Homens do Jequitinhonha que povoaram o Mucuri.
É ponto consensual na historiografia sobre o Vale do Mucuri, ainda muito escassa, que o povoamento efetivo da região é bastante posterior aos esforços bem intencionados da Companhia criada por Teófilo Otoni, que operou pouco tempo, entre 1851 e 1861. Foi somente no fim do século XIX que migrações internas de “nacionais pobres” abriram gradativamente as terras do Mucuri, primeiro com a produção de café e mantimentos, depois com a exploração de madeira e a pecuária de leite e corte. Esses migrantes tiveram origem bem determinada: o médio curso mineiro do Jequitinhonha e o sul da Bahia. Levas de gente pobre, associada à pequena lavoura, que fugiu das grandes secas – como as dos anos 1890 – e buscou recursos noutras paragens. Migrações que cobriram o período 1880-1940.
Nas atuais cidades do Vale do Mucuri, especialmente na sub-bacia do Rio Pampã, nós encontramos muitos desses migrantes e seus descendentes. São pessoas que têm os pés postos em dois mundos, um que vai esmaecendo na memória e outro que se agiganta na medida em que correm os anos. O primeiro é o Médio Jequitinhonha. O segundo é o Mucuri. A terra da infância e da partida é o Jequitinhonha. A terra da juventude e da maturidade, sobretudo a terra da chegada e do destino, é o Mucuri.
Entre esses migrantes, está o Sr. José Mendes Guimarães, comerciante residente em Crisólita, com quem conversei no dia 30 de outubro último, no fim da manhã. Seu José Mendes tem 81 anos de idade. Nasceu em Joaíma, em 1937, filho de família de trabalhadores rurais que enveredou pelo pequeno comércio. Um ramo da família instalou-se em Araçuaí e Almenara, prosperando na nova atividade. Ele e mais dois irmãos, em “busca de recursos”, migraram no ano de 1949 para trabalhar na roça, na Fazenda Pão Dourado, situada no córrego Folha Larga, proximidades de Crisólita. Nessa fazenda, as atividades principais eram a criação de gado e a plantação de arroz, mandioca, cana e feijão.
Depois de treze anos laborando na roça, Seu José Mendes Guimarães decidiu-se a abraçar o comércio, como fizeram seus parentes. Mudou-se para Crisólita e montou seu bar. O Bar Rio Negro tornou-se famoso na região, recebendo freqüentadores de Águas Formosas, Santa Luzia, Pavão, Novo Oriente, Maxacalis e Fronteira dos Vales. Havia tão-somente uma estrada de terra acanhada, ligando Teófilo Otoni a Crisólita e Águas Formosas, que era percorrida por um caminhão Chevrolet a gasolina, responsável por buscar as encomendas dos negociantes. Apesar da falta de estradas nos anos 1950 e 1960, a economia da região avançou bastante – diz José Mendes –, favorecendo seu negócio. Havia muitas florestas, que foram derrubadas sem piedade. A madeira era levada para serrarias que existiam nos núcleos urbanos do Vale do Pampã. Em Crisólita, operava uma empresa. Em Águas Formosas, havia duas serrarias. Nos anos 1960, porém, a indústria madeireira refluiu rapidamente: as serrarias fecharam, as grandes florestas desapareceram. Segundo Seu José Mendes, algo similar ocorreu com a pecuária leiteira. A atividade era forte até os anos 1960, animada por cooperativas e pequenos laticínios nas cidades. Em Águas Formosas, existiu o laticínio de Agostinho Bossaide. Mas também a produção de leite caiu de repente, a partir dos anos 1970.
Seu José Mendes Guimarães não descurou da educação dos filhos. Colocou-os na escola primária em Crisólita, depois mandou-os estudar em Teófilo Otoni. Orgulha-se de tê-los formado e de vê-los trabalhar em Belo Horizonte e nas maiores cidades da região. Conforme José Mendes, foram as famílias originárias do Vale do Jequitinhonha que construíram Crisólita. Ele faz questão de lembrar que, quando chegou à cidade, ponteava a família Quaresma, vinda do eixo Jequitinhonha-Joaíma. Em 1919, a maior loja de tecidos, armarinhos e objetos domésticos de Rio Negro (antigo nome de Crisólita) era propriedade de José Quaresma Costa. Ele teve oportunidade de conhecer tanto o comerciante como seu estabelecimento.
Na direção leste, há menos de cem quilômetros de Crisólita, ergue-se a pequena cidade de Umburatiba, que visitei no dia seguinte. Ali encontrei em sua casa, sentado num canto da sala, entre lacônico e mal-humorado, outro pioneiro da ocupação no Vale do rio Itanhém, o Sr. Joaquim Teixeira. Hoje dono de imóveis na rua e de fazendas administradas pelos filhos, o Sr. Joaquim Teixeira tem 98 anos de idade. Nasceu em Itinga, no Médio Jequitinhonha, numa família de pequenos proprietários rurais. A mãe era de Salinas e o pai de Rio Pardo. Na pequena fazenda da família, cultivavam-se feijão, mandioca e cana. Aos vinte anos, Seu Joaquim começou a marcha que o levaria até Umburatiba. Parou alguns anos em Ponto Marambaia. Lá trabalhou em terras de terceiros e também em lavras de pedras coradas. Alguns anos depois, seguiu marcha em “busca de recursos”, avançando rumo leste. Chegou a Umburatiba por volta dos anos 1940.
