, corriam atrás de cavalos nos pastos, nadavam no Caeté-Mirim e, aí pelos 10 ou 12 anos, acompanhavam os pais nos garimpos. Alcino mal conhecia o diamante, mas recitava versículos da Bíblia que era uma maravilha. Fizera-se sacristão na Igreja do Bonfim Estudou tanto que conseguiu ser aprovado nos exames do Seminário de Diamantina.
Nessa ocasião, a felicidade era indizível na casa de Seu Antônio e Alcino. Poucos dias depois, o Padre Pourier buscou o menino e deixou-o na porta do Seminário, após fazer detalhadas recomendações. Ali, no Seminário Sagrado Coração de Jesus, Alcino logo mostrou vocação para a vida religiosa. Mais do que bom aluno, Alcino possuía fé que fortalecia a cada dia. Sua alma era mesmo da Igreja. Sacerdotes e seminaristas admiravam Alcino, sua piedade, sua mansidão, sua obediência. E Alcino reconheceu que seu mundo era a Igreja, assim que olhou os fachos de luz filtrados nos vitrais coloridos da Basílica construída em pedra, onde os seminaristas ouviam a missa pela manhã e à noite.
Alcino gostava especialmente das aulas de História Sagrada. As vidas dos santos enterneciam seu coração. Elas lhe bastavam, como para os outros meninos de Diamantina importavam as histórias de monstros e heróis de capa e espada. Alcino desejava, no íntimo, ser santo. E pensava que conseguiria, caso seguisse o exemplo do caridoso Bispo Dom João, o prelado que o Norte mineiro aprendera a respeitar à frente do vasto rebanho dirigido pela Mitra de Diamantina. Alcino até mesmo conseguiu falar com Dom João, o que aumentou a admiração de seus colegas do Seminário Menor.
Nas férias do Seminário, Seu Antônio mandava Joaquim buscar Alcino em Diamantina e trazê-lo para São João da Chapada. A viagem era feita no lombo de burros. Alcino olhava tudo ao longo da estrada: quanto mais via, mais desejava servir a Deus. Fora duas ou três palavras trocadas com Joaquim, Alcino rezava, segurando as contas do terço – presente do Reitor do Seminário, um padre europeu cujo nome era impronunciável. Em São João da Chapada, Alcino pouco saía de casa ou da venda. Só para visitar o Padre Pourier, quando este pousava no povoado para descansar das visitas às paróquias dispersas pelas chapadas da região, desde o Guinda até Curimataí. Alcino exibia a batina com orgulho, deixando-se ver pelos moradores rústicos – e nem sempre bons católicos – do lugar. Isso o deixava feliz. Foi nessa época que Alcino acendeu, pela primeira vez, velas ao cair da noite no pé do cruzeiro situado no largo defronte de sua casa. Aos poucos, uma multidão de mulheres, velhos e crianças começou a se reunir em torno de Alcino para rezar no cruzeiro.
Zeloso e cismarento, Padre Pourier chamou o seminarista. Deu-lhe conselhos, dissertou sobre as responsabilidades do clero e sobre as tentações do Demônio. “Alcino, já que estamos aqui conversando abertamente, me diga uma coisa: você já afastou aquele pensamento absurdo?” A pergunta do Padre Pourier desarmou Alcino. Ele tentou se safar, mudando de assunto. “Ah, Padre João. Isso ficou para trás. É bobagem da infância”. Ao que o sacerdote experiente retrucou: “Não me enrole, menino. Eu conheço seu coração. Vamos, me diga logo, você ainda tem aquele pensamento?”
Apertado, Alcino baixou a cabeça. Desviou os olhos do Padre e sussurrou: “De vez em quando, Padre. Eu luto contra ele, mas parece que ele é mais forte do que eu. Aí eu agarro meu terço e rezo até cansar”. “Meu filho, você precisa se livrar dessa invocação do Diabo”. Ainda mais constrangido, quase aos choros, Alcino respondeu: “Mas Padre, é só uma idéia desbaratada de criança! Como ela pode me desviar do caminho de Deus ou provocar algum mal?” Sem perder a candura, porém aumentando o tom de voz, o Padre Pourier advertiu: “Alcino, nunca subestime as armadilhas que testam nossa fé. Purifica o seu coração, menino. E se livra para sempre dessa idéia que corrói suas entranhas. Jesus também foi tentado por jogos de palavras”. Alcino aquiesceu. Levantou-se devagar e saiu. Na porta da casa do padre, que ficava no fim do povoado, na saída para o Caeté-Mirim, Alcino prometeu que se esforçaria ainda mais. Varreria de sua cabeça aquele pensamento indigno, pronunciado quando fizera o catecismo ali mesmo, diante do Padre Pourier, seu tutor e confessor.
