Jovens do Mucuri: quem espera alcança?
Há uma fórmula gasta, comportando numerosas variações, que diz: “os jovens são a esperança do Brasil”. O dito retórico tem o efeito de lançar carga desproporcional sobre os ombros das crianças, rapazes e moças que habitam o território nacional, na medida em que atribui a eles, e tão somente a eles, a responsabilidade pela realização das mudanças profundas que a Nação exige, visando alcançar o desenvolvimento sócio-espacial. Os adultos, por essa fórmula, se eximem e empurram para o futuro as tarefas de promover maior eqüidade social, fortalecer as economias regionais e construir ambiente sustentável para que o povo brasileiro viva em paz e prosperidade.
O problema é que não são oferecidas aos jovens, especialmente aqueles que habitam as pequenas cidades interioranas, condições mínimas para suportar a carga que se transfere para eles. Na situação atual da maioria de nossas cidades, é pouco provável que estejamos formando capital humano e capital social que impulsionem o desenvolvimento do país. Ao contrário, os obstáculos que nossa juventude enfrenta para se formar profissionalmente e alcançar a cidadania são enormes. Quem viaja pelo interior, ou percorre as periferias das grandes cidades brasileiras, observa as adversidades colocadas diante da juventude. Mas as moças e os rapazes têm sido fortes, lutando para transformar a si mesmos e a suas cidades. Uma luta extenuante, até mesmo inglória, mas que eles têm levado adiante com coragem e esperança.
Eu vi com meus olhos esses lutadores na viagem de pesquisa que realizei ao Vale do Mucuri. Destemidos, esperançosos, esforçados. Crentes de que tomaram o rumo certo, que é o de buscar a formação superior. Investir na educação para melhorar de vida e ajudar suas comunidades a avançar. Assim esses jovens pretendem contribuir para o desenvolvimento regional, porque há neles marcado amor por sua terra natal.
Na cidade de Crisólita, três garotas aproximaram-se de mim para saber que tipo de pesquisa eu fazia sobre a região. Então disseram que integravam o Projeto “Caminhada Digital”, do Ministério da Cultura, e que, naquele momento, procuravam informações sobre lendas e antigas histórias da cidade. Era tarefa do Projeto: elas teriam que lançar na internet o material que recolhessem sobre Crisólita. Ofereci algumas dicas sobre procedimentos de pesquisa e um exemplar da revista “Leituras da História” que contém pequeno artigo que escrevi sobre assombrações em Diamantina. Conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo que, no telecentro da cidade, cerca de 90 usuários/mês empregam os computadores instalados, a maioria jovens.
Gente como elas. Jeisiane, estudante do 3o ano do Ensino Médio, que pretende fazer faculdade. Ainda não sabe o curso, pois está em dúvida entre Enfermagem e História. Falei para a Jeisiane que História é o melhor curso do mundo, mas ela ficou ressabiada. A outra garota se chama Aline, e já se formou no Ensino Médio. Tinha acabado de ser aprovada no vestibular da Unipac-Teófilo Otoni, sem, contudo, definir o curso no qual se matriculará. Estava entre Enfermagem e Serviço Social. A terceira moça é Ludmila, estudante do 3o ano do Ensino Médio, que pretende cursar Fisioterapia. Todas elas esperam dispor de transporte da Prefeitura para levá-las à faculdade, conforme os candidatos prometeram na campanha eleitoral. No rosto delas há energia e determinação. O melhor que podemos fazer é torcer para que alcancem o que projetam para o futuro próximo.
Em Pavão, pequena cidade situada poucos quilômetros ao sul de Crisólita, encontrei na praça principal mais uma jovem determinada e esperançosa com o futuro. Onde não parece haver perspectivas, lá está a moça tentando tomar nas mãos seu futuro e livrar-se dos grilhões do atraso que acorrentam a maioria de seus conterrâneos. O nome da garota é Ana Paula Almeida. Com 22 anos, ela trabalha o dia todo no quiosque de sorvete da praça para pagar o curso de Serviço Social em Teófilo Otoni. Curso realizado na unidade de ensino a distância da Uniube (Universidade de Uberaba), que tem aulas presenciais uma vez por mês, no final de semana. Junto com Ana Paula, há outros 40 estudantes de Pavão cursando ensino a distância. Para deslocar-se até Teófilo Otoni, Ana Paula e os colegas dispõem de microônibus cedido pela Prefeitura.
Fora o trabalho e o estudo, Ana Paula possui vida pacata, ponteada por uma ou outra festa. O lazer dos jovens de sua idade na cidade de Pavão é assim: festas juninas, réveillon e o aniversário da cidade, em março. Além, é claro, das esticadas até Águas Formosas e Novo Oriente para participar das festas locais.
Isso tudo me lembra minha própria cidade, até os anos 1970. Depois, Pedro Leopoldo integrou-se, de fato, à Região Metropolitana de Belo Horizonte, o que modificou bastante o modo de vida interiorano, caipira mesmo, que marcou minha infância.
Essas moças de Crisólita e Pavão nos desafiam abertamente, em pelo menos dois campos importantes. Um deles é o das políticas públicas para a juventude. Está tudo por fazer, infelizmente. O outro é o do ensino técnico e superior, especialmente no que se refere à modalidade EAD (ensino a distância). As estratégias para a interiorização do ensino técnico e superior, que tem recebido atenção especial do Governo Lula, são controversas. É preciso discutir mais profundamente esses assuntos.
Por Marcos Lobato Martins, 4 de novembro de 2008. 1 Comentário



em agosto 6th, 2010 às 11:01
o que vejo é que não se monta uma clinica fisiotepia contrata uma e paga por mes 24 mil reais em dois lugares somando mensal 46 mil reais e a comunidade e atendida por clinicas particular mal atendidas e se monta uma clinica com 10 mil mas os governante não vêm isso.