Dia de fiscal

Domingo de eleição. Eu saí de casa bem cedo, afobado como nunca. Já estava atrasado para atuar como fiscal partidário nas urnas instaladas no Grupo Escolar mais antigo da cidade. No céu não havia nuvens, só azul e calor. O vento sumira, mas os santinhos de candidatos no rés do chão se mostravam excessivamente, como vedetes no teatro de revista. Eu caminhava incomodado pelo calor e pela angústia de desempenhar papel que nunca tivera antes.

Charge "Sigilo do voto eletrônico", de Aliedo.

O mal-estar cresceu assim que cheguei ao meu destino. Havia três pequenos exércitos de fiscais que respiravam rivalidade, trocavam sinais de desconfiança e tentavam dominar o terreno. A entrada dos votantes, embora calma, sossegada e ordeira, pouco diminuíra a tensão entre os fiscais. E a insistente presença de candidatos e cabos eleitorais no local de votação retesava ainda mais os nervos dessa gente mais ou menos apaixonada a serviço dos partidos. A própria legislação, na medida em que muda a cada pleito, incitava a produção de interpretações duvidosas, cujo efeito era tornar mais desagradável o meu papel e o dos “colegas”.

Postado sob o sol no pátio da escola, as dúvidas imediatamente me assaltaram. A primeira dúvida: é melhor o sol quente ou a chuva fina e insistente? Qual desses climas reduz a chance dos ânimos dos militantes ficarem acirrados? Para espantar as bandeiras dos candidatos e a boca de urna, tornando mais fácil o trabalho dos fiscais, eu deveria querer o sol ou a chuva? A alternativa colou na minha mente, sem arredar pé. Todavia, eu desconfiava que ela era fruto de preconceito besta, porque os votantes não são movidos apenas pela comodidade, desistindo de sair de casa na primeira dificuldade. O que vale para o eleitor vale em dobro para os militantes e cabos eleitorais. O tempo nada pode contra o ímpeto dos militantes, assim como nada pode contra as paixões adolescentes que arrastamos pela vida afora.

A segunda dúvida ganhava contornos de aflição. Dizia respeito à importância da tarefa mesma do fiscal. Ali, desajeitado, assombrado, perdido no pátio da escola diante das portas das seções, era-me impossível fugir da pergunta sobre o valor da ação do fiscal. Tragado em intervalos por multidões de votantes, que entravam sem me ver, passavam por mim com olhares de indiferença, não podia impedir a dura indagação: por que acreditar que tudo que eu fizer poderá ser útil à minha coligação partidária? Não seria essa crença, que me tirou cedo da cama e me fez abraçar a tarefa, ilusão demasiada? Apenas o “ativista” se vê como potência demiúrgica. Eu, ao contrário, possuo índole diversa, afeita à vida mais recolhida. Não fora adequada minha escolha para fiscal, ainda mais com base em argumentos de que sou pessoa preparada e de bom senso. Os fiscais haveriam de ter os mesmos dotes práticos, o mesmo espírito de iniciativa, o otimismo que anima candidatos e cabos eleitorais. Não lhes cai bem o pessimismo, o ceticismo – os fiscais não podem ser céticos quanto à própria vitória, sob pena de identificarem-se com o adversário. Ora, por isso mesmo, diversas vezes no decorrer do dia, eu temi fazer um trabalho ruim, abaixo das expectativas de meus companheiros. Me perturbava o desejo de compreender aquele mundo de disputa, de saber como as coisas são decididas, a reação dos votantes aos estímulos que lhes são endereçados. Mas esse desejo – era o meu medo – talvez desviasse o olhar de fiscal, subvertendo a atenção e abrindo brechas para que o militante adversário cometesse as irregularidades que eu deveria coibir com minha presença de soldado. Soldado do partido. O soldado, essa pobre criatura, somente pode ter fé em suas armas e nos seus generais. Se parar para pensar, morre em batalha. Eis porque os antigos batalhões marchavam sob o som de tambores e trombetas. Ademais, o soldado do partido, à maneira do soldado do exército, deve fazer movimentos e gestos duros, bater o coturno com força, provocando reverberações que incitem medo. Suas faculdades seriam a disciplina e o poder de reação, atributos cuja distribuição nunca foi homogênea. Minha “hereditariedade” pouco combina com a tarefa que me fora atribuída nas eleições. Mas era o caso de não fazer feio. Razão pela qual minha cabeça disparou a latejar.