O povo de Diamantina, a que pertencia o distrito de São João da Chapada, é muito impressionável. Não há quem não acredite em assombrações, sinais do além, feitiço e prodígios sobrenaturais. Mas não é tão comum encontrar quem fique perturbado por pensamentos que pensou há muitos anos, no tempo de criança. Os pensamentos são como aves de arribação, batem asas para longe quando chega a estação certa. Então, o caso de Alcino era deveras curioso. Extraordinário. Para comprovar esse juízo, o próprio escrevera sobre o tal pensamento no diário que mantinha guardado numa caixinha de jacarandá, enfeitada com incrustações de cobre e pinturas de paisagens suíças. A caixinha fora-lhe presenteada pelo Padre Pourier, no aniversário de 10 anos. Nas páginas do diário, a história era contada como segue.
Ao completar o catecismo, quando se preparava para a Primeira Comunhão, Alcino foi perguntado pelo Padre Pourier: “Menino, diga-me o que você aprendeu no Catecismo”. Sem titubear, o filho de Seu Antônio, olhando sobre o ombro esquerdo os colegas sentados atrás dele, disse para o bom padre: “Eu aprendi que devemos ter medo do pecado e do Diabo. O Diabo está em todo canto, disfarçado sob as formas mais sutis. Ele prepara para o cristão golpes terríveis. O livro ensinou que o Diabo se esconde nos detalhes, não é Padre?” Sem tempo nem para respirar, Alcino prosseguiu: “Eu acho que o Diabo acompanha a pessoa aonde ela vai, escondido na sua sombra. O Diabo é a sombra, e a sombra nunca abandona a pessoa. Mesmo no meio-dia, a sombra está debaixo dela, encolhida. O Diabo tenta a pessoa através da sombra que ela forma na luz do sol e do candeeiro. Deus tinha que acabar com a sombra. Eu tenho medo de minha sombra”. Ao ouvir as palavras de Alcino, pronunciadas com judiciosa ingenuidade, o Padre estremeceu. Ficou furioso. Via-se que o sacerdote percebera que, naquela cabecinha tão devota, reinava uma confusão que nunca desapareceria inteiramente. João Pourier admoestou o menino, mandou rezar dezenas de Pais Nossos e Aves-Marias e encerrou o Catecismo, visivelmente perturbado. O diário revelava que, nem mesmo no Seminário, Alcino conseguira se livrar daquela idéia, que identificava o Diabo com a sombra das pessoas. Que fazia de Joões e Marias igualmente filhos de Deus e do Demônio. Nas noites mais escuras, cortadas por trovões e rajadas de temporais, Alcino sonhava com sombras que viravam diabos e pulavam, de mãos dadas, com as pessoas nos becos e travessas de Diamantina. O enorme crucifixo de prata na parede do dormitório do Seminário era incapaz de esconjurar esses pesadelos que sobressaltavam o sono do moço. Mas ele estava decidido a virar padre.