Ele lembrou que a região dos ribeirões Marambaia e Americana era pouco ocupada, sem adensamentos urbanos significativos e estradas. Havia muita mata nas porções acidentadas do terreno, mas também muita samambaia nas áreas de relevo menos movimentado. Sinal de que os colonos praticaram expressiva derrubada da mata nativa à medida que rumavam para leste. Em Umburatiba, Seu Joaquim Teixeira tornou-se fazendeiro criador de gado e plantador de roças de feijão, milho, mandioca e cana. O gado criado em Umburatiba, mesmo já chegada a década de 1950, era levado para Campos, norte fluminense, em grandes boiadas que cruzavam os vales do São Mateus, Doce e Paraíba do Sul. A saga dos vaqueiros prosseguia, apesar da construção da rodovia Rio-Bahia. A cada seis meses, com regularidade quase perfeita, as boiadas de Umburatiba se punham em movimento. Em Campos, após algum tempo de invernada para recuperar o peso e a aparência, o gado era abatido. Os vendedores de gado de Umburatiba, avisados de que o abate dos rebanhos teria início, viajavam para Campos, com o objetivo de acompanhar tudo de perto. No Mucuri, os frigoríficos são, portanto, tardios: os primeiros, ainda acanhados, datam dos anos 1970.
A vida desses homens, e de muitos outros que habitam as terras do Mucuri, evidenciam que as duas bacias hidrográficas do nordeste mineiro possuem histórias interligadas, como se conectadas por vasos sanguíneos que levaram sumo do Jequitinhonha para o Mucuri, e do Mucuri para o centro-sul do Brasil e o mundo.
Por Marcos Lobato Martins, 9 de novembro de 2008. 15 Comentários


em dezembro 24th, 2008 às 15:01
Sou filha da terra(Crisólita)conhece a família
de Sr. José Quaresma da Costa.
Gostei de saber de mais uma historia da minha terra.Obrigada,Sr. Marcos Lobato Martins por esta informação.Um Feliz Ano NOvo.Fico feliz por ter pessoas como o senhor, que se entereça em divulgar historias dos interiores do nosso pais.
em janeiro 20th, 2009 às 14:38
Sou filho da terra tbm. Sou Filho de Eurico Gonçalves Quaresma, primo irmão de Juca Quaresma. Cresci na região do vale do Jequitinhonha, nasci em Almenara – MG e morei em Joaíma – MG, passei grande parte da minha infância nadando nas águas do Rio Negro, Pampam, São Miguel, Anta pobre,rs…Sou Um Jequitinhonhense apaixonado pela minha terra.já fui em muitas festas na danceteria do bar do Sr José Mendes…rss ponto da meninada em Crisólita. Hoje sou pastor Batista, moro em Uberlândia – MG. Um abraço ao povo jequitinhonhense…em especial o povo de Crisólita, me lembro do laticinio Rio Negro…e das brincadeiras de pular da ponto e às noites, contar piadas assentados na ponte estreita. Sempre digo:” A gente cresci, para saber que fomos crianças, sentirmos saudades e chorar.”
Pr. Fausto Quaresma
em fevereiro 11th, 2009 às 19:56
Sou natural de Joaíma e não conheço bem meus decendentes, mais muitos moradores da cidade de Umburatiba são meus conterraneos.
Morei mais de dois anos lá e só agora pude conhecer a historia um pouco mais aprofundada.
em março 1st, 2009 às 22:02
gostaria de receber noticia de mucuri,
em maio 6th, 2009 às 11:18
Marcos Lobato Martins
adorei a materia, sou natural de Setubinha, na historia de Setubinha encontrei citacoes de uma familia com o sobrenome dos meus ascendentes (familia Batista), a tempos eu procuro a origem nao somente dessa familia Batista mas sobretudo dos imigrantes daquela regiao, e sao pedacos da historia como o seu que reuno numa imensa colcha de retalhos, ja encontrei
ligacoes com a historia da cia do mucuri, decadecia da mineracao etc. onde nasci comenta-se
que o local foi uma sesmaria pertencente a um lendario cacador de escravos conhecido como Capitao Inacio, aquele mesmo famoso da historia de MG. a sesmaria como era de pouca importacia para a familia desse capitao, teria sido doada ou talvez deixada como heranca pora duas de suas primas, a fazenda que no inicio era de mais de um milhao de alqueres,
ficou conhecida na regiao como fazenda das Donas em homenagem as primas desse ledario capitao.