Latejou o tempo todo, enquanto as urnas estiveram abertas. Creio que a causa foi o fato de que eu forçava o olhar e o ouvido, para ser um fiscal à altura do meu partido. Eu procurava me lembrar do que diziam os colegas: “Estamos aqui para ficar de olhos bem abertos”. Sentença que me dominava e humilhava, já que meu desejo era justamente fechar os olhos, encontrar uma sombra e relaxar as pernas. Eu – estava provado – era mau soldado. Queria outra coisa, ser um bom pintor com atenção posta sobre o contraste entre a cena espartana das seções e o afluxo colorido e variegado dos votantes. Se tivesse lápis e papel, arriscaria desenhar as silhuetas jovens e despojadas dos mesários, cujos esforços para transmitir a necessária seriedade republicana eram comoventes. Desenharia também a simplicidade das urnas e cabines, feitas de papelão, plástico e chips invisíveis e até tentaria apreender a ensurdecedora ausência de música, capaz de tornar agradável o ruído de conversas misturadas. Esboçaria os votantes, muitos vestidos caprichosamente, acompanhados das famílias e dos amigos. Colocaria sobre suas imagens sinais para indicar aqueles que estavam agitados com a possibilidade de escolha, e sinais diferentes para identificar os que se preparavam, por meio do voto, para erguer trincheiras contra um inimigo. Há esses dois tipos de eleitores, que como todos os votantes, incubam segredos, lançando desafios para os fiscais: “Vocês nunca saberão, realmente, se votamos em A, B ou C”. Esse é o segredo deles, terrível segredo que impede a tranqüilidade dos fiscais e exige o respeito dos mesários.

Eis o x da questão. O segredo do voto arrebenta os fiscais. Enquanto os eleitores passavam por mim, eu tentava perscrutar suas inclinações, adivinhar em que candidatos votariam. O mesmo faziam os demais fiscais, infrutiferamente. O segredo do voto afigurava-se uma danação insuportável, que me colocava como um refém nas mãos de pessoas cujos interesses eu não podia antever. Então, eu começava a especular debaixo do sol. Os pensamentos giravam desconexos, sem rumo, atordoados. E eu recusava, por um momento, tomar ao pé da letra a igualdade de todos os votantes. Cedia à tentação elitista. Pensava que seria necessário separar os idiotas dos “cidadãos conscientes”, os “vendidos” daqueles que fazem escolhas autônomas – e que essa distinção seria a tarefa real dos fiscais. Cotejar rostos e interesses, deixando alguns votarem e impedindo outros de tomarem lugar nas cabines. Que horror!

Porém, bastava sacudir a cabeça para perceber a armadilha que tais pensamentos preparavam: o sonho iluminista posto em xeque quando parecia estar vencendo. Por causa da vontade apaixonada de triunfar. O “calo da vitória” de que falou o poeta. Eu sentia vergonha de haver cedido a essas elucubrações. Então, tomava o rumo da rua para comprar uma coca-cola. Para refrigerar o espírito, pôr ordem na mente. Era preciso ter paciência… Todos têm interesses… Depois de beber o refrigerante, eu retomava a calma e voltava para meu trabalho. Uma vez, pelo início da tarde, cogitei que seria mais fácil fiscalizar se eu mudasse de estratégia. Devia colocar-me na pele dos adversários. Somente assim eu poderia barrar as intenções daquele ex-prefeito que não arredava pé da calçada diante do local de votação. Novamente, porém, algo bastante ruim me assaltava: um sentimento sorrateiro de superioridade, mais que um espírito de tolerância e adesão para com o próximo. Eu presumira que possuía o monopólio das boas intenções e do comportamento conforme à lei, em contraposição ao líder adversário, que seria a encarnação do engodo e da truculência. Era preciso apagar essa chama orgulhosa. Furioso, eu corri para dentro da escola, escondendo o rosto sob a aba do boné.

Lá dentro, respirava fundo e procurava ao redor alguém para conversar Que se danassem os abusos que um fiscal da oposição poderia denunciar. Queria ter a paz interior e a beatitude dos idiotas completos. Já quase fora do mundo, percebi que não mais me importava o que ocorria no local de votação. Eu praguejava: “Que doideira era essa de ficar longe de casa, de minha esposa e de minhas plantas!” Por que também não seria cívico apenas votar e, em seguida, experimentar o aconchego do lar, a beleza da mulher e o verde do quintal? A vida republicana, por acaso, exclui ou não se ajusta aos amores que cultivamos em casa? Senti falta de um telefone para ligar para casa, ouvir a voz dos meus, pedir-lhes paciência, pois logo eu estaria de volta.

A sorte estava lançada. A votação havia sido encerrada. Logo haveria um vencedor.

Por Marcos Lobato Martins, 9 de outubro de 2008.  Comentários

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