Ninguém acreditaria no contrário. Alcino ia bem no Seminário. Estava prestes a iniciar o curso de Teologia. Era, então, rapaz bem apessoado, corpo rijo e bem torneado, ombros largos, braços fortes, pele naturalmente bronzeada. Alcino misturava o que seu pai, português, e sua mãe, belíssima mulata das bandas de Mendanha, possuíam de traços físicos mais destacados. Metido na batina, fechada até o pescoço pelo colarinho clerical, chamava a atenção por onde passava. A ponto do Reitor do Seminário destacar um seminarista mais velho, que logo seria diácono, para acompanhá-lo discretamente, de modo a proteger Alcino dos arroubos das moças e da inveja dos colegas. Pedro era o nome do quase diácono que deveria cuidar de Alcino. Exagerado, abnegado, Pedro cumpriu a tarefa. Tornou-se a sombra de Alcino. Um dia, ele reparou o jovem seminarista no banho. A visão do corpo molhado, que brincava debaixo da água fria num dia de calor sufocante, deixou Pedro sem ar. Deslumbrado, Pedro não se conteve. Incapaz de resistir aos instintos que o assaltaram, tentou entregar-se a Alcino. O moço repeliu o quase diácono, assustado. Dali em diante, a vida no Seminário ficou impossível para Alcino, perigosa. Pedro era só obsessão. Sua paixão por Alcino fora arrebatadora, não possuía limites e exigia consumação. Os boatos cresceram entre os colegas. Os cochichos sobre Pedro e Alcino extravasaram os dormitórios e as salas de aula. Alcançaram o gabinete do reitor. Até que, numa noite gelada, a situação finalmente explodiu: Pedro foi apanhado bolinando com Alcino, que mal despertara do sono. No dia seguinte, a notícia espalhara-se. Até os comerciantes do Mercado no Largo da Cavalhada Nova comentavam o ocorrido. O escândalo corria solto, como os cães vira-latas que infestavam os becos de Diamantina. Não restou ao Reitor outra saída, senão expulsar ambos os seminaristas.
Para Alcino, aquilo foi a morte. Voltou envergonhado e deprimido para São João da Chapada. Seu Antônio não resistiu ao disse-que-disse. Caiu de cama, doente, e não se recuperou. Morreu alguns dias depois, com o coração alquebrado. Alcino trancara-se no quarto, onde apenas chorava. Seu inseparável terço, com contas que imitavam madrepérola, dormiu esquecido na cabeceira do pai moribundo. Na hora do enterro de Seu Antônio, Alcino levantou-se, vestiu calça escura de linho e paletó preto, abotoou até o pescoço a camisa branca de algodão e saiu do quarto. Falou para Joaquim: “O mal está feito. A partir de hoje, cuidarei da venda de meu pai”.
Por quase vinte anos, Alcino foi vendeiro. Não falava sobre o passado nem sobre o futuro. Apenas vendia o que seus fregueses pediam. Cachaça, doces, salgados, ferramentas para garimpo, mantimentos e tralhas de uso doméstico. Neste tempo todo como negociante, Alcino viajou a Diamantina duas ou três vezes. Rever a cidade lhe causava sofrimento, despertava lembranças doídas. Por isso, combinou com um amigo dos tempos de Seminário, que também exercia o ofício de comerciante de secos e molhados e era respeitado pedrista, para ser seu representante e bastante procurador na praça do antigo Tijuco. Assim, sem afastar-se de São João da Chapada, Alcino recebia os tropeiros que o amigo despachava desde Diamantina. E negociava a dinheiro, fazendo o menor uso possível de notas promissórias.
Alcino tratava os fregueses com igual distanciamento. Vivia encimesmado. O tédio da vida em São João da Chapada não lhe desagradava. Ao contrário, fazia bem para a melancolia de Alcino. Ele passava horas sentado na soleira da porta da venda, ao lado do negro Jacinto, freguês que, ao cair da tarde, picava fumo e enrolava cigarros de palha. Enquanto o negro fumava, Alcino ouvia o assobio do vento nas pedras que são como muralha ao redor do povoado. A única coisa que irritava Alcino eram as aparições de Porcina, cabocla bem feita de corpo lá de Quartéis do Indaiá. Ela possuía olhos grandes, lábios carnudos, ancas largas, cabelos anelados cortados na altura dos ombros e nenhuma instrução. Há muito declarara seu interesse por Alcino. Dizia que sonhava com ele, em afazeres de cama. E que, mais cedo do ele imaginava, os dois se casariam. A conversa de Porcina deixava Alcino desarvorado, em brasa. Por isso, ele afastava a cabocla oferecida tão depressa quanto podia. Chegava a ralhar com ela: “Mulher perdida, não vês que não quero dormir com Satanás?” Logo ouvia a resposta, embrulhada no eco de suas próprias palavras: “Alcino, um dia você me paga. Vai ajoelhar e me pedir pra ser sua”. Afogada em lágrimas, Porcina, coitada, voltava para Quartéis do Indaiá. E tudo recomeçava, como se fora uma espécie de ciclo cósmico, quando terminavam os mantimentos na cabana da cabocla, à beira do Caeté-Mirim.