Toda a regiao pertenceu a Minas Novas e fica proximo a Alto dos Bois. A regiao tem uma rica historia sobre os indios e sobre os primeiros colonizadores, ainda pouca explorada, parabens pelo seu trabalho, voce e capaz de dispertar o orgulho das pessoas pelo lugar onde elas vivem, se tiver algum artigo que fale sobre a minha regiao, ficaria muito feliz em receber.
atenciosamente Wilmo
em julho 9th, 2009 às 17:59
Adorei o seu texto, parabéns pelo seu trabalho, você é capaz de despertar o orgulho das pessoas pelo lugar onde vivem, sou natural da cidade de Setubinha, cidade que dista 30 kms do antigo quartel de Alto dos Bois. A história contada sobre nossa cidade ainda tem muitas perguntas a serem respondidas, o seu texto veio agregar mais informações sobre a nossa região e conseqüentemente ao processo migratório que houve para nossa cidade e cidades circunvizinhas. Uma questão muito polêmica sobre a história de Setubinha é a origem do nome do rio Setúbal, que, posteriormente deu origem ao nome do município Setubinha. Contam por aqui que o nome seria uma homenagem a uma família natural da cidade portuguesa de Setubal, essa família seria a proprietária de uma sesmaria as margens do rio que em homenagem a essa família recebeu o nome de rio Setubal. Essa história não combina com o batismo dos nomes dos demais rios de nossa região, até os córregos que deságuam no Setúbal possuem nomes herdados das nações indígenas, August Saint Hílare que esteve por aqui em 1817, se refere ao rio varias vezes denominando-o de Setuba, não seria Setuba um nome variante da língua Maxakali (tribos abundantes que viviam as margens desse rio) confundido posteriormente com Setubal?
Se possível peço opinar sobre o assunto.
Atenciosamente Wilmo
em setembro 19th, 2009 às 15:06
MORO EM BELO HORIZONTE, SOU QUARESMA DE JOAIMA.
MEU JAIR QUARESMA DE ALMEINARA , MEU AVÓ ANTONIO QUARESMA.ESTOU FELIZ EM CONHECER MAIS UM POUCO DA FAMILIA QUARESMA.
em setembro 21st, 2009 às 16:22
É … Eu sou de Águas Formosas e a fama dos Quaresma lá não é nada boa viu ? A história pode até ser bonita, mas essa gente !!!
em fevereiro 26th, 2010 às 12:27
gostei mto da materia.
sou sobrinho de joaquim teixeira e neto de santo teixeira
em abril 29th, 2010 às 15:17
Sou Filho de Aguas Formosas, conheço todas essas pessõas. Fiquei muitissímo satisfeito au ler a origem dos coterranos e parente como o meu avo, Cap. Inácio soares. Fis algumas busca nos acontecimento dos anos passados fiquei pasmado como era o vales do Mucuri, e Jeqitinhonia.Eu tambem já participei desta batalha, e luta para a melhora destes Vales.
em maio 1st, 2010 às 16:16
Pelo que colocaram na Hisória destes grandes vales, não entendi porque falam em lenda referindo o meu avo Inácio. Eu Gostaria de dizer que o mesmo foi um grande homem do bem. Eu nunca ouvi falar que o mesmo foi casçador de Escravo. E sim um defensor dos pobre mais umildes da região. Mudou-se para BH, deichando uma famílha maravilhosa em Aguas Formosas,o meu Pai já falecido chamava Ninito morou em Agua Quente municipio de Aguas Formosas, o mesmo trabalhou como Juiz de Paz durante muitos anos servindo aquela população. E a seus familiares continua com a batalha de servir, plantando senpre o bem.
em maio 17th, 2010 às 11:37
Eu conheci joaquim teixeira na minha infancia,morei em Umburatiba ,ele era uma lenda com suas historia que tinha um capetinha na garrafa ,na epoca me passava quase uma imortalidade. Sempre foi uma referencia de carater e muito respeitador com todo mundo e ajudava sempre as pessoas que precisavam.
em março 31st, 2011 às 12:43
Oi Inácio Antônio Soares, sou bisneto do Cap. Inácio Soares, meu pai falecido Edval Soares, era filho de Davina Soares, filha do Capitão Inácio Soares. Meu pai me disse que ele casou-se com Angela Damolin (não sei se é assim que escreve) que conhecera em Nápoli na Itália. Gostaria de saber mais sobre a história, se puder me contar. meu email é wmairink@yahoo.com.br obrigado
em julho 12th, 2011 às 18:56
Ola Bis do meu Vo.Acho que temos que haver com esta família Soares. O seu Pãe deve ser Subrinho do Dodo Soares Gil. Quanto o Finado Edval eu sei era meu Primo?.. Gente muito bõa Rezei para êle, Tia Dada, e o tio emprestado Otávio, só que não chegei a o conhêce-lo.Veja bem como as coisas andam, moro em Montes Claros, e a minha Mae em Aguas Formosas, senpre falamos sobre Famílias.
em julho 25th, 2011 às 09:45
Oi Pessoal,
Sou Teresa Quaresma. Filha de Eva Quaresma. Nasci em Joaíma. Moro em São Paulo atualmente. Tenho muita saudade de minha terra. Morei em Águas Formosas. Gostaria de encontrar meus parentes Quaresma !!! Imaginou tirar uma foto todos juntos? Abs, Teresa Quaresma.