Vale do Rio Doce: marketing e mistificação

Na primeira metade de outubro, a poderosa Vale do Rio Doce veiculou, na grande mídia nacional, campanha institucional centrada no “respeito que a empresa dedica ao meio ambiente”, especialmente nas áreas de mineração da Amazônia (Carajás). Com a qualidade visual e de texto típica da propaganda da Vale, os canteiros de mudas de plantas nativas, as áreas reflorestadas, as ações de educação ambiental destacaram-se nos “reclames” exibidos na televisão. Nas páginas duplas dos jornalões, sobressaía a nova logomarca da empresa no canto inferior de imagem belíssima da floresta.

No texto, a mensagem auto-lisonjeira era resumida por um slogan, que dizia mais ou menos o seguinte: a Vale não faz garimpo, faz mineração. Então, cidadão e cidadã, o garimpo é o atraso, a irracionalidade, o desperdício, a baixa produtividade, a degradação ambiental, a ausência de responsabilidade social, a inexistência de laços estáveis e duradouros com a sociedade envolvente. O garimpo é assim, pois a Vale do Rio Doce é o contrário. Os desavisados que comprem essas idéias, maravilhosamente embaladas pela propaganda da Vale!

Eu pergunto: como ficam, então, as relações promíscuas que a poderosa Vale do Rio Doce manteve, historicamente, com as frentes de garimpagem na Amazônia? Varre-se isso para debaixo do tapete espesso do esquecimento? Major Curió, Serra Pelada – nada disso tem a ver com a Vale? E a Itabira de Carlos Drummond? Ali, a Vale tem tantas maravilhas a mostrar? Peguei a Vale pra Cristo, pode ser, mas minha intenção é a de lembrar a ambigüidade das relações entre as grandes empresas mineradoras e o garimpo, seja em Minas Gerais, Bahia, Goiás, Mato Grosso ou na Amazônia Legal.

Relações históricas que o marketing das empresas, nesses tempos de ecologia e responsabilidade social, precisa esconder do grande público. Afinal, imagem é tudo.

Longe de mim cair na esparrela de dizer que o garimpo tradicional, como o praticado no entorno de Mariana (extração de ouro), de Diamantina (ouro e diamante) ou Teófilo Otoni (pedras preciosas), para indicar poucos exemplos, é grande coisa, do ponto de vista ambiental e de inclusão social. Não é não. O garimpo realizado em comunidades tradicionalmente garimpeiras, de Minas, Goiás ou Bahia, tem muitos defeitos. Mas não pode ser levianamente demonizado como faz a campanha da Vale do Rio Doce. Digo isso por pelo menos duas razões.

A primeira delas é a de que o garimpo está espalhado pelo Brasil inteiro e ocupa centenas de milhares de homens. A importância do garimpo para a produção de ouro, diamante, cristais de quartzo, mármore, pedras coroadas, areia e pedras decorativas empregadas na construção civil, etc. é muito significativa. O que significa dizer que há, dentro do setor minerador, um espaço nada desprezível ocupado pela pequena mineração. A segunda razão é que as grandes empresas sempre utilizaram acordos informais com os garimpeiros para, ao induzi-los a explorar áreas dentro de suas concessões, obterem minérios a custos significativamente mais baixos, fugir ao controle do Fisco e, nas últimas décadas, livrarem-se da responsabilização por passivos ambientais. Na história do Brasil, ademais, quantas vezes as empresas formais não seguiram o rastro dos garimpeiros, que descobriam as jazidas e, depois, foram expulsos pelas firmas?

Anexei um pequeno trabalho recente que escrevi sobre a mineração do diamante e a legislação minerária que aborda esses assuntos (ver texto “A arte de fabricar motins”). Talvez ele ajude o leitor e a leitora a entenderem meu ponto de vista, que é uma provocação.

Que bom que a Vale do Rio Doce se preocupe com o ambiente, com o social, com a cultura. Todavia, para consolidar essa imagem não convém fazer tabula rasa da história, ou melhor, difundir versão mistificada e cor-de-rosa de sua própria atuação desde que começou a explorar as minas de hematita de Itabira, na longínqua década de 1940.

Parece-me que o garimpo, cujo papel econômico em diversas partes do interior brasileiro está longe de se mostrar esgotado, sofre de preconceito parecido ao que afeta negativamente a agricultura familiar. A crença dominante é a de que esses empreendimentos pequenos, muitas vezes familiares e tradicionais, representam o “atraso colonial” que seria bom superar de vez. A grande empresa, intensiva em capital e tecnologia, com ações negociadas em bolsa de valores, seria a única forma de empreendimento capaz de conduzir o Brasil ao patamar de país desenvolvido.

Eu penso que convém matizar melhor nossa realidade sócio-econômica. Escapar dessas dicotomias simplificadoras, que servem aos interesses do grande capital: agricultura patronal X agricultura familiar, empresa de mineração X garimpo, negócio familiar X sociedade anônima, urbano X rural, etc. Também precisamos analisar mais profundamente as variações das legislações e das políticas setoriais, enfatizando as suas conseqüências sobre a economia e vida social. Afinal, no campo da discussão/elaboração dos marcos regulatóricos também, e talvez principalmente, ocorre a disputa dos atores sociais pela distribuição das fatias do bolo do poder e da riqueza.

Por Marcos Lobato Martins, 26 de outubro de 2008.  1 Comentário

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  1. Aldenice escreveu,

    em outubro 16th, 2009 às 20:07

    E em relação ao meio ambiente, o garimpo não irá pejudicá-lo???

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