De que natureza será o New Deal para enfrentar a crise de 2008?
Nos últimos meses, tenho lido com muito interesse os artigos do Prêmio Nobel de economia, Paul Krugman, que insistem numa mesma tecla: é preciso colocar em prática gigantesco e ousado programa de ação governamental para estimular as economias dos países centrais, abatidas pela crise financeira iniciada pela débâcle dos créditos imobiliários subprimes. Para Krugman, é hora de deixar de lado querelas ideológicas – tais como as recomendações conservadoras relativas ao equilíbrio fiscal – e despejar dinheiro governamental na economia, exatamente como ocorreu a partir de 1933, quando o presidente Franklin Delano Roosevelt começou a enfrentar a Grande Depressão por meio de diversas medidas orientadas para puxar a demanda agregada da economia norte-americana. Explicitamente, Paul Krugman escreveu que se juntou a “todo mundo [que] está falando sobre um novo New Deal, por motivos óbvios”.
Como no passado, Krugman sugere a implantação de programas de obras públicas, o socorro a bancos e empresas e o auxílio para as pessoas necessitadas, bem como o investimento pelo governo federal nos serviços públicos essenciais oferecidos pelas administrações estaduais e locais. Tudo isso visando segurar o maior número possível de empregos, mantendo o consumo aquecido.
Modestamente, eu vejo que a direção é essa, tanto nos EUA quanto na Europa, na Ásia ou na América Latina, embora sejam óbvias as diferenças de “munição econômica” que os países dispõem para a batalha, que será longa e difícil. Todavia, minha preocupação refere-se aos efeitos de distorção da análise da realidade atual que poderão advir da ênfase na expressão “novo New Deal”. Por toda parte, pelo que se sabe, os governos têm se ocupado talvez em demasia, nos planos trilionários de estímulo à economia, com a “velha receita”. Construir novos aeroportos, ferrovias, estradas, usinas, prédios públicos. Isto é bom, porque ter infra-estrutura moderna favorece o aumento da produtividade da economia. Porém, essas obras são muito caras e, na verdade, criam apenas muitos empregos temporários. Devemos aproveitar a crise para iniciar programas que gerem resultados mais robustos no longuíssimo prazo, o que é diferente de oferecer generoso suporte para as grandes construtoras e empresas industriais. Talvez o foco deva ser outro. Em primeiro lugar, estimular o consumo das pessoas comuns, especialmente de menor renda, cujas compras são muito mais dependentes de financiamento. Em segundo lugar, estimular as pequenas e médias empresas, porque elas são geradores de massa muito maior de empregos. Em terceiro lugar, num país como o Brasil, investir precisamente nas periferias metropolitanas e no interior, pois nessas áreas ficam concentrados os grupos populacionais com mais dificuldades para participar do mercado. Investir mais em serviços, educação, saúde, lazer, que são setores que podem crescer bastante no interior e nas periferias metropolitanas, gerando negócios que empreguem muita gente. Enfim, usar o pretexto da crise para formar o capital humano que ainda não possuímos na escala adequada.
Num quadro que tende a ser de travamento do comércio internacional, a expansão do mercado interno é decisiva para sair da crise. No caso do Brasil, penso que haveria espaço para a redução das taxas de juros. O governo deveria também reduzir suas despesas, ou pelo menos evitar que elas continuem crescendo no ritmo dos últimos anos, de modo a sobrar um pouco mais para investimentos públicos. Ajudaria reduzir impostos, mas no atual cenário político esse é sonho impossível.
O problema é que não basta fazer uma acomodação diante do novo cenário. Ao contrário, convém ao Brasil enfrentar a crise de posse de um projeto nacional de longo prazo, capaz de lançar nossa economia num novo ciclo produtivo e reposicionar o país no concerto internacional. Algo similar ao que ocorreu nos anos 1930, quando iniciamos a industrialização brasileira, rapidamente nos recuperamos do impacto do crash de 1929 e, em poucas décadas, construímos a oitava economia industrial do planeta. O Brasil precisa de nova estratégia econômica, para o que é necessária uma nova política, levada adiante por novas lideranças dotadas de visão renovada do país. Hoje, nem tucanos nem petistas parecem estar à altura do desafio.
Por Marcos Lobato Martins, 30 de novembro de 2008. 1 Comentário


em dezembro 3rd, 2008 às 09:54
Concordo que não temos políticos à altura do desafio. E me preocupa ainda mais a tendência atual de formação educacional “tecnicista”. Daqui a 50 anos, quem irá formular perguntas e argumentos como estes que você faz, se os estudantes não estão mais aprendendo a ler/escrever e sim especializar para costurar suturas e apertar botões?
Pode ser correto que prédios não vão cair, mas as pessoas que viverão lá dentro também não vão aprender a pensar e criticar.
Ouvi de um rapaz outro dia, no ponto de ônibus, que não há crise financeira alguma e sim crise existencial. Acredito que exista as duas.
Injetar dinheiro público na economia, seguindo o velho modelo? Talvez seja a saída mais “óbvia”, apesar de dispendiosa. Idealisticamente penso que deveria se pensar outras alternativas para o Capitalismo (já que os modelos anteriores não deram certo). Um economista disse na televisão outro dia que as pessoas não devem deixar de consumir por conta da crise, porque senão vira uma bola de neve, pessoas serão demitidas, etc, aquela blá blá blá todo. E eu fiquei pensando que coisa mais irracional! Se estamos no meio de uma crise e as previsões não são boas, como é que a figura diz para as pessoas continuarem gastando? Apenas para alimentar a máquina capitalista? Não concordo. Deixa falir, quem sabe não aparece um sistema organizacional da sociedade que não seja baseado em consumo/produção/oferta/trabalho e afins.
Abraços,