As discussões de Alcino e Porcina divertiam o povoado. O comentário era geral. Zé Grande, garimpeiro astuto e banguela, falava: “Um homem não pode viver sem deitar com mulher. Tem trem errado com Sô Alcino”. Eufrásio, seu companheiro de gole, emendava sem titubear: “Deixa de ser bobo, Zé. O Alcino é padre gorado. Mas possui mais fé que muito bicho de batina por aí. Pro Alcino, mulher serve é pra ser beata”. A maioria da gente de São João da Chapada, porém, acreditava em silêncio que Porcina acabaria fisgando o vendeiro. Secretamente, havia quem fizesse simpatias casamenteiras em favor de Porcina. Dona Do Carmo, corpo arqueado pelo peso da idade, rosto enrugado como maracujá esquecido no armário, que trouxera meia população do lugar à vida, pensava diferente: “O fim de Alcino será inesperado e triste. Que Nosso Senhor do Bonfim o proteja!”
A diversão de Alcino era pouca. Às vezes, nos domingos límpidos e quentes, se não era dia de missa ou festa de santo, Alcino pegava sua velha espingarda de caça, herança do pai, e entrava pela mata, na direção da Chapada do Couto. Somente Carvão, um cachorro negro que nem breu, esquálido – se podia ver todas as costelas e espinhas do bicho cutucando o couro – e que passava os dias na frente da venda, somente esse companheiro sem raça acompanhava Alcino. As caçadas nada rendiam, talvez porque Alcino nunca aprendera a atirar no Seminário e seu pai não tivera tempo para suprir essa lacuna da educação do moço. Talvez Alcino, justamente quando colocava uma paca ou um veado sob a mira da espingarda, lembrava-se de São Francisco, desistindo de atirar. O segredo morreu com o moço.
Numa madrugada de maio, depois que a lua vermelha deitara atrás das montanhas, deixando no céu nuvens escuras perfiladas à maneira militar, o candeeiro na casa de Alcino não foi aceso. As janelas permaneceram fechadas. A porta, que nunca era trancada, também não abriu. Joaquim apareceu no muro da frente, transtornado. Os cabelos desgrenhados do negro revelaram que algo inesperado havia acontecido. Ele soltou um grito, acordando os vizinhos. Alguns minutos bastaram para que gente do povoado inteiro estivesse diante da casa de Alcino, as costas voltadas para o cruzeiro molhado pelo sereno. Alguém saiu lá de dentro e informou a multidão: “Seu Alcino morreu”. Passada a comoção, começaram os preparativos para o velório e o enterro do vendeiro, que, apesar das esquisitices, era figura bem-quista na comunidade. Trouxeram o caixão e botaram na sala da frente, cujas janelas e portas já estavam escancaradas. O vento soava sem trégua e trouxe Porcina. A cabocla debatia-se, inconformada. Ajoelhou na lateral do caixão, abraçada ao corpo inerte de Alcino. Porcina soluçava profundamente. Não poderia haver maior contraste com o moço defunto: ele jazia silencioso, pálido como a parafina das velas de igreja, olhos cerrados, boca entreaberta, as mãos justapostas sobre a barriga. Vestiram Alcino com as mesmas roupas que ele usara no enterro de Seu Antônio. O que levou Dona Do Carmo a falar em voz baixa: “A vida tem coincidências terríveis”.
