De Itinga para Novo Oriente: as migrações e a formação do Mucuri
Na pesquisa histórica regional, tanto quanto os documentos, os levantamentos realizados em campo refletem, em larga medida, a perspectiva dos agentes sociais, a ótica dos grupos que estiveram diretamente envolvidos na construção dos espaços. Trata-se do que Paul Ricoeur, em texto intitulado “O tempo relatado”, publicado na revista “Correio da UNESCO” (v. 19, n. 7, p. 5-9, jan. 1991), chamou de perspectiva êmica. De acordo com Ricoeur, o passado é o tempo das ações dos nossos semelhantes, e deve ser salvo do esquecimento, por meio do relato. As experiências narradas pelos indivíduos possuem, por isso mesmo, valor imenso. Elas evidenciam o vínculo entre tempo comunitário e tempo individual. Os depoimentos daqueles que entrevistamos nas pesquisas de campo deixam clara a analogia entre a estrutura do tempo histórico e do tempo individual, revelam as semelhanças entre identidade narrativa pessoal e identidade narrativa comunitária.
Afinal, assinala Ricoeur, “é no elemento da linguagem, conduzida por suas estruturas simbólicas, que seguimos a constituição progressiva da experiência cultural do tempo” (p. 9). As narrativas das pessoas que entrevistamos, provocadas por nossa curiosidade ao mesmo tempo insaciável e contida, embalada por sutis regras metodológicas, refazem o tempo através da memória, diante de nossos olhos e ouvidos. As entrevistas são momentos gloriosos para o historiador no trabalho de campo, principalmente porque, para além do que significam como construção de fontes, elas reatam laços de conversação entre gerações distintas. Laços aparentemente fugazes, posto que duram apenas algumas horas, mas que tendem a transmitir para muito tempo adiante interpretações de trajetórias humanas marcadas pela busca de sentidos para as ações e sofrimentos que riscaram rugas nas faces de indivíduos, nossos semelhantes, elos entre nós e nossos ancestrais.
No caso das pessoas que tenho entrevistado, nos últimos meses, no Vale do Mucuri, há uma visão compartilhada e bem delineada das “épocas” regionais. Os depoimentos enfatizam a primeira metade do século XX, até a década de 1960, como período de dinamismo, de construção, de esperança, de urbanização de Teófilo Otoni. As décadas seguintes, porém, são abordadas com palavras menos generosas e mais escassas, porque, para os meus depoentes, elas corresponderam a período de “decadência”, de migração desordenada, de ampliação aterradora dos déficits dos serviços públicos, de falta de emprego e de intensificação da violência. Há uma “sede de falar” sobre os anos 1930, 40 e 50. Os anos posteriores, ao contrário, convidam ao silêncio. Este contraste é algo que exige detida atenção dos cientistas sociais e dos historiadores. E diz muito sobre as percepções individuais e coletivas dos habitantes do Vale do Mucuri. Certamente, teremos outras oportunidades para aprofundar essa discussão.
Por hora, voltemos às sagas dos homens do Vale do Jequitinhonha que construíram o Vale do Mucuri, mais especificamente a sub-região do Pampã. Dessa vez, nosso interlocutor é o senhor João José da Costa, morador de Novo Oriente de Minas, com quem conversamos no dia 29 de outubro, no fim de uma manhã que ardia como brasa.
João José Costa, com idade de 88 anos, nasceu na Fazenda Mutum, situada nas proximidades de Itinga. Era um dos onze filhos de fazendeiro criador de gado e produtor de requeijão. Na Fazenda Mutum, havia também a fabricação de cobertores de algodão grosso, numa oficina com dezenas de teares de madeira. Aliás, o avô do Seu João Costa fora sócio da Fábrica de Tecidos de Itinga, que operou por algum tempo após a grande inundação do Rio Jequitinhonha, ocorrida por volta do ano 1901. Aos dezoito anos, já casado, o Seu João Costa migrou para a região do Pampã. Na verdade, a família inteira empreendeu a viagem. Marcharam o proprietário, seus filhos, filhas, genros e noras, vaqueiros, agregados, levando o gado e os pertences. Um batalhão de pessoas, que ele diz alcançar 120 indivíduos. Três lotes de burros foram usados na marcha para carregar gentes e tralhas.
Pelo caminho, a família alugou mangas. Parou aqui e ali, permanecendo em alguns lugares por mais tempo. Isso dependia da “força do pasto” e das oportunidades de negócios com os povoados e as fazendas vizinhas. Nesses pousos, a família do Seu João Costa plantou roças, praticou caça, participou de festas. Todavia, houve pontos da marcha nos quais os moradores já instalados mostraram-se incomodados com a chegada da família migrante, tornando a marcha ainda mais imperativa. Assim, o trajeto aumentou: de Itinga para Joaíma, depois para a atual Fronteira dos Vales, em seguida para Águas Formosas, Crisólita e, finalmente, Pavão. No caminho, Seu João Costa ouviu rumores constantes sobre a presença de índios. Atravessou matas sem fim, fechadas, sombrias. Enfrentou malária e febre amarela, que o acometeu justamente quando já tinham chegado a Pavão e terminavam de implantar a nova posse da família, a Fazenda da Planície. Corria, então, o ano de 1939. O Seu João Costa foi levado para Teófilo Otoni para tratar-se, retornando imediatamente após obter a alta médica.
