Impressões sobre o conto de Sérgio Buarque de Holanda

Pelos jornais, fiquei sabendo que “A viagem a Nápoles”, conto de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1931 pela “Revista Nova”, recebeu cuidadosa edição em formato de livro, numa iniciativa da editora paulista Terceiro Nome. Bastou a notícia para fazer brotar a curiosidade. Imediatamente encomendei a obra pela internet e fiquei amargando brutal ansiedade durante uma semana inteira, até que o carteiro batesse à porta de minha casa, trazendo o pacote tão esperado. Afinal, Sérgio Buarque é ícone na cultura nacional, admiradíssimo pelos profissionais da História, dono de erudição inigualável e de estilo requintado, um escritor nato. Por isso, eu queria examinar sua incursão direta na literatura, como criança que deseja levar pra casa o vidro de balas sortidas e coloridas da venda onde sua mãe compra as coisas da cozinha. Mais honesto seria dizer como quem procura justificativas para seus próprios pendores, ainda contidos por temor respeitoso às convenções.

Pouco importa se o conto é anterior à consagração de Sérgio Buarque como um dos maiores pensadores brasileiros. No referido conto eu queria encontrar exercício superior de ficção, olhar de perto o jeito do mestre lidar com a linguagem e a imaginação, sem os compromissos acadêmicos do historiador. Eu queria experimentar surpresas, intuindo o bom-humor do texto, quem sabe até julgar – será pretensão descabida? – o quanto perdeu a Literatura diante da escolha do autor pela História. Na verdade, eu queria mesmo era sentir a liberdade de mandar às favas a seriedade do trabalho de professor de História. Vestindo a pele do jovem Sérgio Buarque, divertir-me com a invenção de estórias, esquecer as fontes por algumas horas, driblar os conceitos e as teorias como o bom jogador desvencilha-se dos beques de cintura-dura no campinho de pelada.

A viagem a Nápoles, Sérgio Buarque de Holanda.


Mas o livro chegou num momento impróprio. Fim de semestre letivo, pilhas de provas e trabalhos para corrigir, diários para preencher, notas e faltas para lançar no banco de dados da faculdade. Um martírio que se abate sobre mim duas vezes por ano. Sofrimento que, na véspera do Natal, adquire peso insuportável. E o pessoal da secretaria me cobrando pressa, desconfiando de minha disposição para cumprir a burocracia escolar. O livro lá, na cabeceira da cama, fechado, cheiro de novo, encapado em verde-e-branco, as cores do meu time – ele parecia me pedir para mandar subverter as obrigações de professor, procurar uma praça agradável para me sentar e lê-lo sem parar. Uma, duas, três vezes. Só não sucumbi por milagre. Ao me livrar da secretaria, voei para casa. Tomei nas mãos o livro. Puxei ar, para ganhar fôlego, e li da primeira até a última página, afogado nas águas doces e silenciosas que jorravam da brancura das folhas.

Fiquei admirado. O texto é puro sonho. Onírico, límpido, contido. Mistura os tempos e os lugares urbanos. Brinca com o antes e o depois, a noite e o dia, desfazendo as seqüências cronológicas, as convenções impressas nos mostradores dos relógios. O mesmo ocorre com a casa e a rua, a escola e o parque, percorridos por Belarmino – o garoto protagonista – ora sobressaltado, ora com os nervos no lugar e a cabeça cheia de esperança. São Paulo, que é cenário do conto, tem mais ou menos consistência: depende da altura da história em que está o leitor. Há ruas, bondes, prédios, passantes, escarlatina, meninos e adultos, regras. Mas há também rios no meio das casas, canoas inesperadas, mansões que abrigam imperadores, projetos mais assemelhados a visagens. Difícil separar o que é sonho de Belarmino do que é ação verossímel dos personagens. A atmosfera do conto é surreal, para o que contribui a supressão das distâncias geográficas. De um salto se vai do quarto de dormir para a sala de aula, e, principalmente, do Brasil para a Itália. O oceano imenso vira rio pequeno, cômoda e rapidamente atravessado numa canoa, impulsionada a remo.

Pressionado pela família e pela escola, justamente quando o início da adolescência alimentava novas e estranhas inquietações, pouco afeitas a acomodações no interior da “velha ordem”, Belarmino resolve fugir para Nápoles. Que é, todavia, um canto obscuro da dinâmica cidade de São Paulo. Por que Nápoles? Poderia ser Paris, quem sabe Berlim ou Roma. Ora, havia de ser a capital do Sul italiano porque na São Paulo dos anos 1920 tropeçava-se num “carcamano” a cada esquina.