O velório encheu a casa de gente. As condolências foram dirigidas ao velho Joaquim, o único membro da família que sobrevivera. Na cozinha, as mulheres faziam fornadas de biscoitos, fritavam lingüiça e torresmo, enchiam garrafas de café e copos de pinga. Os homens na sala, ao redor do caixão, cumprimentavam o defunto, rezavam qualquer coisa e saíam para a rua, formando rodas de conversa. Nessas rodas de conhecidos e amigos, a vida de Alcino era objeto de escrutínio. Fizeram-se juízos sobre a justiça ou injustiça de sua expulsão do Seminário, sobre seu jeito de negociar e, é claro, o caso do amor de Porcina por ele. A comida não parava. Chegaram duas violas e uma rabeca. No quarto de Joaquim, no fundo da casa, buscou-se um pequeno tambor. A música teve início e a dança esquentou. São João da Chapada, como previa o costume, bebia o morto. Veio o crepúsculo, a noite e a madrugada. O frio era intenso. Nem por isso a casa ficou vazia. O defunto na sala sequer um momento foi abandonado: pelo menos um moleque ficava ao lado do caixão, além de Porcina, em prantos.
Algo, contudo, não andava direito. Mesmo imóvel e cada vez mais pálido, Alcino enviava sinais de que era um defunto desconfortável. Imperceptivelmente, os olhos dele se abriram. Os cabelos esvoaçaram de leve, o nariz entortou para a esquerda e as mãos, que repousavam sobre a barriga, separaram-se alguns milímetros. Estas mudanças consumiram horas, mas Porcina percebeu o que se passava. Ela esperava, crente no milagre da ressurreição de seu amado Alcino.
Deitado no caixão, no meio da sala da casa que fora de seu pai e depois dele, Alcino, mortinho da silva, lembrou-se de que, antes de morrer, fora invadido pelo mesmo pensamento indigno que a vida toda tentara esquecer. Sob os cobertores, a cabeça no travesseiro e o rosto apontado para a esteira do teto do quarto, Alcino sentiu um calafrio percorrer sua espinha, de cima para baixo, seguido imediatamente por uma dor fulminante. Alcino teve tempo de concluir, apavorado: “Se a sombra da pessoa é o Diabo que a acompanha, onde quer que ela vá, então, quando eu me deito e minha sombra coincide exatamente com meu corpo, o Diabo finalmente assume o meu ser, engalfinha minha alma”. Nesta linha de raciocínio, enquanto seu coração ainda batia, fraquejando, Alcino se perguntou: “Quem morre deitado, o corpo bem estendido, viverá a eternidade de mãos dadas com o Diabo?” Nesta altura, Alcino cerrou os olhos para sempre.
Imóvel na sala, abraçado por uma Porcina inconsolável, o defunto de Alcino ansiava por liberdade. Porcina compreendeu isso. Entendeu que o vendeiro não era do tipo de morto que precisava de quem o velasse para defendê-lo de inimigos secretos. Alcino também não precisava que o velassem para que ele próprio não aprontasse alguma. Ele nunca gostara de confusão. O que Alcino suplicava, pensou Porcina, era que o deixassem levantar e ir embora, viver tudo aquilo que ele não havia vivido. Quando as velhas carpideiras chegaram, Porcina apertou as mãos de Alcino e falou, com os olhos rasos de lágrima: “Agora vá, meu pobre moço”. Por um instante o velório ficou petrificado. Um sopro gelado escapou do caixão, varrendo os quatro cantos do ambiente e esgueirando-se pela porta da rua, no rumo da estrada. Uma voz trêmula, muito semelhante à de Alcino, falou essas últimas palavras: “Vou realizar minhas vontades, larguem-me!”.
Por Marcos Lobato Martins, 25 de dezembro de 2008. 1 Comentário


em março 14th, 2009 às 22:19
Você me faz recordar o Vale e a gente simples do interior, cada um com sua história de vida particular. Pobre Alcino, antítese de Ramiro, deixou que a vida fizesse por ele as escolhas. Parece-me que suas parteiras têm sempre um quê de adivinhas, feiticeiras, bruxas, quem sabe. Mulheres que liam nas linhas dos rostos e nos traços dos corpos sinais de caminhos futuros. A devoção católica, nos confins das gerais, se esgueirava nas frestas onde a sabedoria popular não alcançava resposta. Creio que muitos Alcinos se formaram assim. E muitos, até hoje, se perdem como seu personagem, envolvidos em situações que lhe fogem ao controle. Temo situações como esta, assim como Alcino temia sua sombra.
Estou ficando entusiasmada com suas prosas do Espinhaço.
Abraços,