A Fazenda Planície foi aberta na mata. Nela, a família plantou roças e criou gado. As terras eram 40% pasto, 60% matas. Na medida da conveniência, novas pastagens eram abertas à base do fogo e do machado. A madeira derrubada era deixada apodrecer no próprio terreno. Na região já existia cafeicultura significativa. Todavia, conforme Seu João Costa, essa atividade recuou rapidamente porque sofreu desestímulos por parte do governo nos anos 1930 e 1940. Ainda na Fazenda Planície, Seu João e os irmãos exploraram lavras de águas marinhas em concomitância com as atividades agropecuárias. O envolvimento com o garimpo remontava aos tempos da vida na Itinga, quando a família de Seu João Costa tocou uma lavra de safiras, descoberta por acaso, no lugar denominado Tuparecê, nas proximidades do Rio Pasmado. As pedras que eles retiraram em Tuparecê foram vendidas para comerciantes de Medina e Araçuaí (os Tanure). Já as gemas extraídas em Pavão foram vendidas para “pedristas” de Teófilo Otoni.
Nos anos 1940 e 1950, Seu João Costa foi dono de pequena tropa de burros, que teve como entreposto principal a estação de Presidente Pena, da E. F. Bahia a Minas. Ali, a tropa apanhava a carga vinda de Alcobaça (BA), composta principalmente por sal, açúcar, bebidas, querosene e tecidos. A tropa de Seu João Costa distribuía esses produtos nos núcleos urbanos de Águas Formosas, Crisólita, Pavão e, às vezes, Maxacalis. Quando mudou para Novo Oriente, nos anos 1950, Seu João tornou-se negociante de gado e de terras.
A vida de Seu João é emblemática. Sintetiza os movimentos históricos que singularizaram a ocupação da porção norte do Vale do Mucuri. Revela o preço, em suor e sofrimentos pessoais, que os pioneiros tiveram que pagar. No atual desalento de Seu João com a situação de Novo Oriente e das áreas vizinhas, que ele considera viverem crônica estagnação, prejudicando principalmente os jovens, nota-se também o vigor da imagem sobre a “decadência” do Mucuri, que é compartilhada por diversas camadas sociais que habitam a região. Mas brilha nos relatos de Seu João Costa o orgulho de ter construído fazendas, cidades, fechado negócios, empregado famílias e criado seus próprios filhos, inclusive com formação em escolas de Teófilo Otoni e Belo Horizonte. Filhos que não retornaram para viver nas terras escolhidas pelo pai para assentar morada. De novo, eis o entrecruzamento da biografia e da história.
Por Marcos Lobato Martins, 15 de novembro de 2008. 11 Comentários


em janeiro 15th, 2009 às 17:41
Olá, meu nme é Marilúcia, e nasci em Novo Oriente de Minas, nao sabia dessa história bonita do sr João costa, eu saí d acidade em 1988 com 14 anos, mas fico muto Feliz em saber sda História e dos grandes desafios enfrentados por muitos, adorei a reportagem. sugiro que voçês busquem a História do Pt nessa cidade, pois tinha 7 anos quando ia com meu pai aos comicios, ele foi um dos primeiros filiados do Pt na região, nunca saiu do lugar e morreu ai em 1999. fazia parte do CDf, orgão ligado a igreja e um dos primeiros filiados ao PT, como homem comum e guerreiro, amei ver aqui um pouco da nossa História.
Marilúcia Pereira Marques
em abril 10th, 2009 às 16:25
gostei muito da história, aminha vontade é de um dia retornar á minha cidade natal.
atualmente, moro em Suzano(sp), com minha família.
minha saudações.
em abril 10th, 2009 às 16:36
Olá seu João,gostei muito da sua trajetória de vida, com projetos maravilhosos, cada vitória, cada perda valeu a pena, pois o senhor venceu a batalha apesar de todos os obstáculos.
Enfrentei muitas lutas trabalhando na roça,com meu pai Altino ( dôzinho)já falecido.
Mas ainda me orgulho de ter nascido aí.
minhas saudações,
Avenira.
em julho 28th, 2009 às 17:28
Sr. João Costa,
Muito amigo do meu pai, já sabia que toda nossa região foi formada por imigrantes do vale do Jequitinhonha, mas não conhecia a sua tragetória nos lombos dos burros saíndo de Itinga.
Um abraço para o sr. João Costa e para todos aqueles que aí moram descendentes das águas do Jetinhonha.
Edson Nogueira Seles
em setembro 4th, 2009 às 16:06
Nem tudo que foi dito e verdade. conheço bem esta historia
em abril 16th, 2010 às 18:47
Parabens vô ! Historia bonita . Você merece !
em junho 8th, 2010 às 18:27
bela reportagem
adorei tua tragetoria de vcda bj
em julho 11th, 2010 às 10:25
Fiquei muito feliz ao ver a foto do sr° João Costa, pois ele é amigo da minha família e morei em sua casa quando criança para poder estudar…a sua historia é muito bonita e ele é uma excellente pessoa. Parabéns
em outubro 2nd, 2010 às 23:13
Olá a todos, solicito um grande favor, quem conhecer Delmita Barbosa dos Santos, me avisar, ela é minha mãe biológica, e não a conheço, e gostaria de fazer um contato, so sei que os pais dela, residem ou residiram em Novo Oriente de Minas, desde ja agradeço.
em junho 25th, 2011 às 01:13
Parabéns Sr. João Costa! Pela sua história de vida, pela família que tem. O Sr. é orgulo para todos de nossa cidade. É um exemplo para a nova geração.
em dezembro 2nd, 2011 às 09:40
Nao conhecia essa historia, mas simplismente adorei… vontade de voltar pra minha cidade muita saudds de tds de la