É a escolha de Nápoles que me leva a pensar no conto como espelho mágico capaz de refletir, em forma de quebra-cabeça intrincado, a situação do Brasil naquela época e as linhas mestras da interpretação do país que Sérgio Buarque já começara a elaborar, certamente. Nalguma medida, o conto é imaginação e biografia, biografia de um país em transformação. Belarmino acordou com dois dentes a menos. Banguela, tinha vergonha de ir para a escola. Além do mais, poderia sofrer castigos por ter feito, no dia anterior, coisas deploráveis conforme o rígido regulamento da escola: atirara atrás do quadro de Tiradentes, o herói da República, desenhos de homens e mulheres nus e quebrara o vidro do retrato. (Belarmino era monarquista? Assim poderia pensar o leitor que tudo lê pelo prisma da política estrito senso.) Belarmino não suportava mais a ordem tradicional, opressiva, vazia da escola respeitável, freqüentada pelas camadas médias da cidade. Escola cujo portão ficava bem defronte da Praça da República. O menino sabia declamar versos ufanistas, o que é anástrofe, quais os portos de mar do estado de São Paulo. E ele desejava a professora Dona Leonor, ainda sem entender como nem para quê. Tal como Belarmino, que buscava o novo, o mais funcional, o mais racional, menos forma e mais conteúdo, o país também avançava. Todavia, avançava cindido entre as exigências do passado e as do futuro, muito díspares entre si. Ainda preso ao formalismo, ao familismo, ao bacharelismo, as ruas do Brasil – do seu coração moderno, a cidade de São Paulo – enchiam-se de pessoas comuns e assistiam, gradualmente, a operação de forças associadas à ordem capitalista, liberal e industrial. A modernização era um sonho inadiável. Porém, sonho doloroso, turbulento, que para muitos parecia pesadelo tal a quantidade de sobressaltos que o acompanhavam. A História impelia na direção do sonho da modernização, mas era difícil aceitar os sofrimentos que o processo produziria. Exatamente como ocorre ao deixar de ser criança e entrar na adolescência. O tempo, contudo, não poderia ser parado. Nem para Belarmino, nem para o Brasil.

Aqui, outra vez, penso na razão do mestre Sérgio Buarque haver escolhido Nápoles. A viagem para Nápoles que Dona Leonor propõe a Belarmino, aceita pelo menino passiva e irrefletidamente, representa a “fuga para trás”, a onírica volta para o passado, o apego às estruturas sociais, econômicas e culturais mofadas, deterioradas, velhas que as elites nacionais lutavam para defender. Nápoles era o buraco de rato para o qual tanto Belarmino quanto o Brasil poderiam ser arrastados, caso não mostrassem ânimo suficiente “para enfrentar o novo modo de existência”. No fim do conto, o narrador insinua que Belarmino, confuso, desperta do sonho com os gritos que chamavam para o café. E revela que “foi então que um novo empurrão, não se sabe de onde, veio sacudi-lo desse entorpecimento”. Creio eu que a arte e o pensamento social modernos tomaram parte decisiva no empurrão.

Por Marcos Lobato Martins, 20 de dezembro de 2008.  2 Comentários

2 respostas para ' Impressões sobre o conto de Sérgio Buarque de Holanda '

Receba os comentários com RSS ou TrackBack to ' Impressões sobre o conto de Sérgio Buarque de Holanda '.

  1. Cristiane escreveu,

    em dezembro 21st, 2008 às 09:49

    Pronto! Já é mais um a entrar para minha extensa lista de livro a ser lido/adquirido em 2009. Não sei por qual motivo, enquanto lia sua narrativa lembrava-me do livro “Marcovaldo”, do Ítalo Calvino (autor que adoro). Este ano li 16 livros de literatura, mais outros iniciados e não terminados, além de outros tantos da nossa área que não ouso computar ou listar (são ossos do ofício). Literatura é minha amante, escrevi também estes dias no meu blog.

    Quanto à você, caro professor, escritor, pesquisador, conheço suficientemente suas linhas para dizer com segurança que transita tão bem num espaço quanto noutro, assim como fez Sérgio Buarque de Holanda. E seria, talvez, um desperdício abrir mão de um para dedicar-se apenas ao outro.

    Por estes dias também estou às voltas com o Correio, esperando a chegada de três títulos, um deles por indicação sua: “A Viagem do Elefante”, do Saramago. Outro é do Guimarães Rosa (como não poderia deixar de ser) e um terceiro é um livro sobre os porões da Ditadura militar escrito por uma jornalista conhecida minha (“Sem Vestígios – revelações de um agente secreto da ditadura militar brasileira”, por Taís Morais).

    Belo texto!

    Abraços, Marcos.


  2. em novembro 24th, 2009 às 09:04

    Sérgio Buarque é um excelente historiador, vou comprar o conto “A viagem a Nápoles”, pois tudo que sai da pena desse escritor é digno de ser lido. “Raízes do Brasil” é outro livro que merece ser meditado e digerido por aqueles que amam nosso país. Parabéns

Escreva um comentário


 
 

Nuvem de tags