Um bom tema, um livro frágil
Ao retornar de viagem de pesquisa na porção norte do Vale do Mucuri, com colegas do Projeto Mucuri do IGA (Instituto de Geociências Aplicadas de Minas Gerais), parei para breve lanche em Ipatinga, a capital mineira do aço. Ali, numa livraria bem montada, dentro do Shopping Center da cidade, encontrei um livro que, pelo tema, chamou-me a atenção. Tratava-se de trabalho de Cláudia Márcia Coutinho Dias, professora do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais (UNILESTE), situado na cidade de Coronel Fabriciano. O livro continha a dissertação de mestrado da professora, defendida na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), na área de “História da Ciência”. O tema era instigador: técnicas de mineração em Minas Gerais nos séculos XVIII e XIX e a influência dos saberes africanos sobre as práticas dos mineradores dessa época.
Não titubeei. Adquiri imediatamente o livro, cujo título é: “Tecnologias de extração do ouro em Minas Gerais: os saberes vindos da África”. A edição, de 2008, é da Difusora Editora Gráfica, de Belo Horizonte. Entre Ipatinga e o trevo de Santa Luzia, li o trabalho inteiramente. Infelizmente, o livro da Profa Cláudia Dias não correspondeu a minhas expectativas. Um bom tema – a história das técnicas de mineração e sua difusão na Capitania/Província de Minas Gerais – havia sido abordado de modo pouco convincente.
O texto tem três capítulos. O primeiro trata da descoberta do ouro em Minas Gerais e das medidas tomadas pela Coroa portuguesa para controlar os povos que acorreram para a região e extrair os impostos, na maior quantidade possível. O segundo capítulo aborda as técnicas de extração do ouro em Minas Gerais, apoiando-se quase exclusivamente nos textos clássicos do mineralogista alemão Barão de Eschwege (Pluto Brasiliensis) e do jesuíta Antonil (Cultura e Opulência do Brasil por suas drogas e minas). O terceiro capítulo, decisivo para a hipótese proposta pela Profa Cláudia Dias, discute o papel dos chamados negros Mina na mineração no Brasil. Conforme a autora, “o nosso estudo (…) irá mostrar a maneira como esses conhecimentos [dos negros Mina sobre mineração] foram fundamentais no período colonial por serem praticamente os únicos utilizados na extração do ouro (…)” (p. 19). Nesse capítulo, duas outras fontes são empregadas: a Instrução para o Governo da Capitania de Minas Gerais, do Desembargador reinol José João Teixeira Coelho, e o famoso Códice Costa Matoso.
O que a autora tentou mostrar, com base em pesquisa bibliográfica? Em primeiro lugar, que as técnicas de extração do ouro empregadas em Minas Gerais, durante os séculos XVIII e XIX, foram introduzidas pela população escrava originária da Costa da Mina. Em segundo lugar, que os mineiros usaram e preferiram os escravos Mina nas suas lavras, justamente porque reconheciam sua capacidade superior nos serviços de mineração. Em terceiro lugar, que os mineradores da região resistiram às instruções sobre outros métodos de extração, trazidas pelos naturalistas enviados pela Coroa no fim do século XVIII e início do século XIX. A argumentação, contudo, não convence o leitor. Vejamos por quê.
Quanto às técnicas e instrumentos de mineração, como a bateia, a nora (ou rosário), o almocafre, o carumbé, a origem africana deles não fica demonstrada. Ao contrário, a própria autora cita que havia desenhos desses instrumentos na obra do sábio romano Agrícola, De Re Metalica, editada em 1576 na Europa. O que sugere, portanto, que tais instrumentos eram conhecidos dos portugueses, que eles faziam parte de um complexo cultural presente há milênios no espaço da Bacia do Mediterrâneo. Nesse caso, pouco importa discutir a origem precisa de cada instrumento e técnica de mineração. De outra forma, como explicar o fato dos bandeirantes paulistas descobrirem e explorarem as minas de ouro de Paranaguá, na primeira metade do século XVII, sabidamente sem escravos africanos? Ainda no que concerne às técnicas de mineração, deve-se assinalar que, no século XVIII, não havia na África nem na Europa tecnologia apropriada para a mineração subterrânea. O problema não estava restrito à Capitania de Minas Gerais e às dificuldades dos senhores de lavra obterem escravos Mina, por causa do preço elevado que eles alcançaram no mercado. Também não é sólida a afirmação da autora de que “a extração do ouro, feita por meio de técnicas utilizadas pelos escravos desde o início do século XVIII”, teria causado a falência de empresas como a Companhia do Assuruá, instalada em 1885. Essa relação entre trabalho escravo e técnicas modernas (mais intensivas em capital fixo) é mais complexa, como demonstra a Saint John D’el Rei Mining Co., operada exitosamente pelos ingleses em Nova Lima.
Para o minerador de aluvião ou de grupiara, dispondo de farto suprimento de cativos a preços razoavelmente baixos, não fazia sentido cogitar de técnicas poupadoras de mão-de-obra.
Outra fragilidade da argumentação da Profa Cláudia Dias está associada à composição da escravaria nas lavras de ouro do Setecentos e do Oitocentos. O suposto papel destacado dos escravos Mina nas lavras de ouro exigiria mostrar que eles predominaram nesse tipo de serviço. Inventários de grandes mineradores e inquéritos populacionais diversos deveriam ter sido analisados pela autora com essa finalidade. Mas isso não foi feito. Então, por que deveríamos acreditar que os cativos Mina foram preferidos para os serviços de cata? Nos inventários de mineradores de diamante de meados do século XIX que tive oportunidade de examinar, quando da elaboração de meu trabalho de doutoramento, não há sinal de que os Mina predominassem. Ao contrário, encontrei aquilo de que há décadas fala a historiografia: diversidade de origem dos escravos africanos nos plantéis mineiros. Ademais, a autora afirma que os preços dos Mina valorizaram-se no decorrer do período, em função da demanda das lavras, o que também não está cabalmente demonstrado. Nem apresenta análise das variações intertemporais da composição dos lotes de escravos desembarcados nos portos de Salvador e Rio de Janeiro, de maneira a tornar plausível sua afirmação de que a “decadência” da mineração aurífera coincide com a redução da chegada de cativos Mina no Brasil.
Esses reparos ao trabalho da Profa Cláudia Dias me parecem sérios, indicando fragilidades na elaboração da dissertação. Fragilidades metodológicas e factuais. De qualquer forma, o tema proposto pela autora é relevante, na medida em que ressalta a “circulação de saberes” entre os continentes que integraram o vasto império luso-brasileiro.
Por Marcos Lobato Martins, 3 de novembro de 2008. 1 Comentário


em novembro 4th, 2008 às 07:29
Prezado Marcos,
Os argumentos utilizados pela autora são recorrentes na nova historiografia sobre a escravidão. Eu mesma já os repeti em sala de aula, afirmando que os escravos Mina trouxeram um saber a respeito da mineração e que com a decadência escasseou-se este tipo de mão-de-obra, citando este e aquele autor. Já ouvi estas afirmativas em aulas na própria FAFICH.
Pareceu-me, pelo seu relato, que o que a autora fez foi “comprovar” por meio de bibliografia fartamente citada e analisada uma evidência recorrente atualmente, sobre um tema inesgotável – a escravidão.
A História tem destas falácias, descobre-se algo hoje para ser refutado amanhã. Pode-se levantar documentação que desmonta toda uma historiografia de séculos, etc. Você cumpriu o papel do cientista que questiona, que compara, que duvida. Muito bom!
Parabéns e obrigada pela “aula”.
Cristiane